domingo, setembro 30

Colegas

Um colega ouve-me descrente, quando lhe confesso de que há muitos dias em que não sou capaz de escrever uma linha que me agrade. Que reescrevo, rasgo, mudo, hesito, penso e repenso. Praguejo no íntimo.Vão-se as horas. Parece-me razão para champanhe se encho meia página a contento.
- Mas é uma absurda perda de tempo!
O seu modo mostra que ainda não decidiu se minto ou se, disfarçadamente, estou a troçar. Porque ele, dia atrás dia, escreve vinte, trinta.... Duma vez, exaltado, tinha chegado às quarenta! - Isso pode dar um romance por semana - digo a sorrir. -Mais rápido do que Simenon, que os escrevia em duas.
Insensível à ironia, replica-me que não acha Simenon um escritor, antes uma espécie de “fabricante”. Calo a minha simpatia pelo pai do comissário Maigret, mas pergunto-me como se define alguém com uma “produção” diária de trinta páginas.

sábado, setembro 29

Perna grossa, cara de bode

Nunca me tinha acontecido e, mais que surpresa, foi choque.Em Moncorvo parei no supermercado, hesitando se iria primeiro às compras, ou à Caixa, para actualizar a caderneta.
Entro? Não entro? Dou um passo atrás, cuidadoso em evitar a porta automática do estabelecimento que, sei-o por experiência, funciona de maneira imprevisível e nem sempre pacífica.
A mulher sai de lá e vem para o meu lado, encara-me com a indiferença dos estranhos. Afasto-me, a deixar-lhe espaço na estreiteza do passeio, e antes de ter consciência do que acontece, dá-me ela um tal apertão nas partes que me deixa sem fôlego. Sessentona de perna grossa, cara de bode, traseiro vasto como mó de moinho, não fosse a dor e o estafermo ter-se voltado uns passos adiante, a sorrir desavergonhada, eu duvidaria de estar no meu juízo. Sobre a sanidade do dela não arrisco opinião, pois são sem conta os mistérios do comportamento.

sexta-feira, setembro 28

Comezainas

O senhor Mata telefona a recordar que, com o amigo Varadas, me espera no “Beira-Rio”, na Foz do Sabor, onde mantemos a tradição de comer a peixada. Pergunta se demoro. Dez minutos no máximo, mas se lhes deu a fome podem começar.
O estabelecimento está à cunha, o calor é de fogueira, enxames de moscas que se esperariam na África.
Prato único: bogas pescadas ali defronte, servidas em dois tamanhos e de duas maneiras: fritas as pequenas, grelhadas na brasa as maiores. Comidas à unha. Acompanhadas de pão e vinho.
Sobremesa não há, só café. Quem procura refinamentos terá de bater a outra porta.
As moscas são praga, as bogas uma delícia. Como quatro pequenas, uma grande, e tenho de desapertar o cinto, declaro-me farto. Os meus amigos vão na terceira travessa cada um e dizem que lhes faz espécie: ou não gosto, ou tenho estômago de criança.


