sexta-feira, março 23

Pausa

O timoneiro viaja amanhã para a terra onde nasceu, pelo que durante coisa de uma semana esta barca suspenderá a navegação.

Partida

Vou amanhã para Portugal. Desde há alguns anos a véspera de cada viagem para lá, ou de volta, tornou-se involuntariamente num momento de melancólica reflexão sobre a minha pertença a dois países, a duas línguas, a duas sensibilidades, a duas tão diferentes maneiras de existir, agir e pensar.
Umas vezes digo-me que enriqueci o espírito, noutras tenho a impressão de que me amputei. Ora me regozijo com as vantagens deste duplo pertencer, ora me amarfanha a certeza de que em parte nenhuma pertenço por inteiro. Tenho consciência de que constantemente ganho e perco, mas sem que o ganho traga satisfação ou a perda se mostre irremediável.
Talvez por isso só na língua materna encontro a estabilidade que no resto me falta. E parafraseando Pessoa - “A minha pátria é a língua portuguesa” - de verdade ela para mim não é apenas idioma, modo de expressão, mas como que um lugar, por vezes mesmo um refúgio.

Descarrilamento

Na minha infância, com escassez de quase tudo, ainda se compreenderia, mas neste tempo em que a abundância é mais regra que excepção, parece sinal de doença, ou pelo menos de descarrilamento.
Não é grave, mas perturba-me, tem ar obsessivo: caixas e frascos são coisas de que me custa desfazer. Digo-me que é tolice guardá-los, mas no momento em que decido atirar com eles para o lixo logo me arrependo. Hesito, limpo-os, e com uma determinação de pêga procuro lugar para os guardar.
Assim, em cantos inesperados, descubro por vezes frascos bizarros, caixas cheias doutras caixas, tubos de plástico, embalagens de perfume...
Num acesso de bom-senso resolvo livrar-me daquilo. Mas à medida que lhes pego, ocorre-me que esta é bonita, aquela dá jeito para guardar parafusos, a outra pode servir para os selos... Finalmente reponho tudo de volta, desculpando-me com asserções de sabedoria caseira no género de “quem guarda tem” ou “quem atira com o que tem, a pedir vem.”
Da minha obsessão com o papel e o papelão prefiro não falar, pois com sintomas idênticos, ou até mais ligeiros, há gente fechada no manicómio.

Uniformes

As razões misteriosas que determinam as antipatias fizeram com que eu, já na infância, me mostrasse avesso aos uniformes. Os que tive de usar, o da Mocidade Portuguesa e depois o militar, foram-me impostos pela lei e descartei-os ambos no instante em que a obrigação caducou.
Bem sei que há razões práticas para o uso da farda, e é reconfortante poder assinalar um polícia na rua ou um médico num hospital. Mas custa-me a compreender o entusiasmo com que a maioria das almas se apressa a mostrar que pertence ao rebanho.
Festa, congresso, greve, manifestação, campeonato, lá estão eles com os bonés, as camisolas e as bandeirinhas, à espera que os mandem marchar, que os mandem gritar ou aplaudir.
Desses fujo como o diabo da cruz. Que se tenha de usar uniforme porque o ganha-pão assim manda, claro que compreendo. E que os músicos de uma fanfarra e as crianças de uma escola se vistam de igual, também nada tenho contra. Mas que, por gosto, se vista uma farda, cabe mal no meu entendimento, parece-me aberração.
Anoiteceu. Tempo calmo. O parque, fronteiro à casa, convida ao passeio digestivo. Passa um grupo de ciclistas, uniformizados e equipados - Ah! Aqueles elmos em forma de ovo de avestruz! - a acelerar na curva como no Tour de France.
Atrás deles vêm dois joggers, gémeos no uniforme, pois sem ele é dar mostras de que se não corre a sério. Estes surpreendem-me com uma novidade: trazem apertada na cabeça uma fita de elástico com uma lâmpada vermelha que, presa à nuca, avisa da sua presença. Mas quem os vai atropelar nestas iluminadas e quietas alamedas, com aqueles calções amarelos fluorescentes, camisolas azuis do mesmo material e reflectores nos sapatos?

