sexta-feira, julho 27

Mar de Sargaços

Um diário pressupõe que nele se anotem as peripécias do dia-a-dia. Mas como, se a maioria dos meus dias é de rotina que peripécia nenhuma perturba? Escrever sobre os melros e os corvos, que no parque fronteiro são praga? Divagar sobre as garças, imóveis na borda do canal, à espera do peixe que demora a vir? Especular com dissabor sobre as ilusões perdidas?
Provavelmente terei de aceitar que sou impenitente no hábito de esbanjar tempo. Vivendo e raciocinando em círculos. Obrigado a reconhecer que, sem conserto, aguardo que aconteça amanhã o que não se deu hoje. Que continuo à espera que me cheguem de fora os estímulos que no meu íntimo faltam.
É penoso dizê-lo, mas verdadeiro, que há momentos em que a névoa do espírito se me torna tão densa que me vejo a desejar um drama, um desastre, pouco importa que sacudidela brusca. Algo que me agite ou transforme, como acontece aos que têm visões e se convertem a uma religião, a uma política, aos que num assomo se desfazem de bens e laços e vão bater à porta dos conventos, ou se metem a caminho da Patagónia.

Fascinado pelo seu mistério, sempre tenho tentado esmerar-me no uso da linguagem escrita. Eufonia, ritmo, diversidade do vocabulário, em cada frase procuro conseguir uma harmonia que infelizmente (ou felizmente?) não se estuda em manuais, não tem regras fixas, e em boa parte depende do estado de espírito.
De modo que uma frase com rimas, que num momento me perturbam e penso em riscar, é muito capaz de no momento seguinte me parecer conseguida e até original.
Hesitando, medindo, repetindo, umas vezes a tirar, outras vezes a repor, assim vou compondo com lentidões de caracol. No intuito de dar o melhor de mim próprio e, na medida do possível, contribuir para manter as qualidades e a beleza da língua-mãe, a qual, por razões que nem sempre entendo, continua a ser a âncora a que me agarro no Mar de Sargaços do meu espírito.

Iannis (Mykonos 1999-)

A pedido de várias famílias

segunda-feira, julho 23

Mentiras

Tenho eu a ideia, quiçá incorrecta, de que a porção de intimidade que se desvenda num diário não deve ultrapassar a que se revela numa conversa entre amigos. Fazer estendal do privado parece-me sinal de fraco gosto e duvidosas maneiras, e embora possa decorrer daí um atractivo para o bisbilhoteiro, creio que bom número de pessoas prefere não chafurdar na lama alheia.
Num ângulo diferente se põe o problema da ficção. Quem lê um diário espera, e eu concordo, que o escrito corresponda fielmente ao acontecido. Ora como na minha, e na maioria das vidas, prevalece a rotina e são nela raros os momentos interessantes, não tenho outro remédio senão procurar dentro de mim próprio aquilo que de fora não recebo. Todavia, como a introspecção facilmente desagua em enfado, perguntei-me se haveria mal em salpicar o relato dum ou doutro dia com acontecimentos fictícios.
Para o leitor seria mais divertido, para mim mais variado, e até mais fácil. A falar verdade já o tentei, e surpreendeu-me o fraco resultado da experiência. Com provas dadas de ser capaz de inventar uma história, ou, quando é preciso, de fazer entorses à verdade, não consegui colorir com ficção a banalidade dos meus dias.
Pergunto-me por que será assim, mas nenhuma resposta me satisfaz. Resta a hipótese de que talvez me seja mais fácil mentir aos outros do que a mim próprio.