Houve missa, procissão, com a novidade das rapariguinhas que agora pegam nos andores de umbigo ao léu.
Depois, como de costume, almoço de festa em casa do doutor P. Não na cozinha, como gostamos, mas na sala grande, porque há hóspedes de cerimónia: médicos, o notário, o cónego, três padres, o coronel...
Somos dezassete. Oito de cada lado, o anfitrião à cabeceira. Só homens, para que os sacerdotes estejam à vontade.
O cónego benze a mesa.
Vem a sopa, vêm os mariscos, as carnes - travessas de arroz de forno e assados de cabrito, borrêgo, vitela, lombo de porco - vêm as sobremesas, o café, as aguardentes que desfazem a gordura e ajudam a comida a assentar.
Um dos padres conta que foi à garagem para fazer a manutenção do carro e o garagista lhe perguntou:
- Tem avaria?’
- Não.
- Então que quer que eu lhe arranje? Avariando, traga-mo cá. Isso de manutenção aos tantos mil quilómetros são tretas das fábricas para apanhar dinheiro aos tolos.
Em torno da mesa há murmúrios de concordância. Quero refutar, mas o vizinho enche-me o copo e a ocasião perde-se. Discutem agora a mecânica do Passat. O coronel pergunta se a vacina contra a gripe realmente vale a pena. Outro quer saber quem é que viu na televisão aquele programa sobre a Ucrânia. Fala-se da crise da indústria do calçado. O senhor Machado conta que de noite se vê aflito com cãibras nas pernas e uma dor que de vez em quando lhe dá no vazio. Perguntam-lhe se é do pâncreas. Não sabe, mas tem a impressão de que lhe dá mais quando come coelho.
Discutem-se as virtudes e os malefícios do álcool. Sentado defronte o cónego pisca-me o olho, sorri, entorna um atrás do outro dois cálices de Rémy Martin com a pressa de quem toma um medicamento.
O nosso cura, esse prefere o uísque e, à medida que o vai saboreando aos golinhos, anuncia com seriedade que uma bebida assim devia ser vendida nas farmácias.
- Não se deve abusar, evidentemente. Mas o uísque é um verdadeiro remédio! Alarga as veias, limpa o sangue, facilita a digestão, corta a azedia...
O cónego reza as graças. Levantamo-nos da mesa passa das cinco. Despedimo-nos com abraços, e a promessa de que em breve faremos bis a tão excelente almoço.
Vou dali direito à cama, exausto como depois dum dia de trabalho.

quarta-feira, setembro 26

Dez anos de casados

Aos trinta e cinco está na força da vida. Encontrámo-nos em Moncorvo e fomos beber um café. Para ele prova de amizade e respeito porque, dinâmico, afadigado com os seus negócios, confessa francamente que odeia perder tempo.
Conversámos uns minutos, o empregado trouxe os cafés, e nesse momento, com um sorriso de desculpa, tirou ele do bolso dois telemóveis, atendendo o que tocava, ao mesmo tempo que no outro marcava um número.
Intensamente concentrado, ao terminar deu-me a impressão de que mal se recordava da minha presença e, com mais umas palavras de cortesia, levantou-se para se despedir.
De súbito estacou, dizendo que apreciaria se eu aceitasse: ele e a mulher faziam dez anos de casados, era dia de festa, por volta das oito mandava alguém buscar-me a casa.
- Aceita?
- Claro.
- A Antónia vai ficar contente.
Não mandou. Veio ele próprio, pontual, a guiar um daqueles jipes com rodas de camião e motor idem, feitos para o Paris-Dakar.
- A patroa e os miúdos ficaram à espera. Pegamos neles e, ala para o jantar!
Não foi desconfiança, mas um sentimento de vaga inquietação. Eu desconhecia-lhe aquele modo expansivo, festejeiro, começava a arrepender-me de ter concordado. Via-me já numa sala cheia de gente e algazarra, o vozear dos brindes, a correria das crianças.
Surpresa, quando a mulher e os dois miúdos entraram no jipe: o jantar não ia ser em casa, mas na Foz do Sabor, quarenta quilómetros mais longe.
Rodámos trocando pouca falas, o ambiente no carro estranhamente sombrio. E nova surpresa ao chegarmos ao restaurante: a festejar os dez anos de casados, só eles quatro e o hóspede que o pai se lembrara de convidar.
Porém, logo no começo da refeição se me tornou claro o motivo do convite: eu estava ali de pára-raios entre uma histérica que barafustava, a acusar tudo e todos, e um marido que, esquecida a tesura que no mais se lhe via, murchava no papel de coitado.
Mais de duas três horas durou o martírio até que, argumentando com a minha debilidade de ancião, anunciei que os ossos me estavam a pedir cama.
A viagem de volta foi um pesadelo. Ele, felizmente, pouco tinha bebido, mas as frustrações e a raiva contida também dão bebedeira. A meio caminho soltou inesperadamente uma gargalhada e, desatinado, deixou a estrada, meteu o jipe por atalhos onde ele mal cabia, os ramos a fustigar a cabine, as derrapagens nas descidas a anunciar o pior, as covas sacudindo-nos em trambolhões violentos, dando a impressão que a cabeça se nos ia separar do corpo.
A mulher e os filhos no banco de trás, silenciosos e amedrontados. Ele a rir, falando como se estivéssemos ambos sós. Tinha a certeza de que eu, homem da cidade, não sabia o que era aventura, nunca tinha vivido sensações assim. A encosta à nossa frente ia ele subi-la a oitenta, com tracção às quatro, e do outro lado descê-la a mais.
- Segure-se!
Agarrei-me às mãos ambas ao varão à minha frente, mas nem isso nem o cinto valiam contra aqueles saltos, solavancos e cambalhotas.
A mulher a pedir que parasse, ele a carregar no acelerador. A certa altura esqueci tempo e lugar, entreguei-me à Providência. Fosse o que Deus quisesse.
Deus quis que daí a pouco voltássemos à estrada, mas alívio não senti nenhum.
- Vai ver o motor que isto tem!
Com um ronco, em poucos segundos íamos a 150 pela velha estrada de duas pistas e quase só curvas, guinando, derrapando, os máximos ligados, os carros que vinham em sentido contrário a levantar nuvens de poeira ao afastarem-se para a berma.
Ele, com um riso demente: - Os gajos borram as calças!
Parou na aldeia, à boca da nossa rua e, num tom brincalhão, quis saber se também me tinha assustado.
- Qual quê! Foi mesmo aventura! Não há-de haver muitos que guiem assim!
Ele gostou do meu apreço. Deu a volta e buzinou a despedir-se, enquanto eu lhes acenava. O jipe desapareceu atrás da igreja. Frouxo das pernas, sentei-me no banco de pedra que o vizinho tem à porta.

