segunda-feira, junho 7

SHELLavie

Se há alguém que se preocupe com o meio ambiente, a natureza em geral, a nossa alegria e conforto, são os senhores do petróleo. Basta ler a publicidade que fazem.

Divagando ontem sobre os desastres que esporadicamente acontecem, os colossais benefícios dessa colossal indústria, as nuvens de CO2, e como é impensável que nos tirem os carrinho, disse comigo: SHELLavie.

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PS. Só depois fui procurar e tive de rir, pois a tantos ocorreu já a mesma ideia.

sábado, junho 5

"Pouca-terra, pouca-terra"


Sonhar é fácil. Decidir ou fazer pede tempo e uma força de vontade que me escasseia. Vou esquecendo planos e boas intenções, perco-me na actividade inútil das memórias longínquas, divago sobre o que poderia ter sido e não foi, o que provavelmente não vai ser. Ironizo sobre os meus vizinhos que, imóveis, passam manhãs e tardes à sombra, especulando sobre o tempo, mas eu próprio gasto os dias numa imobilidade budista, deslizando para a penumbra onde presente e passado se fundem. Com preferência para o passado, diga-se.

Vá-se lá saber porque me ponho a enumerar que em Vila Nova de Gaia, no tempo da minha afastada infância, no nosso largo o chão era de terra, as casas não tinham luz eléctrica nem água encanada. O rádio acabara de chegar, mas só no fim da guerra seria comum. Televisão? Nem nela se sonhava. Os raros aviões eram biplanos de um só motor, o esqueleto revestido de lona, ronceiros, voando baixo, o piloto a acenar. Automóveis? Muito poucos e com manivela para o arranque. Comboios puxados por forçudas locomotivas a vapor, negras de carvão, matraqueando "pouca-terra, pouca-terra". Plástico, detergentes, antibióticos, a esferográfica, a lâmpada fluorescente, os tecidos sintéticos, e mais, muito mais, tudo isso demoraria a ser inventado. Fumava-se em toda a parte, mesmo nas enfermarias, e o escarrar para o chão era hábito corrente. O nariz assoava-se em lenços de pano e quem os não tinha usava os dedos.

Na Lua havia gente.

Isto para dizer que, como indivíduo, tive a sorte de me criar no mundo velho, e assistir à sua incrível evolução durante o último meio século. Tive também a sorte, mas essa quase à justa, de visitar lugares e países realmente exóticos, pois deles pouco mais se conhecia que os relatos de um ou outro viajante e as fotografias a preto e branco que destravavam a imaginação. Mas depois, aí por meados da década de 80, para mal meu e de mais uns quantos, mas para bem da imensa maioria, tudo revirou: as belas paisagens, os lugares de sonho foram afogados pela banalidade da massa.

Engano-me? É mais que provável. Incapaz de deixar que me arrastem, estou convencido de que só fora da multidão se vive.

quinta-feira, junho 3

"Meu desespero ninguém vê, sou diplomado em matéria de sofrer" (*)

Já noutra ocasião lhe esbocei o retrato, e ela de certeza se reconheceu, mas agora é capaz de supor que tenho dons de adivinho, enquanto eu apenas decifro as entrelinhas dos textos que publica.

Amor não procura, nem sexo. Chegou à idade, quase quarenta, em que sabe o que teve, o que tem e o que perdeu. Eficiente no trabalho, dedicada no lar, na família e na sociedade faz o que dela se espera. Na cama também cumpre. Sorri. As rugas ainda não vieram, mas nota que o rosto endureceu, por vezes defronte do espelho sussurra para si própria que se está a masculinizar. Não está, é só receio. Sonha vagamente que gostaria de ter um camarada, alguém para partilhar sonhos, para rir, o retorno a uma adolescência que não foi a sua. Gosta de samba. Dança quando está sozinha em casa, e por instantes, simples curiosidade das sensações, transforma-se na pecadora que não quer ser.

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(*) Samba do compositor baiano Óscar da Penha - "Batatinha" (1924).

À espera da procissão



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quarta-feira, junho 2

Arranjo

Ambos na varanda, à sombra do toldo. Ambos com o jornal, No domingo festejaram vinte e cinco anos de casados. Festejaram é modo de dizer, porque parentes chegados não têm e o filho está na Suíça. Foram ao "Rei do Pito"comer um frango no churrasco e depois, como quase todos os dias quando o tempo ajuda, sentaram-se na varanda a ler o jornal.

