sexta-feira, novembro 14

Muletas

Como o controle é deficiente, receber o subsídio de invalidez tornou-se tão corrente nas aldeias que de facto é considerado um direito. Os "inválidos" estão de "baixa" e entretanto correm para a Espanha, a França e a Suíça a fazer as colheitas e as vindimas, ou desunham-se a ganhar onde podem.

O David conta-me que tinha um jornaleiro de Gondim que trabalhava como um danado, embora oficialmente na sua terra estivesse de "baixa" como incapacitado de andar. Um dia a mulher telefonou-lhe a avisar que no dia seguinte teria um exame de controlo em Vila Real.

E dizia-lhe ele: - O mais prático é ir eu daqui direito ao hospital e tu vais lá ter. Mas não te esqueças de levar as minhas muletas.

terça-feira, novembro 11

"Livro de Leitura"


O meu "Livro de Leitura" do primeiro ano. 1940. Descubro-o por acaso, caído atrás de uma arca, e de pronto me vêm os medos de então. Puto de dez anos, já tinha lido mais e melhor prosa do que aquela que, além de enfadonha, se tinha de recitar linha a linha, explicando o sujeito, o predicado, os complementos, o tipo de oração...

Ia-se-me o entendimento ao ver a professora de cana em riste, como se fosse lança, avançar para mim aos gritos de “Grande burro! Grandessíssimo burro!” As lágrimas chorava-as para dentro, o que não conseguia era deixar de tremer, os olhos arregalados da avantesma a um palmo dos meus, a boca torta como se dali a nada me fosse estraçalhar.

Essa e o da Matemática ardem no Inferno.

segunda-feira, novembro 10

Sintonias

Oiço-o em silêncio, atordoado pela torrente das palavras. Pára um instante para um gole de cerveja e prossegue o seu monólogo sobre a história da Europa, a identidade da Europa, os problemas da Europa, a grandeza da Europa, o futuro da Europa, a economia da Europa. Durante quase duas horas. Quando se despede aperta-me a mão calorosa­mente e diz que a sintonia dos nossos pontos de vista é para ele motivo de grande satisfação.

domingo, novembro 9

Auto-retrato

Fotografado ou escrito, o auto-retrato nunca me calhou. Sai quase irreconhecível, de linhas tortas, a meio caminho da caricatura, como se no meu íntimo uma força se oponha a que me revele por inteiro. E talvez seja melhor assim, pois pelo menos mantenho a ilusão de que albergo um mistério.

sábado, novembro 8

"O povo é quem mais ordena!"

De saúde frágil e para cima dos setenta, o padre há muito devia estar reformado, mas pela vontade de salvar as almas e ir aumentado a herança das sobrinhas, continua o pastoreio de cinco freguesias.

Febril, a tartamudear e a tremelicar, a meio da missa no Dia dos Fiéis quase se foi abaixo. E não seria a primeira vez, pois já doutras tiveram de chamar a ambulância. Mas desta lá aguentou, dizendo aos fiéis que não haveria visita a ambos os cemitérios da aldeia, só a um.

Refilaram as santas almas, rosnando que se iria como sempre aos dois, ou não se ia a parte nenhuma. E o pobre pastor cedeu.

No regresso uma “santinha” agarrou-o carinhosamente pelos ombros, dizendo bem alto para que até os surdos ouvissem: “Ora então? Foi ou não foi?

E vá de rir, que assim se mostra quem manda.