sexta-feira, agosto 31

Despedida

Vou abrir a porta da casa. Hesito, transtornado, a respiração a falhar, cortada pela certeza de que será a última vez.
A partir deste momento o passado vai-se esfumar, as recordações perderão a moldura que as tornava reais, nunca mais poderei apontar onde nos sentávamos à mesa, o lugar das camas, o da escrivaninha, a lareira, os buracos na parede da cozinha onde se espetavam as varas com o fumeiro.
Restarão algumas histórias soltas, a do avô que a construiu, a dos que na sua singeleza a julgavam um palácio, dos que aqui viveram e sofreram, dos terríveis anos em que minha mãe se enterrou viva na sua solidão.
Guardarei também a lembrança dalgumas alegrias. Poucas e singelas, mas genuínas, os momentos de desafogo, quando as ameaças do mundo e do viver pareciam suspensas.
As imagens que me pertencem surgem confusas, em turbilhão, são as duma vida inteira. Vejo-me defronte da mesma porta, mas noutros momentos e noutras idades, ora feliz, mas também desesperado do mundo e de mim próprio.
A chave roda na fechadura com um som diferente e empurro a porta, mas falta-me o ânimo. Forço-me a entrar. Espreito, sinto-me criança, amedronta-me o eco dos próprios passos. Além do recheio, a casa parece ter-se esvaziado de algo mais, da vida que lhe pertencia e da minha própria, tornando-se sinistra, com um relento de corpo moribundo.
Avanço a passos cautelosos, olho em redor, mas de facto tento esquecer o que vejo. Vou duma janela para a outra, e sem me dar conta saio às arrecuas, talvez a maneira inconsciente e simbólica de eliminar a recordação de que estive ali, de que fui testemunha do irremediável vazio que eu próprio causei.

quinta-feira, agosto 30

Vaidade

Para alguém como ele o espelho de nada adianta, porque o ego só lhe deixa ver a imagem que criou de si próprio.
Alto, magro, grisalho, sessentão, veste com mais cuidado que bom gosto. Camisas de seda, gravatas de seda. Os sapatos rebri­lham. Um barbeiro capaz esponta-lhe semanal­mente a cabelei­ra. Audemars Piguet com pulseira de ouro maciço. No pulso direito um amuleto mexica­no. Usa as unhas longas, cortadas em bico e, num gesto de coqueteria antiga, bate na do polegar o cigarro, que depois enfia na boquil­ha de marfim.
À sexta-feira, ao fim da tarde, visita regularmente o mesmo bar. Só bebe Laphroaig. O seu sonho secreto é de um dia vir a ser ministro, e quando fala de política vê-se-lhe nos olhos um curioso brilho.
Caminha pausada­mente de cabeça erguida e um ligeiro gingar de nádegas que, fosse ele uma anciã, passaria por sensual. Aliás, examinado em detalhe ou tomado em conjunto, todo o seu ser é feminil: a finura da pele, o olhar, os gestos, a boca franzida num esboço de sorri­so, o tom de voz, o modo como ouve, uma certa falsidade, o veneno do carácter.
- Levando em conta o meu modo de ser e as coisas que acho realmente interessantes, se tivesse de me definir - diz ele, convicto da sua objectividade - creio que no fundo sou mesmo o que se costuma chamar a man's man.

terça-feira, agosto 28

Carviçais

O nosso amigo Fernando Sanches começou de pequenino a tocar na banda de Carviçais que, fundada em 1896, é das mais antigas de Trás-os-Montes.
No Exército fez carreira na música, foi subindo de posto, chegou a dirigente, reformaram-no coronel. E como quem paga uma dívida de gratidão, ensina o solfejo aos principiantes, apura os músicos experientes, dirige a banda com talento, nas festas aprecia-se o seu aprumo de militar.
O convite de assistirmos a um ensaio já ele no-lo tinha feito umas quantas vezes, mas por preguiça ou desleixo sempre tínhamos adiado. Na véspera da nossa partida, talvez porque a noite quente e enluarada convidava ao passeio, fomos a Carviçais.
Do povo que enchia a praça não se ouvia um murmúrio, todos enfeitiçados pelas melodias que vinham da casa da música, então ainda fronteira à igreja, as janelas abertas de par em par.
Arranjámos lugar no muro do adro, e durante o tempo em que a banda tocou, talvez duas horas, esquecemo-nos de nós próprios e do que nos rodeava. Felizes, tomados de emoção, incapazes duma palavra.
Mais tarde, em casa, como que envergonhados do nosso sentir, só soubemos dizer que tinha sido lindo.

Cortesia

Sempre se mostrou cortês e atencioso, mas na sua febre de manter contactos, de marcar encontros, de andar ao corrente do importante e do trivial, por vezes tem uns pequenos deslizes. Nada de sério, antes cómico, e se alguém lhe chamasse a atenção por certo coraria, de receio que o não considerem exemplar no trato social.
Desde há tempos, ou porque os meios de comunicação fizeram aumentar de forma extraordinária o número das suas relações, ou porque com a idade e a sobrecarga a memória lhe começa a falhar, noto na sua cortesia um curioso automatismo.
No mesmo espírito com que no século passado se afirmava: les petits cadeaux entretiennent l’amitié, uma ou duas vezes por mês manda-me ele um e-mail. Ora a chamar a atenção para um livro ou para um acontecimento, a informar-me de uma viagem, uma descoberta da ciência, às vezes a sugerir que não deixe de ver este e aquele programa.
As suas comunicações já surpreendiam pela constância, mas o estranho é que nos últimos meses as termina com a mesma frase duma artificial curiosidade: “O que é que andas a escrever?”
Da primeira vez ainda lhe respondi. Depois, quando deixei de fazê-lo, surpreendeu-me que não reagisse. Agora tenho quase a certeza de que é o computador que, em datas programadas, debita as expressões da sua cortesia.

segunda-feira, agosto 27

Algarves

Tempos atrás dois ingleses de meia idade, com a aparência de quem sabe ler e escrever, deixaram-me literalmente de boca aberta, ao confessar que julgavam que o Algarve, onde passavam as férias, fosse um país. De Portugal tinham ouvido falar (“Port wine, of course”), mas não faziam ideia onde ficava.

