terça-feira, outubro 5

As voltas da nora

Sobre a literatura (ciência do literato), a arte da escrita, escolas, estilos, épocas, tendências e enredos, personagens e autores, são incontáveis os tratados. Tenho lido bom número deles,  com alguns aprendi, alguns safaram certezas, outros mandaram-me por veredas de que depois tive de arrepiar.
Se faço o balanço constato que não encontrei o que procurava, e porque estava acima do meu entendimento ou me faltava sensibilidade, foi escasso o proveito. Mantenho, sim, as incertezas do começo, tropeço nos mesmos obstáculos, desaponta-me, sobretudo, a impossibilidade de mudar.
Agora é tarde, mas como deveria ter feito para ser outro? Por que razão não vi o melhor caminho? Quem me algemou? Que força, vício, defeito, me obriga a este rodar de animal puxando a nora, o chão por horizonte?

segunda-feira, outubro 4

Boris Johnson / Churchill



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domingo, outubro 3

"Nunca as mãos te doam!"

Isto da memória tem por vezes o que se lhe diga. Ao Belarmino custa a compreender por que será que recorda tanto a falecida sogra, pois além de nunca em vida ter sentido por ela excessos de simpatia, a relação de ambos logo desde o começo do namoro com a Suzette tinha sido em pé de guerra.

Questões de temperamento, mas também porque a “Madame” – o tratamento que no íntimo lhe dava – não perdia ocasião de lhe fazer sentir que Suzette, nascida, criada e educada em Paris, de várias maneiras se encontrava uns escalões acima do funcionário que ele então era e teria continuado a ser, não fosse o seu tio e padrinho – “o Moreira das Sucatas” –  sofrer uma apoplexia, morrendo sem outros herdeiros, deixando-lhe uma fortuna que, mais coisa menos coisa o punha na classe milionária.

Viviam juntos, a casa era da “velha”, mas depressa iriam mudar, pois como é de compreender, ao passar dos apertos para dinheiro à larga a vida dos três tinha levado uma reviravolta. Mas  embora nem ele nem a “Madame” caíssem no esbanjamento, não era esse o caso de Suzette, em quem se tinha dado mais do que uma mudança.

Fora o ter aprendido num pronto a não olhar ao custo do que realçava a sua boa figura, na cama fazia a demonstração de inesperadas acrobacias, deixando na sombra o que o Belarmino conhecia da internet, e o que ultimamente aprendera com duas alemãs que “trabalhavam” numa moradia discreta do Restelo.

Todavia, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, assemelhou-se ao de um terramoto o momento em que num domingo, a meio do almoço, Suzette anunciou com fingida tristeza que andava a tratar da separação, na terça-feira o Belarmino receberia a papelada do advogado. E não era precisa mais conversa, explicações não ia dar, metesse ele a mão na consciência.

Conta ele que não compreende, pois nunca tinha sido homem de repentes, mas foi tal a violência do murro que a Suzette caiu sem sentidos e recearam que tivesse acontecido o pior, porque por mais que a abanassem continuava desmaiada.

Supuseram que estivesse a fingir, mas não estava, levaram-na para o hospital e lá ficou um mês. Depois tudo se teria arranjado, não fosse a “Madame”, ao ver noutra ocasião o seu bem-estar ameaçado por nova tolice da filha, dizer ao genro, como se fosse sem propósito: “Nunca as mãos te doam!”

sábado, outubro 2

A dolorosa prova dos nove

Querer continuar mascarado depois de levantada a absurda imposição do uso do trapo, e rezando graças pelo senhor vice-almirante, diz demais sobre o meu povo: envelhecido, pobre, doente, ignorante, ansioso pela canga.

Linhagens

Em vida passada calhou-me por afinidade uma tia húngara, e pela primeira vez notei o curioso fenómeno de alguém cujo interesse primordial parece ser a recordação de nomes e parentescos.

Gabava-se um vinho à refeição, logo ela referia um Miklós, cunhado de uma sobrinha, que para os lados de Kaposvár herdara vinhedos. Partindo daí debitava toda uma genealogia de espalhados ramos, um nunca acabar de nomes, idades, casamentos,  profissões e laços familiares. Ainda por cima num inglês misturado de longas frases húngaras, uma provação para quem queria comer em sossego e tinha mais em que pensar.

O Destino livrou-me da namorada e da tia, mas anos atrás fez surgir o Ernesto dentre as brumas da memória da juventude. A alusão ao hino cabe aqui, porque o  Ernesto, nacionalista à moda antiga, usa uma linguagem arcaica, deleita-se a falar de avoengos, chusmas, flamas, baluartes, morgadios, donzelas...

