segunda-feira, abril 30

Grande-angular

Não é constatação científica, mas certeza minha adquirida no correr dos anos: os olhos femininos têm capacidade de lente grande-angular. Na rua, enquanto o homem olha a mulher de frente, caso contrário não a “vê” bem, a mulher em geral avança com os olhos fixos, ora no chão, ora na distância. Aparentemente nada do que a rodeia lhe interessa, enquanto que na realidade nenhum detalhe lhe escapa.
Será isso um resíduo atávico do tempo em que ele atacava e ela tinha de se defender? E agora que a relação homem/mulher se tornou de igualdade, irão elas perder a grande-angular?

Ganhar forças

Por volta de 1330 o sultão Qalawun fundou no Cairo um hospital onde os pobres eram tratados gratuitamente, nada de excepcional dentro do espírito caritativo do Islam. Fora do vulgar apenas a regra, que determinava que os doentes recebessem tratamento até ao dia em que tivessem forças para comer inteiro um frango assado.

domingo, abril 29

Allô! Allô!

Ao meu lado, na esplanada, vem sentar-se um jovem casal americano com duas crianças. Pedem cerveja, trocam uns monossílabos, ele tira do bolso o telemóvel e passa-o à mulher.
Hi! Mam!
Oiço as perguntas que ela faz e oiço também as respostas que repete em voz alta para o marido. Fico a saber que em qualquer parte do Maine há uma senhora de idade a recuperar de uma operação ao joelho, que o tempo nessa parte do mundo está feio, que o casamento de Dorothy foi adiado devido a um acidente, que o barco já veio da reparação e ficou muito bonito.
O homem faz um gesto a interrogá-la, a mulher acena que sim e, sorrindo para o telemóvel, diz que só lhes restam dois dias de férias. Por isso não vão mandar postais a ninguém.
De facto, digo para com os meus botões, com esta nossa comunicação, que de rápida passou a instantânea, resta pouco para dizer, menos ainda para escrever.

sábado, abril 28

Cortesias

T. manda-me de Lisboa uma carta à moda antiga: longa e escrita à mão, com a bela caligrafia que na nossa infância se aprendia nas escolas.
Duas páginas são a elogiar o meu talento; outras duas a referir, em termos pouco velados, a importante posição que julga assumir na vida na vida literária portuguesa; nas duas últimas desfaz-se em agradecimentos acerca da maneira elogiosa como me referi à sua obra na entrevista que dei ao Diário de Notícias.
O que me cria um problema bicudo, pois não sei se devo reagir ou se será melhor calar-me. É que, fora um ou outro artigo de jornal, nada sei do que ele escreve, e o Diário de Notícias nunca me entrevistou.

sexta-feira, abril 27

Num sábado

Num sábado, semanas atrás. O dia amanheceu de má cara. Chove, venta, o tempo tornou-se tão frio que parece dos fins do Outono. Olho o relógio. São oito e um quarto, e inesperadamente o telefone toca.
Durante um instante o som da campainha alarma-me, mas felizmente não é má notícia, apenas uma senhora que conheço vagamente a querer saber - a esta hora! - se eu teria interesse em dar uma conferência numa associação de que ela é membro.
Esquivo-me o melhor que posso, pretextando afazeres que não tenho. A senhora diz que é pena, mas compreende, e eu, supondo que a nossa conversa vai terminar, ensaio umas palavras de despedida.
Porém, em vez de reagir oiço-a lançar-se numa tirada sobre o mau tempo e as doenças, os jovens de agora, que têm tanto e querem mais, uns felizardos comparados connosco que não tínhamos nada. Quer saber se sou da mesma opinião, e se vi ontem aquele programa na TV sobre a maneira escandalosa como os anciãos são tratados nos hospitais, e que uma vizinha dela...
De vez em quando resmungo qualquer coisa, mas não consigo que pare. Creio que deve ter à volta de setenta anos. Vive com conforto, mas sozinha, e o carácter que tem não se presta a simpatias.
Dá-me a ideia de que o convite que me fez foi apenas um pretexto, talvez mesmo invenção sua. O vento, a chuva, a solitude, e Deus sabe que outras aflições, é que a devem ter levado a telefonar a um quase estranho, num sábado, a tais horas da manhã.