Paragem forçada

Este blog parou misteriosamente uns quantos dias, mas contra telecoms e providers não adianta a gente queixar-se, porque são eles que seguram na mão o clássico queijo e, quando lhes apetece, o cortam com a igualmente clássica e bem afiada faca.

sexta-feira, setembro 21

Vizinhanças

Devido ao desnível do terreno, a varanda da Aida, no outro lado da rua, encontra-se muito acima do nosso telhado.
Talvez para arejar, as portas mantém-nas ela sempre abertas, e assim ficamos expostos a uma sinfonia de sons diversos: gargalhadas, conversas com as vizinhas que a visitam, discórdias com o Benjamim, o trac-trac da máquina de costura com que coze pijamas para a fábrica...
Ao fim e ao cabo barulhos aceitáveis, domésticos, que quase naturalmente se fundem com os nossos e os restantes.
Mas às cinco em ponto a Aida liga o rádio, aumenta o volume do som e, com o entusiasmo da fé profunda, junta a sua voz à dos padres que na Rádio Renascença celebram as vésperas, entoam cânticos à Virgem e ao Cristo Rei, dizem depois a missa, seguida de pregações.
O bombardeamento obriga-nos a fechar portas e janelas, mas o sossego que isso traz é relativo. Às sete, terminam os responsos, mas já a Aida liga a televisão para acompanhar a telenovela. Às oito tem o telejornal. Às nove outra telenovela.
Se fizéssemos reparo ela não compreenderia. Então não rezamos? Não gostamos da telenovela de que todos gostam? Não seguimos as notícias?
É infernal. É de pesadelo. Devido ao calor dormimos com as janelas abertas e a meio da noite acordamos em sobressalto, a rua estreita cheia de cães. Tantos e tão agitados que não consigo contá-los, as correrias, os uivos, os latidos e grunhidos a multiplicar-se em ecos de entontecer.
Atiro-lhes pedras (tenho um saco de plástico cheio delas no peitoril), mas não se assustam nem se doem, porque cuido de não acertar no alvo. Atiro-lhes bacias de água. Desesperado e ridículo grito-lhes que se calem, que parem com a barulheira.
Escanzelados, as línguas pendentes, no espaço apertado demais para tanto bicho parecem uma onda peluda, que ora vai, ora vem, ou de repente estaca na sua ondulação.
Até que dentre aquela matilha de todos os tamanhos e feitios, alguns pastores e perdigueiros, mas em maioria vira-latas de pouco porte e pata curta, se escapa a diminuta causa do burburinho: a cadela do Guilherme.
Do nariz ao rabo quatro palmos de bicho, mas um cio que faz entontecer os pretendentes, e o ar desdenhoso de quem se vai dali porque não encontra forma para o seu pé.