Festa de aniversário em Amsterdam. Dizem ao senhor que sou português e ele entusiasma-se com o ter-me ali, pois há anos que vai de férias a Portugal.
Ó que lindo país! Ó que gente simpática, carinhosa! E aquelas ondas do oceano! O vinho! O peixe! As praias sem fim! O sol a brilhar sem falha!
A dar-lhe tempo que respire, pergunto em que região passa as férias. No sul? No norte?
Não faz ideia, mas que espere um instantinho, a mulher sabe.
Ela diz que é no Algarve. E eu, a fingir um interesse que não sinto, pergunto em que sítio do Algarve.
Ambos o ignoram, mas há anos que vão para lá, uma aldeia linda à beira-mar. A agência de viagens é que trata de tudo.

domingo, agosto 26

Tomem nota:


Carice van Houten (1976), holandesa, actriz, descendente de Sir Walter Scott e Gustav Mahler. No filme Valkyrie (2008) de Bryan Singer (The Usual Suspects, X2, Superman Returns) contracena com Tom Cruise.
(Clique para ampliar)

Miudezas (2)

Não é para estragar a boa disposição domingueira de ninguém, e muitos devem sabê-lo, mas para mim foi novidade: em certos produtos lácteos destinados a regularizar o funcionamento dos intestinos, as bactérias que neles se encontram são literalmente recolhidas dos excrementos de pessoas saudáveis.
Tudo bem. Concorre para a saúde, alivia a prisão de ventre, pára a diarreia, deve fazer bem a outras partes, mas a mim a ideia de engolir aquilo já basta para anojar. É o mesmo que saber que a água que se bebe, embora purificada e filtrada provém dos esgotos, ou recordar que as enguias de preferência se alimentam de cadáveres.

Talvez porque a natureza me fez um tanto desleixado, casos destes estimulam simultaneamente em mim o riso e o aborrecimento.
É facto que, posto nas minhas mãos, o orçamento doméstico ou o do país resultaria em falência imediata. Mas os contabilistas - o mesmo se dá com outras profissões e credos - ganhariam em ser menos precisos e menos fundamentalistas.
Uma instituição com quem tenho contas manda-me três grandes envelope. Em cada um deles oito folhas de papel (Ah! Quanto nos aflige o desaparecimento das florestas tropicais!) para comunicar que me são restituídos 21 cêntimos, mas que retêm 35 cêntimos, pelo que tenho de devolver 14 cêntimos, quantia que inclui 1 cêntimo (um!) de custos de administração.

O aparelho mede a tensão arterial e calcula as pulsações, mas quem me garante a sua exactidão? E que significam os números que aparecem no mostrador? Eles variam ao acaso das emoções, da pressa com que subo as escadas, da irritação que me causa uma conversa.
Reconfortante é o apaziguamento do médico, que me diz que tudo está bem.
- Para a sua idade - acrescenta ele.
Para a minha idade? Mas então como é? Está tudo mesmo bem, ou assim assim?
Temendo os prognósticos que não quero ouvir, despeço-me e saio apressado, o coração aos saltos.

quinta-feira, agosto 23

A pintora

Pinta com talento. Quadros povoados de figuras trágicas que se retorcem nas angústi­as do viver, figuras deforma­das pelo terror de pressentir o sem-destino dos caminhos por onde todos vamos.
As cores que usa possuem fulgores que miste­riosamente revelam o íntimo das nossas inquie­tações. No modo como trata as formas há qualquer coisa que é, ao mesmo tempo, harmonioso e ameaçador, uma espécie de memento dos ritmos a que obedece a tur­bulência da vida.
Pinta com talento, com alma, a paixão que marca o verdadeiro artista, aquele para quem só a sua arte conta e todo o resto é secundário. Também, como verdadeiro artista, ela pinta em solidão, quase em clausura.
Mas como tantas vezes acontece, o mesmo destino que assim a beneficiou, encheu-a de um orgulho desmedi­do, maléfico como o veneno. Os quadros vão-se amontoando no seu atelier. De vez em quando expõe-os numa galeria, numa escola, numa dessas fábricas ou igrejas vazias que o utilitarismo transformou em centros cultu­rais.
Mas expõe-os a contra­gosto, e infeliz, porque a fábrica abandonada, a escola, a galeria, não lhe satisfa­zem o sonho. Sonho louco que exige que o mundo não reconheça outro talento além do seu e, incon­di­cional­mente, só a ela admire.

terça-feira, agosto 21

Um vinho de comer

Quem mo apresentou bem podia ter avisado que o sujeito era maçador, mas não há remédio, tenho de o aturar.
Primeiro vem a história dos seus anos no conservatório de Lisboa, depois no de Bordéus. Uma riqueza de minúcias que inclui as notas que teve nos vários instrumentos que estudou, o apreço dos colegas e professores, os inúmeros concursos onde infelizmente nunca teve um primeiro prémio, se bem que não lhe faltem menções honrosas. Dessas e diplomas tem uma parede cheia que gostaria de me mostrar, bem assim como uma partitura assinada por Pablo Casals. Eu certamente já ouvi falar no Pablo Casals.
Vamos na segunda hora do nosso encontro quando ele muda da música para o panegírico do pai, a quem, com propósito ou sem ele, lamuriosamente se refere, exclamando: “O meu querido pai que, para minha infelicidade, morreu tão cedo.”
Da primeira vez atento na frase porque a acho descabida, à quinta ou sexta tenho a certeza que estou na presença dum tarado, tanto mais que ele ao dizê-la revira os olhos para o ar. Agora insiste que o acompanhe a casa, não só para ver a parede dos diplomas e das menções honrosas, mas porque tem lá um vinho inacreditável, “um vinho que é mesmo de comer.”
Agradeço, sorrio, fica para outra vez, faço menção de me levantar. Essa era a ideia, mas arregalam-se-lhe os olhos e, como uma tenaz, a sua mão agarra-me com uma violência que não deixa dúvidas: é louco! Portanto, nada de cortesias e aparências: um aceno, e viro-lhe as costas, esforçando-me por ocultar o meu desvairo e não sair dali a correr.

