segunda-feira, abril 30

Ganhar forças

Por volta de 1330 o sultão Qalawun fundou no Cairo um hospital onde os pobres eram tratados gratuitamente, nada de excepcional dentro do espírito caritativo do Islam. Fora do vulgar apenas a regra, que determinava que os doentes recebessem tratamento até ao dia em que tivessem forças para comer inteiro um frango assado.

domingo, abril 29

Allô! Allô!

Ao meu lado, na esplanada, vem sentar-se um jovem casal americano com duas crianças. Pedem cerveja, trocam uns monossílabos, ele tira do bolso o telemóvel e passa-o à mulher.
Hi! Mam!
Oiço as perguntas que ela faz e oiço também as respostas que repete em voz alta para o marido. Fico a saber que em qualquer parte do Maine há uma senhora de idade a recuperar de uma operação ao joelho, que o tempo nessa parte do mundo está feio, que o casamento de Dorothy foi adiado devido a um acidente, que o barco já veio da reparação e ficou muito bonito.
O homem faz um gesto a interrogá-la, a mulher acena que sim e, sorrindo para o telemóvel, diz que só lhes restam dois dias de férias. Por isso não vão mandar postais a ninguém.
De facto, digo para com os meus botões, com esta nossa comunicação, que de rápida passou a instantânea, resta pouco para dizer, menos ainda para escrever.

quinta-feira, abril 26

Terra de paz e amor

Omtem no Porto, Rua de Santa Catarina. Um indiano de meia-idade, óculos escuros de aro grosso, quase elegante num fato de bom corte, sobe para um pequeno estrado e começa a pregar.
A multidão passa, olha, evita-o, mas há quem como eu pare a ouvi-lo implorar que nos esforcemos todos para que Fátima seja desmascarada, que Portugal já sofreu muito com o governo, irá sofrer mais quando o preço da gasolina voltar a subir. Que é preciso beber água, muita água. Desprezar o vinho, nosso grande inimigo. E devemos aprender a rir, a ser felizes, devemos aprender a tocar as humildes pedras da rua, as árvores. Deus abandonou-nos. Deixamos de ser o povo eleito. A cruz de Cristo terá de lutar contra o alfange do Islão.
De vez em quando interrompe-se, ergue os braços e grita:
- Viva Portugal! Terra de paz e amor!
Terá sido um acesso de loucura? Será maníaco? Um excêntrico? Actor falhado? Imagino que seria interessante descobrir quem é, o que faz na vida, e o motivo de semelhante representação.

quarta-feira, abril 18

Memórias

Tem dez anos menos do que eu, mas sempre me pareceu precocemente velho. Desde que se reformou, cresceram nele as características do ancião: caminha curvado, fala com vagar, cultiva uma surdez imaginária, oferece bons conselhos, gosta que se faça apelo à sua “vasta experiência.”
Sem que lho pergunte, informa-me que começou a escrever as suas memórias, tendo chegado à página cento e doze. Não diz mais e encara-me, mas o comentário que ele aguarda não me ocorre.
Curiosidade pelo seu opus também não tenho, e por isso ficamos num silêncio desagradável que ele finalmente quebra, dizendo que parou por se sentir insatisfeito com o que fez. Em sua opinião um livro de memórias não deve ser apenas a listagem cronológica de recordações e acontecimentos, mas possuir sobretudo um fio condutor. O que é que acho?
Sem convicção, só para evitar que o diálogo caia no que lhe agrada e a mim aborrece, “o tom literário,” respondo-lhe que sim, que também acho. Mais tarde, recordando a conversa, digo-me que na vida, e nas memórias que sobre ela se escrevem, os fios condutores são ilusão. O caos, esse sim, é real e palpável.

