quinta-feira, junho 28

Que lhe hei-de fazer?

Que lhe hei-de fazer, se nasci assim, se sinto assim? Se nuns casos me falta a força para mudar, se noutros me falta a vontade, e noutros ainda me rebelo contra a mudança? Por que motivo justificar, explicar ou desculpar-me das minhas antipatias? Tenho-as, são coisa assente. Não suporto bêbedos, mulheres de cabelo cortado à escovinha, pedantes, bajuladores, os que seguram os copos de vinho pela base, os detentores da verdade, os salvadores do mundo...
A lista é comprida demais para caber aqui.

Um actor, um bailarino, um artista plástico, um músico, juntam ao esforço intelectual um esforço físico. Dessa conjugação, suponho eu, resulta uma certa harmonia entre cérebro e corpo.
Ao contrário deles o escritor, nas infindas horas que passa sentado, os olhos fitos no écrã do computador, na folha de papel, ou na imutável parede fronteira, vai-se lentamente ensimesmando, definhando, ou pior: supondo que o mundo é como ele no seu buraco o imagina.
Temo que seja isso o que está a acontecer comigo. E não deve ser da velhice.
Felizmente, sempre tenho sentido que não pertenço por inteiro, ou como já ouvi dizer a alguém: “Vim a este mundo a passeio, não vim em viagem de negócios.”

domingo, junho 24

Amsterdam

Surpreende-me sempre o feitiço que a palavra Amsterdam exerce em certas pessoas. Vivendo elas longe e sabendo-me aqui, algumas como que endoidecem a imaginar as festas a que irei, a gente interessante que devo conhecer, os acontecimentos em que tomo parte, os museus, os concertos, os teatros, os cafés...
Se vêm de visita e partilham uns dias a minha realidade, recusam acreditar que eu de facto viva entre as quatro paredes do meu quarto de trabalho. Sorriem, desconfiados, achando que deve ser pose. E nem a minha idade levam em conta. Assim que voltarem as costas eu de certeza recomeço a ir às festas, aos cafés...

sábado, junho 23

Autodefesa

As circunstâncias em que os meus antepassados viveram continuam a parecer-me irreais, e ainda me chocam, ainda me assustam.
Conheço aflições e dores, o desespero, medos, mas não como os deles, que eram incríveis. Protecção contra os homens, só tinham a dos seus braços; contra as violências da Natureza ou a cólera de Deus, não tinham nenhuma; para se defenderem da moléstia tomavam chás, levavam oferendas à igreja.
Mau grado a variedade sem fim que a vida moderna numa grande cidade oferece, queixo-me, sem razão, da monotonia dos dias. Mas como terá sido o dia-a-dia de quem tinha sempre os mesmos montes diante dos olhos, e vivia agrilhoado à rotina da lavoura?
Eu, que essas circunstâncias testemunhei, mas não sofri, tenho tendência para romantizá-las. Deve ser uma forma inconsciente de autodefesa.

sexta-feira, junho 22

Ernestina

Mandou o Destino que, poucos dias passados, eu regressasse ao lugar donde partira.
Ernestina (1912-2007) faleceu ontem, enterra-se hoje.
Mãe de um só filho, a sua vida, que foi uma de tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos e fortes os laços que a ela me prendem.

quarta-feira, junho 20

Solidariedade

No primeiro dia de escola, em meados de Outubro de 1939, a professora rezou connosco em voz alta um padre-nosso, e depois teve-nos ali perfilados e quietos, num minuto de silêncio “pela gente que sofria com a guerra.”
Nem ingleses, nem franceses, alemães, judeus, polacos ou russos. Simplesmente, como com gravidade disse, pela gente que sofria. E eu poucas vezes voltei a sentir um calor de solidariedade que se comparasse ao que conheci nesse momento dos meus nove anos.

terça-feira, junho 19


Aqui estava.

Aqui estou.
Difícil é decidir onde se está bem.

quinta-feira, junho 14

Intervalo

A loja fecha cerca de uma semana, enquanto a barca levanta âncora e zarpa para as bandas do Mar do Norte.

Viagra e Krishnamurti

segunda-feira, junho 11

Andorinhas

Pareceu-me daquelas histórias que se contam ao almoço e, fazendo rir, ajudam a boa disposição. Mas demasiado absurda para ser verdade. Razão porque ontem, para confirmar, voltei à casa do Manuel Barroco.
Escultor de talento, homem de gosto, bon-vivant, narrador capaz, sério quando é preciso, o meu amigo explora em Quintas das Quebradas , aqui ao pé, um excelente “Turismo Rural”.
Hospeda lá as gentes mais variadas, boa percentagem dela citadinos em busca de ar puro e desejosos de, com os próprios olhos, verificar se os transmontanos ainda vestem burel.
O casalinho, à volta dos trinta, logo na primeira manhã apareceu equipado como manda a moda quando se vai em expedição: botas de monte, calções, mochila, binóculo, Ixus, cantil, etc…
O Manuel encontrou-os junto da piscina, prontos para a marcha, e deu-lhes cortesmente os bons-dias, acrescentando qualquer coisa sobre o azul do céu e a promessa de muito calor.
As andorinhas desciam em voo rasante a beber ou a apanhar os insectos que boiavam na água, e foi aí que a jovem, sorrindo como quem se desculpa da curiosidade, disparou a extraordinária pergunta:
- Estes pássaros são seus?
O Manuel hesitou meio segundo, imaginando gracejo, mas a jovem “lesvoeta” queria realmente saber, e ele concedeu:
- São, são! Tenho-os numa gaiola atrás do muro.
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Para que conste: www.casadasquintas.com . O copyright de “lesvoeta” é do Luís Alves, que também dá por Luís de Boticas.

