sexta-feira, março 23

Pausa

O timoneiro viaja amanhã para a terra onde nasceu, pelo que durante coisa de uma semana esta barca suspenderá a navegação.

Partida

Vou amanhã para Portugal. Desde há alguns anos a véspera de cada viagem para lá, ou de volta, tornou-se involuntariamente num momento de melancólica reflexão sobre a minha pertença a dois países, a duas línguas, a duas sensibilidades, a duas tão diferentes maneiras de existir, agir e pensar.
Umas vezes digo-me que enriqueci o espírito, noutras tenho a impressão de que me amputei. Ora me regozijo com as vantagens deste duplo pertencer, ora me amarfanha a certeza de que em parte nenhuma pertenço por inteiro. Tenho consciência de que constantemente ganho e perco, mas sem que o ganho traga satisfação ou a perda se mostre irremediável.
Talvez por isso só na língua materna encontro a estabilidade que no resto me falta. E parafraseando Pessoa - “A minha pátria é a língua portuguesa” - de verdade ela para mim não é apenas idioma, modo de expressão, mas como que um lugar, por vezes mesmo um refúgio.

Descarrilamento

Na minha infância, com escassez de quase tudo, ainda se compreenderia, mas neste tempo em que a abundância é mais regra que excepção, parece sinal de doença, ou pelo menos de descarrilamento.
Não é grave, mas perturba-me, tem ar obsessivo: caixas e frascos são coisas de que me custa desfazer. Digo-me que é tolice guardá-los, mas no momento em que decido atirar com eles para o lixo logo me arrependo. Hesito, limpo-os, e com uma determinação de pêga procuro lugar para os guardar.
Assim, em cantos inesperados, descubro por vezes frascos bizarros, caixas cheias doutras caixas, tubos de plástico, embalagens de perfume...
Num acesso de bom-senso resolvo livrar-me daquilo. Mas à medida que lhes pego, ocorre-me que esta é bonita, aquela dá jeito para guardar parafusos, a outra pode servir para os selos... Finalmente reponho tudo de volta, desculpando-me com asserções de sabedoria caseira no género de “quem guarda tem” ou “quem atira com o que tem, a pedir vem.”
Da minha obsessão com o papel e o papelão prefiro não falar, pois com sintomas idênticos, ou até mais ligeiros, há gente fechada no manicómio.

Uniformes

As razões misteriosas que determinam as antipatias fizeram com que eu, já na infância, me mostrasse avesso aos uniformes. Os que tive de usar, o da Mocidade Portuguesa e depois o militar, foram-me impostos pela lei e descartei-os ambos no instante em que a obrigação caducou.
Bem sei que há razões práticas para o uso da farda, e é reconfortante poder assinalar um polícia na rua ou um médico num hospital. Mas custa-me a compreender o entusiasmo com que a maioria das almas se apressa a mostrar que pertence ao rebanho.
Festa, congresso, greve, manifestação, campeonato, lá estão eles com os bonés, as camisolas e as bandeirinhas, à espera que os mandem marchar, que os mandem gritar ou aplaudir.
Desses fujo como o diabo da cruz. Que se tenha de usar uniforme porque o ganha-pão assim manda, claro que compreendo. E que os músicos de uma fanfarra e as crianças de uma escola se vistam de igual, também nada tenho contra. Mas que, por gosto, se vista uma farda, cabe mal no meu entendimento, parece-me aberração.
Anoiteceu. Tempo calmo. O parque, fronteiro à casa, convida ao passeio digestivo. Passa um grupo de ciclistas, uniformizados e equipados - Ah! Aqueles elmos em forma de ovo de avestruz! - a acelerar na curva como no Tour de France.
Atrás deles vêm dois joggers, gémeos no uniforme, pois sem ele é dar mostras de que se não corre a sério. Estes surpreendem-me com uma novidade: trazem apertada na cabeça uma fita de elástico com uma lâmpada vermelha que, presa à nuca, avisa da sua presença. Mas quem os vai atropelar nestas iluminadas e quietas alamedas, com aqueles calções amarelos fluorescentes, camisolas azuis do mesmo material e reflectores nos sapatos?

