segunda-feira, Março 31

Para pensar

"Accept the cookies when they are offered, not when you are hungry"

Tradução livre: "Aceita os doces quando tos oferecerem, não quando te sentires esfomeado."

O cliché e a descoberta

O facto primeiro, talvez o mais marcante, é o de que, ao criar o seu mundo, o holandês logo deu mostras de que a separação original das águas e da terra, descrita no Génesis, lhe parecia sus­ceptível de melhoria.
Que essa inventividade lhe tenha cabido por graça divina, ou ele a tenha simplesmente desenvolvido por iniciativa própria, é questão menos interes­sante que a de consider­ar o emprego que, através dos tempos, ele fez de um tão inato pragmatis­mo.
Se nos anais escasseiam as fontes que nos informem sobre os seus tempos primevos, a evolução do holandês acha-se excelente­mente documenta­da desde que deu início à batalha contra os elementos, tornando-se, como se sabe, mestre na prática de tirar benefício do formidável poder dos seus inimigos naturais.
Porém, como se essa luta de certo modo lhe tivesse exaurido a capacidade de combater, a partir do momento em que reteve a água com os diques, e conseguiu domar o vento com as pás dos moinhos, transformou-se ele num ser cuja preocu­pação dominante parece residir num permanente anseio de paz, e a incondicional mantença de harmonias.
Poucos povos se poderão orgulhar, como este, de uma história em que sejam tão poucos os ataques: uma ou duas as invasões; que no seu chão não consigam pegar as raízes daquele tipo de nacionalismo que descamba em barbárie; que talvez só no Oriente se pratique com refinamento igual a arte do compromisso e do consenso.
Contudo, no desleixado mundo em que vivemos, as virtudes e a realidade podem menos que o cliché. E o cliché retrata o holandês como um indivíduo por natureza reservado e sombrio, incapaz de paixão, incómodo no trato. O estereótipo quer também que a sua Holanda seja apenas o país onde ele, calçado de tamancos, numa mão o copo de cerveja e na outra o arenque, caminha lentamen­te por entre campos coloridos de tulipas.
Felizmente que contra o lugar-comum há antídotos, e o mais eficaz é por certo o de aprender a ver com o coração. O holandês e a Holanda ganham então dimensões que não suspei­ta quem, apressadamente, superficialmente, apenas sabe ver com os olhos.
E aqui falo por experiência. Uma época houve em que eu próprio tive do país e dos seus habitantes essa estereotipada imagem de buchos-de-cerveja, cabeças-de-queijo, vacas leiteiras atropelan­do-se numa paisagem feita só de horizonte, ponteada aqui e além por um vulto de moinho.
Mas os deuses foram benévolos comigo e deram-me tempo. Cinquenta anos. Tempo bastante para que aprendesse a ver e me curasse da insensibilidade. Para deixar que o que aos meus olhos parecera informe ganhasse contorno, o aparente­mente vulgar desvendasse um refinamento. Para que eu fosse capaz de discernir a sabedoria por detrás do tédio, e de descobrir que as emoções profundas não necessitam, forçosamente, de grandes gestos ou palavras ribombantes.
Claro que Rembrandt, o genial Van Gogh, sempre tinham sido para mim mais que simples nomes ou referências. Esses e outros, porém, colocava-os eu fora do contexto a que pertenciam: eram mundiais, demasiado grandes para a Holanda da deformada imagem de leite, queijo e chateza que eu então me fazia dela. Mas também aí a força da realidade se foi sobrepondo à ignorância, ou melhor: à minha descuida­da maneira de ver. Até ao dia em que a visão, ajustando-se, conseguiu finalmente tornar nítido o que até então lhe aparecera difuso e de pouco interesse.
Não aconteceu de um dia para o outro, nem foi como nos milagres ou nas grandes revelações: em parte nenhuma soaram trombetas, não houve relâmpagos a iluminar o céu, não apareceram vultos a fazer anúncios. Mas com uma satisfação igual à que devem ter ressentido os navegadores do passado, gradualmente dei-me conta de que conseguira “descobrir” outra Holanda, a verdadeira. Que entre mim e ela se estreitavam os laços que tanto tempo tinham permaneci­do frouxos. Nesse momento, fosse eu poeta, tê-la-ia cantado numa ode.

