terça-feira, julho 31

A decadência da procissão

Profunda e radical me parece a decadência das procissões. Já raramente se assiste a uma igual às de há vinte anos ou trinta, quando os andores eram levados a ombro pelos atalhos da serra e os fiéis não hesitavam em segui-los de joelhos.
Porque os homens se negam a carregar grandes pesos, põem-se agora os santos em cima de tractores. O padre, esse raro vai a pé como antigamente, rezando sob o pálio. Porque para segurar um pálio são precisos seis ou oito homens fortes. E onde os há?
Como é uso moderno, testemunhei-o com alguma surpresa o Verão passado, o padre prefere montar um alto-falante no seu carro e, microfone numa mão, a outra a segurar o volante, vai ele guiando ao mesmo tempo que reza. Os devotos, que o seguem a pé, fazem o responso. Atrás dos devotos, os tractores com as imagens. Entre os tractores, os anjos. Mas anjos deste tempo, vestidos à trouxe-mouxe, a maioria sem asas, porque se queixam que elas são pesadas demais e ainda por cima magoam ou fazem cócegas.
Ladeiam-nos gladiadores da mesma idade, com nikes e espadas de lata. São Jorge, sem cavalo, arrasta um dragão de papel. Acompanha-o um São Lourenço, carregando uma miniatura da grelha em que no ano de 258 foi assado o mártir romano.
Sendo poucos os homens, e desses poucos raros os crentes, por vezes custa achar quem figure de Cristo. Então qualquer mulher serve, e lá vai ela à minha frente, coroa de espinhos na cabeça, cruz de papelão às costas, representando o Salvador a caminho do Calvário.
Repreendendo os gracejos, uma 'filha de Maria' faz saber que no 'exército do Senhor não se distinguem sexos. Somos todos iguais'.
Atrás do último tractor a banda toca marchas que casam mal com o andamento. Quase na cauda do cortejo a novidade mais ousada: majorettes. Numa procissão que se preze de moderna, e porque também é festa, não pode faltar o grupo de majorettes. Vi-as eu marchar indiferentes ao ritmo da música, de mini-saia, erguendo alto os joelhos, fazendo revirar os bastões, a saracotear as ancas. De tal modo, que o grupo de curiosos que fechava a marcha, parecia ter mais olhos para aquele show, ingenuamente erótico, que intenções devotas.
Chegado o préstito à capela, no alto do monte, o sacerdo­te desenlaçou-se do microfone, saíu do carro, ajeitou a sobrepeliz e encaminhou-se para dizer a missa e pregar. Segui­ram-no os figurantes da procissão, as viúvas, os velhos e os doentes. O resto espalhou-se por entre as árvor­es, abriu o cesto da merenda, ligou o rádio, comeu-lhe, bebeu-lhe, e dei­tou-se à sombra.
A banda atacou um último paso doble.
Jesus Cristo foi pousar a cruz contra o muro, arregaçou a saia e sentou-se a merendar com a família. Deram coca-cola aos anjos. As majorettes alinharam defronte dum senhor que lhes queria tirar o retrato. Com o esforço da digestão, o vinho e o calor, poucos tinham resistido ao sono, e eram tantos os corpos estendidos pelo terreiro que parecia uma hecatombe.
- Fé ainda vai havendo - disse-me o maestro, olhando em volta - mas por este andar a religião um dia acaba!

segunda-feira, julho 30

Uma orgiazita

É excêntrico, brincalhão, e há quem delire com o engenho das partidas que gosta de pregar. Como é pessoa de nome, aparece muito na televisão e tem talento na sua arte, os que as sofrem perdoam-lhe as practical jokes a que ele os expõe
Pessoalmente irritam-me os excêntricos. Suspeito neles um grau de infantilidade e de egocentrismo que excede o que consigo suportar, razão pela qual mantenho com o senhor um contacto o mais esporádico possível.
Não há dúvida, contudo, que as suas brincadeiras por vezes ajudam a revelar inesperadas fraquezas e conformismos. Assim se conta que há tempos convidou dois importantes políticos para jantar na sua quinta e, em segredo, os informou que seria uma ocasião especial. Poderiam recusar, mas a intenção era de iniciá-los como membros de uma pequena, mas muito exclusiva e poderosa seita.
No dia aprazado foram recebidos pelo anfitrião numa casa que lhes pareceu estranhamente deserta e silenciosa, até ao momento em que se abriram as portas da sala de jantar. Em redor duma mesa luxuosamente posta, esperavam homens e mulheres, dez ao todo, com as cabeças escondidas por máscaras, mas no resto totalmente nus.
Conta uma testemunha que os políticos não se mostraram surpresos, e quando o anfitrião lhes disse que teriam de se despir, eles o fizeram sem remoque. Também de bom modo puseram as suas máscaras. Obedeceram dóceis à ordem de que se colocassem com os outros de um só lado da mesa, onde iriam figurar num quadro vivo da Última Ceia.
A brincadeira terminou abruptamente, quando alguém se mostrou incapaz de por mais tempo conter o riso. Tiraram-se as máscaras. Não era seita nenhuma, só uma patuscada entre amigos. O banquete ia ser servido noutra sala, e já agora tinha chique e muita graça o comerem nus. Depois dançaram e houve uma orgiazita, mas sem excessos, devido à idade de alguns e porque outros tinham abusado da lagosta.

Miudezas (1)

Yestergays. O achado é do meu amigo Carlito Maia (1924-2002), genial publicitário brasileiro.
Ele dizia que seria o nome apropriado para um bar frequentado por velhos homossexuais.

Não me ralhem, não se zanguem, não franzam o sobrolho. Tudo isto vem da simplicidade do meu pensar e do céu sombrio desta manhã.
Tantos séculos de especulação teológica, e ter de concluir que, acerca de Deus, o mais arguto dos teólogos e o mais boçal dos humanos esbarram ambos na mesma pergunta sem resposta.

Oiço numa conferência: “O artista sente-se imbuído de espírito religioso, pois em quase todas as actividades criativas se detecta sempre qualquer coisa de puro, de transcendente.”
Além de que comigo tal não acontece, eu gostaria de saber a partir de que nível se detecta isso.

