segunda-feira, junho 30

Veneza



A culpa é de Goethe, Thomas Mann e uns quantos ricos. Atrás deles revoadas de pintores, bandos de fotógrafos. Depois destes, milhões e mais milhões de basbaques que, no correr do ano, chegam a Veneza e, aos ‘Ohs!’ e ‘Ahs!’ na praça de San Marco, na Basílica, no Canal Grande, na Ponte dos Suspiros, no palácio dos Doges, ressentem coisas que, pelos jeitos, só lá se ressentem. Ah! As gôndolas! Ah! O Rialto! Ah! O Caffé Florian!...
Acontece que, Verão ou Inverno, sol ou névoa, na quase meia dúzia de vezes que, por razões várias, fui a Veneza, nem me emocionei, nem se me afinou a sensibilidade, não tive êxtases.
Levo isso à conta do meu embotamento. Das más experiências que lá tive é melhor não falar.
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As fotografias são de F. Ferruccio Leiss (1892-1968).

Feira em Moncorvo, 12-1972

Feira em Moncorvo, Dezembro de 1972. Os cravos da revolução e os subsídios da Europa estavam ainda num futuro improvável. (Clique para aumentar).

Diário (1)

Trintão, preto retinto, físico de atleta, sorriso pronto, cordial no trato, o vizinho é o que se chama uma simpatia. E se a elegância do vestuário, a abundância de anéis e o modelo do seu Mercedes valem de testemunho, provavelmente homem de negócios que lhe correm de feição. Circunspecto no que refere a sua origem, nunca referiu de que partes da África veio parar aqui, e fundamentalista não será, mas é muçulmano devoto, cumpridor, pontual na mesquita.
Tempos atrás quis saber se eu tinha filhos.
- Tenho.Três filhas.
Como se fosse importante o detalhe, acrescentei que todas três eram mais velhas do que ele.
Sorridente, informou-me do que eu já sabia, que também tinha três filhas.
Este diálogo passou-se há coisa de meio ano. Ontem surpreendeu-me vê-lo vir apressado direito a mim, mão estendida, o sorriso mais largo que o costumeiro, quase engasgado a anunciar que vinha do hospital, onde a mulher dera à luz outra criança. Um rapaz.
- A boy! The joy of my life!
Felicitei-o, trocámos as amabilidades habituais, mas de súbito vi-o tomar um ar sombrio. Sabia eu que, em árabe, ‘pai de filhas’ era insulto grave?
Respondi-lhe que ignorava, mas tão-pouco me afligia.
Sorrimos, fomos cada um para seu lado. Só depois me ocorreu se a informação não traria água no bico: é que continuo ‘pai de filhas’, e ele deixou de o ser.

sábado, junho 28

Céline

Mort à crédit. Recordação de um livro que para mim foi importante. Mostrar aqui a capa talvez provoque noutros igual nostalgia. O que de certeza acontece - já aconteceu antes - é que, dentro de minutos, a simples menção do nome Céline faz disparar o número de hits deste blog para as centenas. Não que ande o mundo sequioso de Céline, o escritor, mas de Céline Dion.

sexta-feira, junho 27

Alforges (4)

O desaparecer de Lisboa

Recordações de Lisboa tenho eu de sobra, tantas que não preci­so de visitá-la para me sentir transportado das ruas largas do Areeiro que, em meados da década de 40, quando pela primei­ra vez a vi, era um extremo da cidade, para as ruas ricas e sombrea­das do Restelo, um outro extremo.
Guardo recor­dações de Alcân­tara e do Rato, da Praça do Chile; dos becos da Moura­ria por onde andei de patru­lha; das casas de fado em Alcântara e no Bairro Alto onde toquei guit­arra; do quartel na colina da Graça, onde éramos talvez trezentos a dormir na enorme caserna que fora alojamento de frades. Para minha sorte tinha-me cabido lugar junto de uma janela, e quando o clarim tocava à alvorada, às cinco e meia da manhã, ao abrir dos olhos logo a cidade se me oferecia em panorama.
Ficaram-me memórias do Campo de Santana e do Campo Gran­de, da Lapa, da Estufa Fria. Do Parque Meyer, do Saldanha. Do Jardim Zoológico não tenho recordações de animais, mas dos amores furtivos a que obrigava a moralidade de então. E quando vejo a Torre de Belém lembro que nesse tempo o guarda, a troco de cem escudos, emprestava a chave do terraço do monumento. Aí ao ar livre, vendo passar os navios no Tejo, faziam-se cópu­las que, devido à solenidade do lugar e aos nervos da ocasião, se tornavam duplamente históri­cas. Uma hora depois - raro as horas voltariam a ser tão curtas! - o guarda batia impiedosa­mente à porta, e era pagar de novo ou sair. Modelo de dis­creção, quando a dama descia a escada ele volta­va as costas, 'para não ver'.
Fui a touradas no Campo Pequeno. Com lampiões e manjeri­cos festejei Santo António. Conheci as tertúlias literárias do Café Gelo, do Nicola, d'A Brasileira. Com o respeito que nesse tempo me mereciam os mais velhos, baixava os olhos ao cruzar com Aqui­lino Ribeiro ou João Gaspar Simões por entre as mesas da livraria Bertrand. Marchei em paradas marciais na festa do primeiro de Dezembro, clamei em arrua­ças de futebol. No ecrã do Tivoli Humphrey Bogart ensinou-me o seu modo de fumar e o tom sarcasticamente nasalado de dizer a propósito e a despropósito: 'Stop it, baby!'
Nos dias ruins comi nas tabernas da Rua da Graça e no João do Grão da Rua dos Correeiros, a casa de pasto que ao contrário de hoje não conhecia luxos. Sentava-se a gente em bancos corridos de madeira rude, mesas comuns idem, para meia dose do prato único de bacalhau e grão-de-bico acompanhado de cebola crua, um papo-seco e um quar­tilho de carrascão do Cartaxo. A clien­tela? Soldados em dia de pré, putas em hora de sorte, mendigos a quem à porta das igrejas tinha caído esmola abonada.