sábado, setembro 15

Pausa

Amsterdam - Estevais de Mogadouro. Daqui a umas horas. Dois dias e meio de estrada. Dois mil e duzentos quilómetros quatro vezes por ano.
Há muito que deixei de me perguntar as razões porque o faço, temeroso de que não sejam válidas, nem suficientes para justificar a canseira. Vêm menos da cabeça do que do coração, o que pouco importa, pois ambos me têm sido de fraco conselho.
A prosa entra em descanso coisa de uma semana.

sexta-feira, setembro 14

Miudezas (5)

Nirad Chandra Chaudhuri (1897-1999). Escritor indiano. Para alguém constantemente afligido por doenças, é excepcional que tenha atingido os cento e dois anos.
Na década de cinquenta recordo-me de que li dele The Autobiography of an Unknown Indian, a qual me fez impressão bastante para nessa altura ter anotado as palavras com que terminava: “I feel that I shall be content to be nothing for ever after death, in the ecstasy of having lived and been alive for a moment.”

A minha vida parece mais feita de leituras que de vivências e acontecimentos. São escassos os meus contactos sociais e, no dia-a-dia, tenho mais instantes de observação e pensamento que propriamente de acção. Ao teatro não vou, ao cinema deixei de ir, concertos não frequento, nos museus não entro... Leio, leio, com certeza tresleio.

- Estás a tornar-te um velho rabugento, azedo, sem paciência para com os outros.
Ela disse-o a sorrir, mas creio que convencida de que assim é, e eu talvez tenha de conceder que tem razão. Mas como não ser impaciente com quem, muito satisfeito consigo próprio, debita asneiras ou futilidades?
Não é que me importe por aí além o tempo perdido. Importa-me, sim, que algumas (de facto quero dizer muitas) das conversas que sou obrigado a ouvir tomam a forma de poluição. Ou de agressão. Têm má influência sobre os meus pensamentos, a minha atitude, o meu equilíbrio mental, empobrecem-me a sensibilidade. E, sobretudo, deixam-me exausto.

quinta-feira, setembro 13

Aniónios, iónios e pré-bióticos

Volto do supermercado. Não sei bem se irritado, incomodado, ou com vontade de mandar…
A embalagem das esponjas informa-me que estas, à superfície, contêm matéria com menos de 5% de aniónios activos e menos de 5% de iónios inactivos BHT.
A embalagem do sumo de laranja, essa vem agora com pré-bióticos VIVINAL ® GOS.
Que deduzir disto? Que ladram mas não mordem? Ou mordem? Que matam aos poucos? Causam alergias? Eczemas? Comichão?
Será que em Bruxelas, donde vêm as directivas, alguém ocupa os dias a inventar tão indispensáveis informações?