quinta-feira, março 22

No século XX A.D. (4)

Um almoço na embaixada em Haia. Dos sete que ali estamos a beber cocktails e a debicar petiscos, quatro são embaixadores, dois são altos-funcionários. Eu, a ovelha negra do grupo, pergunto-me no íntimo a razão da minha presença.
O convidado que faltava, homem importante da política portuguesa, figura histórica da Revolução de Abril, entra jovial, charuto na boca, rotineiro nos abraços e apertos de mão.
Veio de São Petersburgo esta manhã, foi de corrida à Mauritshuis, e a hora de atraso despacha-a ele com uma gargalhada e o anúncio de “Isto é um país organizadíssimo em tudo! Menos no trânsito!”
Há os sorrisos de circunstância enquanto o homem se senta num fauteuil, estende as pernas, tira outra fumaça do charuto e, sem olhar o empregado que o serve, pega o copo de whisky. Desconcertante atitude em tão eminente paladino das massas trabalhadoras.
Bebe uma golada, dá uns estalinhos com os lábios a saborear, e a partir desse momento, cheio de si, despeja sobre nós uma enxurrada de considerandos, pontos de vista, análises, memórias revolucionárias, dados biográficos seus e alheios.
Achar estonteante fica aquém da realidade. Vamos para a mesa e ele continua, indiferente a uma ou outra observação, feita mais por cortesia do que interesse, pois o discurso com que nos maltrata não se eleva acima dos lugares-comuns.
Bons diplomatas, os outros comem em silêncio, acenam de vez em quando que sim. Eu, mal humorado pelo egocentrismo do personagem e o rompante do seu modo, não consigo evitar de franzir o sobrolho e que se me descaiam os cantos da boca.
O anfitrião, esse não sabe para onde se voltar. Sorri, olha em redor com uma calma que esconde mal o seu embaraço. No instante em que servem a sobremesa e o homem durante uns segundos se cala, o embaixador aponta para mim, e com um riso histérico avisa o político:
- Tenha cautela! Olhe que ele ouve tudo! Ainda é capaz de o pôr num livro!
Encaramo-nos, surpresos daquela tirada pouco diplomática, alguns sorriem, o visado não dá mostras de ter ouvido. Mastiga uma garfada de bolo, passa o guardanapo pelos lábios, estende os braços no modo de quem se apoia a um rebordo de tribuna: “Como eu dizia há pouco, não se devem minimizar as implicações geopolíticas da situação nos Balcãs. E a meu ver, o que acontece em África...”
Na rua olho o relógio. Passam uns minutos das cinco. Sinto maior cansaço que depois dum dia de trabalho.
Pô-lo num livro? Talvez. Quando precisar dum palhaço.

quarta-feira, março 21

E-mail

Mesmo sem lhe mencionar o nome, falar dele aqui causa-me desconforto. Porque é homem bom, atencioso, prestável. Defeitos com certeza terá, mas no trato só se lhe descobre o de comer em quantidades pantagruélicas.
O que agora lhe aponto mal se pode chamar defeito, é antes o desvio de uma qualidade, o desejo que tem de pôr os outros ao corrente daquilo que o interessa.
Antigamente fazia-o por carta. Uma ou duas vezes por mês, lá vinham os extensos relatos acompanhados de citações e recortes de jornais. Mas desde que descobriu o correio electrónico, a sua sede de comunicar passou de bimensal a diária. Tudo o que lhe agrada, comove, assusta ou preocupa, comunica-o ele de imediato, juntando em anexo artigos e fotografias, em quantidade tal que o computador leva eternidades a receber os megabytes.
É também estonteante, porque o seu interesse abrange desde as profecias de Nostradamus à crueldade contra os bichos, da independência de Timor à dosagem da vitamina C, da certeza que o mundo acabará em 2017 aos monges voadores do Tibet. E mais, cansativamente mais.
Depois, ou porque quer assim, a mostrar o vasto círculo dos seus corresponentes, ou porque desconhece como eliminá-la, as suas mensagens terminam com a lista de todos endereços para onde as envia.
No tempo em que usava a máquina de escrever, a fotocópia e o correio, suponho que as não mandasse a mais de dois ou três. Mas o computador abriu-lhe perspectivas inesperadas. Recebido a noite passada, o seu último e-mail, alargando-se em considerações sobre a pena de morte, a economia do Irak, os livros de Paulo Coelho, os malefícios da utilização de navios-fábricas na pesca oceânica, a eficácia da Coca-Cola no tratamento da diarréia, o escuro site de Dolce & Gabbana (http://www.dolcegabbana.it/ ), conta nada menos de sessenta e um destinatários. Entre eles o presidente Putin (president@kremlin.ru) e um espiritosanto@angola.com.

