domingo, outubro 21

FECHA? NÃO FECHA?

Se fosse loja punha-lhe aquele ambíguo "Volto já". Poderia dizer que entra em hibernação, mas não é bicho. Fechar de vez, também não fecha. Confessar preguiça, aborrecimento, cansaço com o mundo? Tenho disso, mas em pequenas doses.
Vamos então para a simplicidade: por agora "Tempo Contado" fecha, incerto se, ou quando, voltará a abrir.

Cenas de Lisboa - Primavera de 2005 (15)

Manhã de segunda-feira. Retorno ao Cais de Sodré. Caminho ao longo do Tejo pelo que foi o antigo porto, os entrepostos caducos transformados em discotecas. A esta hora, as onze, têm o ar provisório e artificial dos décors de teatro.
Entro no elevador da Bica, que hoje confirma a reputação em que o tenho de pitoresco. Não pelos turistas suecos, que olham em torno, embasbacados, mas pelas três mulheres, gente típica da pobreza do Bairro Alto, que vêm de fazer compras no mercado da Ribeira.
Com o à-vontade do hábito não pagam bilhete, nem o condutor lho exige: uma dá-lhe uma maçã, a outra uma banana, a terceira encolhe os ombros e ele encolhe os ombros, riem-se todos. Sorrio eu, com aquela mostra de simples solidariedade.
A continuar a conversa em que vinham, queixa-se uma de que antigamente ia a todo o lado de tacão alto, mas desde que enviuvou não vai a parte nenhuma. E os filhos também nunca a convidam. Fora isso, às vezes incham-lhe tanto os pés que não sabe se há-de ir ao médico ou não.
- Médicos é dinheiro deitado à rua! - comenta a outra que, a querer mudar de assunto, mostra o coelho que comprou para guisar. Só que ainda não sabe se vai ser com batatas ou arroz.
- A mim o coelho dá-me sempre azedia, - diz a terceira, e sem transição começa a queixar-se da vizinha que vive no andar de cima, ela e um preto.
O elevador pára com um solavanco. Os suecos demoram a compreender que chegámos e que, com as suas longas pernas, atravancam a passagem. Finalmente começam a pôr-se em pé. A mulher do coelho aguarda impaciente, porque um deles, idoso e excepcionalmente alto, se levanta com dificuldade. Mas sorri-lhe, e ao mesmo tempo comenta para as amigas:
- Este desdobra-se como um metro de carpinteiro!

sexta-feira, outubro 19

As velhas amizades

Diz-me que deve ter lido a maioria dos artigos que, durante uns trinta anos, escrevi para jornais e revistas. Leu também os cinco livros meus que até à data se publicaram em português.
Que me lembre, nunca ouvi dele senão encómios, sendo, como sempre é, impossível destrinçar a parte de amizade que entra nas expressões de apreço.
Conversávamos e, como se de súbito qualquer coisa lhe ocorresse, levantou-se para tirar da estante dois dos meus livros de contos.
Folheou-os em silêncio, a procurar qualquer coisa. Reparei que tinha sublinhado a vermelho algumas páginas, e que noutras enchera a margem de anotações.
Aguardei, com o embaraço em que fico quando alguém me fala dos meus livros. Ele continuava a folhear, de vez em quando voltava atrás e, recolhido, mexia os lábios, dando a impressão de ler em silêncio.
Tinha achado os contos esplêndidos, disse. Com a sua longa experiência de leitor e homem de saber, considerava que alguns eram mesmo de antologia. Mas, pensando bem... Aqui faltava isto, ali teria sido melhor assim ou assado. Este personagem carecia de relevo, naquele pareciam-lhe exagerados os tiques, um terceiro teria ganho com um carácter diferente, a descrição doutro era demasiado seca...
Suportei o martírio, calando o azedume do meu pensamento. Desgostado também de que, para que possam manter-se, as velhas amizades exijam pequenos sacrifícios e alguma hipocrisia.