Ergue os olhos com a impressão de que o ouviu dizer qualquer coisa, vê-o levantar-se e ficar um instante indeciso, apoiado no rebordo.

- Sentes-te mal?

Ele abana a cabeça, vai para a sala. Mudou muito desde que lhe deu o ataque, tem dias que não se lhe ouve uma palavra. Bom homem. Trabalhador. Nunca lhe tocou, nem com a ponta de um dedo. Hesita um momento se irá ver, mas aquieta-se ao ouvi-lo tossir. Pousa o jornal no regaço, perdida em recordações. Vinte e cinco anos é muito tempo. Calhou este, podia ter sido outro, que namorados não lhe faltavam, mas foi esperando, esperando, e com os anos... Pensava assim, pensava assado, um era mais bonito, outro estava bem na vida, o Samuel tinha dois táxis. Para dizer a verdade ele não foi escolha, às tantas foi o que se arranjou. Mas não se arrepende.

terça-feira, junho 1

Almoços e amizades



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Quem é que ele não conheceu ou não conhece? Com quem não terá ainda almoçado? Infantil e barulhento, o seu modo de exagerar não impressiona, mas pergunta-se a gente que finalidade terão aqueles arrotos de postas de pescada. Proveito não lhe vem, antes pelo contrário, pois no segundo acto já o interlocutor fica de pé atrás. Resta ouvi-lo e gozar o espectáculo.
- Foi o que eu disse ao Zé. O José Saramago. Estávamos com a Pilar em Alfama, não me lembro bem, uma tasca muito gira.
Umas vezes começa assim e segue-se um quarto de hora de intimidades, com o detalhe de que Pilar detesta a carne de porco e o Nobel tem um fraco pelo bacalhau à Brás. Verdade ou ficção, não vem ao caso, interessante é vê-lo saltar daí para os seus variados contactos.
- Costa Gomes. Vocês sabem. O presidente. Grande homem.
Gesticula, desfiando as intrigas e os casos, vemo-lo de súbito transformado no marechal, erguendo os braços na saudação às massas, sussurrando-lhe um recado político, recebendo-o em Belém.
- Não sei se sabem, mas o palácio tem uma cozinha... Come-se lá muito bem.
A malícia pode mais, não resisto: - Também almoçou com o Spínola.
- Desculpe, mas com o Spínola não almocei. É verdade que me tinha convidado, mas foi quando houve aquela coisa com os comandos, não chegámos a almoçar.
- Com o Mário Soares?
- Dezenas de vezes. Mas o Mário almoça com toda a gente. Bom rapaz. Bom garfo. Conhecemo-nos em Paris em 70. Talvez 71. Acho que é isso, mas não garanto, sempre fui fraco em datas. Em caras não, mas em datas... Agora de quem gosto muito, vocês vão-se rir, é do Manoel d'Oliveira. Ando sempre a gozar com ele por causa do nome. Com ó! Não lembra ao Diabo. Fomos íntimos e antigamente ia muito a casa dele, na Foz, mas está a ficar um bocadito...
Com um abanar da mão demonstra a fragilidade do cineasta centenário, e continua com o Cardoso Pires, "O Zé Cardoso Pires! O Zé Cardoso Pires! Estupendo personagem!"; a Sofia, "Ah! A Sofia! Ela escrevia com ph, Sophia! Grande mulher! Grande poetisa! Daquilo já não há." – e confidencial: - Chegámos a ter um caso. Mais flirt que outra coisa. Romantismo. Entre a minha papelada devo ter um soneto que me dedicou, mas sou um desorganizado. O mais novo, o João, prometeu que dava uma volta, que o encontrava, mas isto é rapaziada nova, estão-se nas tintas.
Suspira, tira uma fumaça da cigarrilha, cheira o uísque, bebe, estala a língua a saborear.
- Com a Natália foi mais sério. Ela tinha aquele bar na Graça, o Botequim, e continuava a ser deputada...

As histórias são sempre as mesmas, o seu papel nelas sempre o mais importante, mas a atenção vai esmorecendo, o sentido crítico vem ao de cima. Envelheceu, continua no mundo que em rapaz se criou e, escondido na província, inventando importâncias, conta os sonhos como se fossem a vida. Tudo se lhe perdoa.