quinta-feira, junho 28

Que lhe hei-de fazer?

Que lhe hei-de fazer, se nasci assim, se sinto assim? Se nuns casos me falta a força para mudar, se noutros me falta a vontade, e noutros ainda me rebelo contra a mudança? Por que motivo justificar, explicar ou desculpar-me das minhas antipatias? Tenho-as, são coisa assente. Não suporto bêbedos, mulheres de cabelo cortado à escovinha, pedantes, bajuladores, os que seguram os copos de vinho pela base, os detentores da verdade, os salvadores do mundo...
A lista é comprida demais para caber aqui.

Um actor, um bailarino, um artista plástico, um músico, juntam ao esforço intelectual um esforço físico. Dessa conjugação, suponho eu, resulta uma certa harmonia entre cérebro e corpo.
Ao contrário deles o escritor, nas infindas horas que passa sentado, os olhos fitos no écrã do computador, na folha de papel, ou na imutável parede fronteira, vai-se lentamente ensimesmando, definhando, ou pior: supondo que o mundo é como ele no seu buraco o imagina.
Temo que seja isso o que está a acontecer comigo. E não deve ser da velhice.
Felizmente, sempre tenho sentido que não pertenço por inteiro, ou como já ouvi dizer a alguém: “Vim a este mundo a passeio, não vim em viagem de negócios.”

quarta-feira, junho 27

"Porcalhão! Putanheiro!"

É um apontamento do passado Inverno. Em Amsterdam.
Fomos jantar fora. Noite fria, feia, de chuva e nortada. Como não encontro lugar para o carro deixo os amigos à porta do restaurante e rodo uma meia hora até que por fim se dá o milagre: estaciono no Hobemakade, o canal próximo do Rijksmuseum. Ignorado dos turistas, apreciado pelos connaisseurs.
Apresso-me para atravessar a rua, mas o semáforo salta para o vermelho e espero. No lado fronteiro dezenas de janelas iluminadas por uma luz violeta, a mais adequada para esconder as rugas e realçar a nudez das prostitutas que esperam a clientela. Desinteressado, mal atento na cena que outrora me foi exótica.
Junto de mim uma mulher de meia idade segura a bicicleta e, quando se acende o verde, atravessa comigo. Chegados ao passeio detenho-me, a dar-lhe tempo que monte.
Ela senta-se, põe um pé no pedal, encara-me com uma expressão de profundo asco e, ao mesmo tempo que arranca, cospe-me na cara e grita: “Porcalhão! Putanheiro!”

terça-feira, junho 26

A estante

Possuo um desejo inato de arrumar, ordenar, e uma provada incapacidade para o fazer. As minhas estantes são exemplo disso. Poucos livros lá estão por tamanho, alfabeto, género ou autor, mas numa desordem criada por pressas, escolhas momentâneas, e algumas vezes pelas imposições da falta de espaço.
Todavia, como não há regra sem excepção, uma escapa ao caos. É a que me fica defronte dos olhos quando escrevo, e nela vou colocando os livros que distinguem pelo facto de serem a única obra dos seus autores.
Ficaram talvez por um só livro porque, assisadamente, se aperceberam que lhes faltava o talento; ou os editores se desencantaram deles, ou ainda pelas variadas razões que nos levam a desistir do que começamos.
Tenho-os à minha frente, não para ironizar ou para rir, antes como memento do que me poderia ter acontecido. Não aconteceu porque teimei? Por sorte? Quem garante que tenho mais talento do que eles? Quem poderá dizer se, em momentos ou circunstâncias diferentes, não teriam sido eles best-sellers? Que anjo-da-guarda os esqueceu e a mim salvou da estante onde os ponho?