quinta-feira, Março 27

Fado, Fátima, Futebol e Figo

Uma recordação de Fevereiro de 2004

Grande descanso dá a ignorância. Vivia eu pouco mais sabendo de Luís Figo que o que apanhava na leitura breve e desinteressada dos cabeçalhos dos jornais. Que era talentoso na sua arte. Que ganhava com os pés as quantias mirabolantes que nem se atreve a sonhar quem, por instrumento, só tem a cabeça. Que quase causara uma revolta quando, com mais proveito do que Judas o fez a Cristo, atraiçoara Barcelona, mudando-se para Madrid.
Recordo também ter visto uma fotografia que o mostrava cercado de banqueiros sorridentes. Numa outra sorria ele a uma beldade que, informava a legenda, era sueca, loira e sua companheira.
Salvo uma outra aparição em cartazes publicitários, ou em fugidias imagens da tv, breve e distante como tinha entrado na minha vida, assim Luís Figo saiu dela. Pelo menos era o que eu julgava, quando de súbito, uma manhã de Dezembro passado, a sua presença se me impôs. De forma indirecta, é facto, mas nem por isso menos contundente.
Quem até há um ano ou dois atrás frequentou o aeroporto do Porto - aquele que, um pouco antes da aterragem dos aviões, as hospedeiras anunciam com o seu oficial e longo nome de “aeroporto Francisco Sá Carneiro” - recordará um edifício de dimensões modestas e ambiente provinciano, com um parque de estacionamento fronteiro às “Partidas e Chegadas” onde pouco mais caberia que uma centena de carros.
Com os preparativos para o Euro 2004 tudo isso mudou. O edifício, renovado, transformado, largamente aumentado, não ficaria mal numa metrópole, e no seu subsolo foi construída uma garagem para talvez mil carros, tão gigantesca que se perde a gente nela.
Numa manhã de Dezembro passado, pois, cheguei eu em grande pressa ao aeroporto do Porto, porque os meus netos corriam o risco de perder o avião que os levaria para Amsterdam.
Parei, expliquei a um dos polícias que rondavam por ali a minha aflição, esperançado, quase certo, de que ele compreenderia a urgência e a necessidade de, apenas por minutos, estacionar o carro junto da entrada, o tempo de levar as crianças e as malas até ao balcão.
Esperança vã. Cheio de autoridade, não me deu resposta nem sequer me encarou, e ainda eu não tinha acabado a explicação já ele fazia girar o cassetete para que me despachasse. Sem outro remédio despachei-me, dei a volta e, mudo de assombro, penetrei pela primeira vez na garagem subterrânea que desconhecia.
Com o choque quase esqueci a urgência que tinha e, olhando em redor, a primeira comparação que me ocorreu foi a de uma catedral. Mas uma catedral vista por olhos de criança. Dimensões esmagadoras.
O tempo, infelizmente, urgia, e eu não estava ali para me embasbacar, sim para o mais depressa possível estacionar o carro. Dei voltas sem conta, estonteado a ponto de em certos momentos não saber onde me encontrava. Vaga não havia nenhuma, das poucas vezes que, perto ou longe, apercebia uma, já alguém mais feliz do que eu se apressava a ocupá-la.
Desesperado como me sentia, julguei que fosse alucinação, mas era realidade: defronte de mim, num chão de ladrilhos luxuosos, junto de um muro onde se abria a porta azul de um ascensor, havia cinco ou seis lugares vagos.
Parei o carro, suspirei de alívio, saí e dei de caras com um polícia que parecia ter-se materializado por milagre.
- É proibido estacionar aqui.
- Mas porquê? Não vejo sinal nenhum!
- E estes cordões?
Na minha agitação eu não tinha reparado nos cordões de veludo vermelho que, sustentados por varas de metal cromado, faziam uma espécie de cerca.
- Dentro deste cordões - explicou ele - é reservado para os VIPs.
E depois, severo, para que eu me desse conta do sacrilégio: - Na semana passada esteve cá o Figo, e estacionou exactamente aqui. Até ouvi dizer que é o lugar dele.

Os netos apanharam o avião, que felizmente se atrasara , e eu, livre de encargos e de pressas, comprei um jornal, fui tomar café.
Grande descanso dá a ignorância, afirmei antes. Mas assim não é. Talvez por ser sábado o jornal trazia um grosso suplemento desportivo, dezenas de páginas a detalhar o que, mau grado a sua importância, escapara à minha atenção. Fui lendo, com o sentimento de estranheza que talvez ressintam os animais quando acordam da hibernação, um sentimento de estar no mundo sem me aperceber do que acontecia em redor.
O aumento do aeroporto, aquelas obras que me tinham parecido grandiosas, tornavam-se uma ninharia se comparadas com o que acontecia no resto do país. Nada menos de dez estádios, dois dos maiores em Lisboa, achavam-se em fase de acabamento, e o jornal, trombeteando, falava de construções gigantescas, ciclópicas. Nenhum país europeu se podia orgulhar de semelhantes obras-primas da arquitectura, de estádios com tanto luxo, ou tecnicamente mais avançados.
A respeito do novo estádio de Braga, projectado por um arquitecto de renome, era um desvario de qualificações: aquilo não era estádio, era uma jóia, uma preciosidade, uma maravilha que, ao ver-se, fazia perder o fôlego. Elegância igual à das suas linhas só talvez existisse nos templos da antiga Grécia. E o jornalista tornava-se ligeiramente libidinoso, ao afirmar que, para encontrar proporções de tão sublime perfeição, seria necessário recorrer ao feminino, sugerindo que, para resultado que se lhe assemelhasse, se teriam de fundir num só os corpos de Nancy Crawford, Kate Moss e Naomi Campbell.

