A época é cheia de
bondades, cânticos, presépios, boas intenções, amor do próximo, mas o sujeito
não pode comigo, eu posso mal com ele, e como não nos conhecemos em pessoa, só
da escrita, não vai ser à bruta, um caso de murros, esboço-lhe com palavras o
retrato e assim me vão doer menos os dedos.
Sabe de tudo.
Muito. Pintura, política, relojoaria francesa, glaciares, motores Diesel,
África, Médio Oriente, Lucas Cranach, gastronomia do Maghreb, Renascença,
geografia da Indonésia, história da Ucrânia… um sem-fim.
Conhece você
Magtymguly Pyragi, o clássico turquemenistanês do século XVIII? Nunca ouviu
falar? Pois conhece-o ele, e não pergunte, que se arrisca a uma prelecção tão
minuciosamente detalhada sobre esse venerando que vai sentir ouras.
É poeta. Publicou
três romances que os amigos elogiaram. Não os procure, que não encontra, nem
insista, porque, aconteceu-me a mim, o livreiro é capaz de desatar a rir,
gozando que o enfatuado dono de tão espaventoso saber seja oco no verso e
desenxabido na prosa.
Sabe de
confeitaria, dos produtos Gucci, da Literatura de Cordel do Nordeste do Brasil,
dos amantes da rainha Vitória, das ilhas Lofoten, de locomotivas do século XIX,
do fabrico de porcelana, das doutrinas de Thomas à Kempis, dos costumes do
Hawai. É, como se dizia antigamente num tom de respeito e assombro,
enciclopédico.
Tudo verdade. O
homem é de facto enciclopédico. Inteligente de sobra também. Poderia ser mesmo
agradável não fosse a inveja que o corrói. Porque, fama alheia, boas palavras
sobre alguém, êxito de amigo, vizinho, colega, ou desconhecido, logo ele
empalidece de raiva e azedume.
Aquilo, creio,
vem-lhe de família. Descendesse de gente de espírito por certo o apregoaria,
mas prudentemente cala que entre os seus é o primeiro sem loja aberta. E é,
creio eu, essa herança de lojista que lhe torna a vida um inferno.
Homem do balcão
conhece apenas duas molas: a do lucro e a da inveja. Seja o que for, o que vai
para os outros é-lhe de facto devido, é seu, não o recebe porque lho roubam.