terça-feira, outubro 15

As Primeiras Coisas

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APRESENTAÇÃO DE AS PRIMEIRAS COISAS, ROMANCE DE BRUNO VIEIRA AMARAL – FNAC CHIADO 14.10.2013
 
Boa-tarde.

Porque me conheço há muitos anos, o ver-me numa cerimónia para a qual me falta experiência, é bico-de-obra. E as quase quatro décadas que passei no ensino, portanto a falar para um público, em vez de ajudar, apenas aumentam o meu desconforto.
Numa sala de aula, ou num anfiteatro cheio de estudantes, a minha posição era de autoridade. Não vou exagerar, dizendo que me sinto aqui como o cristão atirado às feras, mas devo conceder que há lugares e situações em que sinto mais alívio.
É que a voz pode falhar, os óculos podem cair, às vezes um gesto resulta em caricatura, há o temor de não corresponder à expectativa. Levo também em conta a probabilidade de que, mesmo involuntariamente, alguém entre os presentes me encare com aquele modo de quem não espera nada de bom. Ou que sorria, e eu, pessimista por natureza, interprete esse sorriso como uma  advertência e comece a gaguejar.
Para até certo ponto diminuir os percalços decidi valer-me da experiência das mulheres de virtude, dos políticos, dos amantes, dos colibris e das religiões, escondendo a minha insegurança atrás do ritual.
Sendo uma forma de baptismo, a apresentação dum livro assemelha-se-lhe, pelo que, de modo a acatar os mandamentos da cerimónia, em contraponto à sobrepeliz e à estola do sacerdote, vesti eu fato, pus gravata.  
E assim paramentado, espera-se que de seguida augure bem ao recém-nascido, exalte as qualidades e o talento do progenitor, lhe assegure estrondoso êxito, profetize que de Coimbra à Guarda, de Bragança a Portimão, se irá falar de Bruno Vieira Amaral como a grande promessa da nossa literatura.
Aqui chegados, é provável que um ou outro dos presentes se diga que me vê a fazer o clássico frete.
Frete não é, sim consequência de uma situação mafiosa. Ligado pelo juramento do sangue à família Quetzal, amigo da Lúcia, do Francisco, do Bruno, das moças e moços que, para os lados de Benfica, mourejam a produzir livros, estou a cumprir os deveres de um soldado da Máfia.

Deixem que pare o gracejo e desminta o que disse, não vá algum espírito doentio tomar-me à letra.
Um intróito picaresco pode, às vezes, servir para desanuviar um ambiente, esconder uma insegurança. Neste caso é o disfarce de uma desculpa.
Conhecendo as minhas limitações, eu devia ter ouvido o bom-senso e recusado a incumbência, pois nem de longe posso pedir meças aos mandarins da crítica literária, que a esses basta uma linha para escancarar o fosso que os separa do amador.
Também encontram sempre o floreado que realça a qualidade de uma obra, são  enciclopédicos no conhecimento, prontos na referência aos clássicos.
Além disso manejam um vocabulário que, inacessível ao comum, torna difícil compreender se estão a separar o trigo do joio, a meter tudo no mesmo saco, ou a rir da ignorância alheia.
É facto que me senti tocado de emoção quando li o romance do Bruno, e também gostaria de sobre ele dizer coisas profundas, mas falta-me ciência. O que tenho de sobra é inveja. Pagaria bom dinheiro para, sobre As Primeiras Coisas, ser capaz de escrever frases deste género: "A escrita não vem aqui depois do vivido, enquanto representação de uma anterioridade… É um modo, uma declinação – do mal, do apodrecimento, do estranho… Trata-se de desconjuntar a sintaxe, de fazer dela um instrumento que tortura, destrói, enlouquece."

Suspeitem que ironizo, riam se quiserem, mas é assim que vale a pena.