segunda-feira, agosto 20

O Tejo

Dizem-me que o Tejo morreu de súbito na semana passada. Eu gostava do Tejo.
Cão pastor, imponente no tamanho, postura nobre, passou anos fechado numa gaiola em que mal podia dar três passos. Soltavam-no ao cair da noite para que guardasse a cerca, e ele corria e ladrava até que ao romper da manhã voltavam a fechá-lo. Ao ver um dia a porta mal fechada, empurrou-a, soltou-se, e com a raiva que tinha acumulado matou vinte e tantas galinhas. Castigaram-no às correadas, “para que aprendesse.”
Tinha um olhar triste. Dava a impressão de agradecer quando alguém o afagava por entre as grades, e vinha então encostar-se a elas, pedindo mais carinho. Deve ter morrido de desgosto pela sorte que lhe coube.
O dono procurou outro. Os amigos encontraram-lhe um que pelo tamanho e o modo lembra o Tejo, mas pressentindo o que o esperava, quando o quiseram meter na gaiola, rosnou, ladrou, mordeu e conseguiu escapar.
Ofereceram dez euros a quem o agarrasse. O rapaz encontrou-o no monte, engodou-o com um naco de carne, quase que o matou às pauladas, prendeu-lhe as patas com uma corda e atirou-o desfalecido para dentro da carrinha.
Fecharam-no na jaula que foi do Tejo. Soltam-no à noite para que guarde e que ladre. A sua presença mete medo, mas não ladra nem corre. A noite inteira caminha em passos lentos em torno da cerca. De manhã não precisam de o chamar, porque o encontram já deitado na sua prisão.
Não será surpresa se um dia destes me disserem que também morreu de repente.

domingo, agosto 19

O escritor

Ganhou nome logo desde os primeiros escritos e, por razões de política, amizades e simpatias, tornou-se figura emblemática da literatura da oposição.
Pessoalmente correspondia a um certo retrato do escritor boémio, noctívago, forte nos copos, brilhante no chalacear, com relações por todo o lado.
Cada livro seu era acolhido em certos círculos como um acontecimento de importância invulgar, e embora nem o interesse do público nem as vendas correspondessem à expectativa, ao longo dos anos tornou-se personagem importante.
A franqueza manda dizer que nunca apreciei o seu estilo, nem os temas que tratava. Ao avesso da opinião corrente, tãopouco descobri nos seus livros daquelas centelhas que denunciam, senão o génio, pelo menos um grande talento. A sua prosa surgia-me corriqueira, os diálogos artificiais, os personagens anémicos, os seus símbolos de uma dolorosa simplicidade.
No correr dos anos, por intermédio de amigos comuns, encontrámo-nos duas vezes - uma terceira não conta, porque apenas trocámos um distraído “Está bom?" - não simpatizámos, e de ambas guardo recordações desagradáveis.
Não fazia dúvida que o homem era inteligente, narrava com verve, e possuía uma excepcional capacidade de se manter no centro da atenção. Mas se o interrompiam, logo o seu rosto parecia esvaziar-se do entusiasmo e, impaciente, puxava fumaças ao cigarro até reganhar a vez.
À mesa era companheiro jovial, só que o vinho e o uísque de pronto lhe faziam perder a bonomia, transformando-o num personagem intratável.
Em ambos os nossos encontros estávamos na companhia doutros, e de ambas as vezes me despedi antes do tempo, temendo que o seu modo se tornasse mais penoso do que o que já era.
Faleceu. Foi um nunca acabar de odes e panegíricos, ditirambos, coroas de louro. Como frequentemente acontece, julgando talvez que ao fazer-lhe honra partilhariam da fama, os admiradores prestaram um mau serviço ao homem e à sua obra, afirmando que com ele desaparecera “um dos maiores, senão o maior escritor do século.”

sábado, agosto 18

Lotaria

O meu apreço por provérbios é reduzido, mas este - 'Quem pensa não casa, quem casa não pensa.' - desencadeia umas quantas reflexões.
Com a actual liberdade de costumes, a queda de tabus, e a desvalorização de certas regras sociais, o matrimónio não necessita de ser a cadeia que foi, e por vezes é. Mas mesmo no melhor dos casos, uma simples estatística o confirmará, a união de duas pessoas apresenta um tal nível de risco que o bom senso a desaconselharia.
As perspectivas do reverso, todavia, são igualmente desanimadoras. Mais do que nunca, a situação de solteiro oferece hoje tantos lados aprazíveis, que mal se acredita que alguém a queira trocar por uma vida a dois. Contudo, passada a fugidia juventude, além de que se põe mais agudo o problema da solidão, começa a desfilar o cortejo das ocasiões perdidas, das possibilidades desprezadas, dos erros e dos enganos, das faltas de coragem. E muito forte terá de ser quem, dobrado o cabo dos quarenta, descobre à sua volta o vazio e não se atemoriza com a visão de um futuro a sós.
Isto, porém, são apenas especulações numa madrugada sombria, pois cada caso é único, cada caso pode fugir à regra. De modo que a conclusão mais sensata talvez seja a clássica, a de comparar o casamento à lotaria: alguns bilhetes têm prémio, outros a terminação, e a maioria sai em branco.