quarta-feira, outubro 17

Mausoléu

O meu desdém pela nobreza e a alta burguesia não se deve procurar na modéstia das minhas origens, nem na premissa (falsa?) de que na base de toda a riqueza está o roubo, mas na aversão que me causa a ideia de que haja quem, supondo-se diferente, se julgue melhor. Se me querem mal disposto, falem-me de castas.
É, pois, num estado de espírito menos favorável que toco a campainha do nr. 238 na Rua Silva Carvalho, o palácio Ulrich, agora propriedade da Câmara de Lisboa, e que só a pedido se pode visitar.
Agradeço, mas dispenso, os serviços da senhora que me quer servir de guia, e vou pelas salas, menos interessado pelo luxo do que pelo ambiente, tentando conceber como terão sido as festas que os donos da casa, aqui deram nas primeiras décadas do século XX, e que os historiadores referem eufemisticamente como tendo sido “esplêndidas e exóticas.”
Uma rápida pesquisa feita na imprensa do tempo tinha dado resultado idêntico, só que os jornalistas lhes juntavam de vez em quando outros qualificativos como “luxuosas”, “magnificentes”, ou faziam comparações bacocas, assegurando que festas assim só as havia, e raramente, na “alta roda de Paris.”
A minha curiosidade levara-me a procurar um amigo, filho de um falecido chefe de redacção d'O Século. E era como eu supunha. Com a repressão e a censura, nenhum jornalista se atreveria a mexer em semelhantes assuntos, de maneira que as festas do palácio Ulrich ficariam para todo o sempre "magnificentes e exóticas".
Porém, à boca pequena, nas redacções e nos cafés falava-se de quadros vivos que acabavam em orgias, de ópio e cocaína, pedofilia, de criadas tolas que iam à Polícia queixar-se de terem sido violadas e acabavam na cadeia por crime de perjúrio.
Sento-me em cadeiras, em sofás, olho quadros, passo os dedos sobre móveis, mexo em cortinados, aproximo-me das janelas. Procuro tornar-me receptivo ao ambiente, apanhar vibrações boas ou más, mas só ressinto um vazio de mausoléu.

segunda-feira, outubro 15

Manobras

Se ocorresse apenas durante acessos de febre ou megalomania, seria desculpável. Seria compreensível se eu fosse um daqueles boiardos que, na Rússia de antigamente, eram senhores de quilómetros de estepe, aldeias sem conta e milhares de servos.
Como sou apenas este humilde eu, sem possuir terra que se veja, nem almas a depender de mim, não consigo compreender o sentimento, enraizado desde sempre no mais fundo do meu ser, de que a nossa aldeia, os seus vivos e os seus mortos, a sua história, os caminhos, os riachos e os montes em redor, são coisa minha.
Não no sentido de posse material, claro, mas num misterioso e profundo sentimento de pertença, uma simbiose doentia que, em ataques mais agudos, até sofre mal a presença de estranhos na rua, ou a vista de caçadores de fora a passar num atalho
Em geral, ao sentir a proximidade dum desses ataques, eu próprio me intimo a ter juízo e sou capaz de ironizar.
Anteontem, porém, a coisa foi tão inesperada, que primeiro me perguntei se seria alucinação, depois julguei que fosse filmagem e, por fim, rendido à evidência, triplicou-se-me o sentimento de que presenciava um sacrilégio.
Tínhamos caminhado talvez uma hora no monte, quando dentre os pinheiros se ouviu um roncar de motores. Logo a seguir apareceu um jipe militar, e atrás dele, vagaroso devido aos buracos da vereda, um camião com soldados, a seguir um outro, depois um terceiro, um quarto, uma coluna inteira.
A cena era duma grande irrealidade, nós de boca aberta pela surpresa, eles a olhar-nos calados, talvez sem compreender que em semelhantes longes pudesse andar gente.
Um pouco adiante, de mochila às costas e armas na mão, os soldados saltaram dos camiões, deitaram a correr monte abaixo e, logo a seguir, a coluna vazia passou em sentido contrário.
O barulho foi diminuindo, a poeira acalmou, quando nos acercámos da encosta nem perto nem longe havia sinal deles.
De princípio ao fim terá aquilo durado um quarto de hora, mas foi tempo suficiente para viver o horror de quem vê invadir o chão sagrado, e compreendi que se pegue em armas contra um invasor, mesmo sabendo de antemão que a luta será vã.