À semelhança da húngara de nefasta memória, sofre ele igualmente de uma paixão por nomes e famílias, mas alargada com detalhes extremos em referência às posses, aos cargos, às amizades e cumplicidades, aos arranjos, traições, promessas falhadas, amores suspeitos.

Não se lhe pergunte, descuidadamente, se conhece fulano, pois resultará daí um historial minucioso do homem, seguido de casos e parentescos que abrangem primeiro a vila, se estendem pelo concelho, a província, e alcançam Lisboa.

Remata dizendo que, bem vistas as coisas, somos uma grande família, dum modo ou outro todos primos.

Afável por natureza, não contesto, mas Deus me livre.

sexta-feira, outubro 1

Sonhos

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O combóio da Linha do Sabor perto de Estevais, que fotografei em Outubro de 1949, tempo em que o meu sonho era vir a ser um bom fotógrafo. Infelizmente falhei.
 

A doença do Fernando

Esteve preso em Espanha, em Marrocos, em França, na Bulgária, na Grécia, noutros países mais. Mas, diz ele, a sua memória não é grande coisa. Baralham-se-lhe as ideias. Gostaria de responder direito, sobretudo às perguntas dos polícias, dos juízes e dos médicos, mas de repente faz-se-lhe na cabeça aquele vazio e por mais que se esforce não consegue. Tem vinte e três anos. O seu orgulho é nunca ter sido preso em Portugal.

- Em Portugal nunca fiz nada. Nem sequer isto – diz, apontando o negro duma unha. – No estrangeiro roubei, meti-me em quadrilhas, fiz contrabando, andei à esmola, vivi-me de putas e de panascas… Aqui nada. Nunca.

Quando soube que estava no hospital fui visitá-lo. A tentação é grande de descrever a sordidez dum hospital numa vila da província, mas maior é a minha vergonha e o meu respeito por quem é pobre e, além da doença, tem de sofrer a indignidade de ser tratado ali.

 Na enfermaria havia três camas e eu, não o tendo reconhecido, ia já sair quando ele se sentou na do meio e me chamou: - Estou aqui!

Abracei-o. Chocou-me a extrema magreza que as camisolas que tinha vestido encobriam. De facto não o teria reconhecido. Da criança alegre e do rapaz desempenado que eu conhecera, nada restava. Os olhos luzidios de saúde, extraordinariamente negros, tinham agora o brilho da febre. O cabelo, que antes usara longo e era a sua vaidade, sempre a lavá-lo e a penteá-lo, eram apenas farripas que pendiam sem vida. A doença cavara-lhe de tal modo o rosto que a pele esticada sobre os ossos parecia translúcida.

- E então, que tens? – perguntei, a temer que o silêncio denunciasse a minha perturbação.

- O médico diz que são nervos nas pernas – respondeu ele com um sorriso. – Veja lá! Eu que me embebedei com tudo, que já engoli de tudo, que me piquei até não ter mais onde me picar, que cheirei tanta cola que tenho os pulmões meio quei[1]mados… É ou não é azar? E dizem que é doença ruim. Resmunguei palavras de circunstância, afirmei que a Medicina conseguia milagres. Ele concordou e quis acender um cigarro, mas o maço estava vazio. Em todo o caso, disse, o seu caso não era tão desesperado como o do rapaz cego, na cama ao lado, que estava ali há seis meses e tinha o corpo a apodrecer. É dum tumor que me apareceu na cabeça – explicou o doente, que deitado de costas, imóvel, os olhos abertos, dava a ilusão de fitar o tecto.

 – Mas o que está pior de nós três é esse senhor ao pé da janela. Os médicos bem lhe podiam dar qualquer coisa, para que não sofresse tanto.

O ancião, que até aí gemera sem parar, afastou a roupa da cama, mostrando um abdómen inchado, coberto de feridas tão terríveis que instintivamente cerrei os olhos para não desmaiar.

 Sem saber que fazer e ansioso pelo ar da rua, ofereci-me para ir comprar cigarros.

Foi quando voltava e ia subir as escadas que a enfermeira me parou: - Conhece o mocinho da cama do meio? Não se chegue muito, porque ele tem Sida.

Agradeci distraído e a palavra não registou, perdido como ia em não sei que pensamentos tristes. Mas de súbi[1]to, ao entrar na enfermaria e ver aquele rosto descarnado que tentava sorrir, foi como se a minha cabeça explodisse.