quarta-feira, agosto 15

Tempo quente

O casal conhecíamo-lo há uns meses, aquele género de pessoas educadas, com um verniz de cultura, as ideias e maneiras correntes na burguesia endinheirada. Ele era notário, ela ocupava uma posição mais honorífica que profissional num qualquer instituto que tinha a ver com arte e subsídios.
Vieram para jantar e a surpresa deu-se logo à entrada. Embora ainda sem exagero, ele deixara crescer o cabelo, usava agora uns óculo diminutos e, em vez do vestuário costumeiro - fato escuro de cheviote, camisa branca, gravata de seda - vinha de hawaiana, jeans, e umas sandálias abertas donde saíam, grossos e calejados, os dedos dos pés.
Ela, que sempre víramos de deux-pièces, lenço Hermès e tacão alto, vestia uma túnica informe, colorida, de decote fundo. Nos braços nus usava umas pulseiras aparentemente feitas de bolotas. Os brincos eram umas florzinhas. Segurava o que eu supus ser um alforge, de cânhamo grosseiro e desenhos de misteriosa geometria que, disse, comprara em Cuernavaca a um índio tlahuica. As sandálias, como as do marido, eram mexicanas e iguais às dos campesinos.
Provavelmente esperavam o nosso espanto, porque logo explicaram que só se vestiam assim nos fins-de-semana. Mas era engraçado, não era? Brincadeira inocente. Se bem que devêssemos concordar que havia muito a aprender com a juventude. Para nossa vergonha, essa seguia um caminho diferente, progressista, zombando das convenções e dos valores tradicionais, alegremente disposta a demolir o carunchoso edifício social.
Comemos em paz, se bem que vindas de tal gente as afirmações causassem um certo embaraço. Diziam aquilo a sério? Éramos nós irremediáveis botas-de-elástico?
A conversa prosseguiu no mesmo tom, mas em certo momento reparei que, pelo vinho ou confusão das ideias, o notário sorria esquisito e enredava-se na fala, deitando em redor um olho concuspicente.
A mulher, que tinha o desagradável hábito de comer e fumar em simultâneo, essa afastara a cadeira da mesa, cruzara as pernas e, queixando-se do calor, arregaçara a túnica bem acima das coxas. Voluntário ou não, a cada movimento os seios nus debruçavam-se-lhe no decote, e ela, ora os recolhia com um sorriso maroto, ora dava a impressão de que, pendurados, lhe não pertenciam.
Devido talvez a que a discordância das opiniões nos travasse o entusiasmo ou a vontade de reagir, a sobremesa passou-se num silêncio quebrado apenas pelos costumeiros resmungos de satisfação. Mas bebido o café, saboreado o primeiro golo de conhaque, o homem pareceu endireitar-se, pôs uma expressão séria e, sem mais nem menos, quis saber o que pensávamos da troca de pares.
Além de caber na assustadora concepção holandesa de que há virtude em ser-se directo, e debitar sem freio o que nos passa pela cabeça, depois das piscadelas, das alusões brejeiras, e aqueles seios que iam e vinham, a pergunta não era de todo inesperada. Mesmo assim fez-me engolir em seco, se bem que consegui sorrir e encolher os ombros, no íntimo a perguntar-me se, sem ferir susceptibilidades, seria possível conciliar a hospitalidade com a ironia.
Daquele embaraço salvou-me o hóspede que, do mesmo modo abrupto em que tinha entrado no assunto, igualmente lhe pôs fim. Não com palavras ou explicações, mas baixando os olhos e, um pouco depois, quando o seu mutismo começava a tornar-se penoso, com a observação de que o tempo andava excepcionalmente quente.

terça-feira, agosto 14

Alfa

Albert, holandês civilizado, conta o caso sem humor, mas de um modo que dá a ideia de que eu, por ser português, também partilho a culpa.
Na sua presença mantenho a compostura, mas quando se vai as lágrimas correm-me dos olhos. Esforço-me por acalmar, e de cada vez o riso rebenta, incontrolável.
Tempos atrás, em viagem de negócios, tinha ido de Lisboa para o Porto no Alfa. Fim da tarde de sexta-feira, a primeira classe cheia, ele a regozijar-se de ter reservado lugar na fila dos assentos individuais, em vez da outra, com os assentos em grupos de quatro.
Embora insuficiente, o português que fala permitiu-lhe compreender que a maioria dos passageiros eram advogados e juízes que viajavam juntos, mas não pôde precisar se teriam participado num julgamento ou num congresso. Irrequietos, iam dum lado para o outro lado, formavam grupos que discutiam em grande agitação.
No lado oposto da coxia o passageiro era visivelmente figura de monta, pois os lugares à sua volta permaneciam desocupados, e os poucos que lhe vinham falar faziam-no com reverência, baixando a voz. A certo momento aproximou-se do personagem um indivíduo que seria menos importante, contudo o suficiente para que o primeiro se levantasse a recebê-lo, ficando ambos em pé na coxia.
Pela excitação com que trocavam argumentos, e os solavancos do comboio, o traseiro do visitante por vezes quase que tocava o rosto do meu amigo que, incomodado, se desviava a evitar o contacto.
Aquilo já durara tempo demais, mas pelos vistos continuaria assim, pois nenhum dos juristas se dava conta do incómodo. Quando um abalo mais forte o desequilibrou e o homem quase lhe caiu no regaço, decidiu que bastava. Decorou a frase adequada, tomou fôlego, e ia chamar a atenção do sujeito tocando-lhe na perna.
A tentativa falhou, porque novo solavanco o fez afastar-se, mas o traseiro voltava agora à posição anterior e Albert estava de dedo em riste. Preparava-se para lhe tocar quando o homem, insensível ao que fazia, libertou a sua flatulência com uma incrível peidorrada.
Coberto pelos ruídos do comboio, o estralejar só o ouviu ele que, em simultâneo, recebeu em cheio na cara os sopros e o fedor.
Desesperado, deu um empurrão ao homem e fugiu dali, enquanto o outro, surpreso, lhe chamava bruto.

segunda-feira, agosto 13

Cenas de Lisboa - Primavera de 2005 (3)

Subo o Chiado ao fim da tarde, exausto das caminhadas que dei e, em busca de sossego, passo de largo o bulício dos cafés que abarrotam de gente, vou-me sentar na pequena esplanada junto ao Teatro de São Carlos. Calma e escondida, neste momento o lugar ideal.
Peço cerveja e cerro os olhos, com a esperança de sacudir de mim a canseira. Volto a abri-los porque alguém pergunta se a cadeira ao meu lado está livre.
A julgar pelas rugas a anciã deve andar pelos noventa. Do vestuário aos anéis e colares, dos sapatos à bengala com castão de prata, tudo nela denuncia a abastança e destoa com o incrível penteado.
Se fosse jovem julgá-la-ia punk, mas naquela idade inclino-me para a hipótese do desastre. Ao pintar os cabelos qualquer coisa deve ter falhado porque, entremeadas nas madeixas artificialmente pretas, aparecem farripas desiguais, umas verde-escuro, outras amareladas.
Para que não julgue que a observo, entretenho-me com a fachada do teatro e a casa onde Pessoa nasceu, até que ela me toca ligeiramente no braço, a avisar de que o meu copo, perto da borda, pode cair.
Sorrio agradecido, e a senhora, aproveitando a deixa, atira-me o clássico “Tenho a impressão de que o conheço.” Respondo que é improvável, porque vivo longe. Ela quer saber onde é esse longe. E já agora, não sendo indiscrição, se por acaso sou parente do doutor Cunhal. Não o Cunhal do PCP, mas o neurologista.
Aceno a negar e a senhora diz que tem o pressentimento de que sou médico. Não sou? Julgava. Advogado, talvez? Conheço por acaso o doutor Pimenta, o que tem escritório naquele prédio novo ao pé do São Jorge? A mulher dele, a Cininha... Não! Não! É Tucha. Enganei-me! É a Tucha dos Macedo Abreu, aquela gente das antiguidades. Um primo deles...
Ó meu Deus! Doem-me os pés e as pernas dos quilómetros que palmilhei. Dói-me a cabeça. O calor é demais. Apetecia-me ficar aqui num descanso de horas, mas a impertinência da anciã obriga-me a fugir.
Bem sei, ninguém precisa de me explicar que deve sofrer da solidão, e pouco custaria o ser caridoso. Mas de momento, neste estado de espírito e de corpo, tudo me é fardo.