Por azar não me chega a cabeça para essa concisa eloquência, nem sequer para outra de menor calibre. Mas uma vergonhosa confissão devo fazer: estive tentado a plagiar. Só por um triz me salvei de dizer que, em As Primeiras Coisas, "Não se trata propriamente de uma metaliteratura ou de uma inclinação textualista, mas uma experiência e um saber (do mal, da morte, da estranheza, da decomposição, dos restos, da ruína) que só podem ser ditos sob determinadas condições da palavra literária."
E paro as citações, estas chegam para que se avalie a desvantagem, melhor dizendo o prejuízo, que o meu destrambelhado apadrinhamento acarreta ao Bruno.

Acerca da escrita de As Primeiras Coisas, já José Mário Silva referiu a "altíssima qualidade da prosa",  superlativo de que, avisadamente, o crítico do Expresso não é pródigo, embora também não devam ser muitas as oportunidades de o empregar .
Todavia, devo dizer que não apreciei. Senti-me roubado, pois elogio semelhante  já eu tinha feito ao autor, logo que terminara a leitura do manuscrito.
Mas é assim a vida, há sempre quem nos corte o passo.
O romance do Bruno merecia, na verdade, uma apresentação em que, de par com a análise doutoral, se esmiuçasse a subtileza com que ele cria personagens, expõe sentimentos, desenvolve cenas, faz o leitor ressentir o incómodo do confronto com as próprias faltas e cobardias, as ocasiões em que fechamos os olhos em busca de descanso para a alma.
Mas a imparcialidade obriga a que também se lhe apontem falhas. O ambiente do romance desconcerta. A narrativa poderia, como é moda, e por certo ganhava em atractivo, se tivesse por pano de fundo a Mongólia, o Japão ou a Groenlândia, oferecendo assim, juntamente com o enredo, a mais-valia do exótico.
Abria-lhe também a ocasião de extrapolar para o sentimento religioso, as visões que ocorrem nos lugares mágicos, para ascender àqueles estados de espiritualidade que realçam a comunhão de sentimentos com os leitores e estes tanto apreciam.

Mas jovem, e provavelmente mal aconselhado, Bruno Vieira Amaral, pontapeia o leitor para a Margem Esquerda, a Outra Banda de antigamente. E estou certo que isso vai desagradar, talvez até lhe cause um imerecido dano.
Porque no Chiado, na Linha, nas Avenidas Novas - onde habita o grosso dos que lêem e dos que compram - o Bairro Amélia valerá apenas como um insólito longe de que o Tejo os separa e a névoa matinal agradavelmente oculta.
É para esse soturno território, na aparência tão próximo, na realidade mais afastado do que a província transmontana, que o Bruno nos força a olhar.
Aí se movimenta uma gente de extremos, social, económica e sentimentalmente, se não expulsa da civitas, de certeza empurrada para o extramuros, que é a versão moderna e legal do gueto.

Entrei no livro com algum incómodo, perturbado pelas reacções dos personagens, os seus medos, a para mim incompreensível violência, a estranha lógica das atitudes.
Mas graças ao métier do narrador e, sim, à "altíssima qualidade da prosa", entranhei-me no ambiente, vivi com eles, tornei-me um deles,  antes de ter chegado ao Epílogo mais de uma vez se me apertou a garganta.
Não só pela força da narrativa, pela sua humanidade, a gama de sentimentos, o tom original, o elegante e cuidado uso da nossa língua, mas pela emoção de, terminada a leitura, poder afirmar que acabava de ler um grande romance.
Que poderia dizê-lo com convicção e, honestamente, parafrasear o que Saramago, meio século atrás, escreveu sobre o primeiro romance de um outro noviço: "Não se espera e acontece."

