quinta-feira, Maio 31

Cassettes

São cassettes onde, muitos anos atrás, gravei uma entrevista que lhe fiz. Julgava tê-las perdido. Ponho-as no gravador e oiço a nossa conversa com o desagradável sentimento de ter sido ingénuo.
Só agora me dou conta de como ele me manipula, as suas respostas a atrair perguntas que são outras tantas ratoeiras onde me deixo prender. Tem-se a impressão de que sou eu o entrevistado, que estou ali com a única finalidade de louvar o seu talento, enaltecer a sua fama, que voluntariamente lhe sirvo de degrau.
Oiço e envergonho-me.

quarta-feira, Maio 30

Odessa

O pedido é pelo menos invulgar: um professor do secundário em Odessa explica, numa carta em bom Inglês, que o seu hobby é recolher os endereços de escritores no maior número possível de nações e pedir-lhes que, na língua materna, descrevam os afazeres e andanças de um dia típico. Pede ainda que lhe seja enviado um exemplar dum livro autografado pelo autor, e uma fotografia do dito.
As reacções em redor do mundo têm sido tantas e tão simpáticas que, com retratos, livros e cartas, diz ele já ter enchido as paredes da biblioteca da escola e mais de metade das de um corredor adjacente.
Ideia simpática, tanto mais que o homem faz considerações sobre a paz, o meio ambiente, como é proveitoso conhecermo-nos melhor uns aos outros, aproximarmos as nações, acordarmos na juventude o gosto da leitura.
Infelizmente, além da preguiça nata de que sofro - pensar carta, escrevê-la, escolher livro, fazer embrulho, ir ao Correio... - passado o instante de simpatia também me pergunto: que interesse há em saber-me pendurado na parede de um corredor em Odessa?

terça-feira, Maio 29

Quinquilharia

Pelo correio chegou-me ontem um presente: a miniatura de uma casa tradicional de Trás-os-Montes, feita em barro cozido.
A execução é naïf, as proporções absurdas, mas nota-se no todo uma forma de boa vontade e a artista, orgulhosamente, assinou o seu trabalho, pôs-lhe a data e até o número do fabrico da peça, o 1.988 de uma série.
Mentalmente agradeço a quem me fez a dádiva e, em carta, escreverei as palavras que é uso escrever. No fundo, porém, sinto-me um bocado triste. Não pelo presente em si, mas pela intenção falhada de quem mo mandou, e o mais que ele revela: ao redor do mundo os citadinos fizeram moda de um baboso apelo às raízes, do retorno às origens, e o comércio, aproveitando a onda, inunda-nos de quinquilharia artesanal, que de artesanal só tem a pretensão.
Olho a casinha, sem saber bem o que pensar dela. O melhor talvez seja escondê-la na estante, atrás dos livros, onde se vai formando uma espécie de cemitério de objectos que, por razões várias, hesito em deitar fora, mas prefiro não ver. E escrevo já a carta, pois se me deixo arrastar pelos pensamentos, o mais certo é adiá-la sine die e parecer ingrato.

segunda-feira, Maio 28

Um maço de cigarros

Exploradores e explorados são de todos os tempos. A história contou-ma há muitos anos Sidónio Muralha (1920-1982?), poeta e amigo que durante a Segunda Guerra Mundial trabalhava em Bukavu, no antigo Congo Belga.
Ocorre-me agora por motivo de um caso que presenciei ontem, o qual, embora menos dramático, se lhe compara e demonstra idêntica mentalidade.
Nas minas de Kamituga tinham encontrado um extraordinário diamante, que pouco ficaria a dever ao chamado Le Régent, o mais belo que então se conhecia na Europa.
De Bruxelas viera especialmente um avião para transportar aquela preciosidade.
- E que ganhou o negro que o descobriu? Adivinha.
- Não faço ideia.
- Um maço de cigarros Albert.

domingo, Maio 27

Ibn Batutah...Sandokan...