sexta-feira, junho 8

Perfeição

Por ele não me custaria pôr as mãos no fogo. É homem decente, leal, dedicado, com sobejas provas de altruísmo. Pela sua inteligência e cultura merece o predicado de superior, e sabemo-lo também sensível, cuidadoso, pontual.
Uma nuvem ensombra estes belos e excepcionais predicados: a da sua extrema curiosidade. Não suporta o não saber, não estar ao corrente, enfurece-o que nos esqueçamos de o informar de um projecto que iniciámos ou de uma relação que contraímos. É obrigatório pô-lo a par dos nossos planos, descrever com minúcia alguém que encontrámos, de quem ele quererá saber o nome, a morada, a posição, o número de telefone, o e-mail. E não se lhe negue ou esqueça algum desses dados, porque daí resultará amuo ou zanga duradoura.
É certo que não há rosa sem senão, mas certos traços de carácter são difíceis de suportar, sobretudo naqueles que quase nos parecem perfeitos.

quinta-feira, junho 7

Encontro

Uma recepção. Anda a gente dum lado para o outro, sorriso aqui, cumprimento além. Prazer em vê-lo. Há mais dum ano! Dois? Não me diga! E a Natália? Bem? Os garotos? Óptimo!
Bebe-se mais um gole, força-se novo sorriso, dá-se outra volta, pára-se... Quando a conversa se anuncia longa ou aborrecida diz-se ao parceiro que é preciso circular. E circula-se.
De copo na mão e uma mímica exagerada de alegre surpresa, a mulher vem direita a mim. Se me lembro dela.
- Desculpe, mas não lembro.
- Palavra?
- Palavra.
Conta que jantava num restaurante com o homem com quem então vivia, e eu me aproximei, segredando-lhe ao ouvido que ele não era o parceiro que lhe convinha, o que pouco depois se confirmou. E que em seguida lhe recitei aquele poema de Frost....
- Vai ver que se recorda!... Two roads diverged in a wood, and I...
Não sei as razões da invenção, mas se de facto me conhecesse, mesmo superficialmente, a madame arranjaria uma história menos absurda.
Palavreamos. Teimamos. Não recordo o facto nem a pessoa. Nunca me embebedei. Não tomo drogas. Raramente tenho febre. E além de ser avesso a dirigir-me a estranhos com um modo que me faria passar por tolo ou inconveniente, muito menos me vejo a recitar poesia seja a quem for.
Ela insiste que sim, aconteceu. Eu sorrio, encolho os ombros, digo-lhe que é preciso circular.

terça-feira, junho 5

"Mecanismo"

É desagradável, talvez uma mania, um tique, mas espero não ser caso único. Desde o momento em que marco encontro com alguém, quase que automaticamente o meu espírito - digo espírito, mas de facto não sei que lhe chamar. Será o raciocínio? O subconsciente? O outro eu? Um estranho que parasita no meu cérebro? - dentro de mim, pois, um “mecanismo” que não controlo, inicia com a pessoa em questão longas conversas. Aludindo por momentos à razão do nosso encontro, mas as mais das vezes mudando para assuntos vários e, tal uma marioneta, o que é sobremodo incomodativo, emprestando ao interlocutor uma voz, fazendo-o tomar atitudes e defender pontos de vista, discordar do que digo, referir casos...
De modo que, quando finalmente nos encontramos, tendo a continuar uma conversa que para o outro toma aspectos bizarros, pois lhe escapa como, sem motivo aparente, me ponho a tratar de questões que lhe são alheias.
Espero que assim não seja, mas é provável que haja quem duvide se tenho o juízo todo.

sábado, junho 2

O Além?

A manhã está linda, soalheira, mas de pouco adianta, nem é isso que trava o meu desordenado pensar.

Pressa de morrer não tenho, e tanto quanto julgo conhecer-me é-me alheia a tendência para o suicídio, mas uma vez por outra dá-me um certo frémito de curiosidade de, se porventura nele algo existe, saber como será o Além.
Em paraísos de huris libidinosas ou anjos a tocar harpa nunca consegui acreditar. Tãopouco nos infernos onde o Diabo se entretêm a grelhar os infiéis. Mas teremos uma consciência depois da morte? Uma forma? Será que o esforço que fazemos para aprender, para melhorar, conhecer, criar, construir, progredir, nada é, nada importa, e desaparecerá connosco num infinito vazio?

sexta-feira, junho 1

Zunzum

Ela fala dum modo que só pode ser doença. As palavras saem-lhe em torrente, sem pontos nem vírgulas, sem que se note em que momento respira.
Interrompê-la está fora de questão, e o encadeamento que faz de assuntos, de pessoas, acontecimentos, opiniões, os seus saltos do presente para o passado, do hoje para o futuro, do Japão onde viveu para a Espanha onde agora vive, irresistivelmente levam a pensar no voo nervoso da andorinha.
O marido, curiosa antítese, é caladão. Fuma, sorri uma vez ou outra, passeia o olhar sobre os móveis. Eu, desnorteado e exausto, deixo de compreender o que ela diz, só apercebo o zunzum da torrente.
Encontramo-nos de longe a longe. Muitas horas depois, quando se despedem e, fechada a porta deixo cair o sorriso, faço-me uma promessa: “Nunca mais!”