No Areeiro e nas avenidas novas de Alvalade começavam a apare­cer os prédios de dez andares, duma arquitectura fascisante e triunfalista. Mas no resto a cidade permane­cia harmoniosa e baixa, como no século dezoito a tinham deixado os arquitectos de D. João V e do Marquês de Pom­bal. As mansões luxuosas rodeadas de jardins, construídas pelos mili­onários dos fins do século dezanove, enfeita­vam as aveni­das, e lembro-me de por vezes ter parado diante das graciosas cercas de ferro fundido, a fantasiar a vida que levariam os vultos que, por vezes, se aper­cebiam num desvão de janela ou no alto das escadarias.
Palmilhei a cidade de ponta a ponta. Por curiosidade e pelo gosto de ver ao vivo o que para mim, até à primeira visita, tinha sido apenas uma cidade 'literári­a'. As ruas, os monumentos, a agitação da vida e a largura do Tejo, só os conhecia dos livros em que Fernão Lopes, Eça , Camilo, Oliveira Mart­ins, Pessoa, outros meno­res, me tinham fornecido a moldu­ra em que eu 'so­nhara' a minha própria Lisboa. E quando pela primeira vez pude con­fron­tar o sonho com a realidade, a capi­tal não me desiludiu, mas curiosa­mente também me não maravil­hou. As dimensões, o caste­lo, o Rossio, o fausto do Chiado, o Mar de Palha, as perpendicula­res da Baixa, os becos da Mouraria, tudo isso era como eu tinha lido.
Assim, talvez porque o quadro real tão bem se sobrepun­ha às linhas da imaginação, o espírito inquieto da minha juventu­de queria emoções fortes. Encontrei-as na noite. No Texas-Bar do Cais do Sodré, onde eram tão violentas as zaragatas que, para sua segurança, os músicos tocavam perto do tecto, num estrado que figurava a metade dum caí­que. Encontrei-as nos bordéis das ruas do Loreto, da Misericórdia e da Glória, principalmen­te nesta última, onde Madame Blanche tinha conse­guido dar ao seu esta­belecimento uma fama que se estendia pelos continentes.
Emoções fortes também, mas daquelas que não se mostram, tão fundo penetram elas na alma, descobri-as primeiro no Estribo, taberna na traves­sa da Queimada, diminu­ta a ponto que os fadistas tinham de cantar à porta da cozin­ha. Depois as amizades levaram-me para a Parreirinha de Alfama, a mais antiga das casas de fado do bairro, onde também se comia, e que nessa altura, à semelhança do João do Grão, não passava duma tasca de bancos corridos e mesas de pinho tosco.
O público eram os homens duros, emi­grados dos campos das Beiras para a estiva das docas da Marin­ha e do Terrei­ro do Trigo, ambas logo ali do outro lado da rua.
No tempo dos muçulmanos Alfama tinha sido o bairro aris­tocrático da cidade, mas pouco demorara a tornar-se popular e marítimo. Os judeus instalaram-se nela, expulsos depois pelos cristãos, a gente miúda, os 'manéis do mar', as varinas que no tempo em que as conheci corriam a cidade de pé descalço a vender peixe. Quando a pesca não dava rua iam para ‘o'car­vão' - porque a descarga nos navios car­voeiros faziam-na elas com cestos de cinquenta quilos à ca­beça, prancha acima, pran­cha abaixo, a correr dos porões para o cais. Nas noites quen­tes juntavam-se a ouvir o fado. Não na Parreirin­ha, que para elas e os 'mané­is' era cara demais, mas nos pátios, onde os que tinham jeito cantavam o 'fado vadio'. Vadio por não ter re­gras, e porque às vezes nem de instrumen­tos precisava. Fado es­pontâneo, nascido das dores do íntimo e das misérias do dia, cantado com pouca arte e muito alma. Mas sempre aparecia uma viola, alguém ia pedir emprestado uma guitar­ra, e quando os fadistas para­vam, exaustos de emoção, comiam-se fraternalmente as sardin­has assadas nos fogareiros acesos no passeio.
Na Parreirinha, quando o público se despedia e os fadistas bebiam um último copo, entravam por vezes vultos discretos de homens. Alguns conhecidos da casa, outros estran­hos que, sós ou aos pares, pareciam ter recebido qual­quer palavra de passe e se acomodavam murmurando, como no aguardo de um ritual secreto. Apagavam-se as lâmpadas, ficava apenas um bruxulear de velas, e as mulheres presentes, cria­das, cantadeiras, pareciam diluir-se na sombra dos recantos.
Os tocadores retomavam os instrumentos, um fadista des­conhecido saía do público e o seu cantar, cheio de emoção, apunhalava até ao mais fundo da alma. Seguia-se-lhe outro, outro ainda, e nenhum deles recebia palmas. Porque aquele era o fado secreto, proibido, o fado do amor maldito dos homens que ali na penumbra entrelaçavam os dedos, trocavam carícias furtivas, que a tremer de paixão juntavam os lábios num beijo.
Uma madrugada, em meio de um fado, quando a porta se abriu deixando passar um homem alto e magro, senti que pelos presen­tes perpassava como que um tremor. Perguntei. Disseram-me que era António Botto, o poeta que Pessoa tinha admirado, de quem fora amigo e sobre quem escrevera revelar-se ele 'no seu livro Canções (1922) um dos tipos mais perfeitos e mais íntegros do esteta que se podem imaginar.'
Nos meus verdes anos eu tinha lido os seus poemas, sem de facto os compreender, ressentindo neles mistérios sombrios que ora se me afiguravam da carne, ora da mente. Finalmente puse­ra-os de parte e, para sossego do meu entendimento, copiara num cader­no a parte do prefácio de Pessoa que me parecia sintetizar o livro.
António Botto, o poeta que em 1959 iria morrer em São Paulo, abandonado e pobre, fora sentar-se a dois passos de mim, e recordo que num daqueles entusiasmos excessivos que a juven­tude tem, me deu vontade de lhe pedir que me explicasse a sua poesia. Desse faux pas, felizmente, salvaram-me por certo em partes iguais a timidez da minha natureza e a solenidade quase religiosa que parecia envolver tudo ali.
Ouviam-se os fadis­tas, mal se distinguiam os vultos em redor das mesas, curiosa­mente não se bebia nem comia. Mais tarde, como que obedecendo ao sinal de um régisseur invisível, um a um os presentes tinham começado a sair, deixando algum dinheiro na caixinha perto da porta.

Nessas madrugadas, quando eu próprio saía, surpreen­dia-me sempre a luminosidade da alvorada, surpreendiam-me os ruídos e os pregões da cidade, que acor­dava para uma vida triste mas orde­nada, de passeios limpos, um polícia a cada esquina, de varredores que ao longo do dia incessante varriam, incessante­mente refrescavam a rua onde o sol iria queimar.
Na minha ingenuidade e ignorância passava-se o mesmo em toda a parte. Lisboa era uma metrópole, a minha. Paris, Lon­dres, Madrid, Berlim e Moscovo seriam maiores, mas com certeza também nessas cidades longínquas se cantava uma forma de fado. E nelas outros jo­vens, meus irmãos descon­he­cidos, iam pelas ruas iluminadas por outras alvoradas, sonhando um mundo em que só haveria alegria, onde tudo e todos seriam unos, onde os poetas não precisari­am de se esconder para amar.

A nossa separação durou catorze anos. Quando voltei a vê-la, umas horas à noite entre dois aviões, não a achei mudada. De dentro do táxi ia enchendo os olhos de certezas. Tudo me parecia igualmente limpo, igualmente triste. A guerra nas colónias só existia num ou noutro cartaz, onde soldados afaga­vam crianças negras e os slogans garantiam a vitória próxima sobre o Mal e uma paz duradoura. Em cada esquina havia agora dois polícias e os varredores continuavam a fazer a limpeza com intenso zelo.
Na visita seguinte, quatro anos mais tarde, com tempo para palmilhá-la, Lisboa sur­preendeu-me. Ainda limpa, mas desolada, quase vazia de gente. Aqui e ali um prédio em ruín­as, aqui e ali um café fechado, a ponto que em vez de avivar recordações, me tomava a impressão de as ir perdendo a cada passo. O Estribo mudara de nome, frequentavam-no sobre­tudo americanos vozeirentos bêbedos de uísque. A Par­reirinha de Alfama era doutros donos, tinha toalhas na mesa e ar condici­o­nado. O horizonte norte da cidade era maculado pela torre do hotel Sheraton, que do alto dos seus vinte e três andares trompete­ava a chegada e a vitória do novo-riquismo.

A revolução, o caos que se lhe seguiu e a democra­cia, transformaram Lisboa radicalmente, e ela surge-me hoje apenas como um esqueleto de lembranças. O castelo e o quartel da Graça são dois marcos que permanecem. A torre de Belém com certeza resistirá outros quatrocentos anos. Nascidos do terra­moto, o Ter­reiro do Paço, o Rossio, e as ruas da Baixa conti­nuam símbo­los imperecíveis da cidade. Mas por culpa das mu­danças, dos sonhos que vivi e dos muitos mais sonhos com que me enganei, ela tor­nou-se para mim um lugar vazio, um lugar que me roubaram.
Passo pelas ruas e praças que me foram queridas com o senti­men­to de me encontrar em locais que perderam a alma, ou que o correr do tempo dessacralizou. E embora esse sentimento verda­deiramente me magoe, simultaneamente sei que assim não é. O que mudou tinha de mudar. Os monstros arquitectónicos dos centros comerciais e das sedes dos bancos, infalivelmente teriam de chegar, como expressões de uma actualidade que só toma conhecimento do romance, da nostalgia, da beleza e da ilusão como facto­res de comércio.
O sujo e a banalidade das ruas são o espelho da época em que vivemos e nada têm a ver com os sonhos que eu e outros julgá­mos realizar. Nem com os sonhos que a juventude de agora sonha. E quando Lisboa me desespe­ra revejo-me nos mais moços, consolo-me dizendo-me que sempre foi assim. Que eles vêem o que eu não já não sei ver, porque para as gerações que passam toda a mudança é um drama e para as gerações que nascem a esperança é eterna.