Recordo da meninice o fascínio que exerciam sobre mim os atlas. Antes de ter viajado de facto, fatigando o corpo, amolguei os dedos descrevendo linhas sem fim sobre os mapas, a seguir rotas que me pareciam interessantes, indo da Nova Zembla à Patagónia, da Groenlândia ao Mar de Java, para trás, para diante, capaz de voar, fantasiando paisagens e gentes, ubíquo como Santo António.
Livro que lia, de imediato me punha a procurar no mapa os locais das suas peripécias. Foi assim que corri Lisboa muito antes de lá ir, e decorei com tanto afã as ruas de Paris e as estações do metro, que nunca nelas precisei de guia.
Ibn Batutah, Marco Polo, Vasco da Gama, Magalhães, Miguel Strogoff, Sandokan, reais ou fictícios, desses e muitos outros me entretive a seguir as viagens e aventuras, de tal modo embevecido que chegava a sentir o chouto dos camelos, o adernar das caravelas, os solavancos do trenó na estepe gelada. E nunca as viagens reais se comparariam em beleza às da imaginação.

sábado, Maio 26

Desapego

Nascido de gente que através dos séculos amanhou terra, viveu da terra, gente que via na posse de terra não somente uma garantia de vida, mas também uma forma de felicidade, eu sinto-me estranhamente desapegado do campo.
As emoções que me dá uma serrania, um vale fértil, um lusco-fusco no monte, a alegria que me causam as cores do Outono, tudo isso sou capaz de pôr em texto mais ou menos escorreito (hélas, sempre insatisfatório). Todavia, esse descrever é uma arte, não é um sentimento. E embora goste de subir a um cume, descer uma encosta, aspirar os cheiros dum pinhal, não me peçam para podar uma vinha ou colher azeitona.
Essa aversão ao esforço físico que o trabalhar a terra exige, levo-a eu à conta do muito que as gerações dos meus antepassados sofreram na lavoura. Sacrificaram-se eles para que eu me pudesse libertar. E tão radicalmente me libertei que até da carga genética me desfiz.

sexta-feira, Maio 25

Escapismo

Por natureza sempre sofri mal que me dessem ordens, e inata é também a minha aversão pelo mandar. De modo que o ter-me feito escritor talvez não seja, como por vezes julgo, destino ou vocação, mas uma forma de escapismo, o resultado de não me saber adaptar à sociedade, onde só funcionam realmente a contento os que sabem mandar e os que gostam de obedecer.

quinta-feira, Maio 24

Linhas trocadas

É uma suposição. Embora com capacidades primitivas, nós humanos funcionamos talvez como receptores de sinais, ideias e pensamentos cujos resíduos, à falta de melhor equipamento, processamos através do sonho e da fantasia.
Imaginemos agora que esses sinais, provenientes dum ou doutro remoto planeta, sofrem por vezes de trocas de linha (de onda?) e são recebidos pelo destinatário errado.
Não se poderia explicar assim o destrambelhamento que, sem razão visível às vezes sentimos, tornando-nos por instantes estranhos a nós próprios?

quarta-feira, Maio 23

Noções de Word

É um jovem vagamente conhecido, que duma vilória me manda uma carta aflitiva, a suplicar que o ajude a procurar trabalho.
Licenciou-se, e eu de certeza conheço alguém que num jornal, na rádio ou televisão, lhe abra as portas, se não para uma carreira, ao menos para um emprego.
Em duas páginas pinta-me o desespero - que por tê-lo sofrido tão bem conheci - de se ver na prisão invisível, mas nem por isso menos assustadora, dos meios pequenos em que se vegeta sem esperança de futuro.
Porém, aos vinte e seis anos, o seu curriculum é duma assustadora magreza: fora a licenciatura estagiou dois meses numa estação de rádio regional, participou num congresso, assistiu a um ciclo de conferências, ajudou a organizar um festival numa aldeia. Também foi escuteiro e possui “noções do programa Word.”
Que lhe hei-de responder? Com que palavras o posso convencer de que a vida não espera e a mocidade logo passa?
O meu sincero conselho seria: esquece a ilusão que te dá a licenciatura. Foge daí! Deita-te ao primeiro trabalho que aparecer. Na limpeza, na construção, a lavar pratos... pouco importa. Importante é a fuga e o primeiro passo. Depois se verá.
Infelizmente, quem sonha não quer ouvir as duras palavras que pintam a realidade. O que também sei, porque sonhei muito.

