segunda-feira, junho 24

Bilhetes (38)

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             Assim acontece na vida: foi a cama da minha infância, é agora ninho de gatos.

domingo, junho 23

Bilhetes (37)


É uma loja genuinamente antiga, com o desarrumo de tempos há muito passados, os quatro ou cinco  que lá cabem vão tirando das prateleiras e dos sacos no chão aquilo que  precisam, depõem-no no balcão, pagam, e se não têm pressa fazem dois dedos de conversa com o proprietário que, também à moda antiga, é o clássico e único faz-tudo.
Naquele ambiente caseiro, sossegado e familiar, num momento em que ontem de manhã éramos três fregueses, o estabelecimento de repente escureceu, porque a porta por onde entra a luz – a diminuta janela pouco conta – estava tapada por duas mulheres que hesitavam se entrariam ou não. Demorou, mas finalmente entraram, duas estrangeiras que não podiam ser mais dissemelhantes na postura, ambas com aquele ar que pode ser de confusão, mas algumas vezes é só do aborrecimento impaciente de quem procura algo que não encontra.
Estas tinham-no encontrado, e uma delas – metro e noventa, cara-de-pau, sinais de anorexia – estendia o braço telescópico e ia tirando das prateleira e do chão o que precisava (anotei três cenouras, uma cebola, duas bananas, duas maçãs, uma embalagem de queijo, duas garrafas de água) que ia passando à companheira, também cara-de-pau, mas roliça, metro e sessenta, e que as depunha no balcão.
Isso feito ficaram ambas especadas. Sem um sorriso, um gesto, um movimento, um olhar, qualquer ruído, como se o lojista fosse uma máquina e nós três sacos de batatas ou cartazes de publicidade. O lojista fez as contas, mostrou-lhes o papel, a gorducha pagou, e com a mesma cara-de-pau ambas desandaram, deixando-nos com a impressão de que não tinham estado ali, era como se tivéssemos visto dois fantasmas.
Reparei que não comentámos, fomos por diante com as nossas compras, o que diz bastante do sentimento em que nos deixaram.
A meio da tarde encontrei-as na esplanada do café. Conversavam sem se encarar, e pelo que ouvi eram dinamarquesas. 

Nosso Senhor as acompanhe, que voltem sãs e salvas para donde vieram e se deixem ficar por lá, porque destas são as que tiram a alegria de viver e a vontade de ser cortês.

sábado, junho 22

"Deu o tiro na Cruz"



A História vem por vezes ao nosso encontro de maneira bizarra, deixando-nos atarantados e a temer que andemos menos alerta do que julgávamos para o que nos rodeia, e que muito nos escapa das razões de certas vidas.
Foi há meses, mas ainda não me refiz de como uma simples frase, murmurada durante uma missa de corpo presente, tenha desencadeado tal enxurrada de patifarias, encrencas, traições, cornos postos, roubalheiras, sangue derramado, tudo isso e mais, ele dando saltos no tempo, ora falando da República em 1910, da Grande Guerra, de Salazar e das Colónias, ora retornando à origem da fortuna que o defunto, ali a dois passos, herdara do avô.
O lugar não era o mais propício para a conversa, pelo que depois do funeral e como estavam a ser horas, fomos jantar, ele perplexo de que eu, muito mais velho, me mostrasse tão ignorante das Franças e Araganças do falecido conterrâneo, de como em três gerações a família do dito tinha saltado do palheiro para o palácio.
Porém, o que o fazia pôr em dúvida a minha sinceridade, era o pasmo com que eu reagira, quando ele na igreja me tinha sussurrado que o avô do Sebastião só chegara aonde chegara por ter dado o tiro na Cruz.
- Palavra que nunca lhe contaram? – insistia ele, com uma expressão em que misturava a descrença, a desconfiança, talvez até o receio de que a idade me tivesse afectado a memória. Por fim consegui convencê-lo, e ele, olhando em volta a assegurar-se que por ali não havia conhecidos, aproximou a cadeira, baixou a voz para contar que por volta de 1909, ainda soldado raso em Lisboa, o Abílio Perneta, avô do nosso defunto amigo, arranjara-se para cair nas graças do Afonso Costa, então figura de peso, e esse o tinha levado para a Maçonaria.
- Foi como se lhe metessem um foguete no cu! Sargento, capitão, coronel, na Grande Guerra chegou a general e podre de rico. Claro que se desconfiava, mas se não fosse o enfarte o segredo teria ido com ele para a cova. É que ao ver-se nas últimas disse à mulher que corresse a fazer uma promessa à Virgem, porque lhe pesava um grande pecado. Uma noite tinham-no levado para uma sala onde estava um crucifixo muito grande, e aí, nu em pêlo, um avental de couro a tapar-lhe as partes, meteram-lhe um revólver na mão para que desse um tiro no Cristo. E ele não tinha dado só um, mas três ou quatro!
A mulher foi-se confessar, depois deve-se ter aberto com alguma comadre e assim se veio a saber. Agora que você diga que nunca lho tinham contado é obra, custa a acreditar!