Leio que neste país, a Holanda, onde tudo é medido, pesado, contado e estatística, há para cima de um milhão de pessoas que sonha/quer ser escritor. Desse milhão e pico, mais de trezentas mil sentam-se regularmente a fabular, com a firme intenção de um dia verem os seus escritos em livro.
Sonho vão? Quem o poderá dizer? Em todo o caso mais de trezentas mil decepções.

Os engarrafamentos nas estradas são simbólicos do nosso viver em sociedade: estamos ali lado a lado, cada um na sua cápsula, sem mais contacto do que o olhar fugidio, mordidos pelo sentimento de que, não fossem os outros barrar-nos o caminho, poderíamos avançar.

domingo, julho 29

O admirador

Por carta, anunciando-se logo de entrada meu "grande admirador", o compatriota desconhecido apresenta-se como engenheiro, professor no secundário, casado, a começar os quarenta, pai de filhos.
Vive numa cidade do Minho e sempre gostou de escrever, mas fora o semanário local, onde anos atrás publicou um conto, ninguém lhe aceita os escritos. Daí o seu duplo pedido: que eu dê uma vista de olhos aos textos que manda junto (quarenta e duas páginas), que os corrija ou melhore onde me parecer necessário e, isso feito, o recomende a um editor.
A vista de olhos basta para me certificar de que aquilo é escritura de quem não nasceu para as letras e tem ideias bizarras sobre a sintaxe. Suponho-o também entusiasta do pior romantismo do séc. XIX, pois se repete em expressões como paixão ardente, beijos frenéticos, o arrebol dourado do fim da tarde, o pundonoroso galã, e outras igualmente chochas.
Que fazer? Uma resposta franca é falta de caridade. Encorajá-lo? De forma nenhuma. Esquecer o pedido? Não é elegante nem corajoso, mas talvez seja o melhor.
-------------------------
No caso do Diabo se intrometer e o homem passar por aqui, mudei os detalhes de modo a que ele se não reconheça. Talvez até se pergunte se há gente assim.

sexta-feira, julho 27

Rothschild

Ele tem aquele desagradável hábito de entremear o que diz com a menção de nomes, personagens e situações que, em geral, não vêm ao caso, mas lhe satisfazem uma vaidade patológica.
Estava há dias num café de Haia a conversar com A. quando entrou o ministro B., seu íntimo desde a infância. Num jantar em casa de C. debateu com o escritor D., candidato ao Nobel deste ano. O cirurgião E., sumidade da cardiologia e também íntimo, explicou-lhe que nas operações da aorta... A mulher de F., o conhecido banqueiro... G., o campião de ténis, com quem a filha joga aos domingos...
Encontrámo-nos por acaso e senti remorso pela minha maliciosa expectativa, pois passados os cumprimentos e as amabilidades, ele infalivelmente arranja maneira de lançar um nome soante.
- Sabes que o meu irmão casou?
- Não, não sabia.
- É verdade! Julgávamos que ia ficar solteirão e afinal!...
Faz a pausa que um actor usaria para criar suspense, esboça um sorriso, encara-me. Diz-me que tente, mas tem a certeza de que nunca serei capaz de adivinhar.
- ... Pois casou! Em Paris. Com uma Rothschild!
Da maneira como ele ao pronunciá-lo fita o céu, o nome parece elevar-se sobre as nossas cabeças e rebrilhar no alto com o intenso fulgor do ouro e da fama.
Outros detalhes não dá, nem eu lhos peço, a memória a recordar-me a imagem balofa do irmão, um arquitecto já nos cinquenta, conhecido sobretudo pela sua perícia no bilhar.
- E tu? Como vais?
A pergunta tira-me do devaneio, faço um gesto vago de assim-assim, e com mais duas ou três banalidades despedimo-nos.
Isto foi ontem de manhã. Horas depois o telefone toca, e o diabo travesso que tudo desconcerta mete-se de permeio. Frank voltou de Paris e quer que eu adivinhe o que lhe aconteceu no Deux Magots.
- Não faço ideia. Coisa má?
- Não! Encontrei o irmão do Peter, o arquitecto. Nunca me lembra o nome do gajo. O gordo. O das carambolas.
- Michael.
- Exactamente.
- Casou com uma Rothschild.
- Já sabias?
- O Peter contou-me.
Sufocado de riso, Frank engasga-se, só às sacudidelas consegue dizer:
- É Rothschild, é! Mas dos panos! Tem uma loja na rue Saint Lazare.

Mar de Sargaços

Um diário pressupõe que nele se anotem as peripécias do dia-a-dia. Mas como, se a maioria dos meus dias é de rotina que peripécia nenhuma perturba? Escrever sobre os melros e os corvos, que no parque fronteiro são praga? Divagar sobre as garças, imóveis na borda do canal, à espera do peixe que demora a vir? Especular com dissabor sobre as ilusões perdidas?
Provavelmente terei de aceitar que sou impenitente no hábito de esbanjar tempo. Vivendo e raciocinando em círculos. Obrigado a reconhecer que, sem conserto, aguardo que aconteça amanhã o que não se deu hoje. Que continuo à espera que me cheguem de fora os estímulos que no meu íntimo faltam.
É penoso dizê-lo, mas verdadeiro, que há momentos em que a névoa do espírito se me torna tão densa que me vejo a desejar um drama, um desastre, pouco importa que sacudidela brusca. Algo que me agite ou transforme, como acontece aos que têm visões e se convertem a uma religião, a uma política, aos que num assomo se desfazem de bens e laços e vão bater à porta dos conventos, ou se metem a caminho da Patagónia.

Fascinado pelo seu mistério, sempre tenho tentado esmerar-me no uso da linguagem escrita. Eufonia, ritmo, diversidade do vocabulário, em cada frase procuro conseguir uma harmonia que infelizmente (ou felizmente?) não se estuda em manuais, não tem regras fixas, e em boa parte depende do estado de espírito.
De modo que uma frase com rimas, que num momento me perturbam e penso em riscar, é muito capaz de no momento seguinte me parecer conseguida e até original.
Hesitando, medindo, repetindo, umas vezes a tirar, outras vezes a repor, assim vou compondo com lentidões de caracol. No intuito de dar o melhor de mim próprio e, na medida do possível, contribuir para manter as qualidades e a beleza da língua-mãe, a qual, por razões que nem sempre entendo, continua a ser a âncora a que me agarro no Mar de Sargaços do meu espírito.