quinta-feira, abril 26

Terra de paz e amor

Omtem no Porto, Rua de Santa Catarina. Um indiano de meia-idade, óculos escuros de aro grosso, quase elegante num fato de bom corte, sobe para um pequeno estrado e começa a pregar.
A multidão passa, olha, evita-o, mas há quem como eu pare a ouvi-lo implorar que nos esforcemos todos para que Fátima seja desmascarada, que Portugal já sofreu muito com o governo, irá sofrer mais quando o preço da gasolina voltar a subir. Que é preciso beber água, muita água. Desprezar o vinho, nosso grande inimigo. E devemos aprender a rir, a ser felizes, devemos aprender a tocar as humildes pedras da rua, as árvores. Deus abandonou-nos. Deixamos de ser o povo eleito. A cruz de Cristo terá de lutar contra o alfange do Islão.
De vez em quando interrompe-se, ergue os braços e grita:
- Viva Portugal! Terra de paz e amor!
Terá sido um acesso de loucura? Será maníaco? Um excêntrico? Actor falhado? Imagino que seria interessante descobrir quem é, o que faz na vida, e o motivo de semelhante representação.

quarta-feira, abril 25

Queixais

No trato diário daria nas vistas, mas defronte da televisão, na intimidade do lar, são outros os hábitos, diferentes as normas. Além de que a televisão oferece perspectivas impensáveis no contacto pessoal. Uma câmara colocada perto do chão, que apanha em close-up o rosto dum orador numa tribuna, revela por vezes curiosos aspectos da sua boca.
É assim que, ultimamente, tenho prestado menos atenção às platitudes dos participantes em concursos, ou às que os políticos debitam nas suas discussões, do que à inexplicável falta de queixais.
Abrem a boca e eu não consigo atentar no que dizem, ou por que motivo gargalham, tal é o fascínio que me causam aquelas inexplicáveis cavidades por detrás dos caninos. Falta de meios, não deve ser. Desinteresse dos dentistas? Acho improvável.

sábado, abril 21

O Céu

Micróbios, células, os germes e os insectos, tudo isso existe em biliões. O salmão, a enguia, a prosaica sardinha, põem ovos em quantidades que desafiam o entendimento, a pulga multiplica-se a um ritmo que facilmente a torna praga. E nem sequer quero imaginar o número dos glóbulos vermelhos que conta o meu sangue, ou o comprimento total dos vasos sanguíneos que o transportam, menos ainda a quantidade de células com que funciona o meu cérebro.
Em horas de fraqueza este tipo de pensamento conduz a que agudamente tomemos consciência da nossa insignificância e fragilidade. Um passo mais longe espera-nos o desequilíbrio da obsessão, um pouco adiante caímos na loucura.
Anoto isto em forma de exorcismo, porque se penso poucas vezes na complexidade do mundo animal, tenho uma rara inclinação para me preocupar com as dimensões do universo e o microscópico ponto onde nele existimos.
O chamar à Terra grão de areia, além de estafado lugar-comum, é um exagero ridículo. Porque ela é menos do que isso. Muito menos. E o grandioso sol, a estrela que nos ilumina e aquece, esse nem chega a dimensões de candeia se o comparamos à Bételgeuse, a que os os antigos árabes deram com razão o nome de Bayt al-Djusa (a casa do gigante), bola de fogo com trezentos e sessenta milhões de quilómetros de diâmetro.
De Polaris, a velha Estrela do Norte, separam-nos quatrocentos e não sei quantos mais anos-luz, significando isso que vemos uma claridade originada nos começos do século XVI, talvez aquela por que Vasco da Gama se guiou a caminho da Índia.
Daí que me não seduza o lirismo com que os poetas costumam cantar o céu. O que eu sinto quando olho a sua imensão, aproxima-se mais do terror.

sexta-feira, abril 20

Tempo de escrita

A maioria dos livros que até hoje escrevi sempre necessitou de uma longa gestação. Um ensaio histórico levou-me dezoito meses; o arranjar das anotações para um diário de trezentos e sessenta e cinco dias, custou-me três anos. É melhor calar o tempo que gastei entre a primeira e a última página do meu penúltimo romance.
Alguns não sei se alguma vez os terminarei, pois emperram por razões misteriosas, dando a impressão de que os seus personagens teimosamente recusam “viver” as peripécias e os conflitos a que os quero obrigar.
Noutros, como um de que me ocupo há uns dez anos, não consigo fazer com que o tom “amadureça”, talvez por serem tão díspares os elementos que determinam o enredo.
Entram nele um casarão, um olival, dois cavalos e um padre, um cantor, uma lésbica, um Ford antigo, um cadáver num caixão, uma cama do século XVIII, colchas de brocado e outras velharias. Entram também dois cavalheiros de má fama, um palhaço alto e magro com funções de guarda-costas, um jogador de futebol na reforma, uma anciã e a história dum lagar de azeite.
A trama tenho-a assente e os personagens estão prontos a assumir os seus papéis. Falta encontrar o tom justo, porque continuo a hesitar se será obra moralista, se dum cinismo contundente. Pode ser que escolha a sátira. Ou, quem sabe, talvez decida pelo riso.

