quarta-feira, janeiro 21

Solidão

 

Sete e meia da manhã. Depois dos bons-dias sorrimos e, sem mais, entramos no parque com os cães.

Vivemos na mesma rua há anos. Desde o começo, adolescente atrapalhado com as hormonas, garanhão nos trinta, idoso consumidor de Viagra, macho que com ela se cruzava perdia a cabeça. Da vida que levava ninguém sabia, amores não se lhe conheciam, a qualquer um desarmava com o seu sorriso e as banalidades da cortesia.

Ambos madrugadores, os nossos cães facilitam a conversa, mas não recordo que alguma vez tenhamos ido mais além do que o tempo, os problemas do trânsito, os da associação de proprietários.

Continuamos em silêncio. Os cães correm longe, farejam, desaparecem, saltam, retornam.

Olho-a quando vai à minha frente e de novo me assusto, perguntando-me o que terá acontecido. Trinta anos, pouco mais, o que foi juventude e beleza é agora um corpo mirrado, os olhos a saltar das órbitas num rosto de caveira. Pernas de esqueleto. Os tremores da heroína. Involuntariamente abano a cabeça, na recordação das prostitutas que a horas mortas, no desespero da droga, se atiram contra os carros que passam detrás da Centraal Station.

Sorrimos, viramos a caminho de casa. Antes do semáforo pomos as trelas aos cães e, lado a lado, esperamos pelo sinal. Atravessamos. No momento em que me vou despedir toca-me o braço, encara-me com melancolia e, como se me devesse uma explicação, sussurra:

- Sinto-me muito só. Não tenho ninguém. Nunca tive.

Quando me recomponho já ela se afasta. Não sei que fazer nem para onde me voltar.

 

terça-feira, janeiro 20

Horas

Por vezes o que nos vale, o que salva, é o comezinho. Vai-se à mercearia, ou ao café para uma bica, entra-se na livraria, no relojoeiro, compra-se o jornal, actos simples que, ora distraem de um enfado, ora são compasso de espera entre aflições.

Há quem encontre ajuda e alívio no trato social, confessando-se aos amigos com mais ou menos sinceridade. Uns afastam a tormenta dedicando-se à música que ninguém ouvirá, outros escrevem febrilmente a poesia que só eles declamarão, sonhando, sonhando.

Horas más, horas de névoa espessa que impiedosamente se alongam.

A ver se a encurto as minhas, daqui a nada vou às compras e talvez tome um café.

 


sábado, janeiro 17

Figuras, figurantes, figurões

A julgar pelo que leio, oiço, os candidatos à presidência da República são senhores que, numa sociedade civilizada, não fariam o que se chama boa figura.

Daí a minha impressão que, neste nosso reino da Dinamarca, não somente há qualquer coisa errada e algo de muito podre a pedir limpeza, mas é urgente atentar também na consciência cívica e na saúde mental dos cidadãos. Porque custa a compreender que um país inteiro, em vez de exigir uma barrela e se negar a participar na comédia bufa que estas eleições são, vá mansamente depor o seu voto.

Para quê? Com que esperança?

Violência e revoluções não são comigo, sou visceralmente contra, mas um povo desdenhado e espezinhado pelos senhores que mandam poderia, pelo menos, atentar nas lições de Gandhi e aprender a eficácia da resistência passiva e da não-violência.

Votar neles é aceitar a continuação do jugo que um povo que se respeita deveria sacudir.

 

quarta-feira, janeiro 14

O Irão e as mulheres

                    https://estatuadesal.com/

"É preciso haver alguém"

                                 https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/

terça-feira, janeiro 13

Noventa e cinco

A serenidade desse fim da tarde de Maio passado convidava à paz, à calma, e a dois dedos de Grant's bebido com vagar no pátio. Olhando os montes fronteiros, revendo a paisagem de searas que foram, os eucaliptos que os invadiram depois, o mato verde-escuro que pouco a pouco vai retomando os direitos da Natureza.

Ela deu as boas-tardes, aceitou o convite para se sentar, mas uísque, não, obrigado, nunca na vida inteira bebeu uma gota de álcool. Nem sabe se gosta, porque nunca quis provar. Falámos então das coisas e loisas costumeiras, o tempo, os achaques, as batatas que estão a crescer muito bem porque a chuva veio mesmo em boa altura, a desgraça do homem que em Montalegre degolou a sobrinha, deu um tiro na mulher e se suicidou depois.

Persignou-se a esconjurar o espírito do Mal; beberriquei eu, perguntando-me se perdi o gosto ou se se tornou diferente o sabor do uísque.