Quem desconhece semelhantes sentimentos pode ficar com a ideia de que conto isto como um grosseiro exagero, ou que me dou ares. Nada menos verdade. No meu desatino cheguei mesmo a pensar escrever ao Exército para que de futuro se abstenha de andar em manobras nos “meus” montes.

domingo, outubro 14

Despedidas (3)

Custa-me a aceitá-lo e a confessá-lo, mas sinto-me cobarde. Ando pela casa como se não fosse minha, ou como se estivesse de passagem, fingindo-me alheio, o passante que no seu caminho depara com o lugar de um desastre.
Ontem doeu-me e entristeceu-me, hoje dá-me uma irreprimível vontade de fugir. Não quero ver nem pertencer, desejo-me longe, imune e insensível, sem história nem passado, sem família, sem memória.
Os vizinhos sorriem, dizem que os deixe sozinhos, não precisam da minha ajuda nem eu tenho braços para aquilo. Que me acham pálido e me fará melhor ir passear.
Digo que sim e fico-lhes grato pela desculpa que me dão, mas sei que mesmo sem ela eu me teria afastado. A única diferença é de assim poder ocultar a minha cobardia. Ou de me iludir de que a oculto, porque, na sua simplicidade, eles farejam melhor os estados de alma do que um psiquiatra ou um confessor.

sábado, outubro 13

Despedidas (2)

Estranha sensação, a de ver esvaziar-se a casa que sempre foi para mim lugar imutável e uma espécie de ancoradouro, porto de abrigo. Tudo nela me é história que, daqui a pouco, começará a apagar-se.
Chegaram os vizinhos, sete ao todo, com três carroças para levar o que for pesado. Teriam vindo mais, porque em ocasiões destas são prestimosos, mas facto é que as forças de muitos não igualam a boa vontade, e isto vai ser trabalho que pede músculo.
A mim, que sou desorganizado, cabe-me o papel de coordenador, mas logo os mais novos se dão conta que é tempo perdido estar à espera das minhas ordens. Impacientes com tanta indecisão, mal me dão tempo de fotografar o meu passado, e começam a amontoar e a embrulhar com uma diligência de formigas.
Já os armários se esvaziaram de loiça e de copos, da cozinha foram-se as panelas, os alguidares, o esquentador, o fogão... Os móveis, desarrumados e uns sobre os outros, lembram as fotografias que os jornais publicam de casas desvastadas por terramotos.
Ao fim do dia, quando todos se despedem, arranjo um pretexto para ficar ainda, vou de um quarto para outro a sentir que me dói aquele desarrumo, a desordem de coisas fora do sítio, as marcas que os móveis deixaram nas paredes, os sinais de ruína. Ressinto-os como feridas que voluntariamente me inflijo e, estivesse no meu poder - sempre a desgraçada e inútil fantasia! - com a varinha mágica reporia tudo no lugar onde pertenceu.
Incomodado pela agitação e o barulho que fizemos desde manhã, o sardão só agora sai do buraco perto do tecto. Olha curioso, ou talvez desconfiado da minha imobilidade. Finalmente arrisca a cabeça, depois metade do corpo, desce devagar pela parede e pára, com certeza a estranhar o desarranjo e a poeira no soalho.
Caminho às arrecuas e de mansinho, não se vá sobressaltar. Da porta faço um gesto de adeus que, mais do que para o humilde bicho que por vezes me foi companhia, é de despedida para a irrecuperável parte de mim que ali deixo, com as suas dores e os seus sonhos, as alegrias que teve, as esperanças que perdeu.

sexta-feira, outubro 12

Despedidas (1)

Alguns não o dizem de frente, mas lê-se-lhes no sorriso, entre irónico e meigo, com que ouvem também as caturrices dos velhos ou a tontura dos pobres de espírito: esta coisa de eu, à viva força, querer restaurar uma casa que está quase em ruínas. Ir gastar nela mais do que gastaria na construção de prédio novo, parece-lhes tolice tão grande que merece piedade.
Outros acusam-me de não saber de contas. Se o soubesse, ou Deus me tivesse dado menos cabeça para a fantasia e mais para os números, um simples cálculo provaria que a obra é contraproducente, seria medida avisada deixar o dinheiro no banco.Os mais rudes - mas esses são-o sem malícia, só por uma espécie de bruteza nata - acham-me desatinado porque, dizem, com a idade que tenho não me sobrará muito tempo para gozar casa nova.