quarta-feira, setembro 12

A matança

Ao findar do ano terão andado para cima de 600 milhões de turistas às voltas e reviravoltas no planeta. Imensa legião que, confusa, de boca aberta, danifica, desgasta, destrói e, retornada a casa, precisa de fotografias e vídeos para se dar conta do que viu e por onde andou.
Em voga estão as férias com a finalidade de contactar as raízes, eufemismo de que a indústria e as autoridades do turismo se assenhorearam para incentivar outros modos de visita e vivências supostamente genuínas e diferentes.
Umas vezes incluem-se nelas usos e costumes, noutras inventa-se um romantismo histórico, ou pregam-se aos pagantes as vantagens de regressar ao primitivismo. Nas versões mais destrambelhadas vestem-nos com peles de animais, como na pré-história, ou põem-nos de tanga, a fingir de índios.
Em França, com o intuito de familiarizar os citadinos com as coisas boas da antiga vida do campo, as agências de viagem propõem agora “a tradicional matança do porco.” E eu pergunto-me que razões, fora a doentia curiosidade ou a estupidez, levarão um vizinho meu aqui em Amsterdam, ou o morador dum quarto andar em Paris, Oslo, Frankfurt, a abrir a carteira para participar no acto.
Raízes que o puxem lá, provavelmente não tem. Que compra então? A miragem de que, assistindo, compreende o que a matança significava para os que a faziam por necessidade? Duvido. Aquilo é apenas espectáculo, e mau, separado anos-luz da quase reverência que, na minha juventude, rodeava a matança do animal que garantiria parte do sustento da família o ano inteiro.
A facada era certeira, dada por homem entendido para que o sofrimento do animal fosse breve. Do ventre tirava-se-lhe a bexiga, que seria a bola do nosso futebol. Na cozinha alinhavam-se os alguidares com a carne em vinha d’alhos. Enchiam-se as chouriças, as morcelas, os salpicões e os paios, que enfiados em varas ficariam a defumar alto sobre a lareira. Junto deles os presuntos. O toucinho enterrava-se na arca da salmoura. O unto derretido arrefecia em potes de barro. Metade do lombo levava-se de presente aos vizinhos, que retribuiriam.
Antes do almoço, solene, de mesa grande, o mais velho rezava as graças.
- Amém! - respondiam os presentes. O burburinho da persignação abafado pelo matraquejar dos garfos e o tilintar dos copos. A conversa viria depois de saciada a fome, os homens sentados ao lume, as mulheres de volta à louça e aos arrumos.
Era entre Novembro e Dezembro, quando o frio apertava.
No folheto que tenho aqui, a agência oferece durante todo o ano a “tradicional matança do porco”, num espectáculo de duas horas, seguido de barbecue, danças folclóricas, e a oportunidade de comprar produtos genuínos do artesanato local.

terça-feira, setembro 11

O (meu) problema da oração

Desde pequeno ensinaram-me a crer em Deus, Jesus Cristo, na Virgem e nos santos. Falaram-me de mistérios, de milagres, da Santíssima Trindade, do Sagrado Coração, de Lourdes e de Fátima. Ao mesmo tempo ensinaram-me a rezar, o que durante anos fiz com o automatismo da inocência.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunicação, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece-me contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.

domingo, setembro 9

Tudo bem? Prazer em vê-lo!

Tempo passado, em conversa com um amigo, por coincidência alto funcionário de um ministério, estranhava eu que o Governo nada fizesse para sustar o êxodo das aldeias, do que infalivelmente resulta a desertificação das províncias e o aumento dos bairros de miséria em torno das cidades.
Homem pragmático, sossegou-me ele com uma pancadinha nas costas. Preso a um idealismo obsoleto, explicou, eu tinha parado no tempo, continuava a não querer enfrentar a realidade e, teimosamente, decidira manter-me cego.
Pois só um cego, disse, não se daria conta de que à romântica solidariedade dos anos 70 e da Revolução, tinham sucedido as duras leis da economia do mercado, onde não há lugar para tibiezas. Aliás, bem vistas as coisas, o êxodo dos aldeãos para as cidades, por certo lastimável, também tinha lados positivos. E gargalhando da boa piada, acrescentou:
- É que não há falta de operários e arranjam-se mulheres a dias muito em conta.
Não me lembro do que lhe respondi, mas a minha resposta não deve ter sido a que o seu comentário pedia. Que o fosse, ele não lhe teria dado ouvidos.
E é essa a verdade: ansiosa por parecer moderna, europeia, a nossa sociedade continua desesperadamente arcaica e bizantina. Nela os brandos costumes escondem o desespero de viver, as infindas cortesias mascaram as raivas subjacentes, a hipocrisia leva a melhor sobre a franqueza.