sábado, julho 21

O poeta

Ao longo dos anos que nos conhecemos, uns quarenta, vi-o transformar-se de bardo gentil, apaixonado, sequioso de emoções, num dispéptico chavão da arte, cuidadoso no polir da sua imagem.
Preocupação avassaladora: marcar presença em manifestações e festividades. Júri de concurso de poesia sem ele é impensável. Júri em que não participe põe-o de cama. Já o vi na televisão em júris de misses, em programas de canções folclóricas, de culinária, a explicar os imbróglios dos Balcãs e o progresso económico da China.
No dia-a-dia é burocrata. Pessoalmente, um torturado. Na juventude, por razões que se compreendem, escondia a sua homossexualidade. Mas mais tarde, quando pôde assumi-la, continuou encoberto, o amante que tem há dezenas de anos obrigado a viver noutra casa, proibido de o acompanhar a cerimónias. Isso mau grado o “grande amor” cantado em odes e sonetos.
Faz tempo foi informado de que por altura dos festejos do lançamento da edição integral dos seus poemas, seria interessante, valioso, publicar também a sua correspondência amorosa.
Fora o destinatário ninguém a tinha lido, mas dado o modo como esse se lhe referia, e uma ou outra citação do “Mestre”, corria à boca pequena de que era obra-prima da epistolografia erótica.
Todavia, ou arrependido dos seus arrebatamentos, ou porque temeu pela qualidade da prosa, uma tarde foi em segredo à casa do amante, roubou-lhe as cartas, e lançou-as ao lume.
Dias atrás vi a sua fotografia no jornal. Escaveirado. Envelhecido. A calva circundada por guedelhas esfiapadas a cair-lhe sobre os ombros. O olhar febril do egocêntrico sempre esfomeado de atenção.

terça-feira, julho 17

Fingimento

Dez ou onze anos atrás aceitei escrever a introdução a um catálogo que incluía os trabalhos de quase uma vintena de fotógrafos. Lembro-me de ter visto as fotografias antes de serem expostas, e que algumas me agradaram, outras achei-as medíocres, mas ao fim e ao cabo nada daquilo era brilhante ou revolucionário.
A exposição destinava-se sobretudo a encorajar o talento dos jovens que nela participavam, e uma exposição que se preza exige catálogo.
Dentro desse contexto escrevi então umas quantas páginas simpáticas, mas com um certo acanhamento, pois os louvores que nelas dava não me tinham vindo do coração, só da cabeça, e com o correr do tempo esqueci-os, talvez porque me envergonhava deles.
Entretanto um desses jovens faleceu, e a família, querendo homenagear a sua memória, preparou uma pequena brochura com reproduções de alguns dos seus trabalhos. Recebi-a hoje e nela, surpreso, encontro as palavras que então escrevi. Palavras que não foram sentidas nem sinceras, e agora me apanham de ricochete, como se o defunto se vingasse do meu fingimento.

terça-feira, julho 10

Sugestão

Se por acaso às vezes se interroga sobre as razões de ser como é, de proceder como procede, e sente por isso ligeiros remorsos, dê-se esta excelente desculpa: “Better be a fake somebody, than a real nobody.”

Dúvidas

O senhor, um holandês que não conheci, veraneava sozinho no Algarve, teve um enfarte fatal, a família trouxe-o para a terra onde nasceu, e no enterro tocaram uns fados de Amália Rodrigues, favoritos do falecido.
Por razões que não me explicaram, a viúva quer saber o significado das palavras que Amália canta e, por intermédio de alguém que sempre me convence a fazer o que me desagrada, meto-me à tradução.
Pergunto-me, contudo, que dúvidas irão assaltar a senhora quando ler frases como estas: “Na espuma dos dias tu eras a luz do sol”, “O calor dos teus beijos na franja da minha vida”, “Abri-me desfalecida contra ti, sugada pelo desejo.”

sábado, julho 7

Questionário

O questionário vem duma revista literária e compõe-se de perguntas assim: Donde lhe vem a inspiração? Quais os temas que prefere tratar? Como escreve? Tem um lugar preferido para escrever?...
A minha pobre cabeça mói e remói ideias que não valem um chavo, para finalmente, exausta, pegar numa sem saber se é a pior ou a melhor. Será isso inspiração? Não me parece. Para os temas a mesma coisa. Como escrevo? Com um computador. Lugar preferido? Não. Devido ao acanhado espaço o computador está num canto, e é aí que tenho de me sentar.
Que esperam de mim? Manias? Comportamentos bizarros? Fetichismo?
Tudo o que se relaciona com a minha escrita é prosaico, trabalho de artífice, não conhece romantismo nem elevação. Por conseguinte, e para não desiludir ninguém, é melhor não preencher.