quinta-feira, outubro 11

Personagem

Ao Virgílio, meu camarada de infância, nunca direi que fiz dele um personagem de romance. Se lho dissesse, estou certo que encolheria os ombros, e havia de sorrir com o modo tímido de quem sabe que, fora do seu, existem mundos que não compreende. Mas que também nunca lhe interessaram.
Passou calvários, escapou à miséria, isso lhe basta.
Pedi que me falasse de Hamburgo, dos quase trinta anos que lá viveu. Em vez de responder logo apontou o céu onde, muito alto, um avião deixava um rasto branco.
- Se voam para norte, são capazes de ir para lá.
Em seguida, aviso discreto para que não insistisse, mostrou-me as mãos trémulas, acrescentando escarninho:
- Estou como Papa João Paulo!
Falámos então da igreja, que precisa de telhado novo, e da filha, que casou na Suíça.
Ao Virgílio não interessa saber que é personagem de romance, como também lhe não interessa o passado, nem sequer o presente.
- Sento-me aqui na soleira, à espera - diz ele sem amargura. - Mas parece que é como com o outro Papa: a morte, comigo, também demora a fazer contas.

quarta-feira, outubro 10

Birra

O ódio poucas vezes é racional. E a palavra, só por si, tem algo de solene, de tragédia grega, parece pertencer mais à ficção do palco do que à vida. Acontece também que, apreciando o exagero, há quem chame ódio à corriqueira antipatia.
Por isso quando ele conta que desde criança odeia o tio e que, ambos agora anciãos, continua a odiá-lo, não o tomo muito a sério.
O motivo desse ódio surpreende: deriva do hábito que o homem tem de anunciar as suas idas à retrete.
O que outros achariam uma cortesia, pois são escassas as casas com mais de uma, e pode sentir alguém na mesma altura necessidade igual, põe-o a ele fora dos eixos. Mas o chamar-lhe ódio parece-me excessivo, e mesmo antipatia soa pesado demais. Talvez se possa dizer que foi uma birra que azedou.

terça-feira, outubro 9

A sorte

O dia nasceu sereno e soalheiro, rodo descontraído por uma estrada onde só de longe a longe passa outro carro. Às oito e meia chego a Vila Flor e entro num café para o pequeno-almoço. À porta e lá dentro uma multidão aos gritos, aos empurrões, às gargalhadas, a acenar com papéis...
Não há mesas vazias, nem lugar em pé, e os empregados, entrincheirados atrás do balcão, gritam também, barafustam, afastam os braços que se estendem para eles.
Esperar que me atendam é pena perdida, mas quero saber o motivo da balbúrdia. Agarro um rapaz e ele, desvairado, nem me olha, liberta-se com um puxão. Pergunto a uma mulher, e ela, como se visse um extraterreno, encara-me de boca aberta:
- Então não sabe?
- Não sou de cá.
Alguém tinha preenchido no café um cupão do Totobola, que no dia antes saíra premiado com meio milhão, e por isso corriam a entregar os seus palpites, certos e seguros, como a mulher disse, que a sorte andava por ali.