quinta-feira, março 22

No século XX A.D. (4)

Um almoço na embaixada em Haia. Dos sete que ali estamos a beber cocktails e a debicar petiscos, quatro são embaixadores, dois são altos-funcionários. Eu, a ovelha negra do grupo, pergunto-me no íntimo a razão da minha presença.
O convidado que faltava, homem importante da política portuguesa, figura histórica da Revolução de Abril, entra jovial, charuto na boca, rotineiro nos abraços e apertos de mão.
Veio de São Petersburgo esta manhã, foi de corrida à Mauritshuis, e a hora de atraso despacha-a ele com uma gargalhada e o anúncio de “Isto é um país organizadíssimo em tudo! Menos no trânsito!”
Há os sorrisos de circunstância enquanto o homem se senta num fauteuil, estende as pernas, tira outra fumaça do charuto e, sem olhar o empregado que o serve, pega o copo de whisky. Desconcertante atitude em tão eminente paladino das massas trabalhadoras.
Bebe uma golada, dá uns estalinhos com os lábios a saborear, e a partir desse momento, cheio de si, despeja sobre nós uma enxurrada de considerandos, pontos de vista, análises, memórias revolucionárias, dados biográficos seus e alheios.
Achar estonteante fica aquém da realidade. Vamos para a mesa e ele continua, indiferente a uma ou outra observação, feita mais por cortesia do que interesse, pois o discurso com que nos maltrata não se eleva acima dos lugares-comuns.
Bons diplomatas, os outros comem em silêncio, acenam de vez em quando que sim. Eu, mal humorado pelo egocentrismo do personagem e o rompante do seu modo, não consigo evitar de franzir o sobrolho e que se me descaiam os cantos da boca.
O anfitrião, esse não sabe para onde se voltar. Sorri, olha em redor com uma calma que esconde mal o seu embaraço. No instante em que servem a sobremesa e o homem durante uns segundos se cala, o embaixador aponta para mim, e com um riso histérico avisa o político:
- Tenha cautela! Olhe que ele ouve tudo! Ainda é capaz de o pôr num livro!
Encaramo-nos, surpresos daquela tirada pouco diplomática, alguns sorriem, o visado não dá mostras de ter ouvido. Mastiga uma garfada de bolo, passa o guardanapo pelos lábios, estende os braços no modo de quem se apoia a um rebordo de tribuna: “Como eu dizia há pouco, não se devem minimizar as implicações geopolíticas da situação nos Balcãs. E a meu ver, o que acontece em África...”
Na rua olho o relógio. Passam uns minutos das cinco. Sinto maior cansaço que depois dum dia de trabalho.
Pô-lo num livro? Talvez. Quando precisar dum palhaço.

quarta-feira, março 21

E-mail

Mesmo sem lhe mencionar o nome, falar dele aqui causa-me desconforto. Porque é homem bom, atencioso, prestável. Defeitos com certeza terá, mas no trato só se lhe descobre o de comer em quantidades pantagruélicas.
O que agora lhe aponto mal se pode chamar defeito, é antes o desvio de uma qualidade, o desejo que tem de pôr os outros ao corrente daquilo que o interessa.
Antigamente fazia-o por carta. Uma ou duas vezes por mês, lá vinham os extensos relatos acompanhados de citações e recortes de jornais. Mas desde que descobriu o correio electrónico, a sua sede de comunicar passou de bimensal a diária. Tudo o que lhe agrada, comove, assusta ou preocupa, comunica-o ele de imediato, juntando em anexo artigos e fotografias, em quantidade tal que o computador leva eternidades a receber os megabytes.
É também estonteante, porque o seu interesse abrange desde as profecias de Nostradamus à crueldade contra os bichos, da independência de Timor à dosagem da vitamina C, da certeza que o mundo acabará em 2017 aos monges voadores do Tibet. E mais, cansativamente mais.
Depois, ou porque quer assim, a mostrar o vasto círculo dos seus corresponentes, ou porque desconhece como eliminá-la, as suas mensagens terminam com a lista de todos endereços para onde as envia.
No tempo em que usava a máquina de escrever, a fotocópia e o correio, suponho que as não mandasse a mais de dois ou três. Mas o computador abriu-lhe perspectivas inesperadas. Recebido a noite passada, o seu último e-mail, alargando-se em considerações sobre a pena de morte, a economia do Irak, os livros de Paulo Coelho, os malefícios da utilização de navios-fábricas na pesca oceânica, a eficácia da Coca-Cola no tratamento da diarréia, o escuro site de Dolce & Gabbana (http://www.dolcegabbana.it/ ), conta nada menos de sessenta e um destinatários. Entre eles o presidente Putin (president@kremlin.ru) e um espiritosanto@angola.com.