segunda-feira, março 19

No século XX A.D. (3)

Para a planta da renovação da casa os amigos tinham aconselhado a que não se procurasse arquitecto: trabalhos desses fá-los o senhor Pereira nas horas vagas, com perfeição, por menos de metade do preço. Além disso, sendo funcionário, tem a vantagem de conhecer toda a gente nas repartições, o que facilita enormemente o andamento das licenças.
Em Moncorvo encontro-me com o senhor Pereira que, além de funcionário e desenhador, possui uma loja de produtos homeopáticos. Conversamos, simpatizamos, ele promete que um dia destes aparece para tomar as medidas e transformar em planta o esboço que lhe mostro.
Mas para já devo ir à Câmara de Mogadouro requerer a licença. E levar comigo o bilhete de identidade da engenheira que se responsabiliza pelos cálculos. E tirar meia dúzia de fotografias da casa no seu estado actual. E voltar para devolver o bilhete de identidade à engenheira, que precisa dele para outro processo.
De Moncorvo para Mogadouro, duas vezes ida-e-volta, mais de trezentos quilómetros de estrada e calor.
Requerimentos, carimbos, selos brancos, ando da Tesouraria para as Obras, das Obras para a Secretaria, dali para as Finanças, depois para o Registo Predial, volto às Obras.
O funcionário olha-me severo quando lhe entrego a papelada:
- Claro que não sei se isto está como deve ser. A minha obrigação é de aceitar os documentos sem comentário. Mas depois vão ser estudados cá na Secção. Se houver erro terei de lhos devolver e o senhor precisa de recomeçar tudo.
Exausto, desorientado, as palavras do homem atordoam-me como uma mocada.

domingo, março 18

Língua-mãe

Esta situação de que, vivendo na Holanda há mais de meio século, eu continue a escrever em Português, causa por vezes estranheza e mesmo animosidade. Que use o Neerlandês no dia-a-dia, mas não nos meus escritos, consideram-no uns um desdém, parece a outros uma bizarria.
De facto nenhum desses argumentos é válido. O meu apego ao Português tem a ver com o facto de que somente a língua materna me oferece a certeza de que me exprimo exactamente como desejo. Também só nela consigo encontrar os ritmos, as melodias e os matizes que preciso para a minha maneira de descrever ideias, personagens e sentimentos.
Fora isso, talvez seja essa a única forma de manter apertados os laços que me prendem à terra em que nasci, à Literatura e à História em que me criei, as quais me envolvem como uma carapaça de que me não posso, mas também não quero libertar.
No fundo talvez descortine ainda a preocupação, quiçá o medo, do pesadelo de perder o que se chama a identidade. De me transformar num desses seres patéticos que aos poucos se vão desabituando da língua-mãe, mas se mantêm incapazes de absorver por inteiro a língua adoptiva.
Além disso o uso do Português falado ou escrito sempre me deu, e continua a dar, o sentimento de pertencer a um todo que me transcende. De ser partícula na continuidade temporal, espiritual, intelectual e histórica de uma nação milenária.
No uso do Inglês ou do Francês esse sentimento acha-se de todo ausente, já que ambas as línguas me são antes meios de comunicação do que de emoção. Com o Neerlandês, porém, toma-me uma consciência muito aguda de se encontrarem algures as minhas raízes. De que a minha pertença à Holanda não é natural, mas fruto de circunstâncias aleatórias.
E embora inconsciente, o obstáculo maior ao meu uso do Neerlandês como língua literária, talvez se deva procurar num sentimento de rebeldia contra o destino que me fez abandonar a terra do meu nascimento e criação.

