terça-feira, junho 13

Ladroagem

 

O sujeito não pode comigo, eu posso mal com ele, e como não nos conhecemos em pessoa, só da escrita, não vai ser à bruta, um caso de murros, esboço-lhe com palavras o retrato e assim me vão doer menos os dedos.

Sabe de tudo. Muito. Pintura, política, relojoaria francesa, glaciares, motores Diesel, África, Médio Oriente, Lucas Cranach, gastronomia do Maghreb, Renascença, geografia da Indonésia, história da Ucrânia… um sem-fim.

Conhece você Magtymguly Pyragi, o clássico turquemenistanês do século XVIII? Nunca ouviu falar? Pois conhece-o ele, e não pergunte, que se arrisca a uma prelecção tão minuciosamente detalhada sobre esse venerando que vai sentir ouras.

É poeta. Publicou três romances que os amigos elogiaram. Não os procure, que não encontra, nem insista, porque, aconteceu-me a mim, o livreiro é capaz de desatar a rir, gozando que o enfatuado dono de tão espaventoso saber seja oco no verso e desenxabido na prosa.

Sabe de confeitaria, dos produtos Gucci, da Literatura de Cordel do Nordeste do Brasil, dos amantes da rainha Vitória, das ilhas Lofoten, de locomotivas do século XIX, do fabrico de porcelana, das doutrinas de Thomas à Kempis, dos costumes do Hawai. É, como se dizia antigamente num tom de respeito e assombro, enciclopédico.

Tudo verdade. O homem é de facto enciclopédico. Inteligente de sobra também. Poderia ser mesmo agradável não fosse a inveja que o corrói. Porque, fama alheia, boas palavras sobre alguém, êxito de amigo, vizinho, colega, ou desconhecido, logo ele empalidece de raiva e azedume.

Aquilo, creio, vem-lhe de família. Descendesse de gente de espírito por certo o apregoaria, mas prudentemente cala que entre os seus é o primeiro sem loja aberta. E é, creio eu, essa herança de lojista que lhe torna a vida um inferno.

Homem do balcão conhece apenas duas molas: a do lucro e a da inveja. Seja o que for, o que vai para os outros é-lhe de facto devido, é seu, não o recebe porque lho roubam.

 

 

domingo, junho 11

A lentidão da caravana

 

Os cães ladram, a caravana arrasta-se lenta, fatigada, espelho de um país a apodrecer. País tristonho, sem futuro que se lhe adivinhe, iguala a casa de miséria secular, onde se ralha porque não há pão para todos.

Só que a imagem não confere. Nos palácios do oásis, a que a caravana exausta e desorientada não consegue chegar, porque lhe escondem o caminho ou manhosamente trocam as voltas, há pão de sobra e pão-de-ló, champanhe, caviar, lagosta, bifes Wagyu, muito mais.

Dança-se nos seus salões o minuete, os cavalheiros requebram-se em vénias às Marias-Antonietas, enquanto lá fora, de boca aberta encostado à cerca, supondo que é miragem, descrente que tem ali à mão o oásis do seu sonho, o povinho pasma com as luzes e os foguetes, não compreende a música.

Porque essa nunca lha quiseram ensinar, até acham melhor que nem a aprenda, de modo a gozar descanso e paz de alma, pois para seu bem quanto menos souber melhor é.

Como praga rogada, assim se têm ido arrastando os anos, as décadas, os séculos, as vidas e sofrimentos de gerações sem conta. Felizmente a esperança não morre, a vez há-de chegar. Sem rei, ditador ou general, cravos também não, e Nossa Senhora há muito se terá recolhido às nuvens.

Será sem ódio, que esse nada resolve, e os insultos nem sequer são desabafo, pois se alguma coisa mostram é a impotência e o medo de quem os grita. As acusações, mesmo com provas, também nada adiantam, só as ouviria uma Justiça imparcial. Mas essa...

De modo que, irmão e compatriota, o sofrimento é nosso, como também é de nós, e só de nós, que depende a salvação. Não do vizinho, dos partidos ou dos profetas. Não das esmolas, que vergonhosamente nem precisamos de pedinchar, pois nos são dadas por caridade, com desdém de nos verem - nós, caravana - precisados e caídos tão baixo.

sexta-feira, junho 9

Um que deixou marca

Tirante a família, na minha longa vida são bastantes os que recordo, poucos, meia dúzia se tanto, os que até agora deixaram marca perene.