terça-feira, março 20

KL 2853 Amsterdam-Porto

É aborrecido constatá-lo, mais desagradável o sofrê-lo: nesta viagem boa parte dos passageiros do avião é plebe excitada, barulhenta e já bêbeda. Estou sentado numa fila do meio. Aqui e ali um ou outro como eu encolhe-se intimidado e, talvez também como eu, reza para que o martírio não dure mais que as quase três horas de voo.
Junto da janela, na fila ao lado da minha, vai uma mulher de trinta e poucos anos, abraçada ao filho, rapazola de treze ou catorze, hiperactivo, matulão na estatura, imbecil no modo.
A mãe fala Português, o rapaz, esse é bilingue, e aos gritos chama o pai e o irmão, sentados na mesma fila, mas no extremo oposto.
‘Ó pai! Ó Víctor!’
Não sei o que lhes acena, mas o pai e o irmão fazem com grandes gestos que sim. Ele, de contente, atira-se contra a mãe, aperta-lhe as mamas e volta a gritar ‘Ó pai! Ó Víkterr! Víkteerrrr!’
Dança na coxia, aponta as mamas da mãe a quem olha, soqueia-a na cara, nos ombros, na barriga. Ela ri, finge que se defende, empurra-o, enquanto na outra ponta o pai o irmão batem palmas.
‘Força, Carrrllos! Força!
Agarra-se de novo às mamas, apalpa a hospedeira que vai a passar, e quando esta irritada se volta, estica a boca numa careta alarve.
‘Ó Víctor! Víkterrr! Ó pai!’
Levanta-se, faz um manguito à hospedeira, e ao ver que alguns riem repete o gesto para trás, para diante, para os lados.
‘Ó pai! Ó Víkter! Ó Víktrr! Olha!’
Mais um manguito urbi et orbi. Em redor algumas pessoas parece que sorriem, mas é um arreganhar de dentes involuntário, sintoma de alucinação. Mesmo os bêbedos começam a grunhir e a achar demasiado.
Felizmente servem o almoço. O rapaz deixou de gritar, só acena. Acaba de comer, mas quer mais uma coca-cola. E mais uma. Tenta de novo apalpar a hospedeira, mas esta usa o tabuleiro como escudo e, com um modo discreto, sorridente, entala-lhe o braço contra o assento.
Paz e sossego! Adormeceu encostado à mãe, os dedos encafuados no decote.
O mar está calmo no Golfo da Biscaia. Ainda há neve nos Picos de Europa. Passamos sobre León e Trás-os-Montes, sobrevoamos o Porto. O avião vai aterrar, aterrou, a plebe grita vivas e bate palmas.
O rapaz acorda em sobressalto, levanta-se, olha em volta, dá ideia de que demora a saber onde está. Finalmente sorri, soqueia a mãe, apalpa-lhe as mamas, põe as mãos em megafone:
‘Ó pai! Ó Víctor! Víkterrr!’

segunda-feira, março 19

No século XX A.D. (3)