Iannis (Mykonos 1999-)

A pedido de várias famílias

quinta-feira, julho 26

Visão

A primeira saída diária para o parque de Iannis, o nosso cachorro, faz-se por volta das seis da manhã.
Depois de uma noite de muita chuva o dia anuncia-se quente, de céu limpo, o sol está quase a despontar. Com o comportamento inconstante da juventude, Iannis insiste hoje em se afastar da rota costumeira e puxa-me para onde o terreno, deixado propositadamente em baldio, é um emaranhado de plantas e arbustos, de silvas, canaviais, de árvores cujos ramos crescem sobre os atalhos. Há por ali poças de água, pequenos pântanos, montículos a dar a ilusão de encostas, pontes rústicas e clareiras.
Talvez devido ao seu aspecto selvagem o lugar é pouco frequentado e a esta hora nunca lá encontrei ninguém. Hoje dá-se a excepção.

O homem deve viver perto, pois costumo vê-lo no supermercado e na estação do metro. De que é homossexual, não há dúvida. A sua presença chama a atenção pela estatura, que deve andar pelo metro e noventa, as boas proporções do corpo, uma certa beleza do rosto, viril e sereno, olhos azuis de brilho pouco comum.
Porém, mais do que o físico, nota-se-lhe o vestuário. Dos pés à cabeça veste sempre couro preto, de uma tão superior qualidade e feitura que parece assentar-lhe no corpo qual segunda pele. Uma calota do mesmo couro preto ajusta-se-lhe ao crâneo.
Em minha opinião apenas um detalhe perturba aquele esteticismo: o de se enfeitar com uma excessiva quantidade de chaves, correntes e argolas de metal cromado.

Iannis e eu paramos à borda do canavial que cresce à borda do pântano. Vejo-o erguer o focinho, desdenhando das galinholas, a farejar qualquer coisa que lhe interessa mais. Poucos metros adiante, erecto e num passo enérgico, o homem vai pelo atalho sem nos prestar atenção, levando à trela, disciplinado ou também indiferente, um enorme cão pastor alemão.
Reconheço-o pelo rosto e pela postura, não pelo traje. Deixou o habitual e, de botas altas rebrilhantes, boné com águia, condecorações, pingalim debaixo do braço, veste agora um impecável uniforme de oficial da Wehrmacht da Segunda Guerra Mundial.
Extraordinária visão neste lugar, a estas horas da manhã.

terça-feira, julho 24

Swiss-ídios

Deve ser do conhecimento de muitos, mas para mim foi novidade lê-lo no jornal holandês de Volkskrant. E porque perturba a noção bucólica que eu tinha da Suíça - montanhas, neve, lagos plácidos, rios de dinheiro - é melhor tocar já no caso, do que voltar a remoê-lo, como esta noite, na escuridão da insónia.
Juntamente com a Finlândia e as nações da antiga União Soviética, a monótona e bem arrumada Suíça encabeça no mundo inteiro o número de suicídios.
Nela, uma média anual de 1.500 desesperados acaba com a vida, quase o dobro do número das vítimas de acidentes de trânsito e abuso de droga, o qual ronda os 800.
O particular dessses suícídios é 40% deles serem cometidos com armas de fogo, e essas armas fazerem parte do incrível arsenal que o Estado oferece aos cidadãos. Sujeito que acaba a recruta leva a arma para casa, não vá o inimigo aparecer de repente, de modo que cerca de dois milhões e meio de pistolas, carabinas, metralhadores, se encontram, por assim dizer, à mão de semear dos sete milhões de almas.
Transtorno nos amores ou na cabeça, chatices da vida, desesperos, desenganos… o suíço só precisa de ir à cozinha e tirar de lá a Parabellum. Não está certo. Não devia ser tão fácil.

segunda-feira, julho 23

Mentiras

Tenho eu a ideia, quiçá incorrecta, de que a porção de intimidade que se desvenda num diário não deve ultrapassar a que se revela numa conversa entre amigos. Fazer estendal do privado parece-me sinal de fraco gosto e duvidosas maneiras, e embora possa decorrer daí um atractivo para o bisbilhoteiro, creio que bom número de pessoas prefere não chafurdar na lama alheia.
Num ângulo diferente se põe o problema da ficção. Quem lê um diário espera, e eu concordo, que o escrito corresponda fielmente ao acontecido. Ora como na minha, e na maioria das vidas, prevalece a rotina e são nela raros os momentos interessantes, não tenho outro remédio senão procurar dentro de mim próprio aquilo que de fora não recebo. Todavia, como a introspecção facilmente desagua em enfado, perguntei-me se haveria mal em salpicar o relato dum ou doutro dia com acontecimentos fictícios.
Para o leitor seria mais divertido, para mim mais variado, e até mais fácil. A falar verdade já o tentei, e surpreendeu-me o fraco resultado da experiência. Com provas dadas de ser capaz de inventar uma história, ou, quando é preciso, de fazer entorses à verdade, não consegui colorir com ficção a banalidade dos meus dias.
Pergunto-me por que será assim, mas nenhuma resposta me satisfaz. Resta a hipótese de que talvez me seja mais fácil mentir aos outros do que a mim próprio.