Numa vida longa em anos e decepções literárias, há muito deixei de acreditar e esperar. Todavia, à maneira das crianças e dos que jogam na roleta, mantenho a ponta de esperança incoerente que me leva a ler aquela sumidade, o jovem que me dizem promissor, a dama que no céu das Letras brilha como a estrela do norte, mesmo o bobo que confunde a arte de escrever com as tropelias do palhaço.
Leio, desanimo, já nem sequer encolho os ombros.
Para mal de nós todos, a literatura portuguesa contemporânea é muito de modas, aborrece histórias, enredos e testemunhos, quer estados de alma, problemas de identidade, do ser, exames detalhados do umbigo.
Os seus cultores ouviram falar da riqueza do vocabulário e da melodia da prosa, mas essas antigualhas não têm cabimento no universo dinâmico dos Iphones, apps e Rock 'n Roll.
Tomando por certezas os próprios desejos e os malabarismos da psicologia de algibeira, concluem eles que, num mundo que supõem a deslizar na superficialidade, é desnecessário ser, basta parecer.
A precisão da sintaxe, o demorado carpinteirar das ideias e do enredo, a procura de ritmo e melodia, tudo isso lhes parece esbanjar tempo, certos de que, o que em catadupa lhes sai da cabecinha, tem mais autenticidade, espelha melhor o mundo em que vivemos.

Fernando Pessoa escreveu no Livro do Desassosse­go  que "A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde um medidor da forma não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço.
A ruína dos ideais clássicos fez de todos artistas possíveis e, portanto, maus artistas. Quando o critério da arte era a construção sólida, a observância cuidadosa de regras - poucos podiam tentar ser artistas, e grande parte desses são muito bons. Mas quando a arte passou de ser tida como criação, para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista, porque todos têm sentimentos."


Olhando em volta é impossível contradizer o poeta.
Desconhecendo a necessidade de regras, e ignorante de que a estética existe, nas últimas décadas o populus deitou-se a escrever, ciente de que os balbucios do ego são uma expressão de arte. Que dos espasmos da bebedeira, da anorexia, do incesto, da neurose, do amor aos cães, da cirurgia plástica, das sardinhas de escabeche - de tudo, afinal - mesmo os simples de espírito podem tirar um livro ou uma obra de arte. E os editores editam, os museus compram, o povo admira e regozija-se consigo próprio.
Proust e Joyce, tendo aberto com o seu génio, e a "corrente de consciência", um inesperado caminho aos sem-talento, são dos grandes da literatura, mas podem também contar-se entre os seus verdadeiros "malfeitores." Freud faz-lhes companhia, e Marx, que ajudou a criar as ilusões que sabemos, completa o quarteto.

Voltando a As Primeiras Coisas: embargou-se-me a garganta, como já disse. Não só por aquele final de antologia, mas pela certeza de que tinha lido obra moderna no melhor dos sentidos. E obra de primeira. Respeitosa dos cuidados que a língua merece, original na criação, grande na sua humanidade, espectacular na sarabanda de episódios, personagens e enredos.
Tal como Saramago, eu também não esperava, mas a minha satisfação é grande por ver que aconteceu, e porque, finalmente, me foi dado ler um romance em que descubro a continuação da linha do melhor e mais valioso da nossa literatura.
Nada de pequices de suposta vanguarda, elucubrações pedantes, arrebiques, linguagem falseada, arrebatamentos em Katamandu, sol poente nas Maldivas. Nada disso. Simplesmente dura, crua, genuína e pesada, aquela existência a que, por convenção, os que vivem em conforto chamam marginal.

Não se vai lá de visita, nem com as chamadas boas maneiras: anda-se por ali aos empurrões, aos trambolhões, aos vómitos, dando socos, gargalhadas incoerentes, sentindo medo, sendo enganado pela neutralidade de capítulos como o intitulado "Gastronomia", não evitando que o Bairro Amélia profundamente se nos entranhe, transforme e desoriente.
Mais de uma vez perdi o fôlego, como se estivesse a revisitar os momentos cinematográficos mais contundentes de Buñuel, Fellini, Scuola ou Tarantino.
Em As Primeiras Coisas quase todos os actores têm nome e são inesquecíveis, mas entre eles, Lito, o Rei-Sol negro, o Lito-Capone, merece destaque.
A história está na página 179. O leitor assusta-se, depois é-lhe dada uma ténue esperança de happy end, de salvamento, e vai por ali fora, sente a tensão crescer, a violência aumentar, uma fúria de tempestade. Mas nada o prepara para a cena com que termina. Cena estranha, poderosa, em que a humilhação, o medo, a violência, e uma peculiar forma de cortesia e loucura se dão as mãos.