De volta à minha aldeia transmontana contei numa roda de amigos o que me tinha acontecido, o que tinha lido, mas eles, em vez do ar de comiseração que eu esperava, riram-se com azedume da minha falta de interesse e de conhecimentos.
Que não morresse de amores pelo desporto, ainda era de aceitar, mas estava eu pelo menos ao corrente que Portugal tinha recebido o privilégio de organizar no Verão o Euro 2004?
Acenei que sim, julgando apaziguá-los, mas de pouco valeu. Uns mal humorados, outros marcando as palavras com um exagerado gesticular, submeteram a um furioso libelo o meu suposto desamor pela Pátria.
Tinha eu ideia de quantos dezenas de milhões, centenas de milhões de euros, o acontecimento faria entrar nos cofres do Estado? Era eu capaz de calcular o que tão gigantescas obras significavam em postos de trabalho, salários, melhoramento das infraestruturas? Os benefícios que daí viriam, e permaneceriam, para enriquecimento do país? Seria a minha candura tão desmesurada que me impedia de ver o enorme impulso que as centenas de milhar de visitantes, talvez milhões, iriam dar à indústria, ao comércio, à hotelaria, aos restaurantes e aos transportes?
De certeza tinha as suas vantagens o ser-se escritor, continuaram os mais embirrentos. Ao escritor era fácil desdenhar do mundo, e ironizar lá do alto da torre de marfim, mas a dureza da vida, o ter de lutar pelo pão, não se compadece com finezas e sensibilidades.
Que queria eu? Zonas verdes em vez de estádios? Criava isso riqueza? Dava trabalho? Era sinal de progresso? Sabia eu que, por exemplo na Inglaterra, um clube como o Manchester United, tinha um valor muito superior ao de grandes companhias mundiais? Não seria bom se um dos clubes portugueses atingisse iguais pináculos?
Lembro-me vagamente que ainda se falou de que, com bons estádios, forçosamente se geravam condições favoráveis ao aparecimento de novos Figos. Que, de tão fora do comum, seria impossível cifrar o valor da publicidade que, através do mundo, o Euro 2004 ia dar a Portugal.
O mais entusiasta dos meus amigos concluiu dizendo que, não somente semelhante empresa merecia aplauso, mas que os investimentos agora feitos, mesmo sendo de imediato onerosos para as débeis finanças do país, certamente iam render, sabia-se lá?... Duzentos? Quinhentos? Mil porcento?

Despedimo-nos com gracejos, minimizando as nossas diferenças, mas, de cansaço ou exaspero, essa noite foi para mim de insónia.
Num momento a reprovar a minha falta de consideração pelas simpatias e os entusiasmos dos meus amigos, no momento seguinte a tratá-los de alarves, por darem tão desproporcionada importância a um desporto que, mau grado as centenas de milhões dos seus adeptos e os colossais rendimentos, não se me afigura, embora geralmente se afirme o contrário, como sendo uma actividade tendente a elevar a natureza humana, ou a criar harmonia entre as nações.
No dia seguinte, em busca de contra-argumentos de mais peso que o meu desinteresse, liguei o computador, procurei “Luís Figo” na internet, e logo Google me apresentou nada menos de setenta e cinco páginas, cada página com dez hits, cada um destes subdividindo-se num sem número de outras páginas, links, sites, albuns fotográficos, vídeos, cartazes, impressões, artigos, biografias... Um emaranhado que demoraria meses a destrinçar, além de que, fora as línguas mais correntes, se teriam de conhecer outras exóticas, como o coreano, o usbeque, o baasa indonesia, o urdu, e sabe Deus quantas mais.
De pouca dúvida era o facto de que, provavelmente todas esses sites - os que li de certeza ecoavam aqueles de que só pude apreciar as ilustrações - eram um rosário de ditirambos e superlativos, descreviam com minúcia as excepcionais qualidade de Luís Figo como desportista, como futebolista, avançado, português, homem, filho, camarada, filantropo, protector da infância...