Cântico dos Cânticos

Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão,
os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas.

Está no Cântico dos Cânticos (Cant 8,6). Talvez que no vasto mundo e neste momento da noite, em vez de estar a lê-las na Bíblia como eu, alguém sussurre estas palavras a quem ama.

sexta-feira, março 16

Doutores

Para mudar de assunto ou pôr fim a um silêncio insólito, às vezes para despoletar uma situação incómoda, ocasiões há em que me vejo no papel de contador (quase) compulsivo de anedotas.
Na realidade considero as boas verdadeiros microcontos, razão porque deixo aqui duas das minhas favoritas. Com desculpas a quem já as conhece.

Deveria ser um velório como de costume, com prantos e soluços, olhares tristes, abraços de pesar, boas recordações do defunto.
A gente era muita, por isso mais inacreditável e doloroso se tornara o silêncio geral. De facto, pelo extremo das suas más qualidades, o passamento do sujeito tinha sido um alívio para todos os presentes.
O uso mandava, mas como elogiar o filho da puta? Até que finalmente alguém suspirou: - O irmão era muito pior.


O lavrador siciliano tinha comprado um horta. Preocupava-o o ter de registá-la, mas o notário acalmou-o: a acta era coisa simples.
No dia seguinte a papelada estava pronta.
- Assine aqui.
- Eu bem pensava... Vamos ter um problema, porque sou analfabeto.
- Problema nenhum. Faça nesta linha uma cruz, é a assinatura, o mesmo que o seu nome.
O lavrador risca duas cruzes. O notário irrita-se:
- Homem! Era só uma cruz! O nome.
- Bem ouvi, mas uma é o meu nome, a outra é Dottore.

quinta-feira, março 15

Sardão

Anos atrás quase todos os dias o víamos, o nosso sardão familiar. Gorducho, esverdeado com pintas pretas, mediria então uns vinte centímetros da cabeça à ponta do rabo.
Passeava pelas paredes, parava a olhar o ambiente, e de súbito, como um foguete, desaparecia numa frincha.
Achávamo-lo simpático e tinha ganho o status de bicho doméstico, mesmo quando nos avisaram que os sardões não eram de graças, às vezes atiravam-se às pessoas e mordiam com tal força que depois, como um pitt-bull, não conseguiam desprender os queixos.
Sumiu tão longamente que o tínhamos esquecido. Reapareceu ontem. Maior, magro, engelhado, com um ar de velhice e lentidões de reumático.

sábado, março 10

A nossa rua

Atrocidades da guerra. Chacinas. Depurações étnicas. Atentados suicidas... Quase na nossa vizinhança - o que são três horas de voo? - e contudo tão longe do nosso interesse. Os horrores do genocídio e da fome são-nos servidos na televisão entre um desastre na estrada - dois feridos - e o aumento espectacular das cotações da bolsa. Para os próximos quatro dias as previsões metereológicas são de tempo soalheiro e temperaturas a rondar os vinte graus.
Jantamos, discutimos, fazemos planos de férias, dormimos o sono dos bem-aventurados.
Solidariedade? Claro que sim, sentimos. Durante os minutos que passam no écrã os corpos esqueléticos, os rostos dos mortos, dos torturados, dos fugitivos, dos que perderam lar e família. Abanamos a cabeça, descrentes, dizemos que é terrível, que não se compreende que no mundo em que vivemos possam acontecer semelhantes tragédias.
Infelizmente, o mundo em que vivemos pouco mais longe alcança que a nossa porta. Na melhor das hipóteses a nossa rua.

quinta-feira, março 8

Comadres

Dava-se-lhes o nome de cronistas. Escreviam nos jornais uns textos curtos, ora comentário, ora observação ou relato. O tom era o da seriedade, a prosa cuidada, o proveito duplo, porque o lê-los era uma aprendizagem e os seus temas obrigavam à reflexão.
Sob a influência generalizada do inglês, desde há anos que se passou a chamar-lhes colunistas. O tom agora é ligeiro, a prosa descuidada, no melhor dos casos banal a temática. No pior descem à mexeriquice, e quando a mexeriquice falta escrevem uns sobre os outros. “Como dizia fulano na sua coluna de ontem... A perspicaz análise que hoje se lê na coluna de sicrano... ” *)
Assim cavam os jornais a própria cova, servindo-nos, requentado, o noticiário que ontem à noite vimos na televisão, enchendo o resto das páginas com textos banais e fotografias inúteis.
O jornal, que no passado a opinião pública considerava um cavalheiro, tornou-se uma comadre.
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*) Interessante desenvolvimento: os bloguistas vão por caminho igual. Em bom número de blogs nota-se uma demasia de abraços, parabéns, citações, palmadinhas nas costas, com o correspondente e inconfundível cheiro a capelinha.