quinta-feira, abril 19

Curioso tempo

Neste curioso tempo em que vivemos é de bom tom exprimir pensamentos e sentimentos politicamente correctos. E assim, tudo o que mesmo de longe tenha cheiro de discriminação, racismo ou outra forma de antipatia, é apontado a dedo, condenado pela hipocrisia vigente, e ao pecador resta apenas descobrir buraco em que se refugie.
Não se podem fazer comentários negativos sobre a arrogância do islamismo. É mal visto não demonstrar um intenso carinho pela raça negra. Todos os pobres são implicitamente bons, e todos os criminosos uns infelizes que as condições sociais levaram a descarrilar.
Dentro de semelhante contexto como é que eu, que nunca tive nem tenho preconceitos sobre a cor da pele, vou poder explicar que está fora das minhas intenções desculpar mais um negro que um branco, um chinês ou um esquimó?
Porque não hei-de protestar quando o Islam exige que se levantem mesquitas nos países ditos cristãos, mas “retribui” proibindo que nos seus se levantem igrejas? Terei de aceitar sem revolta que a shariah me seja imposta, e o corte das mãos e as lapidações substituam o Direito?

quarta-feira, abril 18

Memórias

Tem dez anos menos do que eu, mas sempre me pareceu precocemente velho. Desde que se reformou, cresceram nele as características do ancião: caminha curvado, fala com vagar, cultiva uma surdez imaginária, oferece bons conselhos, gosta que se faça apelo à sua “vasta experiência.”
Sem que lho pergunte, informa-me que começou a escrever as suas memórias, tendo chegado à página cento e doze. Não diz mais e encara-me, mas o comentário que ele aguarda não me ocorre.
Curiosidade pelo seu opus também não tenho, e por isso ficamos num silêncio desagradável que ele finalmente quebra, dizendo que parou por se sentir insatisfeito com o que fez. Em sua opinião um livro de memórias não deve ser apenas a listagem cronológica de recordações e acontecimentos, mas possuir sobretudo um fio condutor. O que é que acho?
Sem convicção, só para evitar que o diálogo caia no que lhe agrada e a mim aborrece, “o tom literário,” respondo-lhe que sim, que também acho. Mais tarde, recordando a conversa, digo-me que na vida, e nas memórias que sobre ela se escrevem, os fios condutores são ilusão. O caos, esse sim, é real e palpável.

terça-feira, abril 17

Kami

Universais ou obscuras, poucas serão as religiões ou seitas espalhadas pelo mundo de que não haja na Holanda um fiel ou um membro.
Com uma inata propensão para o misticismo, os holandeses procuram salvar a alma e compreender este mundo e o Além, saltando do Baghwan para os feitiços do Winti, do bruxedo para o budismo, dos Mormons de Utah para os lamas do Tibet, dos Reformistas do Artigo 31 para a Santa Madre Igreja Católica, Apostólica e Romana.
De modo que não é estranho encontrar nela seguidores do Shintô, a variante japonesa do budismo. Contou-me um deles que o atraiu, sobretudo, a pureza e a simplicidade dessa fé. E ainda o facto de que, devido à sua sensibilidade e à compreensão que possuem das forças da natureza, os poetas, os artistas e os lavradores têm uma maior oportunidade de, “ao passar para a esfera superior,” se tornarem kami (deuses) e poderem assim proteger os seus descendentes.
Meio crente que sou, não quero troçar da fé alheia, mas tenho de rir ao imaginar alguns poetas do meu conhecimento sentados numa nuvem.

segunda-feira, abril 16

Diferenças

Da janela do meu quarto de trabalho, em Amsterdam, a vista é livre de casas, e o parque fronteiro, extenso, frondoso, dá a ilusão de que para além não há cidade, só arvoredo. Todavia, mau grado o grande porte e a variedade das árvores, é para mim uma vista melancólica. Comparo-a, e lá sinto a falta dos montes que agora me cercam.
O que aqui é desordem natural de pedregulhos, árvores e arbustos nascidos ao acaso, de campos ora semeados,ora ao abandono, é na cidade exagero de arrumo, ordenamento artificial, neurótico a ponto que mesmo as urtigas e as silvas só crescem nos lugares para elas planeados.
Devo confessar que lá me sinto bem, confortável e confortado, que Amsterdam me oferece muito mais do que aquilo que posso absorver.
Todavia, mau grado esse conforto e o carinho da família, dos amigos, a simpatia que me cerca, vivo com um sentimento de solidão, de que algo de essencial me falta. Sinto-me como que anestesiado, tão pouco do que acontece à minha volta é inesperado, tão raro é o imprevisível na vida que lá levo.
Incoerente e ingrato, mas próprio da natureza humana, muitas vezes sinto então falta do caos e dos imprevistos que vivo aqui na aldeia.