segunda-feira, junho 25

Loucura mansa

O ser tagarela ainda se lhe perdoaria, se bem que seja preciso resistência para aguentar a catadupa de palavras e o modo como ela as pronuncia, rebolando os rr, pondo os lábios em bico. Mas de boa vontade se lhe descontaria isso dos pecados que tem.
O mais aborrecido é a sua inesperada e desmedida ambição política. Professora no secundário, da mesma maneira que alguns ouvem vozes ou são visitados pelo Espírito Santo, descobriu-se ela com uma vocação parlamentar.
E embora pareça nula a possibilidade de um dia a vermos deputada, não se cala sobre os projectos que apresentará, as comissões em que quer tomar parte, os debates em que vai fulminar os seus oponentes.
Em certas alturas dá a impressão de se ver já na tribuna: levanta-se, apoia as mãos no espaldar da cadeira, ergue a cabeça, cerra os olhos. Aquilo dura um instante, mas quase tenho a certeza de que são os momentos em que se sonha a defender a política do seu ministério. Porque, não tem dúvida, há-de chegar a um posto no governo.
Pensando nela e no seu modo, digo-me que não se deve tratar de ambição, antes um começo de loucura mansa.

domingo, junho 24

Amsterdam

Surpreende-me sempre o feitiço que a palavra Amsterdam exerce em certas pessoas. Vivendo elas longe e sabendo-me aqui, algumas como que endoidecem a imaginar as festas a que irei, a gente interessante que devo conhecer, os acontecimentos em que tomo parte, os museus, os concertos, os teatros, os cafés...
Se vêm de visita e partilham uns dias a minha realidade, recusam acreditar que eu de facto viva entre as quatro paredes do meu quarto de trabalho. Sorriem, desconfiados, achando que deve ser pose. E nem a minha idade levam em conta. Assim que voltarem as costas eu de certeza recomeço a ir às festas, aos cafés...

sábado, junho 23

Autodefesa

As circunstâncias em que os meus antepassados viveram continuam a parecer-me irreais, e ainda me chocam, ainda me assustam.
Conheço aflições e dores, o desespero, medos, mas não como os deles, que eram incríveis. Protecção contra os homens, só tinham a dos seus braços; contra as violências da Natureza ou a cólera de Deus, não tinham nenhuma; para se defenderem da moléstia tomavam chás, levavam oferendas à igreja.
Mau grado a variedade sem fim que a vida moderna numa grande cidade oferece, queixo-me, sem razão, da monotonia dos dias. Mas como terá sido o dia-a-dia de quem tinha sempre os mesmos montes diante dos olhos, e vivia agrilhoado à rotina da lavoura?
Eu, que essas circunstâncias testemunhei, mas não sofri, tenho tendência para romantizá-las. Deve ser uma forma inconsciente de autodefesa.

sexta-feira, junho 22

Ernestina

Mandou o Destino que, poucos dias passados, eu regressasse ao lugar donde partira.
Ernestina (1912-2007) faleceu ontem, enterra-se hoje.
Mãe de um só filho, a sua vida, que foi uma de tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos e fortes os laços que a ela me prendem.

quarta-feira, junho 20

Solidariedade

No primeiro dia de escola, em meados de Outubro de 1939, a professora rezou connosco em voz alta um padre-nosso, e depois teve-nos ali perfilados e quietos, num minuto de silêncio “pela gente que sofria com a guerra.”
Nem ingleses, nem franceses, alemães, judeus, polacos ou russos. Simplesmente, como com gravidade disse, pela gente que sofria. E eu poucas vezes voltei a sentir um calor de solidariedade que se comparasse ao que conheci nesse momento dos meus nove anos.

terça-feira, junho 19


Aqui estava.

Aqui estou.
Difícil é decidir onde se está bem.

quinta-feira, junho 14

Intervalo

A loja fecha cerca de uma semana, enquanto a barca levanta âncora e zarpa para as bandas do Mar do Norte.

Viagra e Krishnamurti

quarta-feira, junho 13

Predestinação

A ideia da predestinação, umas vezes preocupa-me, outras perturba-me, assusta-me em graus variados, nunca me deixa indiferente.
E o especular sobre a possibilidade que tudo se encontre registado, tudo se repita de acordo com leis e dimensões que desconhecemos, que sejamos um eco, uma marionete, basta para me tirar o sono.
Os racionalistas, esses argumentarão que o que a mim parece mistério é apenas coincidência. Os matemáticos dirão que tudo se explica com a lei das probabilidades. Fosse assim, e eu passaria noites menos inquietas. Mas creio que não é. Nem tudo se explica pelo acaso ou pelo amontoar dos números.
Roberto Pompeu de Souza, um dos mais brilhantes e mais conhecidos jornalistas do Brasil. No dia 11 de Junho de 1991, como de costume, sai de casa para o trabalho. Daí a minutos retorna, o que nunca tinha acontecido, pára o carro diante da porta, toca à campainha, e quando a mulher aparece à janela ele, que não era de gestos românticos, grita-lhe um inusitado: ‘Eu te amo!’
Sopra-lhe depois um beijo e volta a pôr o carro em andamento. Na esquina seguinte choca com um camião e tem morte instantânea.
Coincidência, acaso, lei das probabilidades? Acho que não. Premonição, predestinação? Quem sabe?