sábado, agosto 11

Bibliófilos

Uma afirmação distraída, e sem querer se magoa uma sensibilidade. Ela, que é bibliófila, no sentido de gostar de livros raros e caros, abespinha-se porque lhe digo que não me interessam as raridades, nem as primeiras edições, nem os livros anotados pelo autor. Que entre o volume corrente e a edição em marroquim vermelho, eu prefiro o primeiro. Que me interessa o conteúdo, não a embalagem.
Com estes e outros exemplos a nossa conversa azeda-se, e para não nos zangarmos deixamos o assunto. Bem compreendo que a bibliofilia pode ser paixão, e é comércio, e que há bibliófilos genuinamente interessados no que lêem. Mas que posso eu fazer contra o meu, também muito genuíno e total, desinteresse pelo livro raridade, pelo livro de valioso exemplar único?

Ainda a propósito de bibliófilos: este compra o Jornal de Letras desde o primeiro número. Guarda cuidadosamente os exemplares, mas sem os ler nem folhear - “Para que não se estraguem.” - e manda-os encadernar em volumes de couro com letras douradas.
Visitá-lo implica ter de admirar essas e outras bizarrias bibliofílicas, que em estantes e armários decoram as vastas paredes da sua casa. E ninguém se atreva a dizer-lhe que, mau grado o luxo do décor, aquilo lembra um armazém de bufarinheiro.

quarta-feira, agosto 8

Um galho

São daqueles casos que, embora fatais, despertam um sentimento de ridículo: ao fim e ao cabo é indigno que uma vida termine subitamente devido a uma escorregadela na banheira, uma queda na escada, ou que dum tropeção resulte a paralisia total.
Isto, porém, não são conclusões de vítima, mas a ironia fácil que me permito, passado o susto que tive esta manhã.
O parque é bem tratado, agradável para um passeio, vasto bastante para nele se ter por vezes a gostosa impressão de que se caminha só. Tem um lago de quilómetros. Muitas das suas árvores ganharam a imponência e a altura que lhes dão os quase cem anos de idade.
Caminhava eu, pois, gozando a calma do dia, a romper soalheiro e sem vento, pensando na benesse que é ter saúde e paz de espírito.
Os cães brincavam. No canal, paralelo à vereda, uns quantos cisnes iam em fila indiana, dignos e silenciosos, a fazer constraste com as garças que, na copa das árvores, grasnavam a reconstruir os seus ninhos.
Subitamente sinto uma mocada que me atordoa e quase atira ao chão. A dor é suportável, mas demoro a recompor-me. Olho em volta, descubro o galho que, ao cair, não fez ruído que eu ouvisse. Tem uns dois metros de comprido e uma grossura que às mãos ambas não abarco. Apanhou-me de raspão na nuca e o meu destino deve ter-se decidido numa fracção de segundo.
Com menos sorte estava agora na morgue e, ao saber como eu tinha falecido, talvez ocorresse a alguém que vida nenhuma merece terminar de maneira tão ridícula e banal.

O Volvo

São pequeninas coisas no modo, mas reveladoras do íntimo. Ele nunca dirá uma frase corrente como, por exemplo, tirei o carro da garagem. É sempre: tirei o Volvo da garagem. Ou que vai lavar o Volvo, mudar o óleo ao Volvo, dizer à mulher que lhe traga o Volvo.
Pergunto-lhe se o Volvo está bom de saúde. No seu infantil orgulho nem se dá conta de que zombo.

Na vida consegui realizar algo daquilo que de todo o coração desejei, mas nenhum bookmaker teria aceite apostas sobre as probabilidades de me tornar escritor. Eu tãopouco teria apostado em mim próprio.

É curioso como o vocabulário de certas pessoas se modifica depois de terem consultado o médico, e resulta numa fala esquisita. Ao ouvi-las não sabe a gente se fazem aquilo para impressionar, ou a modo de quem saboreia palavras mais pelo som do que pelo sentido. Debitam então vocábulos soantes e falam de viroses, de polisinusites, de acropatia, litíase, perturbações hormonais...

Com as suas névoas, Fernando Pessoa não é poeta por quem eu delire. Aproxima-nos, contudo, o profundo sentimento da melancolia que ele tão bem exprime. Aquela melancolia à portuguesa, cheia de insatisfações e insondáveis dores, de paradoxos, desejos contraditórios de fugir e ao mesmo tempo ficar, o todo envolto em colossal apatia.

segunda-feira, agosto 6

Bóia de salvação

Não sou como sou, nem como me quero, nem como me julgo. Sou talvez como os outros me vêem. Um eu que desconheço.

Estou quase certo que já antes o escrevi, mas não há mal em repeti-lo: falador nunca fui, e cada vez gosto menos de falar. Afectado pela certeza de que nunca por inteiro digo o que quereria dizer, travado pela sensibilidade, pelo respeito que os outros me merecem, pelas boas maneiras, por uma aversão inata às situações de conflito.
Assim, o modo mais sincero e mais harmonioso de me exprimir continua a ser a escrita. A minha porta de saída para o isolamento. A narrativa como bóia de salvação.

Falta-me a vontade de querer saber o que os outros pensam de mim. Ou como me julgam. Aos louvores sou alérgico, nas chamadas críticas sinceras não acredito, e encolho os ombros quando um ou outro afirma conhecer-me bem.
Pretensão estulta, essa, pois ando há uma vida a estudar-me e não consigo descobrir quem são os estranhos de que sou feito.