Contra-argumentos para rebater o entusiasmo dos amigos não encontrei, e animosidade contra o futebol em geral, ou as suas estrelas em particular, também não sinto. E nessa noite, num momento de mais serenidade, metendo a mão na consciência, tive de concordar que a minha indiferença em relação ao desporto-rei estava longe de ser tão fundamental como pretendia.
Pois não tinha eu, na infância, idolatrado Artur de Sousa, o “Pinga” do F.C. do Porto que, ressalvadas as diferenças dos ganhos, era o Figo desse tempo remoto?
Uma recordação foi trazendo outra, e lá me revi uma tarde de Verão de 53 (ou terá sido 54?), no Parc des Princes, em Paris, a assistir a um Racing-Benfica. Às lembranças esfumadas de outros jogos, talvez ouvidos na rádio, seguiu-se uma muito viva de um Porto-Ajax, em Dezembro de 1987. Depois outra, três ou quatro anos passados, de um Portugal-Turquia na Arena de Amsterdam.
Confuso, e quase descrente de que se me tivesse tornado tão selectiva a memória, revi as horas passadas defronte da televisão, a seguir desafios em que Portugal e a Holanda se defrontavam, hesitando sobre qual a equipa a que deveria dar a minha simpatia.
Mas ao perguntar-me se esses arroubos momentâneos, e tão largamente espaçados, fariam de mim um tifoso, vi-me obrigado a responder pela negativa, pois o futebol só muito esporadicamente entra na minha vida, sempre com o aspecto de uma ligeira febre que pouco mais dura que os noventa minutos do jogo.
Contudo, passada a excitação e retomando os sentidos, devo confessar que o futebol me preocupa. Não como desporto, fenómeno social, ou espectáculo que em redor do mundo diverte e emociona centenas de milhões. O futebol preocupa-me, sim, muito egoisticamente, no que ele em Portugal, a minha outra pátria, tem de comum com a situação de Panem et circenses, que já no séc. II da nossa era o poeta Juvenal criticava em Roma.
Não me regozijo no papel de pisse-vinaigre, e parecerá extemporâneo, deslocadamente azedo, mesmo inconveniente, tocar semelhantes assuntos num tempo de tão grande euforia. Mas certo e seguro chegará o momento em que os jogos terminam, a euforia passa e, encerrado o Euro 2004, ao fazer-se as contas, bem aleatória se tornará a certeza de que haja pão para todos.
Que se me perdoe o desabafo, mas estonteia-me o facto que num país tão necessitado, neste momento e de novo o mais pobre da Europa, se tenha gasto um bilião de euros na construção e na renovação de dez estádios.
Isso com a benção de um governo risonho e optimista que, com o primeiro-ministro à frente, foi a um desses estádios e, na presença de 50.000 almas, ignorantes ou preferindo esquecer a miséria de que já sofrem, e aquela que as espera, deu o pontapé de saída ao Euro 2004.
Perdoe-se-me ainda esta ladainha de misérias, infelizmente tão bem expressa na secura dos números. Em 2003 a economia portuguesa diminuiu de 1.1% , ocupando o último lugar que, desde 1986 a 2001 coubera à Grécia. No que respeita a inflacção e o desemprego constatam-se em Portugal os maiores aumentos entre os dos países membros da UE. Enquanto na UE os preços dos bens de consumo aumentaram em média 1.8%, em Portugal a subida foi de 4.4% , e o desemprego passou de 4.1 para 7.2 porcento.
Felizmente, nem tudo são más notícias, pelo menos para alguns: os executivos portugueses recebem os honorários mais elevados da UE. O salário dos directores das empresas públicas é três vezes maior que o dos seus colegas espanhóis ou franceses, e os jornalistas mais importantes da televisão pública auferem ordenados quatro vezes maiores que o mais reputado anchor man da RAI italiana.
Por sua vez o salário mínimo é de apenas 365 euros mensais, enquanto o salário médio dos trabalhadores industriais é de 828 euros, o que equivale a 53% do salário industrial médio que recebe um espanhol, e metade do que ganha um irlandês, um sueco ou um italiano. Os docentes nas escolas e universidades, funcionários públicos, recebem em média o dobro dos seus colegas da EU.
Seria fácil deitar as culpas ao actual governo, conservador e direitista, por dissipar os dinheiros públicos. Acontece, porém, que o esbanjamento já vem do governo anterior, socialista e dito de esquerda, o qual, eleito com a promessa de que terminaria com o favoritismo, e apoiado no slogan optimista “no jobs for the boys”, logo elevou o número de burocratas para mais de 700.000, extraordinária sobrecarga para uma população de 10 milhões.
Ao governo socialista se deve também aquilo a que os analistas chamam the Latin America-style gap da economia portuguesa, com as enormes diferenças que se constantam entre ricos e pobres. E essas não dizem apenas respeito às abismais diferenças dos rendimentos, mas reflectem-se nas comparações com os restantes países da EU, no que concerne o número de horas de trabalho e o acesso aos serviços de saúde pública, à educação e à cultura.
Enquanto que a média de trabalho anual nos outros países da UE é de 1.620 horas, a média portuguesa eleva-se a 1.730. Nos hospitais públicos a lista de espera para operações de cirurgia é de seis anos, e por ser exorbitante o custo dos cuidados dentários, apenas 35% da população se pode permitir o luxo de recorrer ao dentista.
No seu relatório Employment in Europe, a Comissão Europeia aponta que 20% da população portuguesa tem problemas de saúde, enquanto que a média europeia é de 10%. É também em Portugal que se constatam os níveis europeus mais elevados de reumatismo, tensão arterial e diabetes.
Tudo isso já seria mau, mas a lista alonga-se a outros campos de desgraça. Portugal é nr. 1 europeu no número de mortos em acidentes rodoviários. A proporção de acidentes no trabalho alcança 7.214 por cada 100.000 habitantes, triste resultado quando comparado com a média europeia de 4.450. Portugal acusa ainda os níveis europeus mais elevados no consumo de soft drugs, nos casos de SIDA, e de brutalidade policial, este último mantendo-o na lista negra da Amnesty International.
Nas estatísticas oficiais a percentagem de analfabetos aparece como alcançando uns meros 11.8% , mas no relatório antes mencionado o número de portugueses que se podem considerar como funcionalmente iletrados sobe a um assustador 48%, mais do que o dobro do nível verificado na Grã-Bretanha.
Confrontado com estas estatísticas, um comentador escrevia recentemente: “Portugal já tocou no fundo, mas era um fundo falso. Por isso continuamos a cair, desconhecendo o que nos vai acontecer quando chegarmos ao verdadeiro fundo.”
O acesso à UE de dez novos países membros, todos eles com níveis quase-zero de analfabetismo, amplo acesso à cultura e excelente capacidade técnica, resultará para um país economicamente, culturalmente e técnicamente fraco, como Portugal, num inevitável retrocesso e num, igualmente inevitável, desinteresse dos investidores.
Tal como já tantas vezes aconteceu na sua longa história, o país encontra-se de novo à beira de um precipício. Em 1986 salvou-o a adesão à CEE, mas logo, como um doidivanas, em vez de investir sabiamente os desproporcionados subsídios que recebeu, desbaratou-os ele em luxos de novo-rico. Agora talvez tenha de o salvar a Espanha, de que economicamente já depende.