sábado, julho 21

Os melros

Para minha vergonha tenho de admitir que durante muito tempo julguei que o sofrimento dos animais me tocava menos do que o do meu semelhante.
Pelos vistos era isso ilusão que me dava, ou o resultado de algum mecanismo de autodefesa do subconsciente que, creio, vai fraquejando com o correr dos anos, pois hoje em dia o presenciar da dor do mais humilde dos bichos torna-se-me intolerável.
Na aldeia, entre gente insensibilizada por hábitos seculares de maus-tratos às bestas de carga e aos animais, domésticos ou selvagens, quando alguém desata aos pontapés a um cão ou às varadas a um burro, o remédio é fechar os olhos, fazer de surdo, e algumas vezes deitar a fugir.
Meter-me de permeio não seria aceite. Ninguém compreenderia a razão de semelhante atitude, e resultaria infalivelmente em me tornar objecto de ridículo, o que num meio pequeno tem consequências iguais às da antiga pena do ostracismo.
Forçado, pois, a aceitar a minha cobardia, evito quanto posso as situações peníveis e, usando de manhas, uma vez por outra consigo desviar a atenção dos carrascos (há-os de ambos os sexos) o tempo suficiente para que a vítima lhes escape ou eles, distraídos, esqueçam o tormento.
Mas a vida, com as suas infindas surpresas, apraz-se a provar a futilidade dos nossos esforços. E assim, quando um fim da tarde parei à porta do senhor Arnaldo para dois dedos de conversa, não vi mal em aceitar o convite que ele me fazia para, na sua sala, me mostrar “uma coisa muito linda” que lá tinha.
Entrámos. Sentei-me num aparatoso sofá coberto de plástico, a penumbra das persianas corridas mal deixando aperceber o que me rodeava.
Hospitaleiro, o meu anfitrião foi ao armário, tirou de lá a garrafa de porto e dois cálices. Encheu-os. Bebemos um gole, falámos do calor, do reumatismo, do descaso que nos hospitais se faz dos doentes, da sabedoria de há anos termos ambos deixado de fumar.
Bebemos outro gole. Falámos da pena que é os padeiros já não cozerem pão centeio, tão saboroso e bom para a saúde, e a tolice das pessoas que deixaram de plantar cebolas, couves, tomates e batatas, e vão comprá-las ao supermercado.
- Então, que coisa é que me queria mostrar? - perguntei eu, ao ver que a conversa se arrastava.
- Está na cozinha, já lha trago.
Levantou-se, praguejando baixinho contra as dores nas costas, e dali a nada voltou com uma caixa de madeira que teria dois palmos de comprido, outros tantos de largo, um e pouco de altura. Um único lado era coberto de rede fina.
Naquela enxovia, amontoados uns sobre os outros, a tremelicar, dando chilreios aflitos, os bicos desmesuradamente abertos na angústia do medo, da falta de espaço, e talvez também de sede e fome, amontoavam-se cinco pequenos melros que o senhor Arnaldo tirara dum ninho.
Ele achava graça à aflição dos pássaros, queria que eu olhasse. Eu, agoniado, desviava os olhos. Perguntei-lhe se não seria melhor deixá-los voar, e ele riu-se da tolice.
- Olhe que não voavam. E morriam logo.
Contou-me depois que andava com a ideia de lhes fazer outra gaiola, pois aquela era pequena demais e eles cresciam depressa. Mas por experiência que tinha doutros anos, às vezes acontecia que, como quase se não podiam mexer, os melros ficavam tolhidos.
- Sabe então o que lhes faço?
Eu não sabia, nem queria ouvir, mas o senhor Arnaldo continuava a fitar-me, sorridente, esperando a minha atenção.
- Chamo o gato e atiro-lhe um de cada vez. Como eles esvoaçam, ainda é mais engraçado do que com os ratos. Quer ver?
Abanei a cabeça. Sem exagerar o gesto, mas desejoso de fugir dali, numa inspiração de desespero levei as mãos ao peito. Ele quis saber se era do coração. Respondi-lhe que sim, de vez em quando sentia umas arritmias. Felizmente o médico tinha dito que não era grave.
- Ah! Os médicos! Se a gente se vai fiar neles!...
Levantei-me e caminhei para a porta com lentidões de doente. Os melros continuavam a chilrear apavorados. Bondoso, o senhor Arnaldo tomou-me o braço, recomendou cuidado com os degraus, sugeriu acompanhar-me até casa.
Agradeci, disse-lhe que não era preciso. E como se a ideia me ocorresse de momento, perguntei-lhe que tamanho ia ter a nova gaiola para os melros.
- Os melros? - o tom de surpresa e o franzir dos lábios a mostrar que já os tinha esquecido. - É que uma gaiola bem feita dá um trabalhão, sabe. E acho que não vale a pena. Eles estão ali há umas três semanas, com certeza nem se aguentam em pé. Amanhã ou depois atiro-os ao gato.

O poeta

Ao longo dos anos que nos conhecemos, uns quarenta, vi-o transformar-se de bardo gentil, apaixonado, sequioso de emoções, num dispéptico chavão da arte, cuidadoso no polir da sua imagem.
Preocupação avassaladora: marcar presença em manifestações e festividades. Júri de concurso de poesia sem ele é impensável. Júri em que não participe põe-o de cama. Já o vi na televisão em júris de misses, em programas de canções folclóricas, de culinária, a explicar os imbróglios dos Balcãs e o progresso económico da China.
No dia-a-dia é burocrata. Pessoalmente, um torturado. Na juventude, por razões que se compreendem, escondia a sua homossexualidade. Mas mais tarde, quando pôde assumi-la, continuou encoberto, o amante que tem há dezenas de anos obrigado a viver noutra casa, proibido de o acompanhar a cerimónias. Isso mau grado o “grande amor” cantado em odes e sonetos.
Faz tempo foi informado de que por altura dos festejos do lançamento da edição integral dos seus poemas, seria interessante, valioso, publicar também a sua correspondência amorosa.
Fora o destinatário ninguém a tinha lido, mas dado o modo como esse se lhe referia, e uma ou outra citação do “Mestre”, corria à boca pequena de que era obra-prima da epistolografia erótica.
Todavia, ou arrependido dos seus arrebatamentos, ou porque temeu pela qualidade da prosa, uma tarde foi em segredo à casa do amante, roubou-lhe as cartas, e lançou-as ao lume.
Dias atrás vi a sua fotografia no jornal. Escaveirado. Envelhecido. A calva circundada por guedelhas esfiapadas a cair-lhe sobre os ombros. O olhar febril do egocêntrico sempre esfomeado de atenção.

sexta-feira, julho 20

Dinâmica

No supermercado. Um garoto de quatro ou cinco anos bate nas canelas do pai com um guarda-chuva. A brincar ou a sério, o jovem burguês, vestido à moda, ar de pessoa instruída, dá gritinhos de dor.
Cada vez mais excitado, o puto aumenta a força das varadas. O pai tenta escapar-lhe, finge que lhe quer arrancar o guarda-chuva, finge que não consegue. Numa corridinha aproxima-se da mãe, igualmente vestida à moda, ar de pessoa instruída, e diz-lhe com um sorriso baboso:
- Estou admirado com a dinâmica do Frank.
A dinâmica!
O puto vem direito a mim guarda-chuva em riste, pronto a acertar, e antes que se atreva dou-lhe um empurrãozinho discreto, mas agarro-o pelo braço para que não caia:
- Foi sem querer! Coitadinho!
Afago-lhe os caracóis e ele nem se lembra de chorar, encara-me de boca aberta, talvez a perguntar-se se os anciãos também têm pai que lhes gabe a dinâmica.

quinta-feira, julho 19

Tu?