Houve um sustozito, mas a árvore das patacas cresce de novo nas Bolsas em redor do mundo. Fazem-se fortunas astronómicas de manhã para a tarde, tudo se conta em milhões, em milhares de milhões. Mas, como sempre na ordem das coisas, é provável que um dia destes o movimento se faça em sentido contrário, e as fortunas tão facilmente ganhas se evaporem com igual facilidade.
Para compreender esse vaivém é que eu gostaria de ter estudado Economia, porque na simplicidade do meu pensamento de leigo nunca se me torna claro donde vêm as fortunas que alguns ganham, nem para onde vão as fortunas dos que perdem.

domingo, agosto 5

"Camel toe"

Ignorava que tivesse nome, e como fenómeno natural sempre o tinha achado deselegante, de certo modo até obsceno.
Por uma conversa entre duas desconhecidas, ouvida ontem numa esplanada, fiquei a saber que é moda, talvez no próximo Verão seja já tão corrente como as tatuagens e os piercings. Consegue-se avantajá-lo com injecções de Botox. Victoria Beckham, dezenas de stars e dezenas de topmodels todas o fizeram, basta vê-las de biquíni.
As desconhecidas gargalhavam, folheavam uma revista, de vez em quando repetiam o nome que, de tão bizarro, facilmente memorizei.
Em casa Google informou-me do que eu ainda não sabia sobre Camel toe.

sábado, agosto 4

"Uma preta de Angola"

A carta chegou dias atrás, longa de seis páginas, bem escrita, daquelas que dá gosto ler. Reli-a hoje com o curioso sentimento de que, tivesse eu menos anos e menos experiência da vida, em vez da piedade que sinto, o desabafo do meu amigo sobre os seus medos seria capaz de me tornar sarcástico.
Na vida teve mais altos e baixos do que o comum dos mortais. Filho de gente rica pôde gozar a vida e, ainda jovem, tornou-se figura nacional. Mais tarde, com as mudanças da política, ora estava no topo, ora caía em desgraça. Os seus amores foram de pouca dura. Ganhou fortunas e perdeu-as ou gastou-as. Os filhos só lhe deram dissabores. Divorciou-se da mulher depois de muitos anos de calvário comum.
Agora, ao fim dos setenta, embora material e socialmente se encontre de novo no topo, o seu medo é a solidão. Junto com esse, porque o corpo se vai mostrando mau servidor, ganhou o medo de se tornar dependente, de que num futuro próximo tenham de o vestir, lavar, meter-lhe a comida na boca, sabe Deus que mais.
Para de certo modo se precaver contra a tragédia que o ameaça, conta que mandou vir "uma preta de Angola". Pérola rara. Certificada pelos amigos que lha arranjaram, a mulher, além de robusta, sabe ler e escrever, e de facto mostra-se carinhosa, dedicada, honesta, competente nas lides domésticas. Vivia sozinha em Luanda, em Portugal não tem família nem amigos e, nos cinquenta, "já não deve ter muito apetite para a coisa.”
Tudo positivo, mas ele ainda se inquieta, pois nada garante que a mulher continue ao seu serviço se um dia arranjar uma relação, ou patrões que lhe paguem melhor.
"Por isso - escreve - fiz de modo a que o visto que lhe deram seja temporário, e disse-lho. Fica avisada, se um dia me deixar, no dia seguinte vai recambiada para a África".

quinta-feira, agosto 2

A obrigação da Europa para com os portugueses

Em 1984 festejaram-se os cento e vinte e cinco anos de Max Havelaar, o famoso romance de Multatuli. A revista literária holandesa De Gids solicitou então a cento e vinte e cinco autores que tratassem outros tantos dos temas que Multatuli noutra obra sua tinha abordado. Coube-me escrever sobre A obrigação da Europa para com os portugueses.
Agora que alguns sugerem que a Espanha nos anexe, e outros alvitram que talvez seja melhor entregarmo-nos antes que ela, como da outra vez, nos compre e depois nos invada, este velho texto não é achega para discussões sérias: intenta apenas aborrecer os patrioteiros e piscar o olho ao profeta Saramago.


A OBRIGAÇÃO DA EUROPA PARA COM OS PORTUGUESES [i]


Nos últimos vinte e cinco anos a história de Portugal regista, como acontecimentos mais importantes, o fim do império colonial, a queda do regime fascista e o restabelecimento da ordem democrática.
Se bem que, à primeira vista, a restauração das liberdades e dos direitos se possa considerar um benefício, os três acontecimentos citados contribuem para fortalecer no observador perspicaz a certeza de que na história dos países pobres se repetem, ampliadas, as desgraças que afligem as famílias em penúria.
A obtenção repentina de um bem pode, em ambos os casos, dar origem a desequilíbrios tais que, passada a euforia e a surpresa, se anseia com desespero o retorno dos males antigos. Vistos à distância, e comparados com os malefícios do momento presente, sempre aqueles parecem de menor porte, mais suportáveis, arrepende-se a gente da ingenuidade com que lutou contra eles.
A partir do momento em que. nos fins do século XVI, termina a grande aventura dos Descobrimentos, a história de Portugal caracteriza-se, sobretudo, pelo seu aspecto regressivo. Enquanto que a generalidade dos países progride, e alguns, mais infelizes, param, o excêntrico Portugal recua.
A Holanda acelera os estudos da biotecnologia. Na Inglaterra pode dizer-se que literalmente chovem computadores nas escolas. Os franceses já pagam com a smart card. O Lesotho e as Maldivas incrementam o turismo e a prostituição. Taiwan, Singapura, a Coreia do Sul estão na ponta do progresso industrial. A Albânia excede-se a demonstrar a viabilidade da sua ortodoxia política. O Paquistão prepara a bomba...
No meio deste concerto de nações que se mexem, avançam, ou que por teimosia ou infelicidade são obrigadas a parar, a minha pátria dá ao mundo o espectáculo extraordinário e único de um país a caminho do passado.

Tendo por fontes de receita quase exclusivas o dinheiro que lhe mandam os seus emigrantes, e os empréstimos que de má-vontade lhe vão sendo concedidos, Portugal, se fosse pessoa, já há muito teria sido condenado à falência.
Essa dependência da generosidade dos seus filhos e da paciência dos seus banqueiros, aliada às consequências de uma mentalidade que dos antigos colonizadores - fenícios, gregos, romanos, visigodos, árabes e ingleses - apenas guardou aquilo que eles lhe deixaram de pior, tem por consequência um formidável desleixo, um descalabro sem igual. A sua corrupção torna mínima a do Paraguai. A incompetência dos que o governam ultrapassa a que se atribui aos políticos nas comédias. Nas suas cidades e aldeias descobre-se uma miséria que não destoaria no Bangladesh.