Após um tão longo rosário de misérias e maus presságios, é justo que o leitor se pergunte o que é que isto tem a ver com Figo em particular, e o futebol em geral.
Em minha opinião tem muito, pois não somente o futebolismo é desde há décadas a religião oficiosa dos portugueses, como fez com que no país se erguessem as gigantescas basílicas onde figuras como Luís Figo recebem uma adoração que, em fervor, nada fica a dever à que nos altares cabe aos santos. E será redundante lembrar aqui a frase de Lenine sobre a religião como ópio do povo, mas não é menos certo que, pelo menos o espaço de um Verão, a euforia do campeonato fará esquecer as nuvens negras que se acumulam a prenunciar um tempestuoso futuro.
Os portugueses - extraordinária gente, 10 milhões de almas que possuem mais de 11 milhões de telemóveis, e gastam em telecomunicações três vezes mais no que na educação - continuam a exprimir no fado a sua inata e intensa melancolia, e ainda vão de romagem a Fátima. Verdadeiro e apaixonado fervor, porém, só o mostram no estádio, revendo-se extasiados nas piruetas dos seus futebolistas.

Isto foi o desabafo, mas a consciência e a verdade mandam que se lhe siga a confissão. Estarei em Portugal logo desde o começo do Euro 2004, e não vou perder a abertura, nem aqueles jogos que, um eventual Portugal-Holanda por exemplo, provarão a dificuldade de manter o espírito escorreito em alguém que, como eu, vive em simultâneo duas vidas, possui duas sensibilidades diferentes, se exprime em duas línguas discordantes, se sente dilacerado por interesses contraditórios e visões opostas da realidade.
Não irei aos estádios, porque sempre me assustaram os grandes ajuntamentos, mas sozinho ou com os amigos assistirei na televisão, o entusiasmo há-de contagiar-me, também vou aplaudir. E enquanto o jogo durar vou esquecer.

terça-feira, Março 25

Um gordo

Corrija-me quem sabe, pois só recordo ter ouvido vagamente que há dois tipos de sociedade: a ocidental, em que domina o sentimento de culpa, e a oriental, onde pesa mais o sentimento de vergonha.
A senhora veio para a Páscoa, e com certeza sofria disso tudo em simultâneo, porque se agarrou a mim aos beijos e abraços, dizendo que não ia ler o meu o livro.
Sem detalhar qual, como se eu só tivesse escrito o que referia, acrescentou que durante a viagem – umas seis horas – a filha lhe tinha contado o livro inteiro. Por isso não precisava de o ler, já sabia tudo. E na viagem de regresso a filha ia-lhe contar outro.
- De um escritor que aparece sempre na televisão.
- Saramago?
- Não sei! Esqueço muito os nomes. Esse é o da espanhola?
- A mulher dele, de facto…
- Então não é ele! O outro é um gordo.

segunda-feira, Março 24

Anedota

Contaram-mo como verdadeiro, parece anedota. Eu gostaria que fosse anedota.
Num colégio americano, desses para filhos dos super-ricos, um docente achou útil que os seus pupilos testemunhassem sobre as desigualdades sociais, e mandou que redigissem um texto sobre as circunstâncias de uma família pobre.
Uma das “pérolas” rezava assim: “Era uma família pobre. O pai era pobre. A mãe era pobre. As criadas eram pobres e a cozinheira também era pobre. O chofer era pobre. O jardineiro era pobre. A piscina estava sempre suja e não tinha água."

quinta-feira, Março 20

ESTÁ PARA BREVE!

O Arturzinho quer saber quando é que a loja reabre, ou a barca recomeça a navegação. Está para breve, mas primeiro há que festejar as Páscoas!

sexta-feira, Março 14

PAUSA

Este estabelecimento estará encerrado durantes uns dias.

