Hoje é o meu dia de
cansaço da vaidade alheia, do pedantismo, da arrogância e da maneira lisboeta
dos mandarins, do gostinho que lhes dá descobrir que afinal a ditadura tem as
suas vantagens, tudo está em saber como se adoça a pílula das promessas do bem-comum
e até que ponto se pode aumentar a dose de medo que leve o rebanho a fechar-se
em casa.
Passado um ano e pico,
mais semana e meia voltarei à pátria. Sem regozijo nem festa, com a tristeza e
o azedume de que o essencial me vai faltar, que os abraços, os beijos, o
carinho, os sorrisos, a amizade, a simpatia, tudo será de longe, pior do que
com estranhos, envolto num medo e desconfiança de guerra civil. Ainda não parti
e já anseio por retornar, triste destino o de que em tantas horas se sente melhor
na terra onde não nasceu.