Boa companhia (2)

Durante a sua existência, quase meio século (1953-1999), ultrapassando por vezes os quatro mil assinantes, Maatstaf (Padrão) foi a revista literária holandesa de mais nome. O nr. 9 de 1994 teve por tema Lisboa.(*) Cesário Verde e Gomes Leal estão no índice, mas não "couberam" na capa. (Clique para aumentar).

(*) O texto que lá publiquei Het verdwijnen van Lissabon (O desaparecer de Lisboa) lê-se acima.

quinta-feira, junho 26

Boa companhia (1)


Quem por lá não passou, ou sabe pouco da vida, poderá achar que pôr isto aqui é vaidade. Não é.
Escreve-se uma história sobre determinado tema, o editor resolve fazer uma antologia, o compilador apreciou, e aí se vê a gente em boa companhia.
Hotel in Holland (l987) não trata de hotéis, mas de vários aspectos dos Países Baixos. Hoger dan de blauwe luchten (1997 - em tradução livre: mais alto que o azul dos céus) inclui textos sobre o Corão, Prometeu, Poséidon, Jesus, e uns mais. (Clique para aumentar).

terça-feira, junho 24

Vencelhos

Vencelhos. Já ninguém os faz, ninguém os precisa. A fotografia é do Verão de 1964, mas nos anos setenta as mulheres de Estevais de Mogadouro ainda os faziam.
Por curiosidade procurei a palavra no dicionário, e lá descobri que anda na nossa língua desde o séc. XIII. Anda, é modo de dizer. Andou. E o mencioná-la não a vai ressuscitar.

segunda-feira, junho 23

Alforges (2)

Os becos do meu inferno

Os becos do meu inferno vão quase todos dar ao largo da fantasia, e de lá, tortuosos e íngremes, descem para o cais da desilusão. Num vaivém de correrias, tropeçando, empurrando, fazendo um burburinho de ensurdecer, agita-se neles o povo das recordações, esgueiram-se os muitos eus que criei para existir e que depois, para sobreviver, tive de ir descartando. Por vezes com a indiferença de quem abandona um disfarce inútil, outras com pressas de malfeitor.
Nas paredes, cintilando coloridos, multiplicam-se os ecrãs onde revivem os lugares e os rostos, dores minhas, dores alheias. Os momentos que pareceram felizes e que o passar do tempo recobriu de incerteza e dúvida. Horas de suplício. Horas de morte. Angústias de ontem, medos da infância, vergonhas da mocidade, tudo se emaranha em simultâneo, o passado indistinto do presente e do futuro, porque a tortura não conhece limites, e assim se nos impõe, omnipotente.
As ondas da mesquinhez do dia-a-dia embatem contra a muralha do cais, iluminadas às vezes pela claridade fugaz de uma esperança, enquanto no céu opaco ecoam trovões longínquos. Menos temerosos, esses, do que a ameaça da espessa névoa que de súbito tudo pode afogar: os sonhos, o marulho dos pensamentos, as résteas de luz.
Para escapar à iminência do martírio, fecho a porta atrás de mim, saio para o mundo envolto nas aparências do que não sou. E contudo, força de hábito ou fascínio do abismo, é para o negrume dos becos do meu inferno que infalivelmente retorno. Umas quantas vezes ao dia. Todas as noites. Sem que me lembre excepção.

sábado, junho 21

Acaba mesmo... em 2012

Porque um foguetão os viria buscar, um profeta lhes disse, os cálculos os convenceram, ou uma voz segredou ao guru que o fim estava próximo, perdi a conta das vezes em que os suicídios colectivos me surpreenderam.
Surpresa tive-a também nos anos 70, quando vizinhos e amigos, gente de juízo e aparentemente equilibrada, se puseram a cavar abrigos anti-atómicos nos quintais, achando pouca graça a que eu zombasse da seriedade com que se abasteciam de pilhas para o rádio, água mineral, comprimidos de vitaminas, foguetões e roupa quente.
A novidade escapou-me, pois pelos jeitos a notícia é de há tempos e eu só soube dela pelo jornal de hoje: o mundo vai acabar em 2012, e desta vez não é ilusão, falsa promessa ou tolice: acaba mesmo. Há cálculos e provas irrefutáveis: o calendário dos Mayas termina a 21 de Dezembro de 2012 e os egípcios da antiguidade fizeram previsões idênticas. Além disso parece que está também na Bíblia: “o número 666 refere-se a uma irregularidade do ciclo solar, a qual será causa do apocalipse que se aproxima.”
Vamos ter tsunamis com quilómetros de altura; o nosso planeta rebolará, invertendo os pólos; por toda a parte explodirão vulcões; na crosta terrestre vão abrir-se fendas… Só escaparão aqueles que tiverem dinheiro bastante para se juntar ao grupo, já existente, que procura um território montanhoso, sem centrais nucleares na vizinhança.
A senhora na fotografia vêmo-la sentada sobre a jangada que comprou para se salvar, dentro da qual há um “saco para sobrevivência, composto de pacotes de água mineral, foguetões e fatos-macaco de material isolante". (*)
Sabia lá eu! Há sites para adquirir o necessário, por exemplo http://www.2012supplies.com/. Fui ver e encontrei nele o calendário que vai descontando o tempo, e me pôs ao corrente de que faltam 1643 dias e 15 horas para o fim do mundo. Nem mais, nem menos.

(*) A novidade (para mim), alguns dos detalhes e a fotografia devem-se ao jornal holandês de Volkskrant, de 21.06.2008.

quinta-feira, junho 19

"Laptop" Hermes Baby

Pensar que durante mais de um quarto de século foram assim os meus "laptops"! A última de uma série de cinco ou seis, passou jovem à reforma quando no início dos anos 90 comprei um Sanyo com um ecrã de 20 x 8 cm e letras roxas sobre fundo esverdeado. Um traste que não deixou saudades quando se escangalhou. Ao contrário desta, que continua funcional e quase merece redoma.

quarta-feira, junho 18

O Mercedes e a mula

“A corrupção desvirtuara todas as qualidades do carácter nacional. A justiça era um mercado, no reino e na Índia; e a nobreza ingénita, que além se traduzia em ferocidade, traduzia-se em Portugal num luxo impertinente e miserável. Era uma ostentação, já não era um orgulho ingénuo… O tipo de fidalgo pobre era tão comum e ridículo, que andava nas comédias, conforme se vê em Gil Vicente… Para satisfazer a vaidade dava tratos aos estômago. E a carestia dos víveres reduzia-o a pão e água, e rabanetes, quando os havia na praça…
O pobre mordia-se de inveja, diante do luxo insultante do que tornava da Índia rico, e se passeava na Rua Nova com um estado oriental. Precediam-no dois lacaios, seguidos por um terceiro com o chapéu de plumas e fivelas de brilhantes, um quarto com o capote e, em roda da mula, preciosa de jaezes e luzidia, um quinto segurava a rédea, um sexto ia ao estribo amparando o sapato de seda, um sétimo levava a escova para afastar as moscas e varrer o pó, um oitavo a toalha de pano de linho para limpar o suor da besta, à porta da igreja, enquanto o amo ouvia missa. Eram todos, oito escravos pretos, vestidos de fardas de cores agaloadas de ouro ou prata.”