Seitas

Criado com vagos preceitos da religião católica, ministrados por padres que entendiam mais de semear nos campos do que nas almas, a minha fé, sem nunca ter chegado aos extremos do ateísmo ou do êxtase beato, sempre andou sujeita a oscilações.
Devo também dizer que os vários credos não despertam em mim interesse maior do que o de me pôr ao corrente dos seus princípios. Cristianismo, islamismo, budismo, judaísmo, confucionismo..., tomo conhecimento, mas não sinto desejo de seguir ou aprofundar.
As seitas são caso diferente. Fascinam-me. Se tivesse ciência e tempo, creio que me dedicaria ao seu estudo. Amish, Mennonitas, Mormons, Testemunhas de Jeová, Igreja Universal do Reino de Deus, Moon, Scientology... Inclino-me a considerá-las aberrações, mas de facto são apenas variantes da crença, o placebo de que dispomos contra o medo de não saber o que somos, quem somos, donde viemos, nem para onde vamos.

quarta-feira, março 7

Larachas

Exceptuando um ou outro pesadelo, os meus sonhos quase sempre me têm sido uma excitante forma de exploração psíquica, tanto mais que em geral guardo deles recordações vívidas.
Nessa muito presente lembrança reside talvez a origem do bizarro fenómeno a que por vezes me sinto sujeito. Acontece que durante certos sonhos tenho consciência de sonhar de novo sonhos anteriores, o que me transporta para uma inquietante duplicação da memória, do sentido da realidade e do eu, e ao mesmo tempo me impede de saber se, como suspeito, apenas uma parte de mim sonha, enquanto outra espreita insondáveis mistérios.
"Larachas", comenta um conhecido a quem falo disto. E embora saiba que não me convence, tenta acertar uma mocada definitiva na minha fantasia, acrescentando: "Isso provavelmente é a consequência de refeições pesadas. Uma questão de química."

terça-feira, março 6

Botas para o Himalaia

Os anos passam, as sociedades evoluem, os costumes mudam. Como nasci num tempo em que as condições sociais, políticas e tecnológicas eram as dos meados do século dezanove, tenho de facto uma idade que de longe ultrapassa as décadas que já cá levo.
Venho de um passado em que os rádios eram poucos, os aviões uma aparição, os automóveis raridade, e as locomotivas ainda deitavam fumo. Porém, o ter conhecido o mundo sem plásticos, sem antibióticos, telemóveis, internet, televisão a cores e transplantes de órgãos, dá-me um sentimento que não é de nostalgia, mas de desafogo. O sentimento de ter escapado não sei a que perigos e cataclismos.
Fascinado pelo progresso, gozo conscientemente as facilidades materiais que a vida hoje proporciona, e não me sinto com muitas razões de queixa. Talvez por isso as minhas birras vão para coisas pequenas, para os hábitos e costumes que de uma ou outra maneira embatem com aqueles em que fui criado.
Assim me irrita sobremodo a masculinização feminina, não só a do comportamento, mas também a do traje. Mulheres de cabeça rapada, o que antigamente só se via nas prisões e nos asilos de loucos. E a roupa que vestem, as botas que calçam. Como se em vez de ir à mercearia comprar arroz, ou à creche em busca dos filhos, se aprestassem a subir as encostas do Himalaia ou a lutar no Iraque.
A efeminação masculina não me irrita menos. É vê-los, machos de metro e noventa, coquettes nas suas coloridas blusinhas, a embalar os recém-nascidos com ademanes de tia solteirona, ou carregando-os em envoltas traçadas sobre o peito, à moda de mãe africana. São também eles que insistem, pelo menos em público, em mudar-lhes as fraldas E última, para mim nojenta moda: enfiar-lhes o polegar na boca em vez da chupeta.
O que era vergonha tornou-se privilégio: empurram eles o carrinho do bébé e chilreiam, fazem caretas, dão gritinhos. A mulher, essa caminha ao seu lado, as mãos atrás das costas e o ar enfastiado que dantes era o do Rei da Terra.