Para a planta da renovação da casa os amigos tinham aconselhado a que não se procurasse arquitecto: trabalhos desses fá-los o senhor Pereira nas horas vagas, com perfeição, por menos de metade do preço. Além disso, sendo funcionário, tem a vantagem de conhecer toda a gente nas repartições, o que facilita enormemente o andamento das licenças.
Em Moncorvo encontro-me com o senhor Pereira que, além de funcionário e desenhador, possui uma loja de produtos homeopáticos. Conversamos, simpatizamos, ele promete que um dia destes aparece para tomar as medidas e transformar em planta o esboço que lhe mostro.
Mas para já devo ir à Câmara de Mogadouro requerer a licença. E levar comigo o bilhete de identidade da engenheira que se responsabiliza pelos cálculos. E tirar meia dúzia de fotografias da casa no seu estado actual. E voltar para devolver o bilhete de identidade à engenheira, que precisa dele para outro processo.
De Moncorvo para Mogadouro, duas vezes ida-e-volta, mais de trezentos quilómetros de estrada e calor.
Requerimentos, carimbos, selos brancos, ando da Tesouraria para as Obras, das Obras para a Secretaria, dali para as Finanças, depois para o Registo Predial, volto às Obras.
O funcionário olha-me severo quando lhe entrego a papelada:
- Claro que não sei se isto está como deve ser. A minha obrigação é de aceitar os documentos sem comentário. Mas depois vão ser estudados cá na Secção. Se houver erro terei de lhos devolver e o senhor precisa de recomeçar tudo.
Exausto, desorientado, as palavras do homem atordoam-me como uma mocada.

domingo, março 18

Língua-mãe

Esta situação de que, vivendo na Holanda há mais de meio século, eu continue a escrever em Português, causa por vezes estranheza e mesmo animosidade. Que use o Neerlandês no dia-a-dia, mas não nos meus escritos, consideram-no uns um desdém, parece a outros uma bizarria.
De facto nenhum desses argumentos é válido. O meu apego ao Português tem a ver com o facto de que somente a língua materna me oferece a certeza de que me exprimo exactamente como desejo. Também só nela consigo encontrar os ritmos, as melodias e os matizes que preciso para a minha maneira de descrever ideias, personagens e sentimentos.
Fora isso, talvez seja essa a única forma de manter apertados os laços que me prendem à terra em que nasci, à Literatura e à História em que me criei, as quais me envolvem como uma carapaça de que me não posso, mas também não quero libertar.
No fundo talvez descortine ainda a preocupação, quiçá o medo, do pesadelo de perder o que se chama a identidade. De me transformar num desses seres patéticos que aos poucos se vão desabituando da língua-mãe, mas se mantêm incapazes de absorver por inteiro a língua adoptiva.
Além disso o uso do Português falado ou escrito sempre me deu, e continua a dar, o sentimento de pertencer a um todo que me transcende. De ser partícula na continuidade temporal, espiritual, intelectual e histórica de uma nação milenária.
No uso do Inglês ou do Francês esse sentimento acha-se de todo ausente, já que ambas as línguas me são antes meios de comunicação do que de emoção. Com o Neerlandês, porém, toma-me uma consciência muito aguda de se encontrarem algures as minhas raízes. De que a minha pertença à Holanda não é natural, mas fruto de circunstâncias aleatórias.
E embora inconsciente, o obstáculo maior ao meu uso do Neerlandês como língua literária, talvez se deva procurar num sentimento de rebeldia contra o destino que me fez abandonar a terra do meu nascimento e criação.

Cântico dos Cânticos

Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão,
os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas.