segunda-feira, abril 16

Diferenças

Da janela do meu quarto de trabalho, em Amsterdam, a vista é livre de casas, e o parque fronteiro, extenso, frondoso, dá a ilusão de que para além não há cidade, só arvoredo. Todavia, mau grado o grande porte e a variedade das árvores, é para mim uma vista melancólica. Comparo-a, e lá sinto a falta dos montes que agora me cercam.
O que aqui é desordem natural de pedregulhos, árvores e arbustos nascidos ao acaso, de campos ora semeados,ora ao abandono, é na cidade exagero de arrumo, ordenamento artificial, neurótico a ponto que mesmo as urtigas e as silvas só crescem nos lugares para elas planeados.
Devo confessar que lá me sinto bem, confortável e confortado, que Amsterdam me oferece muito mais do que aquilo que posso absorver.
Todavia, mau grado esse conforto e o carinho da família, dos amigos, a simpatia que me cerca, vivo com um sentimento de solidão, de que algo de essencial me falta. Sinto-me como que anestesiado, tão pouco do que acontece à minha volta é inesperado, tão raro é o imprevisível na vida que lá levo.
Incoerente e ingrato, mas próprio da natureza humana, muitas vezes sinto então falta do caos e dos imprevistos que vivo aqui na aldeia.

sexta-feira, abril 13

No jardim

Fui às compras a M.... Entre a papelaria e a visita obrigatória ao café, sento-me à sombra no jardim, a recuperar do cansaço e do calor.
Do prédio fronteiro, dantes cinzento, pintado agora de um agressivo amarelo-pintainho, sai num passo hesitante uma senhora frágil, curvada pelos muitos anos, amparada a uma criada que deve ter outros tantos.
Devagarinho vão até à borda do passeio, os carros param, atenciosos, e elas devagarinho atravessam a rua, sobem em slow motion o degrau do jardim, vão-se sentar no banco fronteiro ao meu.
Àquela distância a senhora de certeza não me reconhece, mas mesmo assim faz-me um aceno cortês e a criada imita-a. Correspondo ao cumprimento e, embaraçado, abro o jornal.
No começo do século passado já o meu avô António se abastecia neles de sola, de cabedal, cera, cardas e o mais que precisava para o seu ofício de sapateiro.
Chamavam-lhes os “C...”, e aquilo não era um comércio, antes um empório que vendia desde os fósforos à maquinara agrícola, dos adubos à roupa feita, gasolina, ferramentas, calçado e panelas, mobílias, serviços de mesa...
Os meus pais não queriam outra loja. Mais tarde eu próprio me tornei cliente e, fora as miudezas de que uma casa precisa, recordo ter lá comprado os copos que ainda usamos e o colchão onde ainda dormimos.
Os “C...” não se distinguiam só pela variedade e a amplitude do seu negócio, mas pela cortesia: freguês que vinha por uns centavos de sementes de couve recebia tratamento igual ao que comprava um tractor.
Os patrões, uns seis ou sete irmãos e irmãs, trabalhavam ao lado do pessoal, com o mesmo afã, só se distinguindo deste pela elegância do vestuário.
Eram gente de gosto e fortuna, e o facto de viverem e trabalharem no buraco provinciano que M... sempre foi, e ainda é, não os impedia de gozar e conhecer o mundo.
Para as coisas boas iam a Paris, a Roma, Milão e Mónaco. A Deauville para a praia, a Vichy para os banhos. Se um deles casava, a boda dava brado. Se outro adoecia, fretavam um avião que o levasse a Londres, aos especialistas de fama.
Falava-se nos “C...” e as pessoas involuntariamente tomavam uma atitude de respeito. Porque eles davam para a Misericórdia, ajudavam discretamente os necessitados, eram exemplares no trato e naquela harmonia em que viviam e trabalhavam.
Foi assim durante duas gerações. Em meados dos anos noventa começou-se a notar que algo corria mal. Os patrões tinham envelhecido, os empregados tornavam-se desleixados, falava-se de filhas estouvadas, filhos mãos-largas, noras loucas, genros rapinas, netos na droga.
Um dia soube-se da falência. Os “C...” tinham perdido tudo. Os da geração mais velha morreram uns atrás dos outros, dizendo-se que mais de desgosto e vergonha, que de doença.
Restam um irmão e uma irmã, ambos solteiros, ambos de muita idade. Almas caridosas cuidaram que lhes fosse dado um apartamentozinho na antiga loja, transformada agora em prédio de habitação. É lá que vivem com a velha criada.
Ouvi dizer que o irmão nunca sai. A senhora e a criada todas as manhãs atravessam o passeio, atravessam a rua até ao jardim público, vão-se sentar no mesmo banco.
Fecho o jornal, levanto-me e faço-lhes uma vénia, que é tanto para elas, como para todos os que a vida humilha e sofrem indefesos.

quinta-feira, abril 12

Antóniô!