De tempos a tempos releio a “História de Portugal”, de Oliveira Martins, e não escapo à associação de ideias. Felizmente já não há escravos, a União Europeia é para muitos uma razoável Índia e o Mercedes suplanta a mula.

terça-feira, junho 17

Eça, Huxley, Stravinsky, Isherwood...

Agrada ler a quem, como eu, admira o senhor Eça de Queiroz.

Christopher Isherwood anotou num dos seus diários (*) que em 28 de Abril de 1958, em Los Angeles, num jantar com Igor Stravinsky e Aldous Huxley, este último lhes recomendou a leitura de A Relíquia de Eça de Queiroz.
Isherwood seguiu o conselho e a 11 de Maio anota: "Julguei que queria escrever aqui mais alguma coisa, mas acho que não. Fora dizer que acabei de ler um romance de que realmente gosto: A Relíquia, de Eça de Queiroz. É preciso ser-se verdadeiro artista para escrever um romance maldoso que não seja maldoso em demasia. (Pode dizer-se que) é um caso de quase perfeito equilíbrio." (**)

(*) Diaries - Volume One: 1939 - 1960
(**) "Well - I thought I wanted to write something here but I find I don't. Except that I just finished a novel I really like: The Relic by Eça de Queiroz. It takes a real artist to write a bitchy novel which is not too bitchy. This is almost perfect tightrope walking".

quinta-feira, junho 12

Descanso

Durante uns dias, talvez a semana inteira, não se conta o tempo, nem o tempo conta.

quarta-feira, junho 11

Alforges(1)

Nestes "Alforges", vão ser metidos uns quantos textos, alguns já publicados, outros inéditos. Aqui gozarão uma forma de arrumo e permanência que a barafunda das minhas gaveta não pode garantir.


Os Cegos de Manoa


Nos confins da Amazónia, entre o Brasil e a Bolívia, lá onde o rio Madeira começa a ganhar maje­stade, Manoa seria o último lugar onde se esperaria encon­trar alguém como John T. Aldrich III.
Com umas cinquenta cabanas, meia dúzia de barra­cos a que chama­vam casas, e o posto fron­tei­riço onde os soldados de guarda dormitavam apoiados a fusis da guerra da Crimeia, nos fins de 1967 Manoa era o que com razão se podia chamar um fim do mundo.
Para oriente o barco levava dois dias a alcançar Porto Velho, outra Manoa. Para ocidente dizia-se, mas sem certeza, que ficavam umas montanhas de picos cober­tos de neve. A poucos metros de cada margem, densa a ponto de tornar o dia um crepúsculo­, a selva era um inferno húmido.
Irregular, e por isso sempre surpreendente como um milag­re, a chega­da do barco que de Porto Velho trazia mercadorias, o correio, e alguma autoridade ou viajante desgar­rado, era a maior diversão das duzentas e pico almas a quem tinha cabido o destino de que ali haveriam de nascer, morrer, e no meio tempo multiplicar-se. E multiplicavam-se. A ponto de que quando o barco atracava e corriam todos a ver, pareciam uma multidão.
John T. chegara a Manoa com a vaga ideia de, durante um tempo, gozar ali uma forma extática e exótica de felicidade. Filho de ricos, tinha viajado, tinha visto, vivido, gozado, mas continuava a sentir na alma um indefinível vácuo, e enquan­to aguardava a reve­lação do seu verda­deiro futuro, a Amaz­ónia parecia-lhe um lugar de espera melhor que Connecticut.
Ficou. Agradava-lhe o isolamen­to do lugar e apenas o surpreen­dera o es­pectáculo dos cegos, às vezes dois, às vezes três ou quatro, que se sentavam à borda d'água, e a quem os garotos molestavam aos gritos de "Ca-pa-dos! Ca-pa-­dos!"
O missionário tinha-lhe confessado que achava o costu­me bárbaro, mas conhecen­do-os de há muito, ele próprio nunca se atreve­ria a ir contra os sentimentos de honra dos seus paro­quianos. O assassinato era para as questões miú­das, as dife­renças de opinião, o castigo dum roubo. Mas homem desonrado por infide­lidade de mulher ou sem-vergonha de filha, só tinha uma saída: capar o malfeitor e arrancar-lhe os olhos. Ultima­men­te, aliás, começava a ser costume cegar também as mulheres.
Deitado na rede estendida entre os dois troncos que suportavam a choça, John T. balouçava lentamente, recordando as alucinações do peyotl que tinha experimentado no México, a suave euforia da maconha brasileira, a loucura furiosa causada pelo chinchonete seco que bebera em Barcelona.
­Sentia-se intensamente feliz naquele fim da tarde, mascando folhas de coca, saboreando em golos fundos a cachaça da garrafa que Simona deixava ali à mão, na caixa ao pé da rede.
Nome pouco corrente num lugar daqueles, Simona. Tinha conheci­do uma Simone em Yale, outra em Paris, uma Simo­netta em Bari, e guardara delas deli­ciosas recordações. Mas Simona, com os seus catorze ou quinze anos a mais jovem de todas, na cama levava-lhes de longe a palma. Que corpo! Que fogo naque­les olhos negros! Ao fim de experiências sem conta, e pen­sasse cada um o que quisesse, em sua opinião o sexo era ainda a droga supe­rior.
Meteu na boca outra folha de coca, bebeu mais um golo. O missionário com as suas histórias de honor e horror! O que é que por cinco ou dez dólares se não comprava em Manoa?
Tomou-o um torpor delici­oso, voltou a acordar, bebeu outro golo, atentou vaga­mente no vulto que de pés des­calços se recortava contra a clarid­ade da porta.
- Hi! Pedrito!
Por facilidade tratava-os a todos por Pedrito. Homem ou irmão de Simona, talvez primo, não sabia ao certo. Em todo o caso parente.
John T. escorregou para o chão de terra batida e pegou na garra­fa, esten­deu-a ao visitan­te que diante dele se mantinha imóvel.
- Bebe, hombre!
Silencioso, o homem sentou-se no chão, bebeu, pousou a garrafa, e sacando da navalha passou-a lentamente pela unha do polegar, a experimentar-lhe o fio.


terça-feira, junho 10

Remexendo nas gavetas (27)

Ciganos em Estevais de Mogadouro (3) c. 1938.



A realidade neerlandesa em forma de sonho (5)

