sábado, agosto 30

São as que temos

 

Quem sabe pouco da vida, me conhece mal, ou tem vistas curtas, é capaz de julgar que o riso que me dá quando se fala das elites portuguesas tem a ver com a minha origem plebeia. Mas assim não é. Acontece apenas que dei uns saltos largos desde a nascença, vi mundo bastante e tenho tido a sorte de poder comparar, resultando daí que o que em Portugal passa por elite se me apresenta como uma pitoresca massa de gente pobre com dinheiro, mais interessada em coleccionar relógios, vinhos e automóveis, do que se dar ao trabalho de estudar pelo menos aquele pouco que permite ter da vida, da sociedade, da política e da cultura, uma visão mais elevada do que a do taberneiro que julga o mundo através dos quartilhos de vinho e dos copos de cerveja.

Como se pode considerar elite um grupo de cidadãos que, mau grado as obscenas fortunas, não oferecem um quadro a um museu, não ajudam uma escola, nada fazem para aumentar o bem comum?

Vão aos concertos? Pois que lhes preste, mas não os vejo subsidiar uma orquestra ou oferecer bolsas aos músicos talentosos.

Livros? Têm-nos encadernados em marroquim, milhares deles em bibliotecas de confortáveis sofás, onde se bebe vintage ou aquele uísque que lhes reservam na Escócia. Não lêem, falam de moedas, de ganhos, dos bens que amealham, e poderá ser que tenham outra, mas a que mostram é uma visão rasteira do mundo e da vida, uma visão sem ideal nem solidariedade, até sem futuro, pois julgam que o mundo começou com eles, é deles, para eles,  e continuará nos filhos. A esses logo de começo ensinam o princípio de que o homem deve ser lobo do homem, e eles, as elites (as elites!) os lobos-alfa  com direito, não ao melhor naco da presa, mas à presa inteira.

Tenho podido comparar. Conheço países com verdadeiras elites, gente que amealha fortuna e depois a reparte para melhoria da terra em que nasceu. Homens e mulheres que oferecem milhões de euros a um hospital, um museu, uma universidade, uma orquestra. Homens e mulheres que pensam,  lêem, agem, que se sentem e mostram solidários com os seus concidadãos.

Neste nosso desmazelado e espezinhado Portugal, pobre de pedir entre as nações, até a elite que temos nos envergonha.

 

quinta-feira, agosto 28

Bruxedo

 

Por aqui há bruxas. Fazem-se rezas, preparam-se mezinhas. Enterram-se saquinhos de ervas nas fendas da parede da casa inimiga, nas encruzilhadas aparecem galhos em forma de cruz, leva-se terra das campas, espetam-se alfinetes em retratos. Faz-se a figa, gasta-se dinheiro a cortar o mau-olhado, atam-se ossos de galinha com fios de lã molhados em água-benta.

Viaja-se em segredo para Tenebrón, mais longe que Ciudad Rodrigo, onde há uma "senhora do poder" que quando está com os espíritos lhe saltam faíscas das pontas dos dedos. Cura cancros, artroses e ataques.

Contam-se casos. Repara-se que ao falar em certos defuntos o lume esmorece na lareira. À cautela faz-se o sinal da cruz e há sempre uma anciã que conhece aquela oração do Livro de São Cipriano para empontar as almas penadas. As labaredas reganham vivacidade. Digam o que disserem, mas nota-se, o calorzinho é outro, dá mais agasalho.

Muitos o afirmam e deve ser verdade: entre o Céu e a Terra há mais do que o que os olhos enxergam.

 

quarta-feira, agosto 27

Um lugar ermo


Como há muito cheguei à idade em que se olha mais para o passado do que para o futuro, ocorre-me com frequência ter ideia de que sou transportado para um tempo que foi, e isso de um modo que não se assemelha a visão ou fenómeno de memória, antes parece ser causado por uma estranha e intensa vontade de reviver. Esses momentos incluem, por vezes, como que a realização de desejos insatisfeitos, ou proporcionam ocasiões nunca antes vividas, e assim, tornado outro, me encontro a semear uma leira, ou então a lavrar uma encosta, segurando um arado dos de bico de ferro; vejo-me a espalhar superfosfato que tiro de sacos de serapilheira com a marca da CUF; vindimo ou apanho azeitona; estou à espera do comboio na estação de Carviçais, ignorando o que me trouxe, mas atento a que a garotada não vá mexer no que tenho nos alforjes do macho que comprei a um cigano de Santiago.