segunda-feira, junho 11

Andorinhas

Pareceu-me daquelas histórias que se contam ao almoço e, fazendo rir, ajudam a boa disposição. Mas demasiado absurda para ser verdade. Razão porque ontem, para confirmar, voltei à casa do Manuel Barroco.
Escultor de talento, homem de gosto, bon-vivant, narrador capaz, sério quando é preciso, o meu amigo explora em Quintas das Quebradas , aqui ao pé, um excelente “Turismo Rural”.
Hospeda lá as gentes mais variadas, boa percentagem dela citadinos em busca de ar puro e desejosos de, com os próprios olhos, verificar se os transmontanos ainda vestem burel.
O casalinho, à volta dos trinta, logo na primeira manhã apareceu equipado como manda a moda quando se vai em expedição: botas de monte, calções, mochila, binóculo, Ixus, cantil, etc…
O Manuel encontrou-os junto da piscina, prontos para a marcha, e deu-lhes cortesmente os bons-dias, acrescentando qualquer coisa sobre o azul do céu e a promessa de muito calor.
As andorinhas desciam em voo rasante a beber ou a apanhar os insectos que boiavam na água, e foi aí que a jovem, sorrindo como quem se desculpa da curiosidade, disparou a extraordinária pergunta:
- Estes pássaros são seus?
O Manuel hesitou meio segundo, imaginando gracejo, mas a jovem “lesvoeta” queria realmente saber, e ele concedeu:
- São, são! Tenho-os numa gaiola atrás do muro.
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Para que conste: www.casadasquintas.com . O copyright de “lesvoeta” é do Luís Alves, que também dá por Luís de Boticas.

domingo, junho 10

O Dalai-Lama

O Dalai-Lama está de visita à cidade. Na sua versão tibetana ou outra, o meu interesse pelo budismo é nulo, de reencarnações desconfio, o homem em si, com aquele sorriso de marca registada, é-me antipático.
Felizmente, o sentir doutros é diferente. “Ele vai falar”, anuncia o comentador da televisão, acrescentando que o recinto, geralmente usado para feiras, está cheio como um ovo, nele se apertam para cima de quatro mil fiéis e curiosos.
As câmaras atardam-se lentamente sobre os rostos, mostram a multidão que ainda espera nos corredores. Pela aparência e o traje tudo gente fina, gente de estudos bem instalada na vida.
Depois de umas imagens do Tibet, do inevitável Potala, e cenas de rua em Lhassa com a, também inevitável, patrulha de soldados chineses, vemos o Dalai-Lama tomar lugar no pódio. Caminha a sorrir, juntas as mãos, eleva-as à altura dos olhos, faz uma pequena vénia, começa a sua fala.
E que debita de novo , original ou importante o Dalai-Laima ao público que o escuta embevecido? Lugares-comuns. Platitudes sobre a necessidade de paz no mundo, de harmonia, amor, respeito, solidariedade.
Alguns espectadores não dominam as suas emoções, deixam as cadeiras e, nas coxias, sentam-se na posição do lótus, elevam os braços, cerram os olhos, por certo para melhor captarem a mensagem.
O Dalai-Lama continua a falar e a sorrir, os devotos continuam extasiados, a mim tudo aquilo dá uma forte impressão de charlatanismo. O público, esse só se distingue do de Bono ou Bob Geldof, também eles profetas, por não desatar aos gritos e aos saltos.

