sexta-feira, março 20

Mamas e petróleo

(Clique)
"Dos doze países com as maiores reservas de petróleo, apenas o Canadá é uma nação decente. A Venezuela vem em primeiro lugar, seguida da Arábia Saudita, Canadá, Irão, Iraque, Koweit, União dos Emirados Árabes, Rússia, Líbia, Nigéria, Cazaquistão e Qatar.
O dinheiro do petróleo desaparece no bolso de uns poucos, as ditaduras são trocadas por presidentes corruptos, os países árabes produtores de petróleo são meras empresas familiares. Na Nigéria apenas a população aumenta. A quase totalidade das receitas do Estado venezuelano provém do petróleo e do gás, mas os últimos presidentes têm-nas utilizado na fundação de um tresloucado socialismo. A única coisa que na Venezuela não pára de crescer são os seios. Um terço das venezuelanas tem um prótese mamal."
………..
Elsevier Magazine, 14.03.2015
 

quarta-feira, março 18

Mau olhado

(Clique)

Diz-se que a partir de certa idade alcançamos, não somente alguma paz de espírito, mas também certa dose de sabedoria.
Falando por mim, ou a proposição está errada ou o meu caso foge à regra, pois raro passa dia em que não encontre motivo de aborrecimento ou razão para, esquecendo as conveniências e as boas maneiras, me ver a reagir com vocabulário adequado à rasteira que me passaram ou ao prejuízo que com uma aldrabice sofri.
Escusam de me recordar que a vida é de altos e baixos, que nela nem tudo são rosas, ou que também estas nos acenam com perfumes e coloridos antes de mostrarem os espinhos. O caso é que nos últimos dias tenho suportado um número tal de contratempos e desaires que a sério me inclino para a hipótese do mau olhado. E contra este, aqui fica o aviso, de nada vale a experiência dos muitos anos.

terça-feira, março 17

Electricidade e magnetismo

(Clique)

Uns gostam, outros suportam-nas com um sorriso e aqueles acenos que demonstram interesse. Os que são como eu ressentem tonturas. Falo daquelas conversas em família ou entre amigos, quando tudo parece girar em torno do que a avó disse, da doença do tio, do preço da gasolina, de como o almoço estava bom, mesmo bom, mas nada que se compare àquele do ano passado, na Mealhada. Vocês lembram-se? Quando a tia Aurora ao levantar-se da mesa escorregou e partiu a perna? Se fosse hoje...
Aborrecimentos assim fazem-me devanear, enchem-me de inveja de não ter vivido na Viena dos primeiros decénios do século passado, ou na Madrid da mesma época, quando a conversa de café se elevou à qualidade de verdadeira arte.
Comparando o espírito desse tempo com o meu próprio, o da gente que me rodeia, ou as graças tolas que a televisão debita, nem é preciso que chova às bátegas, como neste fim de manhã, para me pôr a olhar para o frasco de Valium com apetites de alcoólico. E vontade de me meter na cama. Com o livro que me fala de homens desse tempo, e onde encontro frases como esta de Ferenc Molnár (1878-1952): “É um mentiroso de tal ordem, que nem o contrário do que ele afirma é verdade”. E ainda esta de Egon Friedell (1878-1938): “Electricidade e magnetismo são aquelas forças da Natureza com que os que nada sabem de electricidade e magnetismo tudo explicam.”

segunda-feira, março 16

Esperança

(Clique)
Pensando bem, há sempre  boas razões para construir o ninho.
(© NU.nl/Pim Valk)

quinta-feira, março 12

O próximo

(Clique, se lê árabe) 
O próximo. Aquele que o geral das religiões manda que se lhe queira como a nós próprios, se lhe perdoe o mal que faz, o prejuízo que causa, o muito que incomoda. Que se use a esponja da misericórdia para lhe limpar o mau feitio, branquear-lhe a alma, esquecer o descaro com que, vez após vez, ele nos faz tropeçar, prejudica, dá palmadinhas nas costas ao mesmo tempo que prepara a rasteira, o golpe baixo, a intrujice.
É bico de obra querer seguir o mandamento e vermo-nos cara a cara com o pulha, pior ainda se é alguém que um dia mereceu amizade e respeito, mas caiu tão baixo na nossa consideração que ouvir-lhe o nome ou recordar-lhe as feições atrai a náusea.
Isto são pensamentos nada elevados, menos ainda pacíficos, para um começo do  dia, mas a vida nem sempre tem lugar para atitudes nobres, altruísmos, perdões.
Oferece a gente a outra face? Certo e seguro a bofetada não demora.

quarta-feira, março 11

O cruzeiro

(Clique)

Sofrem ambos daquela timidez nórdica que impede a exteriorização dos sentimentos, e nos trinta anos que levam de casados nenhum deles recorda um instante em que se tenham deixado arrastar por um impulso.
As suas espaçadas cópulas anunciam-se com toques desajeitados em manhãs de domingo, ou seguem-se às bebedeiras de sábado, nunca elas foram e jamais serão assunto de conversa, comentário, ou gesto de cumplicidade, ambos a travar o desejo de descobrir o que o outro espera, se acalenta sonhos, fantasias, se lhe dói a insatisfação, qual o motivo da reserva.
Conversam sobre o trivial doméstico, têm a rotina e as contas confortavelmente arranjadas, combinam as férias um ano antes, alternando a Sicília com a África do Sul, por vezes um cruzeiro.
É o que estavam a combinar essa tarde, estudando folhetos, o computador ligado, ambos de acordo que seria interessante voltar aos fiordes de Ålesund e  Sunnmøre, irem de novo a São Petersburgo.
- Vou reservar – disse ele, ao mesmo tempo que procurava entre a papelada. Nesse momento ouviu-a repetir baixinho, como para si própria, "São Petersburgo!", mas evitou encará-la.
Tinha sido há uma vida e sabiam-no ambos, por duas vezes tivera de esperar que o camareiro saísse da cabine, mas só agora, à sua maneira, ela confessava.