Nota-se nas aldeias, nota-se nas estradas, por onde rodam em velocidades suicidas. Nota-se nas lojas, nos cafés, onde entram aos gritos e não querem esperar vez:
-Chegue aqui, ó dona! Quatro cervejas!
No comportamento, bizarros como extraterrenos. Emigraram e na Páscoa, no Verão, pelo Natal, voltam de férias. Em Moncorvo encontro alguns que, soberbos, ou talvez num exorcismo à extrema miséria que conheceram, tornam a realidade em anedota ao sacar do bolso o maço de notas e, a agitá-lo no ar, intimam o lojista:
- Diga lá quanto é!
Gente pobre com dinheiro. Não esqueceram de todo a língua, mas há que mostrar que se lhes despegou a lama das botas, e assim como por distracção atiram um monsieur, saúdam com bonjour, dizem: Antóniô! Viens, mon chéri!
Há-os tolos: - Para que servem os estudos? Eu nem a primária tenho, mas em Paris, na construção, ganho cinco ou seis vezes mais que um doutor dos de cá!
Há-os impertinentes: - Que carro tem lá na Holanda?
Respondo com evasivas: - Um pequeno, já velhote.
Abrem a porta do Jeep Grand Cherokee, para que me assombre com o luxo do interior e aquela aparelhagem toda. Obrigam-me a sentar para que goze a maciez do couro. Levantam o capot do motor, a ver se adivinho a potência do monstro. Querem também que dê palpite sobre o que pagaram por ele, o que o bicho “bebe” aos cem, quanto custa um pneu todo-o-terreno.
Abano a cabeça a dizer que não faço ideia, enquanto a face se me arrepanha num sorriso imbecil porque, sabendo que se ofenderiam, me obrigo a ouvi-los, sem coragem para lhes virar as costas.

terça-feira, abril 10

Génios

O João tem oito anos e é superdotado. O pai, cheio de orgulho, pergunta-lhe que nos diga quanto são seis vezes dezanove, vezes trinta.
O garoto, brejeiro, pisca os olhos, inclina a cabeça responde com ar de troça:
- Três mil quatrocentos e vinte.
Não esconde o riso ao ver que eu, com papel e lápis, demoro a acabar a conta.
Como se estivéssemos num circo, o pai quer provar que não há falcatrua, o João é mesmo muito inteligente. Diga eu uma multiplicação, divisão, ou ambas as operações, o que quiser.
- Vamos lá ver se consegues. Dezassete vezes noventa, a dividir por catorze.
O João volta a piscar os olhos, inclina de novo a cabeça, faz uma careta:
- Mil e quinhentos e trinta... Agora a dividir por catorze... Cento e nove... Vírgula dois.
Digo-me sinceramente estupefacto e convencido. Não precisamos de continuar, a prova está dada: pelo menos em cálculo o João é genial.
Connosco está outro jovem pai. Acena que sim, que é interessante, com uma cabeça daquelas o garoto há-de ir longe. Do que ele tem pena é que a sua Helena não esteja presente.
- Havia de ver! Aos dois anos já lia, já escrevia! E agora na escola é a melhor em tudo.
Entreolhamo-nos embaraçados. O João toca-me o braço, pede que lhe dê uma conta mais difícil. O pai manda-o calar. Alguém diz que a Primavera vai fria demais. Como se isso nos libertasse do embaraço, damo-nos as boas-tardes e vai cada um para seu lado.

domingo, abril 8

Basófias

Afirmar que nas últimas décadas o mundo encolheu, é lugar-comum. Voa-se para os antípodas em menos dum dia, a televisão transmite de toda a parte em tempo real, o telemóvel como que nos tornou a todos vizinhos.
Pessoalmente acho que a nós, humanidade, nos abona pouco o avançar com tanta rapidez na tecnologia, e deixar para trás o desenvolvimento das ideias e da sociedade, condenando a maioria a viver em situações que já em séculos longínquos eram degradantes.
Constatar isto também é lugar-comum, e de nada adianta sonhar ideais num tempo que, dito moderno, progressista, a lei ainda não é ditada pelo mais justo, mas pelo mais forte.
Estas considerações vêm-me em aparte, um desvio do raciocínio, pois o meu intento era anotar a preocupação que me causam as fotografias que mostram a Terra no espaço. Ou as dos satélites metereológicos.
Olho-as e tenho de acreditar. Naquele grão de poeira (não param os lugares-comuns), que Eça definiu como “uma bola a rebolar nos céus com basófias de astro” - vivemos, sofremos, inventamos religiões e teorias da existência, esquecidos da nossa infinita pequenez.