domingo, março 4

Sessões de autógrafos

Nijmegen. A mesinha com os livros para autografar está à direita da entrada. Sento-me e agora é esperar. Inconfortável, a posição de manequim de vitrina. As pessoas vão chegando, olham e compram, ou só olham. Há os tímidos, que de longe observam a cena e depois de alguns rodeios se aproximam como que por acaso, afectando desinteresse.
Chega mais gente. Alguns arriscam um cumprimento, palavras de apreço, e finalmente surge o inevitável tarado. Com o ar decidido de quem sabe ao que veio, anuncia-me que quer comprar um exemplar, mas sob uma condição: que eu escreva numa das páginas em branco um comentário pessoal, de preferência irónico ou malicioso, sobre um escritor vivo.
Respondo-lhe mal humorado com um redondo não. A tentar convencer-me, o homem diz que estranha a minha atitude, pois até à data escritor nenhum recusou satisfazer o seu pedido. Atente eu que a negativa significa que não estarei presente na sua interessante, e um dia valiosa, colecção de volumes comentados.
Dá-me vontade de mandá-lo àquela parte, mas o lugar e a presença doutros obrigam a que me contenha. Repito-lhe que não e de súbito é como se estivéssemos numa feira:
- Palavra que não quer escrever? Só umas linhas? Olhe que se arrepende. Vou-me embora e não compro livro nenhum.

Uma espécie de Feira do Livro num dos canais de Amsterdam. Estou sentado entre uma parede e uma mesa com alguns livros meus. A multidão passa, ininterrupta. De vez em quando alguém pára, folheia, olha os livros, encara-me, sorri. Um diálogo de surdos-mudos.
Uma mulher agarra um livro, abana com ele a chamar a minha atenção e pergunta:
- O senhor fala holandês?
No mesmo momento em que lhe respondo ela pousa o livro e, sem me encarar nem reagir, volta-me as costas.
Um casal. Acenam de longe, sorrindo com simpatia. Aceno e sorrio também. Param, voltam atrás, o homem grita por cima das cabeças:
- Hoje de manhã comprámos um livro seu.
- Obrigado.
- E vamos lê-lo.
Que responder?

No mesmo lugar, à mesma mesa. Dois sujeitos aí duns trinta anos param, folheiam distraidamen­te os livros - que procurarão ao fazer correr assim as páginas? - pousam-nos, pegam noutros. Um deles abre um livro meu, olha a capa, revira-o e, apontando-me como se eu fosse uma figura de cera e não um ser vivo ali a metro e meio deles: - Já leste alguma coisa deste gajo?

Leiden. Imóvel e silenciosa, uma mulher observa-me há minutos. Aquilo começa a tornar-se desagradável. Levanto-me para alcançar o livro que um rapaz me entrega para autografar, e nesse momento a mulher desperta, sorri, e diz-me contente: - Enganei-me! Julguei que fosse mais alto!

Amsterdam. “Mercado das Letras” no Bijenkorf. Somos mais de cinquenta, sentados atrás de mesas onde os nossos livros se empilham. O público passa durante três longas horas. Incessante­mente. Milhares de rostos. De vez em quando alguém folheia um livro, compara o retrato do autor na contracapa com a cara da realidade, ou pede um autógrafo, tira uma fotogra­fia.
À minha direita uma senhora especializada em obras de etiqueta. À minha esquerda uma escritora americana diz que não aguenta tanto tempo sem fumar, e fuma às escondidas com uma satisfação de criança maliciosa, soprando o fumo para o soalho.
Um coleccionador não quer apenas um autógrafo, mas pede - não pede, exige! - também um desenho. Como não quero, nem sei o que desenhar, ele diz que nesse caso também não precisa do autógrafo. Assim seja.
As balaustradas dos andares superiores estão cheias de um povo que se contenta com olhar para baixo e ver tanto crâneo de literato.

