quinta-feira, abril 18

Bilhetes (10)


                                                              Morte adiada
 
A distância é grande, uns duzentos metros. Sacode a cabeça, ao mesmo tempo que abre a janela e coloca no peitoril a almofada que servirá de apoio, a repreender-se de que só agora lhe tivesse ocorrido. Felizmente, a automática alcança à volta dos trezentos.
Ajeita-se na cadeira, encosta o ombro à coronha. Os dedos mal tocam a roda do visor, as linhas cruzam-se no homem que se afasta do miradouro e se vai sentar  junto do nicho do fontenário. Vê-o debruçar-se, como se tivesse deixado cair qualquer coisa, volta a erguer-se, muda para a sombra e fica agora de costas, meio escondido pela roseira.
As linhas ajustam-se na nuca, mas o tremor fá-las desviar para o ombro, de novo para a nuca. Suspende o respirar, e como numa carícia deslisa o dedo no gatilho, a sentir o metal, mas também não será desta. Tempo de sobra. É mais pelo gozo, a excitação, até pode ser que nunca dispare.
Fica ali um bocado, o pensamento aos tropeções, por fim desmonta a carabina  e guarda-a na caixa, vai repô-la no esconderijo que fez na adega por detrás das pipas velhas.
Para não mostrar que vem de casa, dá uma volta e entra na vinha pelo cancelo, acena aos rapazes que andam a compor o muro, sobe para o lagarteiro.
Liga o motor e aguarda um momento. Gosta do ronco, quando segura as alavancas parece sua aquela força.

domingo, abril 14

Bilhetes (9)




                                                                                                                            (clique)



Anteontem, sexta-feira, 12.04.2019, um jornalista  amigo entrou no comboio em Alcântara-Mar e, segundo me contou, conseguiu encontrar um lugar vazio no qual, com alguma surpresa, deu com uma folha de jornal com uma das minhas crónicas. Até aí nada de esquisito, porque além de embrulhar peixe o papel de jornal tem muitos usos. Também são várias as razões para alguém deixar uma folha de jornal no banco de uma carruagem. O curioso é não se tratar de uma página do jornal desse dia, nem do anterior, mas de uma da revista Domingo do Correio da Manhã de 25. 11. 2018. A fotografia que o colega juntou faz fé, e o texto era o segue:



O gosto de exagerar



Porque vivemos longe os nossos encontros são espaçados, mas continuo a achar surpreendente que ao longo de tantos anos, cada vez que nos vemos o Arnaldo Barros me leva a recordar um personagem de Eça de Queirós. No seu romance A Relíquia retrata-nos o Dr. Margaride, “um homem corpulento e solene, já calvo, com um carão lívido, onde destacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão.”
Ora acontece que se no físico o Arnaldo – um magricelas de cara chupada, cabelo ralo, olhos tristes - é o oposto do Dr. Margaride, mostra-se seu gémeo quando se trata de um acontecimento ou desastre. “Uma fumaraça numa chaminé” era para o jurista “um incêndio medonho na Baixa”, e justificava ele esse gosto doentio pelo exagero afirmando: “Ninguém como eu saboreia o grandioso”. Também assim é para o Arnaldo, que falando certa vez de um princípio de incêndio nos arrumos da vizinha, contava que se não fosse a rapidez dos bombeiros teria havido ali um Pedrógão.
Mas onde o seu apreço pelo exagero dá cartas é quando avalia os políticos,  destacando-se então pela rara qualidade de nenhum criticar, pois no seu dizer, todo aquele que dedica a vida ao serviço da Pátria merece consideração. E se há um ou outro que não cumpre ou mete pelo mau caminho, é nosso dever recordar que ninguém é perfeito.
Mário Soares continua a ser para ele a figura de topo, quase lhe merece um grau de santidade, mas concede que o Primeiro Ministro já deu mostras de que não lhe fica muito atrás. Aí chegado faz uma pausa a tomar fôlego, cerra ligeiramente os olhos, as palavras saem-lhe pausadas, solenes, num tom definitivo:
- António Costa é um Churchill!Não sou quem para o contradizer, tanto por falta de conhecimento do senhor, como por desinteresse, e ainda pelo génio azedo do meu amigo, que logo se zanga quando alguém discorda.

- Um Churchill! – insiste ele com um ar de desafio, que não resulta porque tomei a mim o papel do bom espectador: calado, meneando ligeiramente a cabeça a mostrar que estou atento.
- E agora diz lá, a quem se pode comparar o Presidente Marcelo?
Encolhi os ombros, porque de facto não saberia responder, mas como o Arnaldo aceita mal que lhe estraguem o jogo, começou ele próprio com sugestões, embora de figuras históricas que hoje pouco ou nada dizem à maioria: Talleyrand, Disraeli, Cromwell, Richelieu, Potemkine…
Então, talvez porque eu lhe parecesse desinteressado, tomou um ar de conspirador e sussurrou-me um nome ao ouvido.
Fiquei zonzo, ainda estou a recuperar.