sábado, maio 26

Desapego

Nascido de gente que através dos séculos amanhou terra, viveu da terra, gente que via na posse de terra não somente uma garantia de vida, mas também uma forma de felicidade, eu sinto-me estranhamente desapegado do campo.
As emoções que me dá uma serrania, um vale fértil, um lusco-fusco no monte, a alegria que me causam as cores do Outono, tudo isso sou capaz de pôr em texto mais ou menos escorreito (hélas, sempre insatisfatório). Todavia, esse descrever é uma arte, não é um sentimento. E embora goste de subir a um cume, descer uma encosta, aspirar os cheiros dum pinhal, não me peçam para podar uma vinha ou colher azeitona.
Essa aversão ao esforço físico que o trabalhar a terra exige, levo-a eu à conta do muito que as gerações dos meus antepassados sofreram na lavoura. Sacrificaram-se eles para que eu me pudesse libertar. E tão radicalmente me libertei que até da carga genética me desfiz.

sexta-feira, maio 25

Escapismo

Por natureza sempre sofri mal que me dessem ordens, e inata é também a minha aversão pelo mandar. De modo que o ter-me feito escritor talvez não seja, como por vezes julgo, destino ou vocação, mas uma forma de escapismo, o resultado de não me saber adaptar à sociedade, onde só funcionam realmente a contento os que sabem mandar e os que gostam de obedecer.

quinta-feira, maio 24

Linhas trocadas

É uma suposição. Embora com capacidades primitivas, nós humanos funcionamos talvez como receptores de sinais, ideias e pensamentos cujos resíduos, à falta de melhor equipamento, processamos através do sonho e da fantasia.
Imaginemos agora que esses sinais, provenientes dum ou doutro remoto planeta, sofrem por vezes de trocas de linha (de onda?) e são recebidos pelo destinatário errado.
Não se poderia explicar assim o destrambelhamento que, sem razão visível às vezes sentimos, tornando-nos por instantes estranhos a nós próprios?

terça-feira, maio 22

Coisas da escrita

O ideal seria escrever frases perfeitas, ter com frequência pensamentos originais. Mas a realidade não se condói: pensamento original não me vem nenhum e, para que não saiam de todo tortas, as frases que escrevo requerem paciência e disciplina de monge. De modo que o dia de ontem passou como inúmeros outros têm passado: a escrever e a apagar frases impróprias para consumo.

Deformação profissional não será, mas talvez se lhe possa chamar descarrilamento da fantasia. Menciono a alguém um caso, oiço uma história, e de imediato o meu cérebro se põe a imaginar variantes, a guiá-las para outros rumos, a fornecer desenlaces diferentes, mais inesperados.
Pena é que essa esfusiante agitação não venha quando me sento com o propósito de alinhavar um texto. E há alturas em que não é apenas o enredo que se recusa a surgir, mas mesmo as palavras e as frases se mostram reticentes, saem toscas.
Apoquentado pelo receio dos males que a idade traz consigo, pergunto-me se serão isso sintomas de degenerescência mental.

domingo, maio 20

Mudanças

Os tempos mudam, sabemo-lo todos, mas acontece que, além de vir de longe, nas décadas que já vivi foram tantas as descobertas, as invenções, as mudanças, que em certas alturas, ao relembrar a simplicidade que reinava nos meus primeiros anos, dá-me a ideia de desde então existir dentro dum torvelinho.
Todavia, nem sempre são grandes as mudanças que mais surpreendem. Recordo o meu pasmo quando pela primeira vez, num café em Lisboa, tive de pagar um copo de água. Foi como se visse profanar o que, de tão sagrado, era intocável desde tempos imemoriais. “Nem a um inimigo se nega um copo de água!” - e ali estava o empregado a dizer-me que eram cinco escudos.
Que na igreja da Madeleine, em Paris, um sacristão me sussurrasse furioso para deixar o banco onde me tinha sentado, porque era lugar reservado e pago, deixou-me entontecido. Não era aquilo a casa do Senhor? Pagava-se ali bilhete como no teatro?