Os seus admiráveis olhos negros ainda exprimem paixão, mas quando a conheci, passada a meia idade, o rosto e o corpo tinham já sofrido o ataque conjunto dos anos, das frustações e dum humor azedo, e a gordura assentara nela de forma desigual: pouca no pescoço e nos ombros, alargava-se gradualmente para as pernas, dando-lhe o aspecto de pião invertido e um andar de palmípede.
Talvez para de certo modo compensar as condições do seu desagradável presente, perde-se a repetir os episódios da juventude, os homens conhecidos que a apeteceram, os homens conhecidos que a amaram, os escritores conhecidos de quem foi musa, os pintores conhecidos de quem foi modelo e amante, os políticos, os banqueiros, os aristocratas, os milionários...
Aos nomes e às peripécias infalivelmente sucede o elogio da beleza que perdeu, de como eles se extasiavam com a sua nudez, as exclamações que lhes fugiam ao desvendar-se tanta perfeição.
É patético, o ouvi-la torna-se cansativo, mas o seu contar predispõe à desculpa e, quase sem disso nos apercebermos, faz-nos cúmplices da sua melancolia.
A propósito de um poeta que a tinha amado, e recentemente faleceu, quis ela mostrar-me um álbum de fotografias desse tempo. Eram instantâneos a preto e branco de poses solenes, típicas dos anos cinquenta. O poeta a escrever os seus versos. O poeta na arcada do Terreiro do Paço, imitando a conhecida fotografia de Pessoa. O poeta a uma mesa de café, absorto no fumo do cigarro. O poeta num boulevard de Paris, em Roma, Assisi, Marrakech...
Chegava de poeta. Comecei a virar as páginas, desinteressado, até que uma fotografia em tamanho grande, visivelmente trabalho de profisisional, me deixou atónito:
- Que esplêndida rapariga!
- Sou eu.
- Não brinques! Tu?
Ela baixou a cabeça, quase em lágrimas. Sentindo-me corar, pousei o álbum aberto sobre a mesa, envergonhado do faux-pas e da minha involuntária rudez. A esplêndida criatura continuava a encarar-me e a sorrir, como se ouvisse a voz que no íntimo me injuriava:
- Os olhos, estúpido! Bastava reparar nos olhos!

quarta-feira, julho 18

Seios

Era inteligente, malicioso, dono de um apurado sentido de humor. Não tenho notícias dele há anos, e a minha esperança é que no cu de Judas para onde voluntariamente se exilou, a hipocondria e o álcool, que sempre consumiu em qualidades desastrosas, não tenham eliminado por inteiro as esplêndidas qualidades que lhe conheci.
Curiosamente, tinha a coragem de defender as suas ideias, nem sempre as mais correntes, mas no físico era um cobarde. Metia-se um amigo numa rixa, ele em vez de o ajudar deitava a fugir. Curiosamente também, inclinado como era para a companhia feminina, nunca casou nem viveu amores duradouros, contentando-se com one night stands.
Tive por ele genuína amizade, as nossas boas relações foram de décadas, dá-me pena nada saber da existência que leva.
Numa das últimas vezes que jantámos juntos achei-o sombrio, indisposto com as doenças de que julgava sofrer, e mal humorado com a estupidez do mundo. Na noite anterior tinha provavelmente vivido uma aventura que o deixara pensativo mas, brioso como sempre, não era homem para entrar em detalhes sobre a sua intimidade ou a das suas amantes. Se porventura queria revelar um detalhe ou situação, fazia-o de maneira indirecta, ou valendo-se por vezes de uma anedota.
Depois duma pausa na conversa, a criar a impressão de que se desligava do que tinha contado, disse ele como se aquilo lhe ocorresse de momento:
- Quando estou na cama com uma mulher e lhe acaricio os seios, se sinto qualquer coisa que parece um quisto, calo-me. Que o descubra ela ou outro.

terça-feira, julho 17

Fingimento

Dez ou onze anos atrás aceitei escrever a introdução a um catálogo que incluía os trabalhos de quase uma vintena de fotógrafos. Lembro-me de ter visto as fotografias antes de serem expostas, e que algumas me agradaram, outras achei-as medíocres, mas ao fim e ao cabo nada daquilo era brilhante ou revolucionário.
A exposição destinava-se sobretudo a encorajar o talento dos jovens que nela participavam, e uma exposição que se preza exige catálogo.
Dentro desse contexto escrevi então umas quantas páginas simpáticas, mas com um certo acanhamento, pois os louvores que nelas dava não me tinham vindo do coração, só da cabeça, e com o correr do tempo esqueci-os, talvez porque me envergonhava deles.
Entretanto um desses jovens faleceu, e a família, querendo homenagear a sua memória, preparou uma pequena brochura com reproduções de alguns dos seus trabalhos. Recebi-a hoje e nela, surpreso, encontro as palavras que então escrevi. Palavras que não foram sentidas nem sinceras, e agora me apanham de ricochete, como se o defunto se vingasse do meu fingimento.