Tivesse eu de fazer deles uma lista, Joaquim Novais Teixeira (1899-1972) ocuparia o primeiro lugar. Trinta anos nos separavam e, contudo, mau grado o fosso entre as suas extraordinárias vivências e a ingenuidade do rapaz que começava na vida, logo no primeiro encontro criámos um genuíno laço de amizade.

Foi para mim o mais dedicado dos mestres, guiando, explicando, aconselhando, avisando, mas sempre cuidadoso em esconder a cátedra e o seu saber, deixando-me na ilusão de que quase aprendia por mim próprio. Ensinou-me mais de Literatura do que aprenderia na universidade; por sua mão fiz como que um curso superior de Cinema; introduziu-me em meios e providenciou contactos que transtornariam a minha visão da Política e da História, e fariam envergonhar da tosca singeleza das minhas convicções.

Foi honra o convidar-me para a intimidade familiar, nomeando-me sobrinho, honra maior fazer-me seu confidente.  Porque era generoso e tinha gosto em partilhar amizades, mais de uma vez comi a fabada asturiana que mandava cozinhar quando o seu amigo Luís Buñuel vinha de visita. Comi, mas confesso, assustado com a fama do homem de quem conhecia os filmes, e maravilhado de me ver em tal companhia.

- Este é o Gabo.

Como ia eu saber que, tendo lido uns textos do rapaz, Novais o entusiasmava para que escrevesse, detectando o Gabriel García Marquez que chegaria ao Nobel?

Um fim de tarde estamos no La Rhumerie do Boulevard Saint-Germain a beber cerveja. Vêm cumprimentá-lo e sentam-se connosco dois conhecidos seus, Brigitte Bardot e Roger Vadim . Estonteante momento para um jovem transmontano.

Levo-o a visitar uma amiga num prédio do Quai des Grands-Augustins e, numa jactância tola, digo-lhe que no andar de cima vive Picasso. A vergonha viria  de saber que ao pintor já ele desde os anos 20, quando vivera em Madrid, tratava por Pablo.

Sempre me confundiu, e continua a surpreender, que o jovem vimaranense que foi secretário  de Manuel Azaña, o primeiro Presidente da República espanhola; o jornalista brilhante; o intelectual  que tão alta  consideração gozou nos meios políticos, literários, artísticos e cinematográficos, em Espanha, França e no Brasil; o português que conheceram e frequentaram todos os "grandes" opositores políticos, escritores, artista e cineastas portugueses que nas décadas de 50 a 70 viveram em Paris; o homem que tantas portas abriu e tantos compatriotas ajudou; continua a surpreender, sim, que toda essa gente se tenha calado e cale.

Apenas duas excepções conheço: os pintores António Dacosta (1914-1990) e Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). E o bom António Alçada-Baptista (1927-2008), que algumas vezes o visitara, nada lhe devia, e se pasmava da ingratidão duns e da ignorância dos mais, ensoberbados por terem fama no Chiado.

Satisfeito o pedido, dada a ajuda ou concedido o favor, essa gente distanciava-se a seguir quanto podia, pois sentiam que com a sua experiência  de muitas vidas, e talento para "radiografar"  comportamentos, Novais Teixeira  lhes punha a alma e a sabujice a nu.

Ainda andam por aí velhotes importantes que, quando se lhes fala de Novais Teixeira, tomam o ar nebuloso dos primeiros sintomas de Alzheimer e acenam vagamente que sim, acho que me lembro, era um jornalista, não era? A vontade que então dá é de fazer coisas incompatíveis com a minha idade e as boas maneiras.

Não era de queixas, mas amargurava-o o sentimento de quanto lhe doía Portugal, e que nos vissem manhosos, pequenotes, fanfarrões sem jeito, e por vezes tão canalhas.

A fazer contrapeso, refugiava-se ele numa idealização da pátria, com outra gente e recordações de um Minho de As Pupilas do Senhor Reitor. Mas era teatro, e a sua inteligência não lhe deixava continuar por muito tempo a comédia. Voltava então à cena o verdadeiro Novais Teixeira, o homem que de tão modesto parecia ser o avesso de brilhante, mas cujas qualidades intelectuais cintilavam mesmo na mais anódina das conversas.

 

quinta-feira, junho 8