segunda-feira, outubro 8

Botijas e cliques

Por razões bizantinas, em que entravam em partes iguais o medo de serem enganados, o desejo de poupar uns tostões, e longínquas querelas de família, enquanto a maioria da aldeia comprava as botijas de gás ao Zézé, os meus pais e meia dúzia doutros compravam-nas ao Bezerra que, além de fazer desconto, as trazia a casa.
Eu herdei essa aliança, sempre envergonhado quando a mulher do Bezerra me aparecia à porta, a tremer com o peso dos quarenta quilos da botija cheia que carregava à cabeça.
Desagradável era também o modo como ela me fitava em silêncio e, a demonstrar o seu cansaço, bufava alto, até que eu encontrava os cinquenta cêntimos que minha mãe a tinha habituado a receber pelo trabalho.
Um desconto de cinquenta cêntimos, uma gorjeta de cinquenta cêntimos, que raio de negócio era aquele? E a mulher com o olhar de besta mortificada, que desaparecia mal eu lhe entregava a moeda... Mudei-me para o Zézé.
Numa aldeia como a nossa, infelizmente, poucas coisas são fáceis, e ao querer montar o clique da mangueira do fogão no cabeçote da nova botija, descobri que não encaixavam. Na botija do esquentador da água e nas dos aquecedores, idem.
Veio o Fernando. Solteirão, bonitão, esmerado no vestir, prestável, o cigarro ao canto da boca.
Agacha-se na varanda a examinar as botijas e eu agacho-me ao seu lado, na esperança de o ver descobrir a causa do enguiço. Saca do canivete e raspa aqui, empurra ali, às tantas escapa-se um esguicho de gás fedorento.
- O cigarro, Fernando! Cuidado! Apague o cigarro.
Aparento calma, mas o reflexo instantâneo é de deitar a correr.
- Qual quê! Então está com medo? Olhe que não acontece nada. O gás espicha para o outro lado. Além disso estamos ao ar livre. Se fosse dentro de casa não digo que não, mas aqui...
Novo esguicho. Levanto-me, desconfiado que aquilo vai acabar mal. Mas ele não desiste e, durante mais de uma hora, corta um bocado de mangueira, aparafusa, desaparafusa, tenta encaixar umas nas outras peças que de toda a evidência são desiguais.
Vira-se de costas para a botija a acender mais um cigarro, o quinto ou sexto, protegendo a chama do isqueiro com a mão e a mostrar que, embora o ache ridículo, toma em consideração o meu medo.
Vem o Jorge. Onde o Fernando anda, o Jorge não anda longe. Homem de sete ofícios. Capaz na recolha do mel e no calcetar de ruas, no arranjo de telhados e obra de carpintaria, mantém com o Fernando uma relação que não é de patrão e empregado, mas de sólida camaradagem. De idade pouco se devem levar.
O Jorge agacha-se. Acende o cigarro. O gás silva. Peço-lhes que parem, mas eles, absorvidos na sua teimosia, nem me ouvem. Sugiro ir ao armazém do Zézé, e trazer de lá outras botijas.
- Não é preciso. Daqui a nada está a coisa pronta.
Só à hora do almoço, exaustos, afogueados, acabam por desistir. Que realmente não vai dar certo. Deve ser defeito, coisa que já veio assim da fábrica.
E aparece o Zézé. Jovem, jovial , próspero grossista do fornecimento de gás, de materiais de construção, e de uns quantos mais negócios, vendedor de génio, a simpatia em pessoa.
Ri-se. Chama-nos tolos. O modelo dos cliques mudou, e nem numa eternidade seríamos capazes de os fazer encaixar.
O correio tinha-lhe dito que estávamos numa atrapalhação com as botijas e desconfiou logo do que se tratava. Por isso tinha trazido meia dúzia de cliques novos. Era aparafusar na mangueira, encaixar, e pronto!
- Estão a ver?

sábado, outubro 6

Leitores

O rapaz leu um romance meu - não recorda o título - e desfaz-se em cumprimentos, dizendo que lhe achou um aspecto proustiano.
Sem querer franzo o sobrolho. Proust? Que raio poderá um romance meu ter de comum com a obra do desagradável esteta?
Mas o rapaz não atenta na minha carranca, e continua imperturbável:
- Certas passagens são mesmo muito proustianas.

Acontece de longe a longe, causa-me sempre a mesma sensação de desconforto: um estranho encara-me, pára, esboça um sorriso, e em vez de me perguntar o caminho, como espero, dispara à queima-roupa:
- Você é...?
Respondo que sim e, por cortesia, escuto o que me dizem, umas vezes cumprimentos sobre o meu trabalho, recordações que guardam de Portugal, coisas do género.
Alguns, porém, ao ouvirem a confirmação de que de facto sou quem eles pensam, deixam cair o sorriso, examinam-me como se em vez de pessoa eu fosse objecto e, sem mais palavra nem aceno, seguem o seu caminho.