terça-feira, Maio 22

Coisas da escrita

O ideal seria escrever frases perfeitas, ter com frequência pensamentos originais. Mas a realidade não se condói: pensamento original não me vem nenhum e, para que não saiam de todo tortas, as frases que escrevo requerem paciência e disciplina de monge. De modo que o dia de ontem passou como inúmeros outros têm passado: a escrever e a apagar frases impróprias para consumo.

Deformação profissional não será, mas talvez se lhe possa chamar descarrilamento da fantasia. Menciono a alguém um caso, oiço uma história, e de imediato o meu cérebro se põe a imaginar variantes, a guiá-las para outros rumos, a fornecer desenlaces diferentes, mais inesperados.
Pena é que essa esfusiante agitação não venha quando me sento com o propósito de alinhavar um texto. E há alturas em que não é apenas o enredo que se recusa a surgir, mas mesmo as palavras e as frases se mostram reticentes, saem toscas.
Apoquentado pelo receio dos males que a idade traz consigo, pergunto-me se serão isso sintomas de degenerescência mental.

segunda-feira, Maio 21

A prova dos azeites

A prova dos azeites. É moda, e como todas as modas infalivelmente passará, mas entrementes distingue-se para mim pelo ridículo.
Primeiro berravam os nórdicos que, quando iam de férias para o sul, sofriam das violentas diarreias que causava o azeite. Mesmo as autoridades imprimiam folhetos a recomendar parcimónia nas comidas em que entrava essa gordura, destinada em princípio a estômagos que, por meridionais, e daí menos apurados, eram insensíveis ao seu malefício.
Entretanto o azeite tornou-se big business. É louvado, descobrem-lhe de novo as qualidades que lhe reconheciam os antigos. Tornou-se moda o prová-lo. Põem-no em garrafinhas de amostra nas mesas dos restaurantes, com instruções de como se deve deitar uma gota dele num bocado de pão, e depois saborear.
Parece incrível, mas acontece: já se fazem excursões de prova a olivais da Itália, da Espanha, de Murça, Moncorvo, Freixo-de-Espada-à-Cinta, e os papalvos cheiram-no, bebem-no, fungam, estalam a língua, e descobrem no azeite, como no vinho, eflúvios de noz, um travo de rosmaninho, sabor a canela, toques de frutos secos...

domingo, Maio 20

Mudanças

Os tempos mudam, sabemo-lo todos, mas acontece que, além de vir de longe, nas décadas que já vivi foram tantas as descobertas, as invenções, as mudanças, que em certas alturas, ao relembrar a simplicidade que reinava nos meus primeiros anos, dá-me a ideia de desde então existir dentro dum torvelinho.
Todavia, nem sempre são grandes as mudanças que mais surpreendem. Recordo o meu pasmo quando pela primeira vez, num café em Lisboa, tive de pagar um copo de água. Foi como se visse profanar o que, de tão sagrado, era intocável desde tempos imemoriais. “Nem a um inimigo se nega um copo de água!” - e ali estava o empregado a dizer-me que eram cinco escudos.
Que na igreja da Madeleine, em Paris, um sacristão me sussurrasse furioso para deixar o banco onde me tinha sentado, porque era lugar reservado e pago, deixou-me entontecido. Não era aquilo a casa do Senhor? Pagava-se ali bilhete como no teatro?

