O modo como alguns
escritores, por vezes tão penosamente vaidosos, se cansam a explicar os
princípios filosóficos, morais, sexuais, sociais, das suas obras. O modo como
tudo é ampliado, engrandecido, preparado para a venda, o êxito, a vitória -
quando ao fim e ao cabo o conto, a novela, o romance, são somente histórias.
O autor fornece a
moldura, os contornos, o movimento, e o leitor com a sua sensibilidade completa
a obra. Só isso. O resto, explicações, andaimes, estruturas e sistemas, as
escolas, as correntes, as modas, será útil para a fama e o comércio, mas é
passageiro, insignificante.
Contudo, esses
bombardeamentos tornam difícil manter-se a gente insensível, e de vez em quando
pergunto-me porque bizarro destino o meu escrever é apenas escrever, apenas
trabalho. Porque é que não oiço vozes nem tenho revelações? Porque não chega
até mim a inspiração do Altíssimo? Porque é que na minha vida nunca se dão
daqueles encontros ou situações donde subitamente faísca a luz do génio?
Deus sabe que não
sofro de excessiva modéstia, mas como me sinto zé-ninguém quando comparo a
minha singela labuta com as complexas construções intelectuais, artísticas e
filosóficas que a maior parte dos escritores jura estar na base dos seus
livros! Sejam holandeses ou suecos, americanos, búlgaros ou marroquinos,
portugueses, croatas, todos eles parecem viver em planos tão esotéricos e
elevados do pensamento, que só de ouvi-los sinto tonturas.