segunda-feira, agosto 31

Vêm aí os chineses


São inúmeras as razões para uma desavença em família, mas em geral falta-lhes originalidade, é quase sempre a velha história de amuos, diferenças de carácter, de interesses, questões de dinheiro, heranças, partilhas, opiniões contrárias, coisas dessas.

A que me contou ontem um jovem recém-casado, de certo modo escapa à lista habitual.

Discutia-se ao jantar sobre o nome do bebé que vai nascer em Dezembro.

É rapaz e os presentes facilmente chegaram a um consenso. Falou-se depois de enxovais e fraldas, parteiras, chupetas, rememorou-se a infância do jovem casal, até que no meio disso tudo o pai da noiva pediu que ouvissem. Professor de Matemática e obcecado pelo planeamento, determinava ele que logo após o nascimento se contratasse uma empregada chinesa para atender a criança.

Pasmo geral. Que razão havia para, no meio da mais holandesa das famílias, implantar uma empregada exótica?

Razão e boa, como explicou: - Os chineses estão a dominar o mundo. Vêm aí. Um puto que fale mandarim tem uma enorme vantagem!

De seguida, claro, foi cada cabeça sua sentença, o que tinha começado com serenidade acabou em guerra, cortaram relações uns com os outros.

Agora pedia ele que lhe dissesse o que pensava da atitude do sogro. Não disse, nem sequer lhe confessei a inveja que tenho de quem sabe planear.

domingo, agosto 30

Inspiração



Infelizmente nunca me senti inspirado para escrever o que quer que fosse. Artigo, ensaio, prosa de ficção, tudo isso exige de mim um esforço desproporcionado com o resultado, e causa em geral dores de cabeça daquelas que depois se lêem nas rugas fundas e nos lábios descaídos.

De modo que, por falta de inspiração, ponho-me a relatar casos reais, tento o retrato de um ou outro, ensaio às vezes umas picadelas em amigos e conhecidos, falo dos vizinhos...

Ultimamente, porém, mesmo esse manancial ameaça esgotar-se. Digo-me que se tivesse os meios que permitem as grandes viagens, talvez fosse pelo mundo em busca de figuras e pitoresco, esquecendo que outros vêm cá com igual propósito. Porque é isso o que acontece: a proximidade torna míope e a falta de inspiração tem costas largas.

Nos últimos três dias, aqui pertinho, um chinês idoso assassinou a mulher; no metro, sem qualquer motivo, duas raparigas esfaquearam outra e foram calmamente à sua vida; vi este helicóptero ambulância aterrar num jardim; ouvi o nigeriano Nkem Owoh, conhecido por Osuofia cantar I Go Chop Your Dollar; um vizinho comprou um Hummer num leilão por dez réis de mel coado; uma garota de treze anos quer dar sozinha a volta ao mundo num veleiro, os pais deixam o juiz por enquanto proíbe.

Tudo isto daria boas histórias, o caso é que a inspiração me falta e de preguiça tenho sobra.

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A canção de Usuofia é agora proibida na Nigéria. A razão é simples e a letra pode ser lida aqui.

sábado, agosto 29

Música (4)


1966. A África do Sul era então o país da Apartheid, e Miriam Makeba (1932-2008) uma jovem cantora de jazz emigrada nos Estados Unidos. The Click Song, cantada em Xhosa, a sua língua nativa, iria torná-la famosa. Canção tradicional, interpretada nas cerimónias de casamento, significado político não tinha nenhum, mas fazia vir as lágrimas aos olhos, porque o talento de Miriam Makeba a transformava como que num hino contra a Apartheid.

sexta-feira, agosto 28

Antenas


Seria bom, mas não vai acontecer, a menos que o Todo Poderoso repare e dê um jeito. Do mesmo modo que uns nascem com cabeça para contas e outros logo de pequeninos tocam Bach, a mim forneceram-me ricamente de certas antenas. Para dizer a verdade preferia ter menos, pois da maioria delas pouco benefício recebo, umas poucas fogem ao comum, as restantes complicam-me a vida.

Assim, por exemplo, sei de uma mulher que, por razões que desconheço e sem nunca me ter visto, cordialmente me detesta. Começa o marido a falar-me dela, logo as antenas se põem alerta. Frases, pausas, omissões, mudanças de tom, exageros de entusiasmo, tudo isso faz com que se me vão formando imagens que têm menos a ver com o assunto que refere, do que com a aversão que a madame ressente por mim e as palavras dele põem a nu.

Aborrecidamente sensíveis são também as que detectam mentiras. Sobretudo pequenas mentiras, aquelas de que nos perguntamos o que é que as motiva e que finalidade poderão ter. Que medos esconde alguém ao negar uma evidência ou um facto controlável?

Parece infantil, mas talvez não seja, pois se mesmo para nós próprios somos uma incógnita, antena nenhuma ajudará a decifrar o mistério em que os outros se envolvem.

quinta-feira, agosto 27

Íncubos


Que se passará na cabeça de certas mulheres minhas conhecidas, de idades variadas, que acham interessante, ou talvez ousado, enviar-me anedotas de gosto duvidoso?

Não me excitam, não me divertem, desejam provar uma pretensa emancipação?

Revelador é o facto de que em conversa se mostram serenas e pudibundas, mas mal ligam o computador parecem tornar-se como que possessas dos íncubos que as atormentam.

A tentação é grande de mostrar algumas, mas fica o aviso para a recidiva.