São desatinos de pouca dura, relâmpagos, e não me preocupam por aí além, nem vejo neles sintoma de doença, interpreto-os como uma forma de remorso, penitência que talvez me caiba por não ser o transmontano que devesse ter sido, ou castigo por tão intensamente me querer liberto da terra a que pertenço; de não ter partilhado com ela, e com os que nela tiveram de ficar, as dores, os sacrifícios, as decepções dos que são esquecidos e a quem é negado o que lhes cabe na prosperidade da nação.

Porque também não acerto em descobrir quanta parte de mim é genuinamente e por inteiro transmontana, ou em que medida o meu sentir, o que vi do mundo, e o que nele tenho passado afecta o meu julgamento, tendo a refugiar-me na memória, embora ciente de como ela pode ser traiçoeira e capaz de extremos, tanto na capacidade de alindamento como na distorção da perspectiva, sobretudo no que toca a misérias passadas e situações dramáticas.

Desse modo, em busca de algum equilíbrio mental e sentimental, quando me vejo presa do fenómeno acima referido, esses relâmpagos de vivências fantasiadas, procuro refúgio na paisagem, vou para os montes que conheço desde a infância, escolhendo aqueles onde desde tempos imemoriais nada mudou, e que só um titânico emprego de força ou colossal terramoto conseguirá um dia transformar ou destruir.

Do meu poiso favorito não direi o nome nem revelarei o local, baste assinalar que é inóspito, temeroso no aspecto e no negrume, com muralhas rochosas que lembram as de um castelo, mas isso só pela verticalidade, pois que eu saiba, na província toda não há fortaleza que as tenha daquela tamanho e altura.

Aqui e ali cresce um arbusto, mas no mais é tudo rocha limpa, desempenada, quase só arestas e ângulos rectos. Mudando de perspectiva dá a impressão de se  ter defronte algo semelhante a um bizarro órgão de tubos rectilíneos, ou estranhas chaminés de fábrica. E porque naquele ermo raro se vê outra bicharada, é grande o contraste que nele fazem os abutres, as águias e as abetardas que lá têm ninho, voando com uma lentidão ao mesmo tempo assustadora e fascinante, pois em tão grande isolamento são presença pré-histórica, levam a imaginar que, muitos mil anos atrás, já outros terão parado como eu a seguir-lhes o voo, abismados também com a soturna grandeza do sítio que, pela ausência de formas redondas que o suavizem ou arvoredo que lhe dê cor, parece ter sido criado com mau intento por um cataclismo sobrenatural.

Gosto do sítio porque nele encontro silêncio, e uma paz que não é apenas de alívio do espírito, mas me dá um sentimento de pertença, continuidade, de ser um elo numa infinda cadeia de existências.

É, sobretudo, desse sentimento de pertença que sinto falta quando me encontro longe dali, dando-me ideia de ser então outro, alguém com uma sensibilidade diminuída e os interesses passageiros da vida citadina, toda feita de exigências, pressas, rituais, e das obrigações que lhe atestam a superficialidade. Longe de mim, contudo, querer-me em permanência no ermo que ainda rapaz por acaso descobri, e a que desde então me afeiçoei, pois se esse é por excelência lugar de recolhimento, é também um que parece anunciar ameaças bíblicas.

Daí, agora que estou próximo do fim, se irem tornando cada vez mais espaçadas as minhas visitas, e se para isso argumento com a natural fraqueza das pernas, creio que seria mais honesto se confessasse que, como aquele, há lugares que ao mesmo tempo fascinam e assustam, porque obrigam a confrontos que, sejam elas da vida, da morte, ou da salvação, parecem eliminar todas as certezas.

 

 


sábado, agosto 23

Estevais de Mogadouro ardeu

 

Na semana passada a minha aldeia ardeu. Salvaram-se as casas, mas do arvoredo nada ficou, foram para sempre os milhares de oliveiras, tantas delas multiseculares. A paisagem é um negrume. O que nos vai na alma dói de um modo que não se confia a terceiros, pois nem a todos é dado o sentimento de pertença com o chão de tantas gerações, que no nosso caso já era antigo quando por ele caminharam os romanos.