A questão premente, todavia, seria a que se põe em relação ao interesse de tal livro. De mais um livro sobre o país que, consultadas as estatísticas, provavelmente é daqueles que no mundo têm sido mais analisados, dissecados e estudados.
Como se ela exerça uma espécie de mágica, mal o viajante estrangeiro põe pé na Holanda e contacta, intimamente ou à distância, com a gente que a povoa, o primeiro impulso a que cede é o de escrever sobre ambos.
Pode talvez adivinhar-se nisso o fascínio que causa o saber a terra abaixo do nível do mar - facto, aliás, em que muitos não acreditam e supõem propaganda turística - ou a paisagem plana, a estranheza de alguns hábitos, as tulipas, os moinhos, o génio de Rembrandt.
Mas como explicação não basta. Existem pintores geniais, moinhos e tulipas noutras nações. Planas como o pólder são-no as estepes da Hungria, as pampas da Argentina. E aqui e além no globo deve haver mais pontos onde os diques evitam que o mar inunde as terras. Fora de que os usos e costumes dos uzbeques ou dos índios tupi serão aos olhos do comum ainda mais exóticos.
Contudo é sobre a Holanda e os holandeses que os viajantes obstinadamen­te escrevem, numa série que, começada por Júlio César nos tempos em que Roma era império, se mantém nos nossos dias, cada um dos escritores dando-se a ilusão de que descobre novos aspectos no país e novas bizarrias nos costumes da sua gente.
É de uma ingenuidade igual à de querer reinventar a roda, e tanto mais surpreendente porque as críticas são idênticas às que a este povo foram feitas ao longo dos séculos. Eu próprio de boa vontade confesso aqui mea culpa, e quanto mais leio o que antes de mim foi escrito sobre os holandeses, maior se torna o meu acanhamento de, por ignorância, embora francamen­te, ter repetido o que muitos já tinham constatado.
A questão, porém, continua em pé, de saber donde virá esse fascínio multisecular e internacional que leva a afogar os holandeses em críticas acerca das suas maneiras e costumes, e ao mesmo tempo gabar-lhes as indiscutíveis qualidades de organi­zação, de persistência, e do seu génio para o negócio. Em ambos os casos com uma exaltação que fatalmente resulta em que se criem mitos bons para o comércio e desastrosos para a fama. Mitos esses, aliás, que os holandeses, com o génio comercial atrás mencionado, se esforçam por manter vivos, estando-se nas tintas para a boa ou má reputação que possam ter aos olhos de outrem.
Assim o turismo, para só citar essa importante actividadde, desenvolve-se sobretudo em torno do mito de que o país inteiro é um campo semeado de tulipas e moinhos, com lavradores de tamancos que, vestidos como os pescadores de Volendam, criam vacas e andam de pá na mão a levantar diques contra a água.
Da má fama não vale a pena falar, pois devido ao excesso de atenção que se lhes vota, os defeitos dos holandeses, que aliás são os mesmos de que padece o resto do mundo, surgem grosseira­mente ampliados, dando a impressão de que a cada esquina se topam monstros de rapacidade, de avareza ou vício.
Mais de uma vez me tem sido perguntado se não receio andar pelas ruas de Amsterdam, e como respondo pela negativa o olhar dos meus interlocutores traduz em geral uma forte descrença, pois o mito tem isso, exige a todo o preço que a realidade se lhe conforme.

Fora as centenas de artigos, comunicações e ensaios que no correr do tempo devo ter lido sobre a Holanda e os holandeses, na minha estante alinham-se umas quatro dezenas de livros sobre o mesmo tema. E é olhando-os que me ocorre que, a resposta à questão que antes me pus, talvez se não deva procurar no espanto dos estrangeiros, que chegando aos Países-Baixos logo desatam a escrever, mas naquilo a que hoje é moda chamar interacção.
Porque ao maníaco afã de escrita a que os estrangei­ros se dão, indubitavel­mente corresponde, por parte dos holandeses, uma não menos doentia curiosd­ade para saber o que deles se conta. E se sobre poucos povos se terá escrito com semelhante profusão, também é facto que nenhum outro, como o holandês, gosta tanto de ler as invectivas que lhe atiram e os cumprimentos que lhe fazem. Desde que isso não afecte o bom andamento dos seus negócios - e de que modo o poderia afectar? - ele delicia-se com a atenção que lhe dão, saboreando os cumprimentos com uma alegria infantil, sofrendo as invectivas com insensibilidades de masoquista.
Será isso uma fraqueza? Uma virtude? Provavelmente nem uma coisa nem outra. Apenas um modo de reagir decorrente de cir­cunstâncias não exclusivamente humanas, mas sociais, históri­cas, geográficas, e Deus sabe quantas ainda. Porque não se é impunemen­te país pequeno rodeado de outros bem mais vastos. Nem impunemen­te se vive junto de um mar que, ora é benesse e salvação, ora sem aviso se torna perigo mortal. Ainda menos impunemente se é desenvolvido e rico sem medida, quando em volta surgem focos de atraso e de pobreza.
E assim retorno aos paralelos e diferenças que atrás esbocei. Portugal é também pequeno, escondido num canto da Europa, mas outrossim amarfanhado pelo tamanho territorial e o poderio económico da Espanha. O mar quase sempre lhe foi ameaça e no séc. XVI motivo de riqueza e glória. Só que de maneira fugaz, sem que a riqueza adquirida fosse utilmente aplicada.
Por si própria, a glória passada nada garante no presente ou no futuro. É um bem res­peitável, mas defunto, que no máximo empresta certo cachet aos monumentos e aos poemas históricos. Sabendo não ser rico e pouco desenvol­vido, é talvez por essa razão que em Portugal se sofre tão mal a crítica, mesmo quando ela é justa e bem intenciona­da.

De longe a longe, em vez de fingir que hiberno sonho acordado. Belos sonhos em que me dou a omnipotência de Deus e a paz dos homens de boa vontade.
Elimino verdadeira e definitivamente as frontei­ras do continente. Todas. Repetindo De Gaulle faço uma Europa que vai de Lisboa aos Urais e nela uno alegremente os povos, cuidando que ao espírito libertário de um se misture o romantismo doutro e a sensibi­lidade dum terceiro. No mesmo cadinho fundo a argúcia que estes mostram, o talento que aqueles têm para criar e organizar, a arte serena com que alguns sabem gozar a vida.
O bom Deus permite-me que, descartando as diferentes versões da moral e da hipocrisia, eu espalhe, também de Lisboa aos Urais, a franca liberdade que sem entraves permite gozar do sexo.
Enriqueço as escolas. Diminuo as diferenças que separam os abastados dos pobres. Nessa Europa que sonho, ninguém terá de sofrer que lhe falte o comer ou o tecto, ou que a doença o obrigue a uma existência indigna. A polícia e as ambulânci­as acorrerão no momento em que for pedida a sua ajuda. Velhos, doentes, solitários, todos receberão os cuidados e os conchegos de que necessitam. As comunicações serão quase instantâneas. Os jornalistas escreverão livremente, à televisão ninguém porá peias. Os escrito­res e os artistas serão acarinha­dos. Por toda a parte se ouvirão orques­tras e não haverá domingo sem festival.
Querem os povos viajar, embora o que daí lhes advem seja mais ilusão do que outra coisa? Se isso os torna felizes, pois que viajem! Se encontrem! E encontrando-se se amem e multipli­quem.

Quando me passa a onda de megalomania e aterro com ambos os pés no dia-a-dia, dou-me conta que essa Europa com que sonho já se realizou. Existe na Holanda e um pouco também por aqui e por ali. Infelizmente, quase tenho a certeza de que a morte me levará antes que ela alastre até Lisboa. E aos Urais, se alguma vez lá chegar, será mais tarde ainda. Por isso a ninguém deverá fazer espécie que, dilacerado por sentimentos contrários, gozando de um bem-estar que não posso repartir com os outros a que também pertenço, eu, em vez de criticar ou de louvar, tenha optado pela fantasia e nela me refugie, ora a fingir que hiberno, ora a sonhar o im­possível.

