domingo, junho 18

Palavras que o vento leva

 

Escrever histórias e historietas num jornal, o que faço há mais de sete décadas, pode algumas vezes dar a ilusão que, de uma maneira ou doutra, se trata de um diálogo com o leitor, uma forma de desabafo, ou a irreprimível vontade de comunicar, que vem sempre ao de cima cada vez que a solidão ou o descontentamento ameaçam escurecer as horas.

Em maior ou menor percentagem todas essas hipoteses são válidas, embora reste ainda uma, difícil de confessar, pelo simples motivo de que facilmente se presta a conclusões erradas, inclusive a de pôr em dúvida a minha sanidade mental, ou me atribuir uma vaidade a que sou avesso.

Facto é que o desejo e a urgência quase maníaca de escrever nasceram praticamente comigo. Aos cinco anos já me incomodava a obrigação de desenhar letras, quando a minha vontade era escrever palavras, quase sempre ignorando o que elas significavam, mas fascinado pelo som que tinham.

Ultrapassadas as dificuldades iniciais, logo de seguida a escrita a modos que se me tornou vício, mas correram décadas antes de me aperceber e aceitar, que na realidade – como é sintomático nos tímidos e nos solitários - escrevo talvez mais motivado por um intenso anseio de companhia e comunhão, do que pela vontade de partilhar com o semelhante os enredos e emoções que costuro na minha fantasia.

A conversa pela conversa, para passar tempo ou satisfazer os mandamentos do contacto social, é qualidade que me escasseia, a ponto que às vezes pode levar a que o interlocutor ponha em dúvida a minha educação, ou desconfie que, como antigamente se dizia, me falta uma aduela.

Fica aqui pois confessado, e para que não reste dúvida assente preto no branco: muitas décadas atrás fiz-me escritor por razões semelhantes às que levam alguns à consulta do psiquiatra, e outros à igreja, para que o padre confessor os absolva.