sábado, setembro 8

Perdigueiros

Na minha vida nunca tinha havido muito lugar para animais domésticos, e a simpatia por eles pouco mais longe ia do que, quando o testemunhava, protegê-los da crueldade alheia.
Uma única vez estive a ponto de trazer de Óbidos um cão que, tão desesperamente ladrava agarrado ao carro, e saltava para o capot para que não o abandonasse, que parecia alma de gente a pedir ajuda. As pessoas que ali estavam aconselharam que o ignorasse e, antes que pudesse evitá-lo, correram-no à pedrada.
Semanas depois, arrependido de o ter abandonado, e traumatizado pelo modo do animal, voltei a Óbidos, mas não consegui encontrá-lo.
Oito anos atrás Iannis entrou no meu viver. Ainda cachorro, esfomeado, coberto de pulgas, vadiava em Mykonos, quando teve a sorte de cruzar o caminho de uma alma caridosa que se apiedou do seu destino e o trouxe para Amsterdam.
Entretanto tornou-se um belo animal, sensível, carinhoso e alegre, com a particularidade de não compreender que, nestas paragens pacíficas, as lebres e os coelhos têm mais curiosidade que medo e, sem pressas, zombam da sua arte de caçador.
A bizarra e inexplicável coincidência, por minha vontade chamar-lhe-ia mistério, é que na infância fui “adoptado” por um cão perdigueiro que dia e noite me acompanhava. O de Óbidos era perdigueiro. Iannis é perdigueiro.

quarta-feira, setembro 5

Pranto

Sabia-o por vê-lo e incomodava-me sobremodo, as pessoas de idade que por um sofrimento pequenino, a ocasião de uma visita ou despedida, deixavam que os olhos se lhes marejassem.
Além de uma inconveniência, parecia-me ridículo, absurdo e, corando de vergonha recordava de, muitos anos atrás, ter chorado num cinema ao ver Limelight, de Chaplin.
Outras lágrimas, raras, já deixara cair, mas essas não tinham sido de pena ou dor, sim de raiva impotente. Chorão, eu? Jamais!
Era o que pensava, com aquela certeza sobranceira que a ignorância dá. Até que, sorrateiramente, a sentimentalidade se apoderou de mim, ou o passar do tempo enfraqueceu as comportas dos lacrimais.
Uma recordação, uma música, uma criança, um animal que sofre, dores da guerra, dores da fome e da miséria, tragédias, desastres da natureza, tudo isso me humedece os olhos.
Tento couraçar-me. Digo-me que a CNN manipula as imagens, que um filme ou o romance são ficção, que os repórters são parciais, mas pouco adianta. Hoje vêm-me as lágrimas por tudo e nada, até por saber que, para os mais novos, sou eu agora o ancião que os irrita com o seu inesperado pranto.

terça-feira, setembro 4

Miudezas (4)

Num passado não muito distante só em circunstâncias excepcionais se via um filme baseado na história de pessoa ainda viva. Com a biografia acontecia o mesmo, e de poucos personagens se terá então espiolhado a vida antes de se saberem mortos e enterrados.
Actualmente vai-se a passo acelerado. Porque se tornou desmesurada a curiosidade pública, ou porque o comércio não tem tempo nem paciência, só ganância, há estrelinhas de vinte anos a autobiografar-se, detalhando os altos e baixos do seu passado.
Vende? Não há argumentos contra, só a favor.

Isto são provavelmente medos atávicos, ou ataques de pessimismo doentio. Aquela parte de mim que quer correr riscos, agir, participar, é sempre travada pela outra, a guardiã da memória dos desaires e das aflições impressas nos genes que recebi dos antepassados.
Assim me tornei exemplar no querer, mas sempre com receio de realizar, mais fértil em sonhos do que em iniciativas, a admirar os que são diferentes e uma vez por outra a dizer-me que se fosse mais novo...
Mas sei que me iludo, que me dou desculpas de mau pagador.