- Fez noventa e cinco, não foi?

Acenei que sim, com o sentimento incómodo de que a pergunta não parecia totalmente acidental.

- E continua lúcido! Olhe que nessa idade há muita gente...

Creio que a intenção era boa, mas de súbito senti-me como alguém que usurpa um lugar. Com noventa e cinco feitos, são do corpo e da cabeça, o meu funcionar não pode ser o que tenho, mas aquele que os outros de mim esperam.

 

 

quarta-feira, janeiro 7

Vanitas vanitatis, omnia vanitatem

 
                             O grande retra­tista dos por­tu­gue­ses
       Diá­rio de Ren­tes de Car­va­lho con­fronta-nos com um país esque­cido por quase todos

Con­ta­mi­na­dos pelo dis­curso polí­tico ras­teiro, somos ten­ta­dos a achar que uma obra lite­rá­ria focada na busca da alma de um povo é, dema­si­a­das vezes, o sub­ter­fú­gio de ímpe­tos ou inten­tos naci­o­na­lis­tas. Erro crasso, já se vê. Atente-se em José Ren­tes de Car­va­lho, o escri­tor do nosso tempo que mais e melhor tem glo­sado o que é ser por­tu­guês, feito ainda mais extra­or­di­ná­rio se se levar em conta que não vive em per­ma­nên­cia no seu país desde a já muito dis­tante década de 1950.

Nos roman­ces e nos con­tos, assim como nas cró­ni­cas e nos diá­rios, cada escrito do autor de “Ernes­tina” esmi­úça a con­di­ção por­tu­guesa com uma luci­dez assaz rara. Quer esteja em Moga­douro ( Este­vais) ou em Ames­ter­dão, onde reside na maior parte do ano desde 1956, há nas suas obser­va­ções sobre o país uma von­tade per­ma­nente de ace­der a esse recanto secreto da psi­que do povo.

Não o dos pos­tais turís­ti­cos, ou o supos­ta­mente expor­tá­vel (“com men­ta­li­dade à Cris­ti­ano Ronaldo”...), mas o que ficou há muito em defi­ni­tivo para trás nas pri­o­ri­da­des gover­na­men­tais. Esque­cido e ultra­jado, é, muito pro­va­vel­mente, o último bas­tião de uma por­tu­ga­li­dade cada vez mais espar­ti­lhada entre o res­sen­ti­mento sala­za­rista e a inge­nui­dade (pseudo) uni­ver­sa­lista.

É nessa aná­lise per­ma­nente a um país do qual nunca se apar­tou ver­da­dei­ra­mente que se ins­creve o seu mais recente livro, “Recor­da­ções e ando­ri­nhas”, uma reco­lha dos seus diá­rios escri­tos entre 2007 e 2009 mas que con­ser­vam ainda a sua pre­mên­cia. Em meia dúzia de pará­gra­fos (ou até menos), Ren­tes faz-nos che­gar, atra­vés da sua escrita simul­ta­ne­a­mente ágil e rigo­rosa, dúc­til e infle­xí­vel, ecos de um país pro­fundo. Em tudo o que isto possa sig­ni­fi­car de misé­rias e gran­de­zas.

Nes­tes ver­da­dei­ros tra­ta­dos de huma­ni­dade, o “patrão da barca”, como se auto­in­ti­tula nesse mag­ní­fico repo­si­tó­rio do quo­ti­di­ano que é o seu blog Tempo Con­tado, não está inte­res­sado em com­por um certo retrato que possa (des)favo­re­cer os seus – das recor­da­ções sur­pre­en­den­te­mente intac­tas da juven­tude aos epi­só­dios ocor­ri­dos hoje, reve­la­do­res da mudança dos tem­pos ou da sua eterna con­for­mi­dade, o que o move e ins­tiga é, ainda e sem­pre, a vida pul­sante, des­pida dos ardis que abun­dam nas atmos­fe­ras urba­nas.

 

quinta-feira, janeiro 1

Passou

Pertence à época, mas balanços não faço, para trás prefiro não olhar, contas não deito, e planos também não é comigo. O que tiver de vir vem, da experiência aprendi que de nada adiantam muros ou cautelas. Empurrões e pontapés doseiam-nos os outros, por vezes até sem maldade, apenas porque só a si próprios se vêem no caminho por onde vamos todos.

Incerto do meu estoicismo e da justeza do que penso, olho o mau tempo que nesta manhã  quase transforma o dia em noite.