segunda-feira, abril 3

A rapariga do niqab

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Pobre de mim e dos outros como eu que, vendo, medindo e ajuizando por padrões fora de moda, desactualizados que baste, ameaçamos perder a tramontana, porque o mundo não é como nos parece e, julgando-nos ainda nele, provavelmente estamos já fora, com o percalços que isso acarreta.
Porque, sejamos francos, adianta ter princípios? Ser livre e consequente em todo o tipo de escolhas, sejam elas políticas, morais, sociais, sexuais? Remar contra a maré, só porque achamos que, embora custe e canse, é essa a boa direcção?
E que tempo é este, em que não posso atravessar a rua sem temer o meu próximo, desconfiar dele, examinar-lhe primeiro o rosto antes de lhe dar os bons-dias?
Há felizes, ou ingénuos, convictos de que o mal, o desastre, o atentado, acontece sempre aos outros, sempre longe. Porém, eu e os meus iguais não dormimos descansados, sentimos  o mal à porta, lemos com tristeza os cabeçalhos: “Tudo o que deve saber sobre o atentado de …” Como se esse “saber” possa ter utilidade, nos ajude a compreender a tragédia, ou de qualquer modo contribua para podermos sair à rua com o desprendimento e a liberdade a que julgamos ter direito.
De vez em quando escrevo aqui histórias da carochinha, umas vezes casos, outras amores, tristezas domésticas, vidas de garagistas, e um ou outro leitor com razão se perguntará se a idade não me está a pregar partidas, se as artérias já não me irrigam o cérebro com sangue suficiente, ou o meu interesse está a escorregar para a superficialidade. A quem isso teme posso com verdade afirmar que ainda assim não é, mas que para meu desassossego talvez nunca eu tenha visto com tanta clareza o mundo que me rodeia, nem nunca antes tenha sentido tão grandes medos, aqueles em que, mais que a segurança minha e alheia, conta a visão de que talvez não demore a que percamos tudo o que, mais do que o bem-estar pessoal ou o conforto, nos deve ser caro: a liberdade; a crença nos valores da civilização em que nascemos, fomos criado e temos vivido; a riqueza das artes e da literatura; e sim, mesmo que já comecem a soar patéticos, também os da igualdade e fraternidade.
Quando esses medos ameaçam esganar-me, me deformam o entendimento e  levam, com receio e desconfiança, a encarar o meu vizinho, o homem que atravessa a rua e caminha direito a mim, a rapariga que me sorri mas veste um niqab, então, procurando conforto e paz, digo-me que o mundo em que ainda julgo estar, não pode ser o real, mas um de pesadelo e desnorte, feito das sombras e dos temores que em vão tento descartar.
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Publicado na DOMINGO CM