Espero que acreditem se lhes disser que a literatura é a minha vida. Que nos juízos que sobre ela faço não entram amizades nem gentilezas, muito menos favores. Dependências não conheço, dívidas não tenho, nem submissões. Também podem estar certos de que sou avaro de qualificativos, e não me arrisco a fazê-los à ligeira.
Pesando as palavras, seguro de que não exagero, é invulgar a satisfação que tenho em poder dizer que Bruno Vieira Amaral é um grande escritor, e As Primeiras Coisas um grande livro.

 Creio que o ritual manda que, simbolicamente, eu ofereça agora ao autor o primeiro exemplar da sua obra. Mas peço ao Henrique Raposo que seja ele a fazê-lo, dando-me assim oportunidade para assinalar a amizade que os une e não desmerece da de Cosme e Damião.

Muito obrigado.

segunda-feira, outubro 7

A técnica do beijo


Aos quinze anos a primeira namorada, a descoberta das carícias, das tremuras pelo corpo, a febre, os arrepios, o primeiro beijo.
Dias depois, a fumar num banco de jardim, ela disse aquilo com a naturalidade, o sorriso e o  modo desprendido de quem assinala uma ninharia:
- Não sabes beijar.
O verdadeiro choque viria mais tarde, mas de momento atirou com o cigarro, puxou-a contra si, como se quisesse grudá-los apertou os lábios contra os dela, ficaram assim até que a rapariga, zangada e estrebuchando, se libertou.
O boato tinha corrido, e das namoradas que a seguir teve, se uma ou outra se mostrou discreta, as mais não demoravam a censurar-lhe a ignorância e a falta de jeito.
Quente do sangue, caridosa de feitio, Luísa, mais velha um ano, mais alta um palmo, chamou-o uma tarde para um sessão de apalpões e, agradecida, disse que lhe ia ensinar como se beijava.
Ensinara uma dúzia de vezes, mas foi pena perdida, o trauma ficou. Com o correr do tempo, estrangeiras engatadas na praia, às vezes colegas, ligações de acaso, bar flies, acompanhantes para matar a solidão nas noites de hotel, mesmo as que se calavam lho faziam sentir, afastavam os lábios, algumas  escondendo discretamente o desagrado.
Já lhes tinha nascido o segundo filho quando uma noite, ambos a ver na televisão um filme em que Gwineth Paltrow era lenta, mas fogosamente, beijada pelo comparsa, é que a mulher, acendendo outro cigarro, o encarou sorrindo e disse:
- Este sabe beijar.
- E eu não sei?
- Não, querido. Não sabes - e num gesto carinhoso tinha-lhe passado o braço pelo ombro, depois fora buscar mais gelo, enchera de novo os copos.