domingo, abril 15

Reencarnação

Conheço-o desde que nasceu, vi-o fazer-se homem e, como o resto da aldeia, mesmo os da sua família, aprendi que mais seguro era nunca o contrariar nem contradizer, sorrir-lhe, passar de largo.
De pais magricelas saiu ele grande e forte. O temperamento de zaragateiro tresloucado deve ser herança dum avô que, de raiva por ter perdido no tribunal uma questão de partilhas, se enforcou numa trave da adega.
Fez a tropa. Depois, por milagre ou distracção de quem o alistou, conseguiu entrar para a Polícia. Aguentaram-no pouco tempo, porque aquilo não era violência, eram instintos de fera: multado que se queixasse, burguês que desobedecesse ao seu mando, transgressor refilão, e era à bofetada, a pontapé, iam dali para o hospital, ou levava-os ele aos empurrões para esquadra, para mais um “tratamento.”
Esteve preso. Por fim expulsaram-no. Emigrou para a Suíça, onde arranjou emprego num matadouro, e desde então devem ter passado mais de vinte anos sem nos vermos. Não o reconheci no homem sereno e cordial que me veio abraçar.
Perguntei-lhe se ainda trabalhava no matadouro, e ele sorriu:
- Aguentei pouco tempo.
Contou depois que tinha estudado electrónica à noite e acabara por se estabelecer, abrira já três lojas. Se eu um dia for a Zürich, gostaria de mas mostrar.
E, como se adivinhasse a pergunta que eu não ousava fazer:
- Ainda passei maus bocados. No trabalho, com um capataz que embirrava comigo. Outras vezes na rua, nos cafés... Mas eu acho que era assim por causa da raiva. E por ter medo. Medo da fome, da pobreza... Às vezes até rezava. E olhe, parece que foi milagre, porque desde que comecei a ficar bem na vida nunca mais...
Encara-me, mas perdido nos seus pensamentos não termina a frase, só depois de uma longa pausa diz:
- É que não foi só o mudar. Há alturas em que tenho a certeza de que sou outra pessoa. Que reencarnei.

sábado, abril 14

Santo Antão da Barca

Santo Antão da Barca. No tempo da minha infância era lugar mítico. Os que lá tinham ido em romagem falavam de dias a subir e a descer montes, num calor de inferno. Falavam de carreiros estreitos a ladear abismos; do perigo das rochas que se desprendiam do alto e vinham a rolar pelas encostas com um barulho de trovão; de lobos e javalis, de cobras com a grossura dum braço; de burras que, assustadas, desapareciam por entre os fraguedos.
Eu, ao ouvi-los, convencia-me de que deveria ser como as travessias do deserto que faziam os peregrinos que iam a Meca ou Jerusalém, e sonhava com os panoramas, os perigos, a grandeza de uma jornada assim.
Fui lá ontem pela primeira vez, meia hora de carro pela estrada nova que sai de Meirinhos. É numa curva do rio Sabor. Perto da margem está uma capelinha, um pouco adiante dois ou três edifícios, um coreto de música, meia dúzia de árvores. Em parte nenhuma sinal de gente. Em redor só montes, calcinados e inóspitos.