sábado, Maio 19

Agenda

Caíu atrás da estante há uma vida, encontrei-a ontem ao dar algum arrumo aos livros: a minha agenda de 1952.
Folheio-a e surpreendo-me a descobrir como uma simples anotação faz reviver vividamente um momento há muito esquecido. Surpresa, também, o ser incapaz de recordar quem terá sido o Jean Bercot que me marcou encontro no nr. 17 do Boulevard des Italiens, uma quinta-feira. Quem seria? De que tratei com ele?
Therèse Massiot ainda sei quem é, mas Marlène?... No dia seguinte, Rue du Bac, 21, um encontro às três da tarde. Com quem? Para quê?... E que Sylvie?... Maître Desbans?...
Números de telefone que agora soam exóticos e que não sei a quem pertenceram: OPEra 22-71, CLUny 31-31. O meu, LABorde 11-00, continua presente como se ainda o usasse.
Monique, “Deux Magots”, às quatro e meia. Ah! Monique! A bela e esplêndida amiga, nesse momento a terminar Medicina. Anos depois, por vingança, iria casar com o filho do seu amante, e mais tarde, noutro país, tornar-se-ia cientista de renome. Passados muitos anos fiz dela personagem dum conto, maneira de provar a minha admiração por quem à inteligência e sensibilidade juntava grandeza de carácter.

sexta-feira, Maio 18

Efeitos indesejáveis

Não é grave nem propriamente doença, apenas um incómodo daqueles que assinalam no corpo o desgaste que causam os anos.
Passo na farmácia a aviar os comprimidos que o médico receitou e, chegado a casa, mais por desfastio que cuidado, sento-me a ler o folheto que acompanha o remédio.
Passo por alto a descrição das precauções costumeiras e as do género “Não tomar em caso de gravidez ou aleitamento”, até que chego ao parágrafo “Efeitos indesejáveis”.
Para um achaque que os antigos provavelmente tratavam com infusões e unguentos, o ingerir destes comprimidos em doses de 4 mg pode provocar “cefaleias, alterações do humor e/ou do sono, astenia, perturbações digestivas, sensação de vertigem, cãibras, erupções cutâneas, tosse seca, alterações sexuais, secura da boca e o aparecimento de outros efeitos indesejáveis não descritos neste folheto, caso em que deve informar o seu médico.”
Tomo? Não tomo? Acho mais avisado não tomar.

quinta-feira, Maio 17

Arquivo

Só por volta de 1980, aos cinquenta anos de idade e com mais de trinta de jornalismo e vida literária, me dei conta de que seria talvez útil manter um arquivo.
Rebusquei pelos cantos e consegui salvar alguns textos e manuscritos, alguns artigos, umas quantas cartas. Não sei o que se perdeu, e também pouco me interessa, se bem que dias atrás tenha sentido um alarme ao ouvir uma viúva que me dizia que o seu defunto marido tinha guardado muitas coisas minhas.
Como assim? Cartas que lhe escrevi? Coisas que lhe dei? Não faço ideia, e como a memória não ajuda sinto-me desfalcado sem saber de quê.

quarta-feira, Maio 16

Marcas que ficam

É uma febre que me toma de vez em quando, a de escrever um diário. Sabendo de antemão que nunca terá a minúcia nem a intimidade das confissões de Pepys, ou o veneno destilado nos trinta e dois volumes do de Jouhandeau. Mas a febre passa, vêm ocupações urgentes, preguiças, divertimentos mais interessantes, e a intenção vai para o saco sem fundo onde já caíram outras.
Diários daqueles em que se anotam minuciosamente os sentimentos, até agora só tive um. Na adolescência. Quando meu pai o descobriu e julgou encontrar nele a razão de, com os meus amores, eu ter descurado o estudo, obrigou-me a ouvir a leitura irónica e declamada que dele fez.
Tinha dezasseis anos e a humilhação deixou marcas. Hoje, as ameaças desse dia e os insultos, as bofetadas que me deu depois, já não contam. Mas mais que a dor e a humilhação física, o ele ter violado os meus pensamentos e anseios íntimos, é das coisas que ainda não consegui esquecer ou perdoar.

terça-feira, Maio 15

Favor do destino

Talvez porque desde a adolescência me desabituei de festejá-los, os meus aniversários são datas melancólicas.
O de hoje não escapa à regra. Desagrada pertencer à vasta legião dos reformados, dos anciãos, dos excedentes. Daqueles que quase todos os dias têm consciência de que, até por volta dos quarenta, o viver é um direito, daí aos sessenta se torna uma dádiva, mas em seguida se assemelha muito a um favor do destino.
Bem vistas as coisas, não tenho razões de queixa: o cérebro funciona como dantes, os músculos pouco perderam do seu tónus, as charneiras do esqueleto raro me incomodam. Mas quem gosta de viver de favores?