quarta-feira, maio 16

Marcas que ficam

É uma febre que me toma de vez em quando, a de escrever um diário. Sabendo de antemão que nunca terá a minúcia nem a intimidade das confissões de Pepys, ou o veneno destilado nos trinta e dois volumes do de Jouhandeau. Mas a febre passa, vêm ocupações urgentes, preguiças, divertimentos mais interessantes, e a intenção vai para o saco sem fundo onde já caíram outras.
Diários daqueles em que se anotam minuciosamente os sentimentos, até agora só tive um. Na adolescência. Quando meu pai o descobriu e julgou encontrar nele a razão de, com os meus amores, eu ter descurado o estudo, obrigou-me a ouvir a leitura irónica e declamada que dele fez.
Tinha dezasseis anos e a humilhação deixou marcas. Hoje, as ameaças desse dia e os insultos, as bofetadas que me deu depois, já não contam. Mas mais que a dor e a humilhação física, o ele ter violado os meus pensamentos e anseios íntimos, é das coisas que ainda não consegui esquecer ou perdoar.

terça-feira, maio 15

Favor do destino

Talvez porque desde a adolescência me desabituei de festejá-los, os meus aniversários são datas melancólicas.
O de hoje não escapa à regra. Desagrada pertencer à vasta legião dos reformados, dos anciãos, dos excedentes. Daqueles que quase todos os dias têm consciência de que, até por volta dos quarenta, o viver é um direito, daí aos sessenta se torna uma dádiva, mas em seguida se assemelha muito a um favor do destino.
Bem vistas as coisas, não tenho razões de queixa: o cérebro funciona como dantes, os músculos pouco perderam do seu tónus, as charneiras do esqueleto raro me incomodam. Mas quem gosta de viver de favores?

segunda-feira, maio 14

Girls Gone Wild

Uma coisa é ter ouvido falar, bem diferente é o impacto do dvd que mão amiga manda da longínqua Boston (Obrigado, Kathleen) com gravações de Girls Gone Wild, o programa em que jovens e menos jovens americanas descobrem os benefícios libertadores que a pornografia oferece, sobretudo quando se toma nela parte activa, e sobretudo pública. Mulher verdadeiramente emancipada não conhece fronteiras nem o faz por menos.
Um inesperado aspecto decorrente desse fenómeno, é o das jovens modernas que, supondo que talvez isso também signifique emancipação, se sentem próximo das clássicas atitudes de superioridade masculina (if you can’t beat them, join them), reservando para as suas congéneres um desdém rabioso de que qualquer homem decente se envergonharia.
A quem o assunto interessar, será proveitosa a leitura de Female Chauvinist Pigs, de Ariel Levy.

quinta-feira, maio 10

Frustração

É possível que os publicitários exagerem a eficiência das comunicações móveis. Também é de esperar que, voando sobre o deserto transmontano, os satélites poupem energia e não funcionem a cem porcento.
O certo é que vejo comentários a este blog fulgurar num instante e a desaparecer no seguinte, mails que chegam com inexplicável atraso, outros que somem…

Fosse o regime de monarquia, certamente me queixaria ao soberano. Mas que fazer, se somos todos a mandar?

quarta-feira, maio 2

Desânimos

Nos muitos momentos de desânimo pergunto-me o que adianta recordar, pôr em escrito as coisinhas miúdas que enchem os meus dias. Contudo, é nalgumas dessas miudezas que, mais tarde, descubro uma espécie de conforto. Ou talvez seja antes a resignação de aceitar o que sou, e não lastimar o que não cheguei a ser.

Devido talvez a algum defeito genético, ou às circunstâncias em que vivo - agarrado à língua materna, obrigado a usar outras no dia-a-dia - o meu cérebro funciona como uma desgarrada máquina de traduzir. Tudo o que me preparo para dizer tradu-lo ele automaticamente para Português, o que, além de cansativo, causa por vezes hiatos na conversa, e de certeza dá aos meus interlocutores a impressão de que sofro de afasia.