sexta-feira, abril 13

No jardim

Fui às compras a M.... Entre a papelaria e a visita obrigatória ao café, sento-me à sombra no jardim, a recuperar do cansaço e do calor.
Do prédio fronteiro, dantes cinzento, pintado agora de um agressivo amarelo-pintainho, sai num passo hesitante uma senhora frágil, curvada pelos muitos anos, amparada a uma criada que deve ter outros tantos.
Devagarinho vão até à borda do passeio, os carros param, atenciosos, e elas devagarinho atravessam a rua, sobem em slow motion o degrau do jardim, vão-se sentar no banco fronteiro ao meu.
Àquela distância a senhora de certeza não me reconhece, mas mesmo assim faz-me um aceno cortês e a criada imita-a. Correspondo ao cumprimento e, embaraçado, abro o jornal.
No começo do século passado já o meu avô António se abastecia neles de sola, de cabedal, cera, cardas e o mais que precisava para o seu ofício de sapateiro.
Chamavam-lhes os “C...”, e aquilo não era um comércio, antes um empório que vendia desde os fósforos à maquinara agrícola, dos adubos à roupa feita, gasolina, ferramentas, calçado e panelas, mobílias, serviços de mesa...
Os meus pais não queriam outra loja. Mais tarde eu próprio me tornei cliente e, fora as miudezas de que uma casa precisa, recordo ter lá comprado os copos que ainda usamos e o colchão onde ainda dormimos.
Os “C...” não se distinguiam só pela variedade e a amplitude do seu negócio, mas pela cortesia: freguês que vinha por uns centavos de sementes de couve recebia tratamento igual ao que comprava um tractor.
Os patrões, uns seis ou sete irmãos e irmãs, trabalhavam ao lado do pessoal, com o mesmo afã, só se distinguindo deste pela elegância do vestuário.
Eram gente de gosto e fortuna, e o facto de viverem e trabalharem no buraco provinciano que M... sempre foi, e ainda é, não os impedia de gozar e conhecer o mundo.
Para as coisas boas iam a Paris, a Roma, Milão e Mónaco. A Deauville para a praia, a Vichy para os banhos. Se um deles casava, a boda dava brado. Se outro adoecia, fretavam um avião que o levasse a Londres, aos especialistas de fama.
Falava-se nos “C...” e as pessoas involuntariamente tomavam uma atitude de respeito. Porque eles davam para a Misericórdia, ajudavam discretamente os necessitados, eram exemplares no trato e naquela harmonia em que viviam e trabalhavam.
Foi assim durante duas gerações. Em meados dos anos noventa começou-se a notar que algo corria mal. Os patrões tinham envelhecido, os empregados tornavam-se desleixados, falava-se de filhas estouvadas, filhos mãos-largas, noras loucas, genros rapinas, netos na droga.
Um dia soube-se da falência. Os “C...” tinham perdido tudo. Os da geração mais velha morreram uns atrás dos outros, dizendo-se que mais de desgosto e vergonha, que de doença.
Restam um irmão e uma irmã, ambos solteiros, ambos de muita idade. Almas caridosas cuidaram que lhes fosse dado um apartamentozinho na antiga loja, transformada agora em prédio de habitação. É lá que vivem com a velha criada.
Ouvi dizer que o irmão nunca sai. A senhora e a criada todas as manhãs atravessam o passeio, atravessam a rua até ao jardim público, vão-se sentar no mesmo banco.
Fecho o jornal, levanto-me e faço-lhes uma vénia, que é tanto para elas, como para todos os que a vida humilha e sofrem indefesos.

quinta-feira, abril 12

Antóniô!

Nota-se nas aldeias, nota-se nas estradas, por onde rodam em velocidades suicidas. Nota-se nas lojas, nos cafés, onde entram aos gritos e não querem esperar vez:
-Chegue aqui, ó dona! Quatro cervejas!
No comportamento, bizarros como extraterrenos. Emigraram e na Páscoa, no Verão, pelo Natal, voltam de férias. Em Moncorvo encontro alguns que, soberbos, ou talvez num exorcismo à extrema miséria que conheceram, tornam a realidade em anedota ao sacar do bolso o maço de notas e, a agitá-lo no ar, intimam o lojista:
- Diga lá quanto é!
Gente pobre com dinheiro. Não esqueceram de todo a língua, mas há que mostrar que se lhes despegou a lama das botas, e assim como por distracção atiram um monsieur, saúdam com bonjour, dizem: Antóniô! Viens, mon chéri!
Há-os tolos: - Para que servem os estudos? Eu nem a primária tenho, mas em Paris, na construção, ganho cinco ou seis vezes mais que um doutor dos de cá!
Há-os impertinentes: - Que carro tem lá na Holanda?
Respondo com evasivas: - Um pequeno, já velhote.
Abrem a porta do Jeep Grand Cherokee, para que me assombre com o luxo do interior e aquela aparelhagem toda. Obrigam-me a sentar para que goze a maciez do couro. Levantam o capot do motor, a ver se adivinho a potência do monstro. Querem também que dê palpite sobre o que pagaram por ele, o que o bicho “bebe” aos cem, quanto custa um pneu todo-o-terreno.
Abano a cabeça a dizer que não faço ideia, enquanto a face se me arrepanha num sorriso imbecil porque, sabendo que se ofenderiam, me obrigo a ouvi-los, sem coragem para lhes virar as costas.