Agora que na CEE[ii] se delibera sobre a maneira de permitir ao pobre Portugal sentar-se a um canto da mesa dos países ricos - não para comer com eles, evidentemente, apenas para que as migalhas que lhe derem evitem que a sua falência e morte possam vir a ser vergonhosamente repentinas - eu gostaria de recordar, e na medida do possível actualizar, uma solução radical proposta internacionalmente em fins do século XIX para resolver os males, já então crónicos, do meu país.
Claro que, como acontece com a maioria das soluções radicais, se terá de fechar os olhos a um ou outro ponto da moral vigente. Isso, porém, não será de molde a sobressaltar ninguém, habituados que estamos a que a moral, como o dinheiro e outras certezas antigas, se desgastem com o tempo.
A solução que proponho, vantajosa para todos os que nela participarem, resume-se na venda pura e simples de Portugal a um consórcio de nações ricas, evitando-se assim o espectáculo de um país que, vivendo de esmolas, só tem como futuro o espaço de tempo que a esmola lhe concede.
Evitam também as nações ricas o incómodo que causa o terem de abrir a porta ao velho fidalgo colonial que, de mão estendida, pede que lhe acudam à miséria.
Fosse menor o volume das suas dívidas, poderia pensar-se em recorrer a um desses árabes que, ricos em petróleo e ouro, discutem pouco e pagam a contado. Mas é evidente que não se pode tratar aqui de iniciativa particular, pois um país, com o seu território, os seus cidadãos, a sua história, sempre tem outra importância que a compra dum camelo num oásis.
Soluções novas, pouco correntes, levam necessariamente à utilização de métodos inéditos. É por essa razão que eu, sem possuir quaisquer outras qualificações que a de ser português e, por conseguinte, directamente interessado, me atrevo à sugestão que segue.

Em primeiro lugar devem os banqueiros e políticos estrangeiros decidir sobre o montante a pagar, o qual, recomendo, não deve exceder o valor dos débitos a solver.
Evite-se a todo o custo que quantias em líquido ou cheques descontáveis passem, mesmo por um instante, pelas mãos dos políticos, pois logo eles as farão desaparecer a caminho das contas numeradas e dos fundos secretos.
Resolvido esse preliminar, as nações compradoras mandarão construir um muro sólido ao longo da fronteira terrestre. Aqui e além, onde hoje, por exemplo, passam as principais estradas, será aberto um certo número de portões, guardados severamente por uma polícia europeia. As entradas e saídas deverão ser totalmente proibidas durante um período de, digamos, cinco anos.
Uma força naval, também europeia, poderosa e veloz, manterá do lado do mar a mesma vigilância rigorosa, não permitindo mais que a navegação de barcos de pesca a remos ou vela até à distância máxima de duas milhas da costa. Cada infracção será punida com a pena de morte. Igualmente será proibido todo e qualquer intercâmbio com Portugal, mesmo o dos rádioamadores ou dos columbófilos.
Ao cabo de cinco anos o desgaste e o desleixo, aliados à tendência nacional de ir a passos largos para o passado, ter-se-ão encarregado de destruir, ou pelo menos de danificar de modo irremediável, a maioria dos vestígios da modernidade.
O número de veículos diminuirá drasticamente. Os aviões, proibidos, aliás, de levantar voo, enferrujarão nos aeroportos. Dos comboios só funcionarão aqueles cuja solidez resiste ao tempo e à incúria, tais como os que ainda hoje fazem a linha do Sabor, com locomotivas de 1904[iii] e carruagens do mesmo ano.
A fome, o desespero, a doença, a tristeza e a velhice, que nas circunstâncias actuais são causas de morte lenta, verão aumentada a sua eficácia, e a população, que anda agora pelos nove milhões, cairá para três ou quatro.
A inexistência de adubos, aliada à falta de máquinas, fará retrogradar a lavoura a um bucolismo bíblico. E não somente nas aldeias, mas mesmo nas ruas de Lisboa, hão-de ver-se mulheres a fiar lã e homens agasalhados em peles de animais.
Haverá rebanhos a pastar nos jardins públicos. Os amoladores, os aguadeiros, os ferradores, as lavadeiras e os almocreves, todas essas profissões antigas terão a sua renascença, e a substituir a defunta televisão far-se-ão representações de saltimbancos.
A água dos rios e ribeiros ganhará a limpidez original e, sem cair no ridículo, os poetas de novo poderão compará-la com a clareza dos olhos da mulher amada. Ou vice-versa.
Nas casas brilharão as candeias de azeite e as velas de cera de abelha. Para os transportes recorrer-se-á à segurança pachorrenta do carro de bois. Os soldados e os amanuenses terão, como antigamente, de lutar à mão e de escrever à mão, do que resultará um desânimo ainda mais acentuado para ambas as classes.
As universidades serão encerradas, pondo-se termo a certas profissões como a de médico ou engenheiro, encorajando-se o retorno das mulheres de virtude, dos endireitas e dos ervanários.
A existência do dinheiro será proibida, e a posse de qualquer forma de valores, ouro, prata ou semelhantes, punida com o enforcamento em público. Os cidadãos viverão numa economia de troca, somente aplicável aos artigos de alimentação e vestuário.
As sedes dos bancos serão transformadas em catedrais, e as suas agências em igrejas ou capelas, consoante o tamanho, havendo nelas serviços religiosos permanentes, durante os quais se pedirá ao Altíssimo o regresso dos tempos em que em Portugal havia mouros, bruxas, a peste negra e um pássaro com cara de gente e pés de cabra.