segunda-feira, Maio 14

Girls Gone Wild

Uma coisa é ter ouvido falar, bem diferente é o impacto do dvd que mão amiga manda da longínqua Boston (Obrigado, Kathleen) com gravações de Girls Gone Wild, o programa em que jovens e menos jovens americanas descobrem os benefícios libertadores que a pornografia oferece, sobretudo quando se toma nela parte activa, e sobretudo pública. Mulher verdadeiramente emancipada não conhece fronteiras nem o faz por menos.
Um inesperado aspecto decorrente desse fenómeno, é o das jovens modernas que, supondo que talvez isso também signifique emancipação, se sentem próximo das clássicas atitudes de superioridade masculina (if you can’t beat them, join them), reservando para as suas congéneres um desdém rabioso de que qualquer homem decente se envergonharia.
A quem o assunto interessar, será proveitosa a leitura de Female Chauvinist Pigs, de Ariel Levy.

domingo, Maio 13

O domingo

Com o seu vazio, os seus silêncios e, como hoje, de tempo cinzento, o domingo não é o dia mais adequado para deitar contas à vida. Mas como nada acontece que dê outro rumo aos meus pensamentos, aqui estou a perguntar-me porque razão me não deu o Criador um carácter mais compatível com o dos meus semelhantes. E imagino como deve ser bom pertencer a um clube, a um partido, a uma seita, cantar num coro, em vez de fazer da minha vida uma repetição do muito citado, mas raramente lido Voyage autour de ma chambre, de Xavier de Maistre.

sábado, Maio 12

Epitáfios

Cansado, levanto os olhos do computador, e logo eles param nas estantes onde se alinham os livros que há tantos anos são presença familiar e estimada.
Automaticamente vou lendo os títulos, e quase todos avivam recordações: uma frase, um rosto, um momento, um autor que se conheceu, um outro que se admira, aquele de quem se estranha o êxito, um mais que não alcançou a fama que merecia...
Forço-me por acordar do devaneio, mas os olhos não têm pressa de voltar ao trabalho. Prendem-se ainda nalguns títulos, dando-me a impressão de que leio epitáfios num cemitério.

sexta-feira, Maio 11

Velhice

Elisabeth I de Inglaterra escreveu por volta de 1573 “There is no contentment in a young mind in an old body.”
Tinha então quarenta anos e sentia-se uma anciã. Como se terá sentido ao falecer trinta anos mais tarde?

Disco duro

A minha imaginação nunca precisou de muito combustível para se pôr em marcha, mas com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, por vezes como que desvaira.
Um qualquer disco duro de computador doméstico aceita uma inacreditável quantidade de bytes. A câmara digital, e estamos como que no início do seu desenvolvimento, funciona com uma igualmente inacreditável quantidade de pixels. Os cabos de fibra de vidro, nem quer a gente saber quantas mensagens faladas, escritas e visuais são eles capazes de transportar. Vai uma sonda espacial de planeta para planeta, percorrendo distâncias que se contam em anos-luz.
Sendo assim, efabula a minha imaginação, quando nas horas de insónia mais facilmente descarrila: por quê a ideia de Deus? Por quê o nosso apego a concepções do Bem e do Mal, que talvez funcionem apenas como fata morgana?
Contam as nossas vidas mais que um pixel que se apaga?
Quem sabe se não somos apenas os bytes que, numa galáxia distante, um cientista introduz e retira do disco duro que, na nossa limitada percepção, tem uma aparência de planeta.

quinta-feira, Maio 10

Frustração

É possível que os publicitários exagerem a eficiência das comunicações móveis. Também é de esperar que, voando sobre o deserto transmontano, os satélites poupem energia e não funcionem a cem porcento.
O certo é que vejo comentários a este blog fulgurar num instante e a desaparecer no seguinte, mails que chegam com inexplicável atraso, outros que somem…

Fosse o regime de monarquia, certamente me queixaria ao soberano. Mas que fazer, se somos todos a mandar?

