quarta-feira, novembro 26

A deslisar

 

Começou pouco a pouco vai para meio ano, o sentir-me incapaz de escrever ficção, assim à maneira de um  bizarro nevoeiro a afectar o cérebro e os dedos.

Pode ser da idade, pode ser desgaste cerebral, o fastio que a política nacional e mundial me causa de certeza contribui. Conselhos para dar também não tenho, como me sei incapaz de, no meu ramo e com  anos em demasia, produzir o que pudesse considerar-se novidade.

Vou pois deslisando para um estado que, sem ser de desinteresse total pelas coisas do mundo, encontra satisfação bastante no quase nada que acontece à minha volta.

 

Berreiro

 

Para quê tanto berro? Que querem vocês? Que adianta esse atirar de lama e insultos? Gritam que governe quem governar nada mudará, só as moscas serão outras. Pensaram bem? Então nestes anos todos escapou-vos que as moscas são sempre as mesmas e cresce a estrumeira onde elas engordam?

Por que esperam? Um redentor? Já não há. Revoltas e revoluções também não. Aliás, é sempre melhor que as faça quem sabe, pois das dos amadores resulta o que temos. 

Berram vocês na internet, exigindo mudanças e melhorias, mas a internet não é praça pública, nem tribuna, nem sequer o café. É um nevoeiro. E um blogue poderá dar-vos a ilusão de ser trombeta, mas nem chega a apito, é um murmúrio.

Passam por lá dez, cem, mil visitantes? Dois mil? Pois passam. Espreitam, farejam, lêem umas linhas, esquecem, os mentecaptos – linda palavra doutro tempo – aproveitam para vomitar ódio nos comentários. Parece movimento e é só vento. Uma pequenina, triste, por vezes cómica sarabanda, diversão púbere, mau grado as doutas e menos doutas análises políticas, económicas, sociais, as profecias de desastres e misérias que não se levam a sério. Porque é só falação, entretenimento, a aragem a fingir de ciclone.

Mas a realidade – contenho-me para não dizer, a triste realidade – é que o tempo passa. O meu já passou, mas vocês têm quê? Vinte e cinco? Trinta? Quarenta anos? Na força da vida e sem genica, sem ideal, sem sonhos, apenas aos berros de que isto está mau e vai piorar?

Ninguém vos ouve, os vossos berros nem sequer fazem eco.

 

sábado, novembro 22

Ostras

 

Para mim este número da Pública é histórico e vou guardá-lo. Não pela tola da capa, mas pela novidade – novidade no meu caso – de um restaurante algures na Catalunha.

Caro que baste e snob de longas reservas, nesse lugar servem refeições que, além da satisfação do apetite, funcionam sobretudo como acessório emocional. Exemplo: uma infusão de terra húmida com goma de Xantana a acompanhar ostras, de modo que o cliente ressinta a comunhão muito catalã do mar com o monte e, ao comer, lhe venha à "memória um passeio por um bosque húmido onde acabou de chover."

Mas têm mais, pois, entre outras, preparam sobremesas com aromas citrinos que, combinados "com o leite e um creme de manteiga associam à ideia da infância." Esperam também "que o limão incuta uma sensação de energia que transporte o feliz comensal para mais um universo paralelo, desta vez marcado pela ternura."

Fumos de tabaco "que dão uma sabor incrível ao doce", sobremesas inspiradas nos perfumes de Gucci e Chanel...

Aqui chegado comecei a agoniar-me. Ocorreu-me que não demorará a abertrura do primeiro restaurante coprófago, onde, para avivar emoções e memórias, sirvam as ostras acompanhadas de uma infusão de merda.

 

quarta-feira, novembro 19

Tempos de turbulência

 

 https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/tempos-de-turbulencia-8604139

terça-feira, novembro 18

Tonturas

 

O modo como alguns escritores, por vezes tão penosamente vaidosos, se cansam a explicar os princípios filosóficos, morais, sexuais, sociais, das suas obras. O modo como tudo é ampliado, engrandecido, preparado para a venda, o êxito, a vitória - quando ao fim e ao cabo o conto, a novela, o romance, são somente histórias.

O autor fornece a moldura, os contornos, o movimento, e o leitor com a sua sensibilidade completa a obra. Só isso. O resto, explicações, andaimes, estruturas e sistemas, as escolas, as correntes, as modas, será útil para a fama e o comércio, mas é passageiro, insignificante.

Contudo, esses bombardeamentos tornam difícil manter-se a gente insensível, e de vez em quando pergunto-me porque bizarro destino o meu escrever é apenas escrever, apenas trabalho. Porque é que não oiço vozes nem tenho revelações? Porque não chega até mim a inspiração do Altíssimo? Porque é que na minha vida nunca se dão daqueles encontros ou situações donde subitamente faísca a luz do génio?

Deus sabe que não sofro de excessiva modéstia, mas como me sinto zé-ninguém quando comparo a minha singela labuta com as complexas construções intelectuais, artísticas e filosóficas que a maior parte dos escritores jura estar na base dos seus livros! Sejam holandeses ou suecos, americanos, búlgaros ou marroquinos, portugueses, croatas, todos eles parecem viver em planos tão esotéricos e elevados do pensamento, que só de ouvi-los sinto tonturas.