FIM

segunda-feira, junho 9

A realidade neerlandesa em forma de sonho (4)

Com ou sem hibernação que me permita tomar distâncias, alijar os maus pensamentos e observar com olhos ingénuos, a verdade é que, actualmente, se me torna difícil o julgar sem preconceitos a sociedade que me rodeia. Não somente porque a Holanda se me tornou tão cara como a minha primeira pátria, mas porque, vivendo há tanto tempo nela, tendo-me imbuído dos seus usos e costumes, da sua língua, as impressões que agora recebo forçosa­mente não são como as do começo.
O estrangeiro que fui, quando o recordo parece-me ter sido uma identidade de empréstimo, um papel de actor, uma distração do Destino que primeiro me fez errar por outras bandas. Porém, em certas ocasiões, o holandês em que me tornei também me parece irreal, porque aos sentimentos, às ideias e às visões adquiridas, constantemente se sobrepõem as visões, as ideias e os sentimentos da minha vivência anterior.
Sobrepõem, aliás, não é bem o termo, pois sobreposição implica ordenamento, e isso definitiva­mente lhes falta. Se os sentimentos e os pontos de vista se sobrepu­sessem, nada custaria arrumá-los doutro modo ou noutras sequências. Facto é que eles se misturam e antagoni­zam, que dentro de mim ruge em permanência uma batalha entre duas maneiras diferentes de ver e de sentir.
Isso há muito me levou à conclusão de que poucas das minhas críticas à Holanda ou aos holandeses podem ser tomadas a sério. O que a alguns parecerá veneno rabioso, não é mais que exercício literário; o que outros considerarão crítica fundada, é apenas um irreverente piscar de olho.
Além disso, sejamos francos, que vale o juízo de um indivíduo sobre um país? Quem sou eu para julgar? A única autoridade que possuo é aquela de que eu próprio me revisto, a de escritor. E na medida em que ninguém a ela põe peias, não é virtude por aí fora dizer o que me apetece da maneira que suponho mais atracti­va. Dando forçosa­mente mais valor ao efeito do que aos factos. Se bem que dos juízos sobre os países e os seus povos também se possa dizer o mesmo que se diz dos tiros de escumilha: há sempre um grão que acerta no alvo.
Todavia, se fosse hoje, eu creio que não teria escrito do mesmo modo o livro que vinte e cinco anos atrás escrevi sobre os holande­ses, pois me incomoda vê-lo cheio de certezas aparentes e juízos que, parecendo definitivos, definitivamente o não são. Se antes de morrer ou de se me desarranjar a cabeça tiver ocasião de voltar a escrever sobre este país - não como agora, em ligeira conversa, mas num livro maduramente pensado - creio que começarei por procurar na história de Portugal e da Holanda os laços que são bem mais remotos do que os que existiram no séc. XVI, quando ambos os países eram poderosos e, com a Espanha, se disputa­vam a supremacia dos mares e do comércio com o remoto Oriente.
A navegação dos portos da Holanda e da Flandres para os de Portugal e vice-versa, documentados no séc. XII, deve datar de muito antes. E não é preciso repetir a importância que teve a vinda dos judeus portugueses que aqui procuraram asilo. Novidade para alguns será, de certeza a notável presença dos holande­ses que no séc. XVII se estabeleceram nos Açores.
Em lugar de oposições procurarei encontrar concordâncias e paralelos, embora para realizar tal objectivo defronte uma dificuldade de monta. Provavelmente a maior que se põe a quem, como eu, em simultâneo vive duas vidas, sente com duas sensibilidades, fala e pensa em duas línguas, pertence a um país rico e a um país pobre.
Aos que não se encontram em circunstâncias semelhantes, o sofrer de uma situação assim parecerá rebuscado, um exercício de intelectual que procura obstáculos onde os não há, um artifíci­o para criar conflitos existenciais.
Nada menos justo. Quando critico o holandês na sua rudeza, no desprezo que em geral demonstra pelas coisas da sensibilidade, ou mesmo no racismo de alguns, não me fica a impressão de estar a criticar estranhos, mas gente minha. Por sua vez, quando rio do desleixo crónico que os portugue­ses mos­tram, da sua aparente incapacidade de, duma vez para sempre, libertarem Portugal da condição de parente pobre da Europa, também não estou a falar de quem não me interessa, mas dum povo a que tão intensamente pertenço, ao ponto de me iludir que todos eles são meus irmãos.
Desse modo, e em quase tudo dividido em dois, ao mesmo tempo que zombo do afã maníaco com que os holandeses viajam, lamento que os portugueses possam viajar tão pouco; se me irrita a falta de maneiras duns, irrita-me igualmente a cortesia por vezes bizantina dos outros; quanto mais aplaudo a eficiência dos primeiros, mais me dói que os segundos com tanta frequência sofram de desorgani­zação.
Não seria fácil realizá-lo, mas contornando os obstácu­los que a minha própria vida me levanta, talvez valesse a pena tentar. Se bem que, em situação semelhante, a cada mostra de objectividade se contrapõe uma suspeita de partidarismo, cada cumprimento recebe logo o contrapeso duma crítica.
O livro que eu um dia gostaria de escrever sobre a Holanda, além dos laços que já apontei e que, com outros, unem os "meus" dois países, seria pois aquele em que eu conseguiria o tour de force de passar ao papel, sem malícia nem bonitezas literárias, os meus quarenta anos de vivências aqui. Acrescentan­do-lhe o muito que no país admiro, aquilo que nele me fascina, as razões porque preferi ficar quando poderia ter partido, a saudade que me toma quando me encontro longe.

sábado, junho 7

O rio Douro já não é

Povoado de “rabelos”, escasso na largura, com gargantas fundas, a despenhar-se em cachões por entre penedias, e logo adiante espraiado em calmas de lagoa, um areal acolá, outro além - para quem o conheceu assim, o Douro já não é.
O Douro das cheias, dos desastres, dos “rabelos” que descarregavam cordeirinhos nos Guindais para a festa joanina, os barqueiros a degolá-los ali mesmo, o sangue a escorrer nos degraus do cais – para quem o conheceu assim, o Douro já não é.
O Douro dos “valboeiros” da carqueja, do carvão, o Douro das pipas de “vinho virgem”, o rio por onde viajavam os “saleiros”, o das pranchas a feder a piche na margem de Gaia, o Douro de Miranda, o da gente tisnada ao sol do Pocinho, do Pinhão, da Régua – para quem o conheceu nesse tempo, o Douro já não é.
Vê-lo modernaço e a enriquecer, torna em melancolia o que devia ser júbilo. O Douro já não é.

quarta-feira, junho 4

A realidade neerlandesa em forma de sonho (3)

Devo de reconhecer que, talvez por osmose, nesse tempo a minha visão da Holanda, do mundo e de mim próprio, era igualmente pessimista. E, antes disso me dar conta, cometi o erro de confiar ao papel o que me impressiona­va e o que mais me incomodava na sociedade em que voluntariamen­te tinha feito ninho.
Não é que me arrependa ou queira desdizer. Falo de erro porque, vistas à distância e através dos filtros que a idade empresta, as minhas críticas de então mostram que foram antes escritas para entreter do que para corrigir, que não são verdadeiras críticas, mas a expressão dum modo muito latino de brincar com coisas sérias.
Passado um quarto de século sobre esse peché de jeunesse, a maioria dos holandeses que me leram não se devem ter sentido ofendidos com as farpas com que os piquei. Ao meu conheci­mento, até hoje chegaram apenas três casos de aversão rabienta, por parte de gente que, se pudesse, me despacharia presto para os fogos do Inferno ou para a terra donde vim.
O primeiro caso foi o de uma senhora grega, acerbamente neer­landófi­la, que durante meses bombardeou os jornais com cartas a solicitar a minha extradição. O segundo, um sujeito de Rotterdam que, também nos jornais, se queixou de que eu não tivesse capacidade para reconhecer a superior qualidadde gastronómica da costeleta temperada com sal e pimenta, frita em molho de manteiga, servida com acompanhamento de puré de batata e couves do Bruxelas cozidas simplesmente em água. O terceiro é um sacerdote que, vinte e cinco passados sobre a leitura do meu livro, me dizem que continua assanhadamente a excomungar-me em privado e em público, talvez porque a minha prosa tocou naquelas feridas que mais lhe doem.