segunda-feira, julho 16

Gramática

A gramática, corselete da língua, nunca teve a minha simpatia. Sigo-lhe as regras sem fanatismo, ponho-as de lado quando julgo que prejudicam o fluir ou a musicalidade duma frase, dum diálogo.
Ao folhear hoje um velho compêndio, tive a surpresa de descobrir que essa falta de simpatia safara por completo no meu cérebro noções e vocábulos que, no passado longínquo da universidade, me foram familiares.
Não se me abriu a boca de espanto, mas quase, ao dar conta de que já não sabia o que era o zeugma, o hipérbato, a anástrofe ou a sínquise. Do anacoluto ainda me lembrava, mas que mistério se esconderia atrás da silepse ou da anáfora?
Será possível escrever correctamente ignorando o que são os encontros consonantais inseparáveis, o contre-rejet, a semihomofonia vocálica, ou o emprego enfático do pronome oblíquo?
Tenho a certeza que sim. Ocorre-me, aliás, que não recordo obra-prima da literatura saída das mãos dum especialista da gramática. Haverá?

domingo, julho 15

Osmose

Não será preciso recorrer à estatística para provar que por toda a parte abundam as pessoas interessantes, os tipos curiosos. Assim, o mais provável é que se me tenha embotado a capacidade de observar, pois, ao contrário de antigamente, as pessoas que agora cruzam o meu caminho não provocam em mim o desejo de torná-las personagens.
Até há uns anos atrás, numa espécie de osmose, eu involuntariamente absorvia os tiques, os maneirismos e a mímica dos meus interlocutores, surpreendendo-me depois quando os via colar-se a um personagem da minha ficção. Mas pelo embotamento que acima refiro, ou desinteresse pelo meu semelhante, a verdade é que o criar de tipos me custa um esforço desproporcionado com o que dele resulta.
A consequência disso é ver-me há muito com dois romances inacabados, porque para nenhum deles consigo encontrar personagens secundários que me satisfaçam. O enredo assemelha-se-me interessante, os actores principais parecem, como se costuma dizer, “de carne e osso,” mas repetidamente esbarro na mediocridade dos figurantes que invento.
Um espírito malicioso sugerirá que deve ser falta de talento. Eu prefiro justificar-me com a falta de osmose.

sábado, julho 14

É a aparência

O Samuel, meu amigo há décadas, vive em Lisboa. Poeta hermético, admirado pela crítica, desconhecido do público, é também professor no secundário. Veste-se, tem o modo, a cabeleira e o ar boémio que lhe ficou dos anos sessenta. Com a mudança dos tempos assumiu a sua condição de homossexual, e finalmente passou a viver com o capitão a que antes chamava primo.
A casa fica a dois passos do regimento. Tempos atrás, precisando de falar com urgência ao amigo, e como este não atendia o telefone, Samuel saiu de casa tal como costuma estar quando a febre da criação o ataca: barba de quinze dias, olhos injectados do álcool e do tabaco, camisola rota, jeans esgarçados e com fundilhos, os pés metidos numas pantufas de que já não se distingue a cor nem o feitio.
O retrato pode parecer exagerado, mas foi assim que ele próprio se descreveu.
Chegado à porta do regimento, o sentinela encarou-o, perfilou-se na posição de sentido, e nem lhe deu tempo para dizer ao que ia. Estendendo energicamente o braço gritou-lhe:
- A sopa dos pobres é nas traseiras!

sexta-feira, julho 13

"Pulp Fiction"

Ela, entre os trinta e trinta e cinco. Casada, sem filhos, infeliz com o marido. É advogada ou banqueira, com uma clientela de grandes firmas que constantemente a obriga a viajar de Lisboa para New York, daí para Estocolmo, Tóquio, Bangkok, Moscovo, Los Angeles, as Seychelles, o Rio de Janeiro.
Quarentão jovem, loiro, musculado, ele é fotógrafo de revistas de moda e corre atrás dela de Lisboa para New York, daí para Estocolmo, Tóquio, Bangkok, Beijin, Los Angeles, Buenos Aires, as Seychelles.
Os restaurantes e clubes que frequentam são só para os happy few. A roupa que vestem, o calçado, os perfumes, os relógios, sacos e malas, tudo isso vem de lojas com nomes soantes: Vuitton, Armani, DKNY, Calvin Klein, Gucci, Prada, Rolex, Dior...
Dos aviões só conhecem a primeira classe, e nos aeroportos os VIP-rooms. Têm uma vaga ideia de que o vulgo não possui penthouses no Mónaco, iates, ou bolsa que pague um Bentley.
Quando não copulam no salão de um château do Loire, ou nas cavalariças de lord Talisker, em Aberdeen (para onde vão de helicóptero), fazem-no em toilettes ou ascensores, de preferência os do hotel Crillon em Paris, do Waldorf-Astoria em New York ou do Négresco em Nice. Se lhes apetece abandalhar-se vão a Notting Hill, em Londres, e copulam no desvão das portas de casas arruinadas.
Só bebem champanhe e uns cocktails exóticos de rum, licor de menta, de mistura com o sumo de cogumelos japoneses, leite de rena e formigas do Kivu maceradas numa vodka rara, destilada num monastério de Irkutsk.
Para repousar possuem uma ilha em Angra dos Reis, e é para aí que um dia se retirarão, eternamente felizes e eternamente jovens, belos, alegres, saudáveis, bebendo champanhe no intervalo das cópulas, e elevando o espírito com os conselhos de um guru que mandaram vir de Bangalore.
Editores chamados sérios vendem este muito proveitoso lixo, justificando-se com o argumento que semelhantes livros são o primeiro passo para um contacto com a literatura.

quarta-feira, julho 11

"Fugu"

É peixe, chamam-lhe fugu, japoneses comem-no num desafio igual ao da roleta russa: na hipótese de que não lhe tenham limpo convenientemente as entranhas, repletas de arsénico, o comensal nem termina a refeição, vai de súbito despachado para o outro mundo.
Mas não é preciso irmos ao Japão para ressentir o frisson do perigo: o frango, o pâté, os mariscos, um banho de chuveiro, a névoa de um repuxo de água morna, são outros tantos assassinos insidiosos, a apunhalar-nos com salmonelas, legionelas e micróbios. Com a desvantagem de, ao avesso das consequências fulminantes do fugu, demorarem a incubar, mantendo-nos na incerteza se o jantar de ontem não nos terá sido fatal.

terça-feira, julho 10

Sugestão

Se por acaso às vezes se interroga sobre as razões de ser como é, de proceder como procede, e sente por isso ligeiros remorsos, dê-se esta excelente desculpa: “Better be a fake somebody, than a real nobody.”