sexta-feira, outubro 5

Made in South Corea

O senhor Alberto, homem cordial, rubicundo, empertigado, professor de mecânica no secundário, estabelecido à beira da estrada nacional com loja de electrodomésticos, é desde há muitos anos nosso fornecedor.
Instalação de aparelho, arranjo de antena, frigorífico avariado, fogão novo, o senhor Alberto trata de tudo com um modo alegre e, talvez por deformação do ensino, gosta de explicar o que faz.
Por que é que se põe um parafuso aqui e o outro além? E por que é que a televisão se liga melhor deste lado? Por onde vamos meter o cano da descarga? De quantas fases é o contador?
Ele próprio faz as perguntas e dá as respostas, olhando de vez em quando a certificar-se se o “aluno” segue a explicação.
Com um calor que o manteve a girar em permanência, o ventilador entregou a alma a Deus. Entro na loja do senhor Alberto para comprar outro e, de férias, ele próprio me atende.
Trocados os preâmbulos sobre as respectivas saúdes, o bem-estar dos nossos, a ingratidão dos eleitores que, em vez de o manter no cargo, escolheram o candidato socialista para presidente da junta, vejo-o pegar num volumoso catálogo que coloca sobre o balcão.
A sua “aula” trata hoje dos vários tipos de ventilador, da potência dos motores eléctricos, o ângulo de colocação das ventoinhas, a qualidade do esmalte, a solidez da base e da haste.
Aceno a tudo que sim, como se entendesse, e antes dele sair para o armazém a buscar a caixa digo-lhe que prefiro um de cor branca.
- Aqui está. Esta palavra, “white” (ele pronuncia vi-te) é inglês, quer dizer branco.
- Sei.
E pressuroso, ao ver que os meus olhos se fixam no “Made in South Corea”:
- Isto é artigo bom. Não se deixe iludir, hoje a Coreia do Sul dá cartas na indústria! Ele são os carros, os camiões, os navios, os computadores... Tudo de alta qualidade!
Em casa abro a caixa. Marcado “white”, o ventilador é “black”. Ligo-o à tomada, permanece imóvel.
O senhor Alberto ao telefone, sinceramente abismado:
- Nunca aconteceu! Ora esta! E é preto?
- É preto.
- E então não funciona?
- Nem com rezas, nem com ameaças.
- Aguarde aí, que já lhe levo outro.
E de facto não tarda. Com um branco, que refresca a contento.

quinta-feira, outubro 4

Doisneau, Stieglitz, Kudelka...

Sempre desejei saber desenhar, mas nunca pude ir além de rabiscos iguais aos que traçam os miúdos no primeiro dia de escola. Daí o ter procurado compensação na fotografia.
No decurso dos anos contam-se por milhares as fotografias que tirei, e uma ou outra paisagem pareceu-me que não desmerecia, de meia dúzia de retratos também não me envergonhava. Contudo, quando como hoje abro inadvertidamente um dos meus álbuns, só posso abanar a cabeça em descrença. Que falta de talento e de técnica. Que pena tanto dinheiro deitado fora.
Mas sonhar é de graça... Doisneau, Stieglitz, Bresson, Kudelka... e burro velho não toma andadura. Há sempre uma aparelho mais avançado, uma lente que realiza milagres, um livro que promete o impossível: aprender o talento com que não se nasceu.

segunda-feira, outubro 1

Resumo de tragédia

A história é real, trágica, talvez por isso me embaraça o resumi-la numas poucas linhas.
Casou ainda rapaz, deixou a mulher na aldeia e emigrou para a Alemanha. Dezenas de anos viveu lá em solidão. À custa de privações e sacrifícios, trabalhando de dia na fábrica e à noite de porteiro num prédio, conseguiu poupar uma pequena fortuna, garantia de um futuro de vida folgada, paz de espírito e descanso do corpo.
Quando vinha de férias invejavam-no, mas também o admiravam, pois nenhum deles tinha um Mercedes assim, nem conseguira construir casa tão grande e de tanto luxo.
Boa companheira, a mulher trazia tudo num brinco e, por ter instrução, era ela quem tratava com o banco e se encarregava da papelada.
Chegou o dia do regresso definitivo. Partiu da Alemanha com a euforia de ter alcançado o que queria, mas sem saudades, porque não tinha feito lá amigos, nem ninguém sente pena de deixar o degredo.
Na aldeia receberam-no com festa. No dia seguinte, contente como uma criança, perguntou à mulher quanto dinheiro tinham no banco e ela, desvairada, confessou ter perdido tudo no jogo. Nem a casa lhes pertencia, porque estava hipotecada.
Cego de raiva, matou-a. No julgamento ouviu que lhe dera mais de cinquenta golpes com uma tesoura, mas de nada se recorda, porque, como disse em lágrimas ao juiz que o condenou a prisão perpétua, nessa altura também já tinha morrido.