Tout se répète

A excelente biografia de Elisabeth I *) que ando a ler, além de justificar a expressão francesa de que tout lasse, tout casse, tout passe, acrescenta-lhe um, para mim muito pessoal, tout se répète.
É história contada e recontada na nossa família de como no começo do século passado a minha avó Elisa, a tremer de medo, recusou que lhe arrancassem um queixal podre com uma turquês, a técnica desse tempo. O meu avô, para tentar convencê-la de que seria um sofrimento leve, mandou ao barbeiro, que fazia de dentista, que lhe arrancasse a ele um queixal são.
Infelizmente o sacrifício do marido não a convenceu, mas o facto sempre me pareceu romântico em extremo e, julgava eu, de certeza único.
Mas que leio agora? Elisabeth I tinha um queixal podre, os médicos insistiam que era perigoso, e a soberana não deixava que lho arrancassem. Nem mesmo depois do duque de Leicester, seu favorito e amante, para provar que não doía, ter ordenado que lhe arrancassem um a ele.
O relato deixou-me tristonho. Não por saber que era um caso que se repetia, mas porque me obrigou a enfrentar a minha ingenuidade: com os tantos biliões que somos desde o princípio do mundo, como queria eu uma história única?
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*) The Life of Elisabeth I – Alison Weir – Ballantine Books, New York, 1998

quarta-feira, Maio 9

Correio

As causas mais plausíveis procuro-as na solitude da minha infância e dos princípios da mocidade, e hoje quase descreio da febre, da grande expectativa que tomava a rua à chegada do carteiro.
No meu caso expectativa infundada, pois correspondência para mim não vinha nenhuma, e a de meus pais era escassa, quase unicamente de minha avó que, da aldeia, dava notícias de mau agouro em cartas que eram um rosário de doenças, mortes de gente, malinas do gado, tempestades e colheitas perdidas.
Mau grado essa experiência negativa o meu fascínio pelo correio manteve-se e, a partir dos catorze ou quinze anos, durante quase meio século fui um correspondente expedito e fiel, escrevendo centenas, talvez milhares de cartas.
Que aqueles a quem eu escrevia nem sempre eram prontos na resposta, punha-o eu à conta das imperfeições do mundo, bastando-me a alegria de esperar o carteiro que, em tempos remotos, distribuía duas vezes ao dia, e por fim três.
Em parte pelo desinteresse que vem com a idade, mas também porque o hábito da troca de cartas está a desaparecer, hoje em dia provavelmente não escrevo mais que uma dezena por ano.
O hábito de esperar pelo correio, esse ficou. Mas o que ele mais me traz são revistas, contas para pagar, publicidade, avisos dos impostos. Esporadicamente, de mistura com os postais dos aniversários e das férias, lá vem uma carta que, com envelope, selo e carimbo, tem já qualquer coisa de obsoleto.
Dado o meu carácter, e a melancolia que me toca quando qualquer coisa se perde ou desaparece, deveria sentir-me assombrado. Mas assim não é.
Antes de me dar conta de que as cartas começavam a escassear, já eu me tinha convertido ao correio electrónico. No começo, uma dezena de anos atrás, usando os laboriosos e imperfeitos programas de troca de dados desse tempo, passando de seguida à Internet e aos milagres do e-mail.
O interesse pelo correio clássico diminuiu em mim de tal modo, que hoje acho absurdo o tempo que passei à espera da chegada do carteiro, e as crises de impaciência que me causavam os seus atrasos.
Mas, inconsequência dos comportamentos e dos hábitos, mais tempo perco agora a abrir a caixa do correio electrónico, não sei quantas vezes desde que me levanto até que me deito, e a deixar que se me estrague o humor quando a encontro vazia.