- Diga-me uma coisa: aquelas peripécias dos seus contos aconteceram mesmo?
Santa inocência! Esperar que um escritor escreva a verdade, quando para ele o que mais conta é a arte. E na arte a verdade não passa de um acessório menor.

sábado, março 3

Prefácios

Se há tarefa que, garantido, me põe de mau humor, é a de escrever prefácios. Dois, desde o princípio do ano. Ambos pelo medo de parecer grosseiro ao recusar um favor a quem tão abertamente o pede. E vá de pensar frases torneadas de modo a que as opiniões pareçam objectivas e os elogios sinceros. Esforço que resulta em dores de cabeça, raivas surdas, em pontapés no vazio e promessas solenes de nunca mais.
Um álbum de pintura. Quadros que nada me dizem, quanto mais os olho, mais nevoentas se me tornam as ideias. Sentindo-me tolo e, pior, hipócrita. Alinho frases sobre a harmonia dos coloridos do artista, a tensão que soube emprestar aos volumes, “o refinado tratamento do chiaroscuro, com reminiscências de Caravaggio e Rembrandt.”
Um livro de reportagens fotográficas. Retratos. Cenas de rua. Fotografia inexpressiva, de efeitos pretensiososos. Para não cair de desespero e frustação, apoio-me em Stieglitz, Kertész, Atget, Cartier-Bresson, ao mesmo tempo que olho de lado, involuntariamente receoso de ouvir já as gargalhadas que vão dar os que por acaso lerem as minhas asneiras.
O prefaciado, esse de certeza vai gostar. Cumprimentos, merecidos ou não, comparações com os grandes, tudo lhe será bálsamo. Virá depois citado nos anúncios e nos cartazes que evitarei olhar, para que não se reacenda a vergonha do meu fingimento.

Exótica

O comércio talvez seja imprescindível nas formas de sociedade que conhecemos. Cria riquezas, desperta invejas, dá lugar a guerras grandes e pequenas, vivem dele milhões e milhões. Para mim, todavia, numa escala de valores das actividades humanas, o comércio não ocupa lugar de destaque. E se num futuro remoto, por milagre ou engenho, o mundo conseguir realizar os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, e o homem deixe de ser o lobo do seu semelhante, é bem possível que o comércio desapareça.
Entretanto, poderosos e humildes, negociando em música, platina ou agriões, os que nele se ocupam desunham-se a comprar e a vender, a trocar, a revender, a enganar, a roubar, empurrados pela satisfação do instinto e pela ânsia do lucro.
Talvez porque Deus me negou as qualidades precisas para, mesmo de forma simples, negociar com êxito, o comércio sempre exerceu sobre mim um singular fascínio. E por isso me perdi há momentos a imaginar que sonhos acalentará também o comerciante que me mandou pelo correio um folheto com este texto:

"EXÓTICA - Centro de Serviços - Grande sortido de cosméticos para cabelo preto - Cartões pré-pagos para telemóveis - Bilhetes de avião para todos os destinos - Transporte aéreo e marítimo de mercadorias para o Suriname - Câmbio de moeda estrangeira - Transferências de dinheiro - Venda de caixas em vários tamanhos - Conservas e bebidas".

sexta-feira, março 2

Entretém

Até à data a minha memória funciona sem que dela tenha razão para me preocupar, pois mostra-se pronta a fornecer os dados, os nomes, as vivências e as recordações que lhe peço.
Tenho, contudo, a suspeita de que esta memória é diferente daquela com que nasci e durante tantos anos me serviu. Não digo que me negue serviço ou se tenha tornado lenta, mas como que se lhe acrescentou uma dimensão crítica que antes não possuía.
Assim, quando por vezes, saudosista, quero relembrar uma data, uma conversa, é como se no íntimo uma voz se interpusesse, perguntando com rispidez que necessidade tenho desssas informações. Se me tornei incapaz de separar o trigo do joio, o importante do banal. Se para mim, em vez de uma função, o recordar passou a ser um jogo, um entretém.