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Recordações do vinho (4)

O “vinho americano” vendia-se então às escondidas. E porque era ilegal, sabia bem. Os lavradores faziam-no com as uvas das castas importadas da América nos fins do séc. 19 e resistentes à filoxera.
Nos anos remotos da minha infância a posse dessas videiras era proibida (a Guarda Republicana tinha ordem de as arrancar, mas quase sempre fechava os olhos) a feitura do vinho idem, a venda do mesmo sujeita a fortes multas.
Por isso o negócio do “vinho americano” florescia. Creio que hoje a proibição continua, e as leis de Bruxelas são mais estritas, além de que, ao que parece, o “vinho americano” é mau para a saúde. Mas se um destes dias você passar pelas terras do vinho verde, informe-se discretamente sobre o “vinho americano”. Se o conseguir encontrar, prove-o, e apreciará o que, além do atractivo de fruto proibido, sempre tornou esse vinho tão distinto e peculiar: o seu incontestável cheiro a percevejo. *)

Como era de tradição, uns dias antes do Natal começavam a chegar a nossa casa os presentes oferecidos pelas firmas do Vinho do Porto. Regra geral uma ou duas caixas com garrafas de boa qualidade, e sempre algumas de “vintage”.
As caixas eram de madeira fina, as garrafas protegidas por uma capa de palha. Mas a mim não interessava o vinho, interessavam os brindes escondidos no fundo: saca-rolhas engenhosos, miniaturas de faiança, soberbas navalhas com cabo de osso. Dessas fiz colecção, mas um dia troquei-as estupidamente por um livro intitulado Orgias no Convento, de leitura decepcionante e com gravuras que nada acrescentaram à ciência que eu já então possuía.

Hoje os fortificantes compram-se na farmácia e têm o sabor artificial que lhes dão na fábrica. In illo tempore a gemada era o fortificante ideal e universal. Dava-se aos bébés, às crianças, aos convalescentes, aos velhos, às grávidas, aos tuberculosos e aos que sofriam de humores sombrios.
Se a desconhece não perderá nada em experimentar a receita, modelar na sua simplicidade: bata quatro gemas de ovo com quatro colheres de açúcar, junte dois cálices cheios até à borda de vinho fino, remexa e beba.
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*) Haverá ainda quem reconheça o cheiro do percevejo?

quinta-feira, Março 13



O meu amigo Mário Cascalho com o seu alambique. Estevais de Mogadouro. Out. 1996. (Clique para ampliar).

Recordações do vinho (3)

Porque o trabalho era muito e os braços poucos, o monte de mosto seco ficava tempos à espera de ser distilado. Finalmente uma manhã - na minha recordação manhãs em que o ar tinha já uma frescura de Outono - o alambique era instalado e atestado, as caldeiras preparadas, a fogueira acesa, o garrafão posto na ponta do cano.
Os homens traziam banquinhos para se sentar e esperavam pacientes, enquanto as gotas de aguardente caíam uma a uma, límpidas como chuva de Inverno. Depois vinha a prova. Para a maioria em jejum. O copo passava de mão em mão, e dele bebiam grandes, pequenos, as mulheres que adregavam passar, os anciãos que tinham fé no poder da aguardente nova.
De facto a aguardente conta por muito na cura das minhas constipações da infância. De cada vez que começava a tossir e a ficar ranhoso, metiam-me na cama e na mesinha de cabeceira, num prato fundo de esmalte, era deitada uma generosa quantidade de aguardente.
Aquecia-se o prato à luz duma vela e o líquido era de seguida incendiado com um fósforo.À medida que ardia juntavam-lhe lentamente, mexendo com uma colher, algumas gotas de sumo de limão e umas cinco ou seis colheres grandes de açúcar. Assim que a chama começava a diminuir tapavam-na com outro prato para que se apagasse. O líquido, amarelado, licoroso, deliciosamente doce, era depois deitado numa xícara e bebido devagar. Daí resultavam fortes suores e um longo sono reparador a que nenhuma constipação resistia.

O largo onde nasci, em Vila Nova de Gaia, tinha a vantagem de se situar num montículo com um esplêndido panorama. Ao mesmo tempo dir-se-ia uma ilha rodeada por um mar de telhados, os dos grandes armazéns onde envelheciam, envelhecem ainda, milhões de garrafas do Vinho do Porto. Em muitos desses telhados achavam-se escritos em letras desmesuradas os nomes das firmas proprietárias. Eu, criança, soletrava-os mesmerizado, supondo mágica na estranheza das suas grafias: Kopke, Cálem, Cokburn, Ramos Pinto, Ferreirinha, Gonzalez Byass, Delaforce, Morgan, Niepoort...
Muitas das mulheres pobres da vizinhança ganhavam o pão como engarrafadeiras, trabalho que só parecia leve porque passavam o dia sentadas a arrolhar numa maquineta as garrafas que lhes iam pondo diante. Para que nenhuma caísse na tentação de beber da garrafa antes de a arrolhar, envolvê-la em palha e metê-la na caixa, o controle era estrito e o castigo o mais pesado: olho da rua sem perdão, nenhuma esperança de encontrar de novo trabalho semelhante.
Os capatazes concediam-lhes, contudo, um privilégio: garrafa que quebrasse no arrolhamento podia ser bebida. E pelo dia adiante quebravam-se umas quantas. Por isso ao fim da tarde, quando saíam do trabalho, na calçda que levava dos armazéns ao nosso largo só se viam mulheres bêbadas. Caminhavam aos bordos, davam gargalhadas insanas, iam de braço dado, disfarçando a tontura da bebedeira com passos de dança.
De vez em quando uma tropeçava, estatelava-se, erguia-se dando palavrões. Algumas sentavam-se um momento no passeio, sem decoro, as pernas abertas, a cabeça pendente, até que uma companheira mais sóbria as vinha puxar.
Eu, que a essa hora voltava sozinho da escola, caminhava fascinado e temeroso rente à parede.