Dúvidas

O senhor, um holandês que não conheci, veraneava sozinho no Algarve, teve um enfarte fatal, a família trouxe-o para a terra onde nasceu, e no enterro tocaram uns fados de Amália Rodrigues, favoritos do falecido.
Por razões que não me explicaram, a viúva quer saber o significado das palavras que Amália canta e, por intermédio de alguém que sempre me convence a fazer o que me desagrada, meto-me à tradução.
Pergunto-me, contudo, que dúvidas irão assaltar a senhora quando ler frases como estas: “Na espuma dos dias tu eras a luz do sol”, “O calor dos teus beijos na franja da minha vida”, “Abri-me desfalecida contra ti, sugada pelo desejo.”

segunda-feira, julho 9

"Little Bang"

"Live Earth." Findou o arraial. Recomeçará o trombetear da defesa do ambiente, a urgência de gastarmos menos papel, de estreitar o buraco do ozono, de não esquecermos como derrete depressa o gelo dos pólos, de limpar isto e depurar aquilo.
Pessoalmente não creio a Terra ameaçada. Com os seus biliões de anos, a velha bola deve ter conhecido desastres maiores que o de aquecer coberta de lixo. Mudaram-se nela oceanos, transformaram-se continentes, desapareceram civilizações, formas de vida, e ela continuou a girar e a descrever a sua órbita, insensível aos arranhões recebidos na crosta. É pouco provável, portanto, que as camadas de sujidade a ponham em vias de extinção.
O mesmo, porém, não acontece connosco. Todos juntos, os conscientes do perigo e os que lhe são indiferentes, nós corremos de facto o risco de desaparecer afogados no viscoso mar da nossa própria imundície. A Terra, essa, nem se dará conta de que deixamos de existir. E o Sol continuará a brilhar. A Lua aparecerá nas noites do costume, as nuvens descarregarão as suas águas e as estrelas cintilarão nos longes do universo.
Como sinal da nossa passagem restarão alguns ossos, alguns bocados de cimento, de metal e plástico, até que um vulcão vomite sobre eles o seu fogo e os cubra piedosamente de cinzas.
Eu, com franqueza, preferiria para a humanidade um fim menos inglório. Não precisa de ser numa sexta-feira 13, mas como se fala tanto no Big Bang, o Todo-Poderoso bem poderia fazer a graça de, com um Little Bang, nos sacudir do planeta e pôr nele uma espécie menos desleixada.

domingo, julho 8

O fosso

O fosso entre as gerações é daqueles que irremediável e constantemente se alarga. Os jovens que têm agora ao redor de vinte anos são-me tão estranhos no seu comportamento, nas suas maneiras, linguagem, música e moda, que me custa a crer, o que infalivelmente acontecerá, que um dia se tornem pais de família, cidadãos conscientes e responsáveis.
Claro que o fosso já na minha juventude existia, mas nesse tempo remoto as diferenças com os anciãos não eram tão marcadas, tão drasticamente outras, nem de tal modo revolucionárias. Havia até, pelo menos eu tenho esse sentimento, como que uma espécie de continuidade.
Enquanto que o que hoje, de modo geral, sinto pelos jovens, resulta em ser-me indiferente o que seguem, e não me interessa o compreendê-los. Mas para eles também não serei mais que um morto-vivo.
---------------
PS. 07.07.07? Mas de que calendário, se eles são vários e todos válidos?
Mother Teresa, Bono, Al Gore ("Pop-politics")... de profetas não há
falta, só de soluções.
"Live Earth". Cantaste, dançaste, batucaste, gritaste o teu entusiasmo... E agora?

sábado, julho 7

Questionário

O questionário vem duma revista literária e compõe-se de perguntas assim: Donde lhe vem a inspiração? Quais os temas que prefere tratar? Como escreve? Tem um lugar preferido para escrever?...
A minha pobre cabeça mói e remói ideias que não valem um chavo, para finalmente, exausta, pegar numa sem saber se é a pior ou a melhor. Será isso inspiração? Não me parece. Para os temas a mesma coisa. Como escrevo? Com um computador. Lugar preferido? Não. Devido ao acanhado espaço o computador está num canto, e é aí que tenho de me sentar.
Que esperam de mim? Manias? Comportamentos bizarros? Fetichismo?
Tudo o que se relaciona com a minha escrita é prosaico, trabalho de artífice, não conhece romantismo nem elevação. Por conseguinte, e para não desiludir ninguém, é melhor não preencher.

"Meninas vamos ó bira, ai! qu'o bira é coisa boa!"...

Há por vezes obrigações a que não se pode fugir, mas confesso que me custa ouvir música folclórica.
Além de ser pouco sensível às melodias do Uzbequistão e da Mongólia, tenho dificuldade em manter-me sério quando um grupo de gigantes holandeses, vestidos de roupagens exóticas, aparece a tocar uns instrumentos que produzem uns guinchos, que eles acompanham também com guinchos e patadas.
Recalco o meu sentir, mas no intervalo vou-me embora. A segunda parte do espectáculo constava de música folclórica portuguesa. A essa, francamente, sempre fui e continuo alérgico.

sexta-feira, julho 6

"I can't get no satisfaction"

Gostos não se discutem, mas surpreende-me, decepciona, ver um sessentão que se tem por sério, interessado pelos aspectos elevados da vida e da sociedade, a arregalar os olhos de entusiasmo pelo talento musical (ele diz “arte musical”) de Elvis Presley, The King.
Mal refeito da surpresa, já outro, igualmente sério, me quer obrigar a reconhecer a profundidade do pensamento das canções dos Rolling Stones. Como cabe aos inicados, ele fala simplesmente dos Stones. E garante que poucas canções terão tido no mundo um impacto idêntico a I can’t get no satisfaction.
Será. Não vou discutir. Aceno que sim, fingindo-me convencido, mas no íntimo um pouco desagradado, um pouco mais só.