sexta-feira, junho 8

Levitação

São à volta de duzentas pessoas, numa sala onde vai ser apresentada uma nova e providencial dieta, adaptada às diferenças dos grupos sanguíneos.
Poucos os jovens, o resto quase que em partes iguais homens e mulheres, anciãos e gente na meia idade.
Estou ali por curiosidade, mais para acompanhar e observar, do que participar, divertido com a expectativa que leio nos rostos. Nalguns é aparente a preocupação que lhes causa a saúde; outros, de faces crispadas e lábios apertados, parecem aguardar sentença; uns quantos dão as gargalhadas estrídulas que denunciam o nervosismo.
Há um estrado, por detrás um quadro negro como nas escolas, uma mesa aonde se vão sentar dois sujeitos. Um, com o físico, a aparência, o charme de movie star, apresenta-se como médico e expõe de maneira plausível a sua teoria. O outro, género profeta New Age, tem uma barba grisalha, o pescoço enfeitado por não sei quantos colares, brincos nas orelhas, e embrulha-se numa curiosa vestimenta de seda. Quando se levanta para desenhar no quadro o diagrama da relação ying yang entre os vasos sanguíneos e os alimentos, vejo que anda descalço.
Fala de Lau-Tsé e de Tau-te-ching, a sua misteriosa obra. Fala de Chuang-Tsé, o filósofo que viveu no quarto século antes de Cristo, e de Chi-tching, o livro de oráculos onde se explicam as regras de como respirar para atingir o equilíbrio que mantém a saúde, e se ensina o uso das plantas medicinais que aumentam a vitalidade. Nesse livro os fiéis mais devotados podem aprender a dominar as técnicas que permitem a levitação.
O guru expõe, o público ouve-o embasbacado e por vezes rompe em aplauso, eu mal consigo manter os olhos abertos.
A sessão termina quase duas horas depois. Raparigas simpáticas e sorridentes empurram carinhosamente o público para um balcão onde se vendem livros, ervas, suplementos minerais em caixas, vitaminas em frascos, boiões de cremes, e se determina grátis o tipo sanguíneo de cada um.
Fico a saber que o meu é AB positivo e vou-me dali com um saquinho de chá e um livro de técnicas da respiração e regras de sapiência. Desaponta-me que nele nada encontre sobre o que os chineses poeticamente chamam , “o planar em liberdade ao sabor do vento.”
Levitação! Disso é que eu gostava!

Perfeição

Por ele não me custaria pôr as mãos no fogo. É homem decente, leal, dedicado, com sobejas provas de altruísmo. Pela sua inteligência e cultura merece o predicado de superior, e sabemo-lo também sensível, cuidadoso, pontual.
Uma nuvem ensombra estes belos e excepcionais predicados: a da sua extrema curiosidade. Não suporta o não saber, não estar ao corrente, enfurece-o que nos esqueçamos de o informar de um projecto que iniciámos ou de uma relação que contraímos. É obrigatório pô-lo a par dos nossos planos, descrever com minúcia alguém que encontrámos, de quem ele quererá saber o nome, a morada, a posição, o número de telefone, o e-mail. E não se lhe negue ou esqueça algum desses dados, porque daí resultará amuo ou zanga duradoura.
É certo que não há rosa sem senão, mas certos traços de carácter são difíceis de suportar, sobretudo naqueles que quase nos parecem perfeitos.

quinta-feira, junho 7

Encontro

Uma recepção. Anda a gente dum lado para o outro, sorriso aqui, cumprimento além. Prazer em vê-lo. Há mais dum ano! Dois? Não me diga! E a Natália? Bem? Os garotos? Óptimo!
Bebe-se mais um gole, força-se novo sorriso, dá-se outra volta, pára-se... Quando a conversa se anuncia longa ou aborrecida diz-se ao parceiro que é preciso circular. E circula-se.
De copo na mão e uma mímica exagerada de alegre surpresa, a mulher vem direita a mim. Se me lembro dela.
- Desculpe, mas não lembro.
- Palavra?
- Palavra.
Conta que jantava num restaurante com o homem com quem então vivia, e eu me aproximei, segredando-lhe ao ouvido que ele não era o parceiro que lhe convinha, o que pouco depois se confirmou. E que em seguida lhe recitei aquele poema de Frost....
- Vai ver que se recorda!... Two roads diverged in a wood, and I...
Não sei as razões da invenção, mas se de facto me conhecesse, mesmo superficialmente, a madame arranjaria uma história menos absurda.
Palavreamos. Teimamos. Não recordo o facto nem a pessoa. Nunca me embebedei. Não tomo drogas. Raramente tenho febre. E além de ser avesso a dirigir-me a estranhos com um modo que me faria passar por tolo ou inconveniente, muito menos me vejo a recitar poesia seja a quem for.
Ela insiste que sim, aconteceu. Eu sorrio, encolho os ombros, digo-lhe que é preciso circular.