quarta-feira, abril 11

Pai e filho

É sabido em demasia que as relações entre pai e filho são muitas vezes problemáticas, incontáveis e misteriosas as causas que a isso levam.
Do meu, sempre alheado, mantendo-me à distância da sua vida, dos seus pensamentos e da sua intimidade, posso dizer que mal o conheci; e só agora, tristemente tarde, pois já faz mais de vinte anos que morreu, creio que compreendo e desculpo a frieza do seu modo.
Para ser como era tinha ele razões de sobra, mas essas só de facto se me tornaram visíveis ao escrever um livro em que, como que em transe, historiei a nossa família. Conseguindo finalmente exorcizar os medos e os ódios que, por virem de tão longe e de tão fundo, muitas vezes temi que, in aeternum, continuassem a amargurar o meu viver.
Sorte igual não teve o meu amigo Francisco. Enquanto os irmãos mais velhos, um rapaz e uma rapariga, fariam carreiras brilhantes na universidade, o pai, comerciante abastado, logo na infância decidiu que o mais novo, rebelde e com fraca cabeça, não precisava mais do que a instrução primária.
Aos dez anos pô-lo a a varrer o chão dos armazéns. Promoveu-o mais tarde a paquete, depois a caixeiro e por fim a chofer de camião, mas pontuando tudo isso de bofetadas, insultos, e anúncios de “Olhem-me p’ra esta besta! É ou não é burro?”
O pessoal condoía-se, mas o homem era tirânico, violento, capaz de os pôr na rua por um nada ou mesmo sem motivo, e então, olhando de viés, acanhados, abanavam a cabeça que sim.
Embora de carácter contrário ao do seu progenitor, Francisco herdou dele o faro para o negócio. Libertou-se da cadeia em que passara a juventude, comprou o seu próprio camião, mais tarde estabeleceu um supermercado, depois outro, hoje uma enfiada deles. Bom estratega, entrou no comércio por grosso como concorrente do pai e, tempos atrás, este já decrépito, comprou-lhe os armazéns.
Em má hora o fez, pois a prisão a que julgava ter escapado para sempre, de novo se voltou a fechar sobre ele. Mau grado os noventa anos, o velho aparece de manhã cedo e a única diferença é que o não insulta diante do pessoal, mas espera-o no escritório, persegue-o com críticas e a rosnar pelos cantos. “Asno! É o que tu és! Um asno!”
Que olhe para o irmão, celebridade da Medicina. Mesmo a irmã, uma mulher - os lábios franzem-se-lhe a mostrar a pouca conta em que tem o sexo fraco - engenheira, catedrática... E ele? “Um asno! Um grandessíssimo asno!” Francisco ouve, cala, sofre e conta isto num tom desprendido, dando-me a impressão de que aprendeu há muito a chorar sem lágrimas.

terça-feira, abril 10

Génios

O João tem oito anos e é superdotado. O pai, cheio de orgulho, pergunta-lhe que nos diga quanto são seis vezes dezanove, vezes trinta.
O garoto, brejeiro, pisca os olhos, inclina a cabeça responde com ar de troça:
- Três mil quatrocentos e vinte.
Não esconde o riso ao ver que eu, com papel e lápis, demoro a acabar a conta.
Como se estivéssemos num circo, o pai quer provar que não há falcatrua, o João é mesmo muito inteligente. Diga eu uma multiplicação, divisão, ou ambas as operações, o que quiser.
- Vamos lá ver se consegues. Dezassete vezes noventa, a dividir por catorze.
O João volta a piscar os olhos, inclina de novo a cabeça, faz uma careta:
- Mil e quinhentos e trinta... Agora a dividir por catorze... Cento e nove... Vírgula dois.
Digo-me sinceramente estupefacto e convencido. Não precisamos de continuar, a prova está dada: pelo menos em cálculo o João é genial.
Connosco está outro jovem pai. Acena que sim, que é interessante, com uma cabeça daquelas o garoto há-de ir longe. Do que ele tem pena é que a sua Helena não esteja presente.
- Havia de ver! Aos dois anos já lia, já escrevia! E agora na escola é a melhor em tudo.
Entreolhamo-nos embaraçados. O João toca-me o braço, pede que lhe dê uma conta mais difícil. O pai manda-o calar. Alguém diz que a Primavera vai fria demais. Como se isso nos libertasse do embaraço, damo-nos as boas-tardes e vai cada um para seu lado.

segunda-feira, abril 9

O Zé e a Zulmira

O Zé e a Zulmira conheço-os eu desde o princípio do mundo, mas memória vívida guardo-a do tempo em que, ainda puto, eles acabados de casar, me punham no carro de bois, e levavam consigo a buscar ao monte sacos de trigo, toros de pinho, faixas de palha. Eu empoleirado no alto da carga, a minha imaginação a transformar o carro em quadriga, os bois ronceiros em cavalos a galope.
Depois o tempo passou, tornamo-nos todos velhos, embora até há pouco o Zé mantivesse a força e o aprumo da mocidade. Já não ri como antigamente a propósito de tudo e nada, a mostrar a sua boa disposição. De vez em quando queixa-se da cabeça, dizendo que o trespassam umas dores tão fortes que nem sabe como aguenta.
Vi-o dias atrás à porta de casa, encostado à ombreira, perguntei se se sentia melhor.
- Nada. Cada dia pior.
- Mas então as pílulas? Não ajudam?
- Oh! As outras eram castanhas. Estas são azuis, mas as dores cá ficam.
Tirou a caixa do bolso para mas mostrar. Li o rótulo, li o folheto. Tentei confortá-lo com palavras de circunstância e certezas que não tenho sobre o progresso da Medicina.
Encontraram-no ontem à tarde, domingo de Páscoa, caído da estrada. Levaram-no para o hospital de Bragança, onde os médicos disseram que durará pouco tempo. Na rua ouve-se o pranto da Zulmira, a chorar já a sua viuvez, e eu, em casa, vou dum lado para outro, desnorteado, a pôr-me interrogações inúteis sobre a vida e sobre a morte.