Continuando. Se nalgum tempo me deixei embalar pelas chansons de Trenet, Piaff e Aznavour, pelo trompete de Louis Armstrong, pelos blues, nunca isso tomou em mim forma de idolatria.
Com o rock ‘n roll travei conhecimento em 1956, no filme de Bill Haley, mas já nessa altura a minha atitude era de “velho” e aquilo pareceu-me uma tontaria. O facto de me não ter dado conta de que se tratava de uma revolução, diz o bastante sobre o meu conservadorismo musical.
Por conseguinte, quem sou eu para julgar alguém que, avô de netos, com voz de falsete e numa má imitação de Mick Jagger, delira a cantar I can’t get no satisfaction?

quinta-feira, julho 5

Lançamento

Lançamento literário. De copo ao alto, para não entornar, vamos de um para outro aos apertos de mão, aos beijinhos no ar, perguntando pela saúde, pela família, o andamento dos livros - dos presentes, a maioria é do mesmo ofício.
Cumprimento a simpática senhora que, seja manhã, tarde ou noite, em todas as ocasiões em que nos encontramos me saúda com um sonoro e muito português “Bom-dia!”
Beijo a risonha colega a quem eu há anos com certeza irrito, inquirindo da disposição do cunhado, um espanhol que dá pelo nome - para mim cómico, devido à maneira como ela o pronuncia - de Jácinto. Diz-me ela que o pobre sobreviveu ao enfarte, mas sofre agora de um cancro na garganta.
Brindo com a senhora que de novo - já o fez em ocasiões sem conta - insiste em informar-me de como são melodiosos os sons que as baleias produzem quando amamentam. Nunca ouvi? Vai mandar-me o cd da Greenpeace. Não quero? Faz boquinha e volta-me as costas.
Mais abraços, mais apertos de mão e beijinhos no ar. Vou para um canto de janela com o colega que tem o hábito de me tratar por “Maestro!” e, sussurrando, detalhamente me informa dos achaques que lhe causa a próstata, curioso de saber se eu, por acaso, também....
A uma jovem que se estreou o ano passado, pergunto que tal vai o seu segundo romance.
- Segundo? - e encara-me, abespinhada de que eu não saiba que já vai no terceiro, que os dois primeiros foram traduzidos em sueco e brevemente o serão em turco.
Toma lá, José, para que aprendas!
Olho discretamente o relógio na parede. Estou aqui há uma hora. Boa altura de ir andando, para evitar que com mais descuidos, indelicadezas e faux-pas estrague a festa.

quarta-feira, julho 4

Livro de contas

Numa velha pasta de arquivo encontro por acaso um livro de contas que pertenceu a meu pai. Datado de 1956, o ano em que vim para a Holanda.
Contas da lavoura. Do rendimento das oliveiras e das amendoeiras, da colheita do centeio, quanto recebeu pela venda da madeira de sete pinheiros, o que pagou por um leitão para engordar e matar no ano seguinte. Como vendeu ao desbarato quinhentos litros de vinho que começara a avinagrar. Uma lista com os nomes dos que contratou à jeira, quanto teve de lhes pagar em dinheiro e em mantimentos.
Essa lista interessa-me mais do que o resto. Conheci a todos os que nela estão, cada nome aviva a lembrança de um rosto, de um modo, é como se folheasse um álbum de fotografias.
Ao mesmo tempo apodera-se de mim uma funda melancolia. Os salários eram de miséria, a lista de mantimentos - dois litros de azeite para um, um quilo de carne para outro, um saco de cereal, dois quilos de arroz - a apontar para as casas onde havia fome.O tempo e a melhoria da vida curaram as feridas e, porque eles muitas vezes mo têm dito, os que ainda vivem e sofreram preferem esquecer esse tempo. É a mim, que não sofri, que a recordação talvez mais dói.

terça-feira, julho 3

Eu ainda serei eu?

Actualmente encontram-se no nosso corpo cerca de trezentos produtos químicos industriais, sintéticos, que há cinquenta anos não existiam.
Até agora não dei conta de sintomas ou diferenças que isso me tenha causado. Mesmo assim não deixa de ser inquietante o saber-me com componentes que não vêm da natureza, mas da fábrica. É como se de súbito tomasse consciência de que não sou inteiramente como fui, de que sou menos eu do que antigamente.

segunda-feira, julho 2

Diferenças

O meu interesse por carros, esplêndido meio de transporte, limita-se a que funcionem sem avarias e tenham “cavalos” suficientes para fazer uma subida sem tossir ou parar a meio.
Vamos de Amsterdam para Haia num Range Rover, coisa superior, sentados alto acima dos mortais que, respeitosos ou assustados pelo monstro, mudam de faixa para os podermos ultrapassar.
O proprietário comprou-o há pouco e, na certeza de que também apreciarei, ao mesmo tempo que conduz vai detalhando as performances do motor de seis litros, a qualidade dos fauteuils de couro, o luxo do interior, a suspensão, ABS, EPS, GPRS, as luzes automáticas, a esplêndida segurança...
Na minha simplicidade, julgando a pergunta pertinente e também para dar prova de atenção, pergunto quanta gasolina gasta o monstro.
Apanhado de surpresa, o senhor esquece a auto-estrada e encara-me com aquele modo desdenhoso de John Rockfeller ao responder a um simples como eu, que lhe perguntava quanto gastava por ano com o seu luxuoso iate: " If you ask, you can’t afford it."

domingo, julho 1

Sabores

Entre os pratos favoritos a minha juventude contavam-se a omelete de camarão, o arroz de marisco e l’entrecôte marchand de vin.
Não sei dizer quantas vezes os comi, mas recordo o prazer que me davam. Até que uns vinte anos atrás começaram as decepções: a omelete tinha cada vez menos camarão, o arroz de marisco transformara-se numa espécie de sopa desenxabida, o gosto da entrecôte associava-se àquele que, ironicamente, se diz ser o da sola.
São pontos assentes: o paladar muda com a idade, a memória nem sempre é fiel, no decurso dos últimos cinquenta anos os alimentos talvez tenham ganho em qualidade, mas seguramente diminuíram na intensidade do sabor.
O curioso é que, e isso revela algo sobre a natureza humana em geral e a minha em particular, se entro num restaurante onde um desses meus pratos favoritos se encontra na lista, não resisto, encomendo-o.
Provo-o, não lhe encontro sabor, como-o a contragosto e saio decepcionado. Sem saber se a culpa é do cozinheiro ou da minha teimosia em ansiar por que os sabores se mantenham como quando os descobri.