terça-feira, Maio 8

Optimismo

Não me vejo mais rico nem mais pobre do que sempre fui, mas alguma coisa deve ter mudado na minha situação financeira, pois ao contrário do passado, quando sabia quanto dinheiro tinha no bolso, hoje em dia acontece surpreender-me com as importâncias que trago comigo ou, ao querer pagar uma compra, descobrir a carteira vazia.
Nada disso, porém, causa os medos de outrora, já que o acesso ao dinheiro ou ao crédito se tornou como que irreal. Nenhum banqueiro atrás do guichet nos franze o sobrolho, ninguém se envergonha de que a caixa automática o avise de que se endivida. E é assim que, cidadãos e nações, passeamos despreocupados à borda do precipício da falência que, ao tornar-se corriqueira, deixou de assustar.

segunda-feira, Maio 7

Segredos

De modo geral, quem lê um diário alheio gosta de que nele sejam revelados segredos. Há até quem veja nisso um direito, e os que consideram que diário sem revelações não se pode de verdade considerar um diário.
A minha opinião é outra. Além de não querer abdicar do que me é íntimo e querido, se por acaso um dia decidisse revelar um ou outro dos meus segredos, isso levar-me-ia a um tão extenso relato de causas e circunstâncias que, para o fazer, não bastaria uma simples entrada, talvez necessitasse mais do que as trezenta e tantas páginas que se gastam num romance.
Daí a suspeita que me toma de que as revelações de certos diários são-no apenas na aparência, e os segredos que revelam uma forma de ficção.
Mas diga, você que me lê: revelaria um segredo? Daqueles que doem? Ou dos que assustam?

domingo, Maio 6

Salícola

É mania de há muito, tão remota que não recordo quando começou: abro o dicionário em busca dum significado e, obsessivamente, tenho de ler a página inteira.
Tento curar-me, dizendo-me que é absurdo, um esbanjar de tempo, mas sem resultado. A obsessão mantém-se e, contra vontade, vou acumulando uma espécie de peso morto, pois não imagino em que situação jamais usarei vocábulos como nosografia, percídeo, quibebe, salícola...

sábado, Maio 5

Perdas

Dentre os meus muitos antigos estudantes destaca-se um político, que vejo na televisão a debater com brilho sobre temas da economia e das finanças. Dois outros tornaram-se jornalistas de nomeada. Curiosamente, nem os discursos do primeiro, nem os artigos dos restantes, me recordam os rapazes que conheci.
Esse apagar da memória, suponho, nasce de uma certa forma de egoísmo da velhice. Vêmo-nos mais ou menos parados, ou pelo menos com um élan que vai diminuindo e, além de nos custar a crer que o mundo possa rodar sem o nosso contributo, surpreende que os novos se mostrem capazes, e até melhores do que o que nós conseguímos ser.

sexta-feira, Maio 4

Ah! O Ferrari Testarossa!...

Na relação com a mulher não se lhe adivinhavam transtornos nem perturbações, mas inesperadamente anunciou que se iam divorciar.
Senti pena de ver desfazer-se um matrimónio de vinte anos, senti pena por Luísa. De carácter estável, sensível, inteligente, ela com certeza ia sofrer. Em casos assim, porém, buscar razões ou deitar culpas está fora de questão, pois cada um sabe dos seus segredos e das suas mágoas.
De novo inesperadamente anunciou ele que tinha voltado a casar e gostaria que conhecêssemos a mulher. Combinámos almoçar num restaurante. Chegámos primeiro, quando entraram foi um choque.
A ele só o reconhecemos pela cara. O homem comedido no vestuário apareceu-nos num espalhafatoso fato última moda, todo às riscas, gravata e camisa às riscas, uns sapatos bicudos e bicolores de gosto mafioso.
A volta dos quarenta, ela vinha de casaco de peles lançado pelos ombros, um decote a mostrar dois terços dos seios, umas calças enfeitadas irregularmente de cima a baixo com pedaços de pele animal e penas de aves. Tacões agulha, brincos gigantes, abundância de colares e pulseiras, anéis em todos os dedos.
Terminadas as cortesias, a conversa abriu mal. Reagindo a uma qualquer observação, a senhora pôs-nos ao corrente dos seus gostos. Que adorava roupa, muita roupa, e de marca. A mudança do seu vestuário para a nova casa tinha necessitado de duas camionetas. Fora isso só queria coisas de melhor qualidade. E bons carros. E belas jóias. A lua-de-mel tinham-na passado num “fabuloso resort” nas Seychelles.
Ouvíamos calados. Ele sorria de vez em quando, enquanto ela nos punha ao corrente das qualidades dos BMW e dos Daimler, da “fabulosa” aceleração do Ferrari Testarossa, do couro dos assentos do novo Lamborghini...
Taful e tão fútil, supusemo-la dona de perfumaria. Era médica.
Fica o mistério do que terá levado um homem culto, inteligente, sensível, progressista, a unir-se a semelhante figura.
Despedimo-nos com pena, conscientes de que tínhamos perdido o amigo.