domingo, abril 8

Basófias

Afirmar que nas últimas décadas o mundo encolheu, é lugar-comum. Voa-se para os antípodas em menos dum dia, a televisão transmite de toda a parte em tempo real, o telemóvel como que nos tornou a todos vizinhos.
Pessoalmente acho que a nós, humanidade, nos abona pouco o avançar com tanta rapidez na tecnologia, e deixar para trás o desenvolvimento das ideias e da sociedade, condenando a maioria a viver em situações que já em séculos longínquos eram degradantes.
Constatar isto também é lugar-comum, e de nada adianta sonhar ideais num tempo que, dito moderno, progressista, a lei ainda não é ditada pelo mais justo, mas pelo mais forte.
Estas considerações vêm-me em aparte, um desvio do raciocínio, pois o meu intento era anotar a preocupação que me causam as fotografias que mostram a Terra no espaço. Ou as dos satélites metereológicos.
Olho-as e tenho de acreditar. Naquele grão de poeira (não param os lugares-comuns), que Eça definiu como “uma bola a rebolar nos céus com basófias de astro” - vivemos, sofremos, inventamos religiões e teorias da existência, esquecidos da nossa infinita pequenez.

sábado, abril 7

O Volvo

Encontrei-o esta manhã, quando saía da esquadra da Polícia, todo sombrio. Um rapazote seu empregado não resistiu à tentação e ontem roubou-lhe o Volvo, novinho em folha. Às tantas, talvez com o vinho, esbarrou-se com ele por uma ribanceira.
- O filho da puta nem um arranhão sofreu, mas o carro ficou sem conserto, vai para a sucata. E sabes o que te digo? A culpa nem é dele, deles, esses madraços que andam por aí à boa vida! A culpa é do Governo! Hoje recebe-se sem trabalhar! Doem-te as costas, amiguinho? Aqui tens o subsídio. É assim que o país vai por água abaixo!
Dou-lhe razão, pois a amizade tem destas obrigações, mas em vez de o acalmar a minha concordância excita-o:
- Sabes o que era preciso? Era fazer-lhes como lá nas Arábias! Perdiam logo o vício! Roubaste? Mãozinha cortada!
Parado na borda do passeio, o meu amigo Vargas levanta o braço direito acima da cabeça, espalma a mão e, como se fosse um cutelo, “decepa” a outra pelo pulso.
Abano a cabeça que sim, e inesperadamente a cena tem um final burlesco. O senhor Lopes sai da loja de ferragens, caminha para o nosso lado, e ao ver o amigo com a mão sobre o pulso, pergunta contristado:
- Então, Vargas, esse reumatismo não passa?

sexta-feira, abril 6

Aquilino

Era escritor de fama, homem importante na oposição a Salazar, tão admirado que toda a gente se lhe referia pelo nome próprio. Ando a ler um livro do Aquilino, o Aquilino fez um discurso, o Aquilino disse...
Aquilino Ribeiro. Viu-o umas quantas vezes na livraria Bertrand, em Lisboa, onde mantinha tertúlia e se fazia admirar. Olhei de longe, com respeito, e embora gostasse da sua obra não gostei da pessoa. Ressudava vaidade, egocentrismo, o seu vozeirão fazia voltar a cabeça aos clientes.
Morreu em 1963. Hoje serão raros os que o lêem e poucos os que lhe conhecem o nome, o que não é de admirar num tempo em que, segundo as estatísticas, muita gente ignora quem tenha sido o Hitler.
Ocorre-me isto porque ao arrumar uma estante encontrei O Malhadinhas, um livro de contos que publicou em 1922 e, durante gerações, foi considerado um clássico. Na minha juventude lembro-me de o ter lido com o apreço e a atenção de quem aprende. Reli-o agora com um sentimento de tristeza, não somente porque com o tempo tudo passa e tudo esquece, mas porque o achei artificial, rebuscado, escrito numa linguagem que passava por popular e era apenas um maneirismo do autor.
Com um involuntário franzir do sobrolho pergunto-me se daqui a cinquenta anos alguém saberá que existi. E que pensará esse alguém da minha prosa, se por acaso tropeçar então num livro meu - se ainda houver livros.