sexta-feira, abril 6

Aquilino

Era escritor de fama, homem importante na oposição a Salazar, tão admirado que toda a gente se lhe referia pelo nome próprio. Ando a ler um livro do Aquilino, o Aquilino fez um discurso, o Aquilino disse...
Aquilino Ribeiro. Viu-o umas quantas vezes na livraria Bertrand, em Lisboa, onde mantinha tertúlia e se fazia admirar. Olhei de longe, com respeito, e embora gostasse da sua obra não gostei da pessoa. Ressudava vaidade, egocentrismo, o seu vozeirão fazia voltar a cabeça aos clientes.
Morreu em 1963. Hoje serão raros os que o lêem e poucos os que lhe conhecem o nome, o que não é de admirar num tempo em que, segundo as estatísticas, muita gente ignora quem tenha sido o Hitler.
Ocorre-me isto porque ao arrumar uma estante encontrei O Malhadinhas, um livro de contos que publicou em 1922 e, durante gerações, foi considerado um clássico. Na minha juventude lembro-me de o ter lido com o apreço e a atenção de quem aprende. Reli-o agora com um sentimento de tristeza, não somente porque com o tempo tudo passa e tudo esquece, mas porque o achei artificial, rebuscado, escrito numa linguagem que passava por popular e era apenas um maneirismo do autor.
Com um involuntário franzir do sobrolho pergunto-me se daqui a cinquenta anos alguém saberá que existi. E que pensará esse alguém da minha prosa, se por acaso tropeçar então num livro meu - se ainda houver livros.

segunda-feira, abril 2

N' "O Artur"

Ontem, domingo, hora do almoço n’“O Artur”, em Carviçais.
Uma mulher e três homens, gente de meia idade, dão nas vistas pela gosto com que comem e o muito que riem.
Terminaram. Levantam-se. Ligeiramente toldados, mas na mesma boa disposição, esperam comigo junto da caixa que Artur júnior faça a conta.
Como se aquilo lhe ocorresse de súbito, um deles pergunta:
- Oiça lá! Você é que é o Artur?
- Sou - responde o interpelado.
- É? Tinham-me dito que era mais velho!
- Deve ser o meu pai.
- Mas quem é o Artur? É ele ou é você?
- Ambos. Temos o mesmo nome.
- Espere aí! Então ele é Artur, você é Artur, e o restaurante também é Artur?
- De facto.
- Ai que caralho! Não sabia! Nunca cá tínhamos vindo! Andamos por toda a parte, mas p’ra aqui nunca tinha calhado. Sabe quem nos disse p’ra vir? Foi aquele sujeito gordo de São João da Madeira. Conhece? Um que vem cá muitas vezes com o outro, que é magro. O que deixou a mulher. Andam sempre juntos! Não se lembra? O que antes tinha a bomba da gasolina! Veja lá se se lembra!

domingo, abril 1

sms

O seu sorriso é contagioso e, meio envergonhado, diz que não tem idade para sentimentos assim, mas não resiste e conta.
Não se conheciam. Tinham combinado encontrar-se a meio da manhã em Mirandela. Almoçaram demoradamente na Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros. Pararam depois num desvio da estrada e viram passar um rebanho, as ovelhas com uma lã cinzenta que para ambos era novidade.
Continua a sorrir, diz que no regresso a Mirandela, fazia frio, mas mesmo assim escolheram um banco na alameda junto do rio. E aí ficaram, não sabe quanto tempo.
Despediram-se. Cada um para seu lado. Mais tarde sentira o telemóvel vibrar.
Suspende a narrativa, mas o sorriso como que lhe ilumina a face quando agora liga o aparelho e me dá a mensagem a ler:
“Um dia inesquecível! Para recordar a vida inteira. Eu já cheguei. Beijinhos.”
Quer que eu comente. Ignoro os detalhes, mas digo-lhe que sim, deve ter sido lindo.

Navegação


A partir de hoje e quando o vento for de feição, durante os próximos três meses a barca retoma o navegar, agora num dos seus trajectos favoritos: entre Miranda e a Foz do Douro.