quinta-feira, Maio 3

Susto

Primeiro foi uma dor de pouca monta, mas como nestas coisas do coração toda a cautela é pouca, o médico mandou-me para o hospital.
Colaram-me no tronco não sei quantos eléctrodos, ligaram-me com eles a um aparelho, disseram-me que subisse para a bicicleta aparafusada no soalho, e vá de pedalar. A dois ou três passos, um médico e duas enfermeiras, todos jovens, discutiam futebol, lançando de vez em quando uma olhadela ao aparelho que media a tensão arterial causada pelo meu esforço.
Eu a suar como se corresse no Tour de France, eles às gargalhadas, esquecidos de mim e do que estavam ali a fazer. Até que uma das raparigas se voltou para o aparelho e, em pânico, me gritou que parasse: divertidos e distraídos, não se tinham dado conta que a minha tensão subira a um nível que poderia ser fatal.
Felizmente não foi, mas ficou o susto. A raiva por não ter protestado só me veio na rua, tarde demais.

quarta-feira, Maio 2

Desânimos

Nos muitos momentos de desânimo pergunto-me o que adianta recordar, pôr em escrito as coisinhas miúdas que enchem os meus dias. Contudo, é nalgumas dessas miudezas que, mais tarde, descubro uma espécie de conforto. Ou talvez seja antes a resignação de aceitar o que sou, e não lastimar o que não cheguei a ser.

Devido talvez a algum defeito genético, ou às circunstâncias em que vivo - agarrado à língua materna, obrigado a usar outras no dia-a-dia - o meu cérebro funciona como uma desgarrada máquina de traduzir. Tudo o que me preparo para dizer tradu-lo ele automaticamente para Português, o que, além de cansativo, causa por vezes hiatos na conversa, e de certeza dá aos meus interlocutores a impressão de que sofro de afasia.

terça-feira, Maio 1

Conferências

A maioria dos convites significa aborrecimento e perda de tempo, mas é um dos incómodos a que a vida em sociedade obriga. A gente desculpa-se umas tantas vezes, finalmente tem de aceitar, e assim me vejo eu numa sala da universidade, em companhia de umas dezenas de pessoas, a ouvir um senhor que fala de um tema que não me interessa.
Num monótono tom de voz, o senhor arrasta-se nas explicações, mete-se por transversais irrelevantes para o assunto, faz penosas tentativas humorísticas, fita de vez em quando a assistência, a assegurar-se da nossa atenção.
A triste verdade é que, voluntariamente, ninguém aguentaria aquilo dez minutos, e ele fala há mais de uma hora, sorrindo de vez em quando para dizer que está quase a terminar. Mas não está. Em volta há gente que cabeceia. Para que me não aconteça o mesmo, recordo a história passada com Francisco de Assis Chateaubriand, presidente da Academia Brasileira nos anos cinquenta, e nessa altura já ancião.
As suas funções obrigavam-no a assistir a inúmeras conferências, e numa delas sentou-se uma senhora ao seu lado que, estranhando a indiferença com que ele a encarava, lhe sorriu e disse:
- Doutor Chateaubriand, nós nos conhecemos!
Homem de espírito e repentista de fama, ele retorquiu:- Nós nos conhecemos, Madame?! Até já dormimos juntos!... Durante a última conferência.