sexta-feira, abril 24

Corno e contente

Uma garrafa de Ouzo, a recordação disto e daquilo, o conhecido sentimento de como o tempo passa e tudo muda, antes de dar conta põe-se a gente a efabular.

"Corno e contente" era expressão que punha ferrete naquele que, por razões suas, aceitava a infidelidade da cara-metade. Sou desse tempo. Mas como disse atrás as coisas mudam, e muito. Apareceu a pílula, vieram outros costumes, outras moralidades, outras liberdades, maiores licenças, desejos de novidade, experiência, mudança, Deus sabe que mais.

Voltaram de um mês de férias em Creta e, para ajudar a conversa, trouxe ele uma garrafa de Ouzo. Desagrada-me o sabor, mas tenho feito sacrifícios maiores, lá fomos bebendo, ele a contar como se tinham divertido, a contar do sol, e das praias, e dos restaurantes, do souvlaki, se eu por acaso já tinha comido dolmadakia, e assim por diante, até que chegámos ao fim do Ouzo e propus continuarmos com um tinto australiano que vale mais que os seis euros que custa.

A encher um vazio na conversa perguntei-lhe se a Regina estava bem, se também tinha gozado as férias, ao mesmo tempo a visualizar-lhe involuntariamente as formas e a perguntar-me se…

Mas já ele informava que sim, tanto que resolvera ficar mais umas semanas. Porque, eu com certeza sabia, em nova tinha vivido em Creta, os dois filhos eram do grego com quem acasalara e todos os anos visitavam. Davam-se muito bem, havia muita harmonia, compreensão de parte a parte.

Não sei o que a iluminou, mas nesse instante vi a expressão como que projectada em maiúsculas num ecrã. Depois achei feio deixar-me arrastar pela ideia. Corno e contente? Não. São os tempos. Eu é que vivo noutros que há muito passaram.

 

 


 

 

quarta-feira, abril 22

O vaidoso

 

O colega vaidoso desperta em mim irreprimível alegria. A pouco teatro tenho assistido que iguale em comicidade o escriba que, vendo-se já em estátua, discorre para um público sobre a complexidade dos seus sentimentos, o refinado das  conclusões a que chega, a superior delicadeza dos personagens que cria.

“- Como diz Adalberto no meu romance A Cinza das Sombras, no momento em que descobre a infidelidade de Marilena…”

O homem não tem o propósito de que, repetindo o título, os que o ouvem corram às livrarias. Não! Ele diz aquilo certo e seguro de que A Cinza das Sombras lhe prepara o Nobel, Marilena e Adalberto entrarão na galeria dos personagens clássicos, as pessoas na sala – amigos,  reformados, viúvas, curiosos que queriam saber se era sobre política – prenunciam a massa de gente que aguardará o seu regresso de Estocolmo.

Claro que estou a ser injusto. Mesmo o maior dos vaidosos deve conhecer daqueles momentos de insegurança em que as sombras deixam de ser ficção literária e se tornam negrume a sério. Infelizmente, para ele, a máscara pode mais, e eu apenas o conheço quando representa em público. Mas que adoro o espectáculo e nunca me canso de assistir, isso é verdade.

 

 

segunda-feira, abril 20

A rosa dos ventos

 

"Tenho amigos da esquerda e da direita." Frase recorrente, tantas vezes lida e ouvida que involuntariamente lhe esqueço o significado e me ponho a magicar no que subentende.

Garantias não dá, cabe na mesma lista daquela outra, "também tenho amigos homossexuais",  a ênfase do também a reforçar a existência de uma imaginária virtude.

É coisa do princípio do meu mundo, a arrelia que tenho com a chamada classe média portuguesa, corpo social amorfo que por baixo toca o povinho, e na outra ponta se quer fidalga, esquecendo, ou ignorando, que o verdadeiro brasão não se herda nem se compra, ganha-se.

A essa classe de gente, que vai do Zé da Mouca a D. Francisco de Rodrigães Penha d'Alembourg e Castedo, pouco me custaria fechar os olhos à vaidade, à jactância, ao egoísmo de que dá  mostras e provas, à infantilidade do comportamento, ao grotesco da sua necessidade de imitar.

O que não lhe perdoo é a alma de merceeiro, o espírito mercantil, a escassez de vergonha, a  ganância de comer a dois carrilhos, a habilidade de ter amigos em todos os pontos da rosa dos ventos.