Ao divagar assim, impensadamente me distraio da hiber­nação que atrás citei e na qual, como disse, às vezes me coloco para, de modo diferente, poder considerar o que então me rodeava e a pessoa que eu então era. Seguidamente, quando dela acordo, dou-me a ilusão de que encaro o que me rodeia com um olhar fresco e o espírito lavado. Uma forma de renascimento.
Desse modo, e melhor do que se viajasse na máquina do tempo que Wells imaginou, creio poder observar a Holanda de maneira inédita, comparando a de hoje com a de duas décadas atrás, des-cartando o que entretanto aconteceu no desenvolvimen­to do país e do seu povo, rejuvenes­cendo a minha atitude.
A primeira grande surpresa ao acordar subitamente na Holanda de 1997, sem dúvida a maior de todas, seria verificar a generali­zação do optimismo. Incrível! Os holandeses, em massa, a afirmar que tudo corre bem! Desde a limpeza das ruas aos ganhos da Bolsa, das exportações da indústria aos êxitos da economia.
Não somente o homem da rua e o burguês reagem assim mas, inopinado, verdadeira­mente espectacular, nas bancadas do Parlamento e nos debates da televisão, em artigos de jornais, os políticos - o que ninguém antes os viu fazer - confirmam que tudo vai bem. Mais surpreen­dente ainda, e ao contrário do que deles seria de esperar, já não assustam os eleitores com previsões sombrias, mas quase garantem que o futuro será para todos deliciosamente rosado.
Surpresa seguinte. As férias. Desde o tempo em que navegando por mares longínquos alcançou paragens exóticas, o holandês deve ter sido picado por bicho que, simultaneamente, o inocolou com os micróbios da inquietação e da curiosidade. A ubiquidade mundial das dragas, dos rebocadores, dos marítimos e dos homens de negócio holandeses, provavelmente vem daí, mas baseia-se também na solidez de necessidades e resultados práticos. Mas é no fenómeno das férias que o bicho demonstra plenamente as curiosas e funestas consequências da sua picadela.
Duas, três décadas atrás, quando as viagens ao estrangeiro começaram discretamente a entrar nos costumes, o holandês ia ao longo do ano arrecadando parcimoniosamente os seus ganhos, punha uma parte grande a render no banco e, como antes apontei, de tenda e saco às costas, com o resto arriscava-se a descer até aos longes da Dordogne e da Ardéche.
Hoje ele próprio terá dificuldade em reconhecer a pessoa que foi e o seu tímido comportamento de então. A Côte d'Azur, como Paris, Londres, Roma, ou até New York, tornaram-se-lhe lugares onde vai dum salto, com o simples intuito de neles passar o fim-de-semana.
Porque férias neste fim de década, verdadeiras férias, requerem longes e exotismos que no globo terrestre começam a faltar. Quatro, cinco vezes por ano, o holandês abandona em massa o país para sequiosamente visitar a Indonésia, o Japão, o Alaska, subir o Everest, nadar em Acapulco ou no Rio de Janeiro. Encontram-se holandeses na Patagónia e no sul do Egipto, na Nova-Zelândia, nas estepes do Canadá, nas Aleutas e em Bangladesh.
Começando por Fevereiro vêmo-lo a caminho dos desportos de Inverno. Em Março ou Abril goza as férias da Páscoa. Dos princípios de Junho aos fins de Agosto é o grande êxodo das férias do Verão. Em Outubro há as férias escolares. Entre Dezembro e Janeiro o país pára para gozar as férias do Natal.
No momento alto do êxodo do estio, quando , segundo as estatísticas, mais de cinquenta porcento dos habitantes abandonam apressadamente o país, as férias talvez não sejam, como se julga, a demonstração de um desejo de repouso, mas o resultado de um comportamento instinti­vo, que mistura a curiosid­ade de procurar o que é exótico, com o afã de fazer como os outros fazem e de ir para onde os outros vão.
Desse modo os holandeses, que frequen­temente asseveram querer escapar à sufocante presença dos seus compatriotas, comportam-se um pouco como os bandos de estorninhos: fogem em voo desordenado para aqui e para ali, dão umas quantas voltas e acabam por pousar quase que uns sobre os outros nos ramos da mesma árvore.
Regressam depois à pátria, desencantados e queixosos, garantindo que da próxima vez irão para regiões mais afastadas, mais desertas, não se dando conta que os seus concidadãos fazem raciocínio idêntico.
A massificação do lazer, bem o sei, ocorre em todo o mundo, mas tem na Holanda consequências e alcança proporções fora do corrente, a ponto de me dar a impressão que os antigos objectivos dominantes da existência: o amor, o trabalho, a família, a fé, foram relegados para segundo lugar pela absurda necessi­d­ade de apressadamen­te se viajar para determinado destino.
Uma vez lá chegado o viajante mostra um único desejo: repousar. E uma vez repousado vai então indolente­mente andar às voltas em torno de palácios e de igrejas, embasbaca nos museus, faz-se transpor­tar aos cumes dos montes, nada no mar. Vê muito? Com certeza vê. Aprende alguma coisa? Duvido.
De retorno ao ninho tomam-o de imediato os sintomas próprios das aves migrado­ras. Tudo nele é inquietude, ânsia de voar para longe. Passa os dias apreciando vagamente o que come, observando distraído aquilo que o rodeia e, amodorrado, cumpre as suas obrigações. Mas no momento em que o correio lhe traz os catálogos das agências de viagens, os seus olhos, até aí mortiços, ganham a acuidade dos das aves de rapina. Da mesma maneira que a águia ou o abutre caem em voo picado e infalivel­mente seguram a presa nas suas garras, assim o holandês abre o catálogo na página exacta, num relâmpago calcula o preço, telefona a reservar, e desse momento em diante só conhece um fito: partir.

terça-feira, junho 3

A realidade neerlandesa em forma de sonho (2)

Embora sem que nela me queira exceder, a minha liberdade de escritor permite-me carregar o traço, desenhar em linhas grossas para assim, ampliando a imagem, a tornar visível. E volunta­ria­mente exagero. Mas não minto ao afirmar que tantas vezes ouvi sermões desses que atrás menciono, que a certa altura comecei a preocupar-me por não ter a certeza qual de nós - os meus interlocutores ou eu - sofria da cabeça. Sobretudo se eles, à força de repetições e insistências, tentavam impor-me, não a visão que tinham do meu país - no que lhes cabia o mais pleno direito - mas a obrigação de modificar a minha própria que, não sendo "holande­sa", definitivamente lhes parecia menos válida e politicamente menos correcta.
Na sua opinião Portugal tinha de ser assim, de ser assado, proceder deste modo e do outro, regular isto e aquilo. Se não fosse capaz de fazê-lo eles, que detinham a "verdade" e as receitas mágicas do êxito político e das boas regras sociais, em vez de amanhãs risonhos prenunciavam para o meu país amanhãs chorosos.
Para mim o futuro seria também negro, pois além de surdo às suas exortações eu lhes parecia desinteressado da salvação da minha pátria e do mundo em geral.
A Holanda, essa, não somente a tinham eles salvo e feito progredir, num ciclópico esforço colectivo, mas tornado país-guia, um desses que ao longo da história, desde a Roma da antiguidade, à Rússia do comunismo e à América do capital, mostram o "bom" caminho aos incapazes, aos preguiçosos e aos desfavoreci­dos.
Exortando-me na televisão, na imprensa e em conversas particulares, a tomar a sério as suas fortes convicções sobre os modos de salvar o mundo, os meus interlocutores davam ainda, tanto em geral como em privado, mostras de uma outra curiosa característi­ca: a da franqueza rude. E nada, absolutamente nada, seria capaz de convencê-los que nos mundos mais vastos que existem fora dos limites que vão de Groningen a Maastricht e do Mar do Norte a Venlo, se usa de uma forma de trato social chamada cortesia, a qual, de modo algum é antónimo de sinceridade.
Infelizmente, no que respeitava o contacto humano, a troca de impressões ou ideias, a simples conversa de café, o holandês tendia para a falta de discernimento. Tomava por única e melhor a convicção simplista de que só se é franco quando se é rude. Que a bruteza fomenta a amizade. Que aquele a quem cruamente se apontam os erros, os defeitos, os olhos vesgos, a ignorância, deve esfregar as mãos de contente e dar graças a Deus que pôs no mundo um povo capaz de, sem considerações nem papas na língua, chamar às coisas pelo seu nome.
Da remota década de setenta ficou-me ainda a lembrança de uma Holanda céptica e sombria. Não somente porque, dum e doutro lado do Muro de Berlim, os foguetões aguardassem nas suas rampas de lançamento o comando que faria explodir o mundo num apo­calíptico fogo de artifício, mas porque o prenúncio do pior era hábito secular e generaliza­do. Sobretudo no que dizia respeito à economia e ao bem-estar.
Os bancos abarrotavam de dinheiro, o progresso era em toda a parte visível, o desenvolvimento do país não suportava uma aceleração maior, mas dentro e fora de casa o burguês mantinha o rosto sombrio. Para ele próprio, para o país, o mundo, e até Deus no céu, as coisas iam mal, muito mal, com tendência para piorar.
Os calores do Verão não se comparavam aos de antigamen­te, a neve que caía no Inverno mal cobria os prados, o gelo já não era sólido bastante para que se pudesse patinar nos canais. E os preços constantemente em alta, a qualidade de tudo a diminuir.
Ia-se de férias para o estrangeiro e, em vez de gozar e receber um valor adequado em troco do bom dinheiro que se gastava, era como se hotéis, restaurantes, as esplanadas, os guias e até as mulheres das retretes públicas, tivessem actualiza­do e refinado as técnicas clássicas dos salteadores. Por tudo se tinha de pagar demasiado, raro era o que prestava.
Para cúmulo, hordas de estrangeiros de cores e peles das mais variadas, vindos de nações sem rei nem lei, todos os dias atravessavam as fronteiras e se instalavam com a desordem das suas maneiras, e o bizarro dos seus costumes, nas ruas onde até então se tinha vivido em harmonia, com vizinhos que falavam a mesma língua, que não queriam exageros de culinária e igualmente detestavam o alho.