Em boa parte devido à carga genética, depois com o ambiente da criação, a escola e sabe Deus que mais, a partir de certa altura o carácter está formado e, a menos de milagre ou acontecimento de sérias consequências, não há forma de o mudar.
À força de paciência, alguma introspecção e trambolhões frequentes, ainda se pode ter a ideia de que nos conhecemos um pouco, mas na verdade as frestas desse suposto saber são bem mais estreitas do que os buracos negros da ignorância que temos de nós próprios.
Assim sendo, não adianta quebrar a cabeça a tentar a impossível mudança do que somos, mais vale divertirmo-nos a fingir o gostaríamos de ser.

domingo, setembro 2

O empreiteiro

Arranjar empreiteiro é bico-de-obra, pois pelos jeitos todos têm trabalho em demasia e fazem-se rogados. Mobilizando amizades como para negócio de vulto, consigo que venha cá o senhor Almeida, homem competente e que dizem comedido nas percentagens. Dele assegura-me um vizinho em forma de recomendação: - É dos poucos que se contenta com ganhar só cinquenta por cento.
Chega o senhor Almeida. Homem na meia idade, andar cambado, barba de profeta, cigarro no beiço. Dá uma volta pela casa, olha as paredes, olha o tecto, sai a inspeccionar o telhado, dá um pontapé à entrada, arranca com as unhas bocados de cal que a seguir esboroa, faz caretas, chupa o cigarro, vai para lá, vem para cá.
Aquilo é ar e vento, avaliação pró-forma, frete que faz ao amigo que insistiu para que viesse. Finalmente pára junto de mim, arrepanha a boca num trejeito de desdém:
- Só deitando abaixo. Compor não adianta.
- Mas...
E ele, desinteressado da minha tentativa:
- Deitar abaixo. Fazer novo.
- Mas não acha que...
- Não acho.
Encolho os ombros, ele acena um gesto de despedida, mas detém-se e sorri:
- Disseram-me que o senhor escreve livros.
- Escrevo.
- Sabe qual é a minha alcunha?
- Não faço ideia.
- De nome sou Manuel Almeida, mas todos me chamam “O Granadas”. Sabe por quê?’
- Diga lá.
- É que na Guiné, quando entrávamos no mato e eu ouvia um barulho, não estava com meias medidas: atirava uma granada e os pretinhos iam pelos ares. Tenho a certeza que com a minha vida e o que lá vi se fazia um romance. Até era capaz de dar prà televisão.

sábado, setembro 1

Miudezas (3)

Julguei que nunca me aconteceria, mas perdi-me nos becos de Alfama e não atino com o Largo do Vigário.
Um homem ensina-me o caminho com paciência. Sigo por onde ele mandou. De súbito oiço-o atrás de mim a gritar que se tinha enganado, que não era por onde tinha dito.
Nervoso, fazendo grandes gestos, exagerando as desculpas, à medida que explica por onde devo ir toca-me os braços, o peito, os ombros, puxa-me pela manga, as lapelas, e com um aceno desaparece numa travessa.
Envergonho-me de ter desconfiado do seu entusiasmo, mas é facto que apalpei o bolso a certificar-me de que ainda tinha a carteira.

Preciso de envelopes grandes e entro numa papelaria da Rua do Ouro. A empregada retira uns quantos de vários tamanhos e por gestos, como se falasse a um surdo-mudo, vai apontado com o dedo, para que eu indique o que quero.
Aquilo é absurdo e, meio encavacado, pergunto-lhe se fala português, ou se por acaso compreendeu mal o que lhe pedi.
Ela encara-me confusa e dá uma curiosa explicação:
- O senhor deve ter falado, mas nem reparei, acho que me distraí por causa do seu saco.
- Do saco?
- Sim. Os estrangeiros é que têm sacos desses, e eu com eles só falo por gestos.

É uma benção, a alegria que continuo a sentir quando leio prosa daquela em que, aliados, o sentido e a forma atingem quase a perfeição.
Releio-a fascinado e revivo encantos de criança, a maravilha da descoberta. Renova-se em mim a admiração pelos que se mostram capazes de, através da sua escrita, realizarem o milagre de deixar entrever mundos estranhos, belezas desconhecidas, as tortuosas e insuspeitas funduras do coração e da alma.
E não sinto inveja, nem o desejo de poder ser como eles: basta-me o contentamento e a certeza que me dão de que o que há de elevado no mundo e na existência transcende o mau, o podre, o feio e a banalidade dos dias.