Bem pensado, talvez cinco anos seja um prazo demasiado curto. Suponhamos dez. Durante esse tempo Portugal não custou um centavo, nem fez dívidas. Se não participou no concerto das nações, também não importunou ninguém com pedidos de esmolas e de empréstimos.
O muro a fechar as suas fronteiras e a marinha a isolar as suas costas, a proibição de intercâmbios ou contactos, e a apatia nacional, terão entretanto contribuído para que, finalmente, o país se ache em condições de se tornar um investimento lucrativo para o consórcio que o tiver comprado.
As nações compradoras, eventualmente assistidas pelos organismos internacionais que cuidam da manutenção dos monumentos, poderão fundar um instituto cujo fim será o de organizar excursões ao velho Portugal.
Os autocarros e os comboios não serão autorizados a atravessar o muro, sendo os viajantes transferidos na fronteira para carros de bois que, lentamente, ao som dos chocalhos e das rodas a chiar, os levarão por montes e aldeias, dando-lhes assim uma oportunidade educacional e recreativa única.
A esses turistas não somente será possível confrontar in vivo o passado, como ao mesmo tempo lhes fará entrar no corpo e na alma um medo salutar. Ao fim de cada jornada os guias reunirão os participantes nos adros das igrejas e, no decurso de uma refeição medieval, explicarão as causas que levaram à venda de Portugal.
À noite, deitados sobre faixas de palha, esses cidadãos ressentirão o calafrio que toma os ricos, quando repentinamente enfrentam a pobreza. E certamente regressarão aos seus países mais contentes, mais felizes, mais dóceis.

Resumindo: a obrigação da Europa para com os portugueses é, pois, seguir o exemplo do que fizeram os Estados Unidos com os índios e o Kénia com os animais, e fechar-nos numa reserva. Para benefício comum e para evitar que, deixados a nós próprios, acabemos por desaparecer.
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[i] Publicado em tradução holandesa na revista De Gids, nr 8/9, Amsterdam, Agosto de 1984.
[ii] Communauté Économique Europénne.
[iii] A linha do Sabor foi desactivada em 1988.

Jeito

Sou capaz de abrir um furo, apertar um parafuso e, de tempos a tempos, vejo-me obrigado a mudar um pneu, torcer um arame, desentupir um cano. Mas na realidade tenho uma funda antipatia pelo trabalho manual, o que provavelmente deriva do meu pouco jeito. É como se, depois de programar o meu cérebro para a dextra, o Criador me tenha fornecido duas mãos canhotas. Seria doloroso enumerar exemplos da minha falta de habilidade, para aflição já chega a lembrança dos momentos em que, atónito, enfrento uma tábua pregada ao contrário, uma gaveta que desencaixei e não consigo repor no bom sítio, um plástico que mesmo uma criança colaria liso, mas comigo fica cheio de rugas e de bolhas. Desta falta de destreza resulta um compreensível fascínio pelas lojas de ferramentas, sobretudo aquelas onde se podem comprar os materiais e a aparelhagem para, dos alicerces ao telhado, construir uma casa. Indo de prateleira para prateleira, a imensa variedade de produtos e máquinas põe-me extático. Paro a admirar as lixadeiras, os berbequins, os pincéis, as bisnagas de cola, as latas de tinta, as dezenas de astuciosos aparelhos que, uns com o mínimo de esforço, outros automaticamente, garantem realizar em minutos as tarefas que doutra forma levariam dias. À medida que avanço o êxtase transmuda-se em paranóia: máquina, aparelho, instrumento ou material em que pego, dá-me primeiro a ilusão, e em seguida convence-me de que, ao usá-los, curarei em definitivo a minha falta de destreza. Como um alcoolista que, para melhor saborear, vira e revira a garrafa, demorando o primeiro gole, assim examino eu os catálogos, a convencer-me, acenando que não há dúvida, tudo é fácil. Qual falta de jeito? Com uma máquina destas o trabalho sai uma perfeição. É o que se lê em letras gordas, garantido preto no branco. Quem duvidar repare nas fotografias. A fase seguinte é a avaliação dos modelos. Nem o mais simples, que deve ser para principiantes, o que não me considero, nem coisa de profissional, pois se deve ter consciência das próprias limitações. Escolho o modelo intermédio. Com a embalagem debaixo do braço e o ar sobranceiro de quem, antes de decidir, pesou cuidadosamente prós e contras, caminho para a caixa. Em casa, mais depressa do que surgiu, o feitiço começa a desfazer-se. Espalhadas pelo chão, as peças perdem o ar pacífico que tinham quando as tirei da embalagem. Umas ferem-me os dedos, outras recusam ser enroscadas onde pertencem. Há as que não condizem com as instruções do manual, e as que não adivinho para que servem. Se por acaso se deixa montar, a máquina, ou não funciona, ou então dá estalos, começa a deitar cheiros de coisa queimada e fumos de mau agouro. Passadas horas de decepções e esforços sem fruto, o cansaço pode mais. Atiro aquilo à trouxe-mouxe para dentro da caixa, levo a caixa para os arrumos, digo-me que um dia destes, com vagar, tentarei de novo. Assim tenho eu uma meia dúzia de berbequins que, segundo as instruções, furam desde a madeira de balsa ao cimento armado; três serras eléctricas; dois aparelhos de soldagem; um aparelho de lavagem a alta pressão; dois bancos com tornos para madeira e para metal; uma caixa com apetrechos de canalizador, duas de ferramentas de carpinteiro e outras duas com material de electricista; um carregador de baterias; plainas, lixadeiras horizontais e curvas, agrafadores de linóleo e contraplacado... Para que me serve toda essa maquinaria? Para sonhar o jeito que nunca tive, não tenho e jamais terei.

quarta-feira, agosto 1

"Os homens de sessenta!"

Sempre à terça, quase sempre ao fim da tarde. Se o telefone então toca a probabilidade maior é que seja ele.
Primeiro a informar-se cortesmente do estado da minha saúde, mas, despachado o intróito, desfia o rosário dos seus contratempos, arrelias e aflições. O índice da Bolsa voltou a baixar, irrita-o a vizinha, zangou-se com o irmão, perdeu a fé na política, nos restaurantes não se come como antigamente, os preços continuam a subir...
Desta vez surpreendeu-me. Por não se queixar como de costume, e por soltar uma frase que, em minha opinião, nada tinha a ver com a nossa conversa.
- Hoje quem detém o poder somos nós, os homens de sessenta!
Disse aquilo de súbito, acrescentando num tom ainda mais fogoso:
-Somos nós!
Não reagi, ele não explicou, mas como não tem sessenta anos, nem nasceu em sessenta, pergunto-me o que se lhe terá metido na cabeça.