segunda-feira, junho 2

A realidade neerlandesa em forma de sonho (1)

Probiblio, a organização de cúpula das bibliotecas holandesas, desejando em 1997 oferecer aos seus membros um presente de fim de ano, encomendou-me um texto. A versão holandesa foi publicada em edição esmerada, o original português encontrei-o numa disquette pré-histórica.
Pode ser interessante para alguns. É também uma forma de cumprimento aos meus compatriotas holandeses que, serena e civilizadamente, sabem encarar as críticas que lhes são feitas.
Demasiado longo para o nervosismo bloguítico, vai aqui em partes.


Parecerá criancice, ou passatempo de reformado, mas actualmente, uma das minhas maneiras favoritas de olhar para a Holanda, onde há mais de quarenta anos vivo, é fingir que entrei em hibernação.
Brinco com a ideia de que, décadas atrás, me puseram numa dessas câmaras frigoríficas onde as carnes permane­cem longamente sem apodrecer e, por um dos milagres que a ciência cedo tornará corriqueiros, me fizeram agora acordar.
O que sei, o que sinto, penso, o que a minha memória guardou, as imagens da retina, os sons que me entram pelos ouvidos, as emoções, tudo isso é dos fins dos anos setenta. Da Holanda moralista, pequeno-burguesa, provinci­al, dum lado com crentes fanáticos a garantir a existência de um Deus que só amava quem pertencia à "boa" seita. Do outro com "revolucionári­os" que, incapazes de se melhorar a si próprios, tentavam com as suas frustações melhorar o mundo - de preferência longe, nos países onde o sol brilhava todos os dias e onde com centavos já se era rico.
A Holanda que assim se me apresenta, ainda aqui e além acreditava na ética do trabalho, tinha descoberto alegremen­te que a tudo se podia dar um jeito. Que nos cofres da nação havia dinheiro bastante para subsidiar os artistas, que só o eram nas visões que lhes enchiam a própria cabeça; dinheiro bastante para acomodar os descontentes; para pagar aos que iam "ajudar" o Terceiro-Mundo; para criar e manter um colossal corpo de organismos destinados a "fabricar" felicid­ade e a garantir que, à menor dor de cabeça, ao menor sinal de descontentamento consigo mesmo ou com outrem, o cidadão se podia dirigir a um guichet onde as suas preocupações, mesmo as ridículas, eram tomadas a sério, ponderadas, discutidas, relatadas, analisadas por comissões e, finalmente, resolvidas.
Desse curioso tempo em que a revolução não era somente política, histórica, religiosa e social, mas tudo agarrava com os seus tentáculos, desde o desenho das pontes à quantidade do leite nas creches, a impressão que guardo é de que então somente mesmo os cabeçudos de nascença teimavam em não querer ser felizes.
Havia, evidentemente, os grandes sustos, as ameaças de guerra, perigos inesperados. Por uma qualquer birra os russos arreganhavam os dentes, ameaçando lançar a bomba, obrigando os medrosos endinheirados a cavar nos seus jardins abrigos anti-atómicos, atulhados de latas de conversa e garrafas de água. Os árabes, esses nem sequer ameaçavam: se lhes dava na veneta fechavam as torneiras do petróleo e deixavam o holandês (e os mais) sem automóvel, o seu brinquedo preferido.
Férias de hotel ou gozadas em países exóticos - Portugal era exótico - eram entretém para ricos. A grande massa dos remedia­dos descia de saco às costas e tenda até às Ardennes, ou arrisca­va-se a explorar a França, com os ohs! e ahs! admirati­vos de Livingsto­ne ao chegar ao Zambeze.
A culinária era decepcionante, sensaborona, as reacções ao alho de uma violência que tocava o fanatismo fundamentalista. Um queixal podre, o cheiro a suor, a roupa suja, isso eram odores aceitáveis. Mas tinha você comido alho? O seu hálito fedia a alho? No café, no eléctrico, no es­critório, os bem-pensantes levantavam o dedo acusador, para de seguida protegerem demons­trativa­mente o nariz com o lenço, não fosse dar-se o caso de aspirarem a peçonha.
Aliás, todo o alimento que deitasse cheiro era suspeito, um atentado ao ideal das cozinhas e das casas inodoras. Eu morava então num quarto andar e recordo a fúria com que os vizinhos de cima, de baixo e dos lados reagiram ao churrasco que eu tinha feito na varanda. Cheiro de carne assada com alho! Aquele fumo a entrar-lhes portas adentro! Não podia ir eu fazer uma porcaria daquelas para outro lado? Tinha de ser na varanda?
Havia também o sexo. Melhor dizendo: a descoberta do sexo. Do mesmo modo que o fenómeno das férias começou pelos muito ricos e foi lentamente alastrando pelas outras classes sociais, assim a orgia sexual, que até essa data era sobretudo apanágio da aristocracia decadente, e dos meios boémios, foi nos anos setenta descoberta pelos "revolucionários" e apresentada a um povo que não sabia exacta­mente se aquilo era para gozar, se era dever, ou impres­cindível sinal de modernidade.
Pelo sim pelo não deitaram-se os holandeses à orgia, ao sexo livre e às variações eróticas, com um afã maior do que o que costumavam ter na sua clássica conquista de terra ao mar. Em ambas as actividades ganharam fama e o que já tinham feito com a hidráulica repetiram-no em seguida com a pornografia, tornando-a uma indústria florescente e justamente reputada.
Que mais vejo dessa época? Um massiço e irritante proseli­tismo, como se dentro de cada holandês habitasse então um missionário, o qual não somente pregava e apregoava as suas con­vicções religiosas, políticas, sociais, mas à viva força queria que todos escutassem também a sua maneira de salvar a África, as suas ideias sobre a América do Sul, as suas opiniões sobre os aborígenes da Austrália, o processo correcto - o seu - de plantar flores, criar porcos, de organizar e produzir.

domingo, junho 1

Remexendo nas gavetas (26)


Ciganos em Estevais de Mogadouro (2) c. 1938. Clique para aumentar.