Está no Cântico dos Cânticos (Cant 8,6). Talvez que no vasto mundo e neste momento da noite, em vez de estar a lê-las na Bíblia como eu, alguém sussurre estas palavras a quem ama.

sábado, março 17

Artesanato

O senhor Mateus trabalhou uns quarenta anos em França e, feitos os sessenta e cinco, voltou de vez à aldeia a gozar a reforma. Gozar, todavia, não é o termo apropriado, pois por razões que se verão adiante o senhor Mateus vive azedo e descontente.
É certo que nas obras ganhou o desafogo material, tem casa boa e, como ele diz, para os comes e bebes graças a Deus nunca mais precisará de mexer um dedo.
O azedume vem-lhe da convicção de ser um artista cujo talento os seus familiares reconhecem, mas o mundo ignora.
- Veja isto! Então isto não merecia estar exposto num museu? Ou pelo menos no salão nobre da Câmara? Em vez das porcarias que lá têm?
Estamos nos baixos da casa onde, anexo à garagem, ele montou uma oficina para trabalhar a madeira. Ergue-o para que eu aprecie melhor, e põe diante de mim um mostrengo em pau de buxo, atravessado por meia dúzia de pregos.
- Diga lá! Não merecia?
Aceno que sim, que realmente é interessante, bem talhado. Numa tentativa de lhe apaziguar o humor, acrescento que o que acontece com muitos artistas, por vezes dos melhores, é que os museus nem sempre dão conta dos seus talentos. Um ou outro lá consegue tornar-se conhecido, mas no geral...
Sai-me da boca um ‘Pff...’ com que, simultaneamente, quero provar ao senhor Mateus a sintonia do nosso sentir, e esconder-lhe que depois de quase uma hora a ouvi-lo começo a entontecer.
Mas ele não me ouve, pega num carro de bois:
- E este? Então uma obra destas não merecia estar na Câmara? Andam sempre com artesanato para aqui, artesanato para ali, mas é só trinta e um de boca!
Continuo a acenar que sim, que tem razão, mas de facto tanto o mostrengo como o carro de bois são toscos, de proporções disparatadas, nada neles revela um mínimo de talento, nada que mesmo de longe faça suspeitar o encanto de um artista naïf.
“Que chatice!” A exclamação íntima quase que se me escapa em voz alta, mas disfarço-a a tempo com uma tossidela.
O senhor Mateus pousa os bois e o carro numa prateleira, encara-me severo:
- Mais de cinco meses de trabalho gastei eu nisto!
Sem saber que lhe diga, faço uma observação à toa:
- Nos bois ou no boneco?
- Nos bois.
De seguida a boca torce-se-lhe no esgar sardónico de quem vai corrigir um tolo:
- Aquilo não é boneco, é um São Sebastião. Basta reparar que lá se vê tudo. O sangue, as setas, a cabeça descaída, o pano em volta da cintura...
Encabulo. A mostrar o meu remorso pego no santo, viro-o dum lado e do outro, digo que sim senhor. Faço uns trejeitos de apreço, volto a pousá-lo na prateleira com a reverência de quem toca em obra-prima.
Satisfeito com o meu respeito, o senhor Mateus puxa uma cadeira e manda que me sente. Não porque me veja cansado (o que realmente estou), mas porque me quer mostrar mais umas coisas. E cerimonioso, oferece-me um copo de vinho.
- Não, obrigado.
- Uma cervejinha?
- Mais logo.
Em passos medidos vejo-o ir direito ao armário que está nos fundos. Abre-o, e com vagares de sacerdote em missa solene, traz de lá moinhos de vento, presépios, miniaturas de arados, casas aldeãs, igrejas, coretos de música, mais carros de bois, mais mostrengos.
A mesa entre nós fica cheia e ele, sentado do outro lado, esfrega as mãos, franze os lábios, o olhar fixo em mim a criar suspense.
- Isto levei-o eu o ano passado ao museu de Miranda. Acharam bonito, mas não quiseram. Que já têm muito. Por isso me lembrou...
A pausa é de mau agouro, tanto mais que ele baixa os olhos e começa a tamborilar com os dedos no rebordo da mesa.
- Por isso me lembrou... O senhor lá na Holanda deve conhecer muita gente, e eu perguntei-me... Não digo todos, mas se levasse dois ou três e os mostrasse a algum museu... A mim parece-me...
O silêncio arrasta-se, torna-se incómodo, cada um de nós a olhar o vazio, à espera de que o outro retome a jogada. Mas descalçar semelhante bota, sem que o senhor Mateus se torne meu inimigo para o resto da vida, exige um esforço criativo superior àquele de que me sinto capaz, e decido por uma solução de desespero:
- Sabe o que vamos fazer? Mande tirar umas fotografias aos de que gosta mais. Eu mostro-as lá. Que lhe parece?
A ideia não lhe agrada. Fotografias boas saem caro, e nunca é a mesma coisa.
- Se ao menos quisesse levar o São Sebastião... Eu acho...
Entre a espada e a parede digo que sim, está bem, que o embrulhe bem embrulhado, mas vão ser horas da ceia, desculpe, tenho de ir andando. Depois combina-se.
Levanto-me, aperto-lhe a mão. No meu transtorno esbarro contra a mesa. Ao chegar à rua respiro fundo, perguntando-me porque carga de água me vejo tantas vezes metido em semelhantes encrencas.