terça-feira, junho 5

"Mecanismo"

É desagradável, talvez uma mania, um tique, mas espero não ser caso único. Desde o momento em que marco encontro com alguém, quase que automaticamente o meu espírito - digo espírito, mas de facto não sei que lhe chamar. Será o raciocínio? O subconsciente? O outro eu? Um estranho que parasita no meu cérebro? - dentro de mim, pois, um “mecanismo” que não controlo, inicia com a pessoa em questão longas conversas. Aludindo por momentos à razão do nosso encontro, mas as mais das vezes mudando para assuntos vários e, tal uma marioneta, o que é sobremodo incomodativo, emprestando ao interlocutor uma voz, fazendo-o tomar atitudes e defender pontos de vista, discordar do que digo, referir casos...
De modo que, quando finalmente nos encontramos, tendo a continuar uma conversa que para o outro toma aspectos bizarros, pois lhe escapa como, sem motivo aparente, me ponho a tratar de questões que lhe são alheias.
Espero que assim não seja, mas é provável que haja quem duvide se tenho o juízo todo.

domingo, junho 3

Halteres

Os médicos aconselham, os jornais elogiam, vizinhos e amigos confirmam, a família apoia...Mas eu, francamente, mesmo só meia hora por dia, não me vejo a levantar halteres para diminuir a pressão arterial e renovar nos músculos o tónus que a idade lhes faz perder.
Fora a antipatia que sinto pelo esforço físico, o que já na ginástica do secundário me valeu as notas mais baixas, há ainda o factor do ridículo. O corpo treinado de um atleta tem nos seus movimentos uma forma de graça, mas o do ser comum...
Muitos anos atrás, quando o nível da pressão arterial e o tónus dos músculos me eram problemas alheios, recordo de numa manhã ter visto um velho à janela, voltado para a rua, a levantar halteres com esgares de um tremendo e penoso esforço.
Aquilo era feio, deprimente, incompreensível que alguém se desse assim em espectáculo. E jurei que nunca tal faria. Curioso é que a cena e o juramento, que supunha varridos da memória, surgiram prontos no momento em que, inseguro, eu hesitava entre comprar halteres de três ou cinco quilos.

sábado, junho 2

O Além?

A manhã está linda, soalheira, mas de pouco adianta, nem é isso que trava o meu desordenado pensar.

Pressa de morrer não tenho, e tanto quanto julgo conhecer-me é-me alheia a tendência para o suicídio, mas uma vez por outra dá-me um certo frémito de curiosidade de, se porventura nele algo existe, saber como será o Além.
Em paraísos de huris libidinosas ou anjos a tocar harpa nunca consegui acreditar. Tãopouco nos infernos onde o Diabo se entretêm a grelhar os infiéis. Mas teremos uma consciência depois da morte? Uma forma? Será que o esforço que fazemos para aprender, para melhorar, conhecer, criar, construir, progredir, nada é, nada importa, e desaparecerá connosco num infinito vazio?

sexta-feira, junho 1

Zunzum

Ela fala dum modo que só pode ser doença. As palavras saem-lhe em torrente, sem pontos nem vírgulas, sem que se note em que momento respira.
Interrompê-la está fora de questão, e o encadeamento que faz de assuntos, de pessoas, acontecimentos, opiniões, os seus saltos do presente para o passado, do hoje para o futuro, do Japão onde viveu para a Espanha onde agora vive, irresistivelmente levam a pensar no voo nervoso da andorinha.
O marido, curiosa antítese, é caladão. Fuma, sorri uma vez ou outra, passeia o olhar sobre os móveis. Eu, desnorteado e exausto, deixo de compreender o que ela diz, só apercebo o zunzum da torrente.
Encontramo-nos de longe a longe. Muitas horas depois, quando se despedem e, fechada a porta deixo cair o sorriso, faço-me uma promessa: “Nunca mais!”