quarta-feira, Março 12



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Recordações do vinho (2)

O lagar, feito de pedras de granito, parecia-me então colossal. Ficava no rés-do-chão, com uma só janela, numa casa que servia para arrumações e onde, de longe a longe, morava algum casal jovem no aguardo de melhor pouso.
As uvas eram atiradas pela janela directamente para o lagar, que não demorava a ficar cheio. Começava então a pisa. Nesse tempo trabalho só para homens e feito à noite. As calças arregaçadas, caminhavam lentamente em redor, num ritmo monótono. De vez em quando aparecia alguém com uma guitarra, mas em geral, exaustos pelas horas que tinham passado curvados ao sol na vindima, moviam-se em silêncio. Fumavam muito e aparavam na mão a cinza do cigarro.
Nós, a garotada, ficávamos sentados no muro do lagar, depenicando as uvas que ainda havia nos cestos, fazendo sombras chinesas à luz dos lampiões. Mal havia sumo empanturrávamo-nos com canecadas dele.
Ao terceiro ou quarto dia da pisa o mosto começava a “ferver”. Então – “com a força que tem, o mosto a ferver cura tudo” - enquanto os homens o remexiam com pás de madeira, as mães alinhavam no lagar os pequenitos mais fracos, ou os que andavam cobertos de borbulhas e, nus em pêlo, depois de uma lavadela eram passados por cima do muro aos homens que os mergulhavam no lagar. Uma vez, duas vezes, três vezes. Só a cabeça ficava de fora. Uns choravam. Outros, com o susto, abriam a boca que se lhes enchia de engaços, cascas e grainhas.
A minha hora também chegou. Num ano em que à família pareceu que me viam amarelado e escrofuloso, despiram-me, lavaram-me e passaram-me para as mãos dum tio-avô que, carinhosamente, me fez mergulhar até ao pescoço.
Eu, que ao vê-los chorar os tinha tratado de “cagões” e “maricas”, mal me dei conta de ter ao rés dos olhos aquela imensidão de líquido pegajoso, que borbulhava como coisa viva e me ia engolir, soltei gritos tão lancinantes e esperneei de tal modo que não me deram o terceiro mergulho. Mesmo assim o remédio teve efeito.

terça-feira, Março 11



















Joaquim Simão, meu pai, os cestos de uvas e, ao fundo, a entrada do lagar. Estevais de Mogadouro, 09.1964.
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Recordações do vinho (1)

Pelas circunstâncias do afastamento, e as voltas da vida, sou eu o primeiro de longas gerações da minha gente que não plantou vinha nem fez vinho. Mas guardo a lembrança dos anos em que fui testemunha e modesto participante, porque criança, das fadigas e alegrias da vindima, da pisa no lagar, do encher das pipas, do momento em que no dia de São Martinho, na companhia de parentes e amigos, se abria solenemente o vinho novo. Que às vezes saía mau, por falta de cuidados suficientes, ou devido ao mau olhado duma vizinha que era bruxa.
Não sei se será a mais antiga, mas uma das primeiras recordações que guardo do vinho é a de vê-lo jorrar dos tonéis para os garrafões, e o espanto de que a torneira, dois bocados de madeira, coisa de nada, pudesse travar aquela força da natureza.
A memória dos odores também ficou: o bafo doce dos cestos de uvas na vindima, amontoados ao sol. O cheiro adocicado do mosto e a frescura dos barris lavados, cheios de água para que as aduelas inchassem. O fedor acre do fumo das mechas de enxofre, a arder dentro das pipas para a desinfecção. O aroma leve do vinho novo ao ser trasfegado. A fragância das garrafas de vinho velho servidas nos dias de festa. O perfume do vinho fino, combinado com o cheiro e o gosto do pão-de-ló, os doces de amêndoa, os “doces de champanhe”.

A nossa vinha maior fica a boa meia hora de caminho da aldeia. Levar para o lagar à rédea as burras e as muares, carregadas com os cestos de uvas vindimadas, é trabalho que as crianças podem fazer, enquanto os adultos continuam o trabalho pesado. A paga é poder voltar do lagar para a vinha a cavalo. Tenho sete ou oito anos e tantas vezes fiz já o caminho que, no dizer de minha avó, o sol me tisnou “como a um pretinho da África”.
Ao fim da tarde regressamos todos a casa: os homens e as mulheres em passo arrastado, derreados da canseira do dia e do calor; as bestas mais fortes com três cestos, em vez de dois; eu à frente, a assobiar, levando à rédea um burrinho tão manso que lhe chamam “Menino Jesus”.
No começo o caminho é plano e confortável, mas na descida para o vale torna-se íngreme e caminhamos ligeiramente inclinados, firmando os pés. As bestas procuram equilibrar-se, curvando as patas traseiras e retesando as da frente, o que lhes dá um ar de cómica teimosia.
De repente tenho a impressão de que o “Menino Jesus” quer parar, e volto-me. Ele assusta-se com a brusquidão do meu movimento, estaca, os dois grandes cestos cheios deslizam sobre a albarda e apanham-me em cheio. Ouço gritos aflitivos, com certeza me julgam morto, mas estou apenas estatelado no chão, sem uma arranhadura, coberto de uvas. O resto do caminho até casa vai ser um martírio: as moscas, moscardos e vespas da vizinhança fazem de mim o seu manjar.

segunda-feira, Março 10


















A colorida é da Albânia (© Hektor Pustina/AP), recortei-a de um jornal em 2005; a outra tirei-a na estrada de Mogadouro, um dia de Outubro de 1972 (clique para aumentar).