quarta-feira, abril 4

Esgrima

Se apenas dependesse de mim eu gostaria de só ter pensamentos elevados, de reagir sempre com nobreza e serenidade, de mostrar-me salomónico nos meus juízos, e nos conselhos que me pedissem.
Isso seria o ideal. Na realidade, feito como sou de impulsos contraditórios, sentimentos desencontrados, ideias mal assentes e imperfeições sem conta, o meu funcionamento é sujeito a desequilíbrios e a reviravoltas.
Assim, como já antes anotei, sou de companhia difícil, inclinado a súbitas impaciências e por vezes, incapaz de me poder travar, mordazmente crítico.
Há quem se assuste e há quem passe de largo, acenando um cuidadoso adeuzinho. Mas também há os que apreciam. Com esses, raros, a conversa torna-se uma excitante forma de esgrima intelectual.

terça-feira, abril 3

Os filtros da memória

O turismo e a velhice têm de comum a necessidade de alindar.
De volta a casa, e por onde quer que tenha vagueado, o turista só recorda e fala de dias soalheiros bem passados, de autóctones acolhedores, de catedrais majestosas, de belas paisagens, do muito que gozou.
Tal comportamento pode parecer bizarro, mas é involuntário e mesmo saudável. Os filtros da memória encarregam-se de lhe apagar a desagradável lembrança dos contratempos e das arrelias, das desilusões, da roubalheira, do desconforto.
Os velhos, esses alindam o passado. Então é que era! Então é que se sabia viver! E as pessoas eram simples, sinceras, cumpridoras. Deixavam-se as portas abertas. Havia respeito. Havia solidariedade. O ar era límpido. A comida tinha sabor.
Curioso é constatar que o duro presente de que eles se queixam, se tornará um dia o belo passado que outros recordarão com nostalgia.
Diga-se de passagem que velhos só são os outros, e que eu faço o que posso para retardar (seria ideal evitá-la) a erosão do que o tempo traz consigo.
Mas de facto nunca fui muito dado a alindamentos.

segunda-feira, abril 2

N' "O Artur"

Ontem, domingo, hora do almoço n’“O Artur”, em Carviçais.
Uma mulher e três homens, gente de meia idade, dão nas vistas pela gosto com que comem e o muito que riem.
Terminaram. Levantam-se. Ligeiramente toldados, mas na mesma boa disposição, esperam comigo junto da caixa que Artur júnior faça a conta.
Como se aquilo lhe ocorresse de súbito, um deles pergunta:
- Oiça lá! Você é que é o Artur?
- Sou - responde o interpelado.
- É? Tinham-me dito que era mais velho!
- Deve ser o meu pai.
- Mas quem é o Artur? É ele ou é você?
- Ambos. Temos o mesmo nome.
- Espere aí! Então ele é Artur, você é Artur, e o restaurante também é Artur?
- De facto.
- Ai que caralho! Não sabia! Nunca cá tínhamos vindo! Andamos por toda a parte, mas p’ra aqui nunca tinha calhado. Sabe quem nos disse p’ra vir? Foi aquele sujeito gordo de São João da Madeira. Conhece? Um que vem cá muitas vezes com o outro, que é magro. O que deixou a mulher. Andam sempre juntos! Não se lembra? O que antes tinha a bomba da gasolina! Veja lá se se lembra!

domingo, abril 1

sms

O seu sorriso é contagioso e, meio envergonhado, diz que não tem idade para sentimentos assim, mas não resiste e conta.
Não se conheciam. Tinham combinado encontrar-se a meio da manhã em Mirandela. Almoçaram demoradamente na Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros. Pararam depois num desvio da estrada e viram passar um rebanho, as ovelhas com uma lã cinzenta que para ambos era novidade.
Continua a sorrir, diz que no regresso a Mirandela, fazia frio, mas mesmo assim escolheram um banco na alameda junto do rio. E aí ficaram, não sabe quanto tempo.
Despediram-se. Cada um para seu lado. Mais tarde sentira o telemóvel vibrar.
Suspende a narrativa, mas o sorriso como que lhe ilumina a face quando agora liga o aparelho e me dá a mensagem a ler:
“Um dia inesquecível! Para recordar a vida inteira. Eu já cheguei. Beijinhos.”
Quer que eu comente. Ignoro os detalhes, mas digo-lhe que sim, deve ter sido lindo.

Navegação


A partir de hoje e quando o vento for de feição, durante os próximos três meses a barca retoma o navegar, agora num dos seus trajectos favoritos: entre Miranda e a Foz do Douro.