sexta-feira, outubro 4

Cais de Gaia


Perguntava-se se seria começo de doença, as visões inesperadas daquele rosto de jovem desconhecida, que lhe surgia num espaço impossível de localizar, insólito ecrã tridimensional, em simultâneo no cérebro e fora dele.
Ruiva, pequeninas sardas na pele muito branca, olhos entre o cinzento e o verde, a expressão extática de quem olha desinteressada do que vê. Conhecia-lhe o rosto, imaginava o corpo, as atitudes, surpreendia-se a interrogá-la com a seriedade de quem aguarda resposta. Uma noite de insónia, fantasiando sobre milagres e aparições, na esperança de vê-la animar-se, ao mesmo tempo que a observava desatou a rir.
Felizmente vive sozinho, não tem de dar contas nem explicações.
Tarde quente. Está numa esplanada no Cais de Gaia, desinteressado da vista, atentando vagamente no público, estrangeiros em maioria, este dando na vista pelo traje, aquele pela boçalidade, um outro exagerando a admiração pela ponte, o colorido da Ribeira.
O casal sentara-se na mesa ao lado. Gente serena na meia idade, falando o inglês cuidado de quem passou por boa escola. Não lhes via as feições, mas com a proximidade apanhava uma ou outra frase, compreendeu que falavam de doenças, de alguém que recentemente falecera, da precisão de obras numa casa.
Minutos depois, ao pediram a conta à empregada, a mulher voltou-se, e ao vê-la de perfil não pôde acreditar: era, com mais anos, mas indubitavelmente, o rosto das suas visões. As mesmas sardas, o cabelo igual, os olhos entre o verde o cinzento. Os olhares cruzaram-se, a  mulher a encará-lo desinteressada, no rosto a expressão extática que tão bem conhecia.

quinta-feira, outubro 3

Esmolas


Tinham-se habituado a aceitar esmolas um do outro. Há quatro ou cinco anos, pensava ela, às vezes contando pelos dedos, hesitante, a perguntar-se se deveria acrescentar um, tirar um.
Desde a primeira noite, dizia-se ele. O choque do momento presente como uma cicatriz. Não tinha sido a revelação de que o corpo nu correspondia mal à imagem que se fizera, mas algo como um odor desagradável, um modo que lhe desconhecia, banal e grosseiro, a querer tentá-lo com seduções toscas, cópia sabe Deus de que mau filme.
Cumpriam o ritual, faziam os gestos, no momento certo diziam-se as frases, remavam o barco  em lago sereno. As gémeas nasceram, depois o rapaz, e acharam que bastava.
Podia ter sido ele, porque a sua decepção era grande, talvez a maior. Sentia-se espoliado de sonhos, esperanças, de vivências e aventuras, a imagem que lhe vinha era a de uma névoa em que lentamente sufocava.
Mas foi ela a primeira a trair. Um acaso, encontrando sem se dar conta que procurava, o estranho a revelar-lhe a pobreza em que vivia, a esmola que se habituara a receber, aquele "Meu amor! Meu amor!", gritado no mesmo tom, no mesmo instante.
O homem possuiu-a com certezas de macho, dando o que ela esperava, enchendo o vazio a que se habituara e lhe doía, despedindo-se sem promessas.
É um automatismo, aquele contar pelos dedos. Sete meses e meio? Oito?
Vêm-se às sextas, ao fim da tarde. Há-de-lhe perguntar.  

quarta-feira, outubro 2

As sombras do fim


É grande alívio depurar o passado. Ou tentar esquecê-lo. Limar as arestas dos momentos que perturbam o sono e se tornam pesadelo.
Ambos sabiam que não era amor, nem sequer amizade, pura e simplesmente ataques de luxúria, brutais, erupção vulcânica de sentires que desconheciam, a cama um campo de batalha, cada encontro uma luta de feras.
A primeira vez ainda tinham imitado beijos, fingindo carícias e ternuras, mas perderam-se no momento em que o acaso lhes fizera descobrir que procuravam o mesmo, que não tinham de esconder nem dar-se tréguas.
Uma tarde, deitados lado a lado, ofegantes, exaustos, viu-a sorrir e quis saber.
- Nunca me teria passado pela cabeça – respondeu ela.
Apertou-lhe a mão, ela correspondeu entrançando os dedos nos seus. Esse, recordaria ele muito depois, tinha sido um dos raros momentos de confidência, quase de ternura.
Respeitou-lhe a vontade quando ela disse que não voltaria, que é melhor decidir o fim do que aguardar que ele nos surpreenda e magoe.