terça-feira, junho 6

A plebe não aprende

Num discurso proferido em 1967 afirmou Salazar que: "Sempre houve pobres, sempre os há-de haver, é preciso que os haja".

Ignoro se o ditador se referia apenas ao país, ou alargava essa sua visão ao mundo inteiro. De qualquer modo, rememorando a frase, ocorre-me também dizer que em Portugal sempre houve ricos, sempre os há-de haver, é preciso que os haja. Temos necessidade deles para podermos mostrar a imagem do país real, o país que come bem e traja chique, usa Rolex no pulso, tem Bentley e chofer, vai a Miami com mais facilidade e conforto do que você e eu chegámos a Oeiras. O país que, juntamente com o que temos de Património Mundial, o Vinho do Porto, as praias do Algarve, e a carne do porco preto alentejano,  é nossa obrigação mostrar ao mundo.

A pequena burguesia com as suas hipotecas, e os pobres com as suas necessidades, embora formem o grosso da população não representam o Portugal verdadeiro, o das epopeias, o Portugal audaz, empreendedor e enérgico, dinâmico. São classes que constantemente se atrasam na História e no desenvolvimento, sem ousadia para a luta, sem visão. São a massa dos fiéis das Igrejas, os simples que gritam nas revoluções e fazem o V com os dedos.

Delas pouco ou nada há a esperar, são gente que, nascida subalterna, se acomoda aos revezes dizendo que é o Destino. Melhor seria se tomassem o elevado exemplo que dão os senhores empreiteiros, capazes de gerar fortunas como por mágica; os senhores políticos, que com argúcia tomam um país inteiro por conta; ou os senhores da banca, abençoados de Mercúrio e tão capazes nas versões financeiras da multiplicação dos pães.

Esses, sim, nesses corre a seiva que torna grandes as nações, e bem merecem que se lhes eleve uma estátua. A plebe que os acusa, insulta, e deseja que vão para o Inferno, melhor faria em estudar-lhes as qualidades.

domingo, junho 4

Às três não foi de vez

Escondido no fundo do meu ser montanhês há-de haver uma costela marinheira, herdada de algum remoto avô navegante que não deixou história, pois tanto quanto sei, nos dois últimos séculos a minha gente foi de vinhas, de rebanhos, searas e olivais.
Nenhuns terão visto o mar. Os que conheci iam uma vez na vida à festa de Santo Antão da Barca, em Agosto, e aproveitavam para ver o Sabor, rio que só no Inverno merece esse nome, mas que os banzava por lhes parecer caudaloso, e dele garan­tiam que a corrente tinha mais força do que dez juntas de bois.
Compreende-se-lhes o espanto. Não conheciam força maior, pois em todo o imenso ermo de montes e vales onde mourejavam havia apenas duas nascentes donde corriam, correm ainda, uns fios de água tão estreitos, que de menino eu os atravessava dum salto.
Na sua imensidão o mar sempre me assustou, como os barcos sempre me enfeitiça­ram. Comecei pelos de papel, mas mal pude segurar um canivete fi-los de cortiça, com mastros, velas e leme. Construí-os depois de madeira, com quilha e convés, paus-de-carga. Infe­lizmente, porque me faltava ciência, esses ader­navam em vez de navegar, e cansei-me da minha inépcia. Mas o fascínio pelo mar permaneceu. Forte. Quase irresistível, a ponto de por três vezes me ter posto a vida em perigo.

Na primeira, teria cinco anos, na praia do Senhor da Pedra, em Miramar, uma onda milagrosa devolveu-me ao areal. Depois foi por me meter num caiaque, esquecido que não sabia nadar, a corrente do Lima a levar-me para a barra. A última deu-se em Monastir, na Tunísia. Com a água pelos tornozelos, de repente o fundo desapareceu e senti que me afogava. Reflexo ou milagre algo me tirou dali, descobri-me estendido na areia, estranhando que a minha mulher perguntasse se me sentia bem.

Desde então olho-o de longe e nem à praia vou.

sábado, junho 3

A língua que nos deram

 

Todos conhecemos momentos em que se hesita entre a gargalhada e o choro, mas não são esses os piores. Ruins mesmo são os que enfastiam e nos deixam num estado de prostração, porque pôr o dedo na chaga de nada adianta quando sabemos que nos falta remédio para ela.

Vem isto a propósito do fenómeno generalizado e nacional do arroto de postas de pescada no que toca o uso a língua inglesa. De doutor a semi-analfabeto há uma rapaziada a quem se lhes meteu na cabeça que a demonstração de ser fino, sabido, pertencer aos eleitos, à fina-flor, não dispensa umas pazadas de Inglês. E vá de arrotar. Ora em exclamações, ora citando meia página de Shakespeare, umas frases de Johnson, às vezes lavra própria, causando arrepios a quem sabe da poda e se pergunta se aquilo é sintoma de doença.

Porque doença é, e uma forma de pobreza. Nada mais deprimente do que ver alguém, julgando que bota figura no carnaval da intelectualidade, usar uma fantasia que lhe fica curta nas mangas.

Oiça, mesmo na forma simples e popular, a sua, a nossa língua-mãe é tão rica que lhe permite exprimir adequadamente, e até com elegância, os seus sentimentos, conviver, comunicar impressões, participar no trato social. Quer mais? Abra os ouvidos. Ainda há gente a falar um Português correcto. Quer apurar o vocabulário e o estilo? Tem aí Fernão Lopes, Vieira, Camões, Bocage, Fialho, Eça, Pessoa, tantos outros. Leia.

Mas por favor, caia em si, poupe-nos o espectáculo, não se envergonhe de quem é, de quem somos, da língua que nos deram.