Casos do dia (3)

É um convite que recebi a semana passada para, em Junho próximo, com setenta e quatro outros, festejar os quarenta anos do matrimónio de um casal milionário. Casal amigo, evidentemente. E holandês. Dou este detalhe para que se compreenda que, noutras latitudes, talvez seja outro o sentido da hospitalidade e da organização.
Convite chique, em papel vergê. Traduzo e resumo o essencial.
Será no château X..., situado no centro do país, de modo a que nenhum dos convidados tenha de fazer mais que uma hora de estrada.
Continua o texto: “A minha esposa e eu, estaremos presentes a partir das 10.00 horas em ponto no jardim de inverno do château, onde daremos as boas-vindas aos convidados, e haverá serviço de café, chá e pastelaria. Os que chegarem a tempo poderão dar uma volta pelo jardim com estatuária, pela horta de ervas medicinais, ou ir visitar o poiso das cegonhas. Contudo, às 11.30 espera-se que todos estejam presentes, pois às 12.00 em ponto será servido champanhe, e tirada uma fotografia do grupo, para que fique a recordação.
Cerca das 13.00 será servido um almoço de quatro pratos, seguido de, como cada um desejar, café, chá, digestivos ou bebidas cordiais.
Certamente haverá oportunidade para convívio, mas às 16.00 horas a minha esposa e eu agradeceremos a vossa presença, desejando a todos boa viagem de retorno.
Para aqueles que quiserem oferecer-nos um presente, sugerimos que o façam na forma de um envelope com dinheiro. É que no próximo ano temos a intenção de dar a volta ao mundo, e toda a ajuda financeira será bem-vinda.”

sábado, Março 8


Tony Soprano
by Annie Leibovitz, in
Variety
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Casos do dia (2)

Amsterdam, ontem à tarde. Beethovenstraat. Rua chique. A senhora, chique também, entra com os filhos no eléctrico. Crianças irrequietas. A rapariga parece ter oito anos, o rapaz será um pouco mais novo. A mãe, fazendo boquinhas, ora os repreende em holandês, ora em inglês, impecável em ambas as línguas.
Minutos depois o eléctrico pára. Demora. Finalmente o condutor informa que mais adiante houve um acidente, e a linha está impedida.
Abrem-se as portas. A maioria dos passageiros sai. Os que vão para longe, como eu, esperam.
A senhora muda de lugar, senta-se defronte de mim e sorri. Sorrio também. As crianças acomodam-se entre nós.
- Em Julho, quando estivermos em New York – diz a mãe, momentos depois, num tom um nadinha exagerado – vamos visitar o senhor Gandolfini. Já vos contei que ele se mudou para New Jersey?
Os outros passageiros olham distraídos, como quem não ouviu, os filhos dão-se empurrões, ela encara-me com um sorriso que pede a minha reação.
- James Gandolfini? Tony Soprano?
- Sim! Sim! É nosso amigo!
Faço um aceno de apreço. Ela sorri, como que aliviada não sei de quê. De que alguém a acredita? De que se inventou uma amizade importante? De que de facto é amiga dos Sopranos e quer que o mundo o saiba?
O condutor anuncia que a linha está desimpedida. A campainha tilinta, as portas fecham-se, o eléctrico retoma o andamento.

sexta-feira, Março 7

Feira de Mogadouro 09.1974 (4)


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Nostalgia em 45 rpm (10)



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Casos do dia (1)

Personagem importante que é, de cada uma das (poucas) ocasiões em que me tem contactado, primeiro telefona a secretária, depois há uma espera suficientemente longa a marcar a sua importância, depois ouvem-se umas tossidelas, finalmente entra ele com a afabilidade e as cortesias.
Ontem de manhã foi diferente. No momento em que por acaso olhei para o relógio, passava um quarto das nove, o telefone tocou.
Não era a secretária, não houve tossidelas, era o próprio, a entrar directamente no assunto logo depois dos bons-dias.
- Já lhe deram alguma condecoração?
- Já. Dezasseis anos atrás fizeram-me comendador.
- Ah! Em 1992?
- De facto.
- Quer dizer que já tem. Mas podia-se talvez arranjar outra…
- Muito obrigado. Uma chega.
- É pena. Então.. Bom-dia…
- Bom-dia.

quinta-feira, Março 6

Nostalgia em 45 rpm (9)


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terça-feira, Março 4

Nostalgia em 45 rpm (8)


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Feira de Mogadouro 09.1974 (3)


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segunda-feira, Março 3

Feira de Mogadouro 09.1974 (2)


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domingo, Março 2

Nostalgia em 45 rpm (7)


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sábado, Março 1

Feira de Mogadouro 09.1974 (1)


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