sexta-feira, março 16

Doutores

Para mudar de assunto ou pôr fim a um silêncio insólito, às vezes para despoletar uma situação incómoda, ocasiões há em que me vejo no papel de contador (quase) compulsivo de anedotas.
Na realidade considero as boas verdadeiros microcontos, razão porque deixo aqui duas das minhas favoritas. Com desculpas a quem já as conhece.

Deveria ser um velório como de costume, com prantos e soluços, olhares tristes, abraços de pesar, boas recordações do defunto.
A gente era muita, por isso mais inacreditável e doloroso se tornara o silêncio geral. De facto, pelo extremo das suas más qualidades, o passamento do sujeito tinha sido um alívio para todos os presentes.
O uso mandava, mas como elogiar o filho da puta? Até que finalmente alguém suspirou: - O irmão era muito pior.


O lavrador siciliano tinha comprado um horta. Preocupava-o o ter de registá-la, mas o notário acalmou-o: a acta era coisa simples.
No dia seguinte a papelada estava pronta.
- Assine aqui.
- Eu bem pensava... Vamos ter um problema, porque sou analfabeto.
- Problema nenhum. Faça nesta linha uma cruz, é a assinatura, o mesmo que o seu nome.
O lavrador risca duas cruzes. O notário irrita-se:
- Homem! Era só uma cruz! O nome.
- Bem ouvi, mas uma é o meu nome, a outra é Dottore.

quinta-feira, março 15

Sardão

Anos atrás quase todos os dias o víamos, o nosso sardão familiar. Gorducho, esverdeado com pintas pretas, mediria então uns vinte centímetros da cabeça à ponta do rabo.
Passeava pelas paredes, parava a olhar o ambiente, e de súbito, como um foguete, desaparecia numa frincha.
Achávamo-lo simpático e tinha ganho o status de bicho doméstico, mesmo quando nos avisaram que os sardões não eram de graças, às vezes atiravam-se às pessoas e mordiam com tal força que depois, como um pitt-bull, não conseguiam desprender os queixos.
Sumiu tão longamente que o tínhamos esquecido. Reapareceu ontem. Maior, magro, engelhado, com um ar de velhice e lentidões de reumático.

quarta-feira, março 14

Ménage à trois

Conheço-os pouco, mas a opinião geral é de que formam um bizarro ménage à trois. Dou-lhes aqui nomes de circunstância: Joana, Pedro, Manuel. De idade andam todos à volta dos quarenta e a vida corre-lhes com conforto e abastança.
Manuel é solteiro, bon-vivant, sem cadeias nem laços. No tempo em que andavam no secundário Joana teve por ele uma paixão não correspondida e por fim casou com Pedro, de quem tem dois filhos.
Amor nunca sentiram e ao longo dos doze anos de casamento a simpatia mútua foi diminuindo, acabou por se tornar indiferença e por vezes franco azedume.
Se não fossem ambos garanhões encartados, a excepcional amizade de Pedro e Manuel levantaria suspeitas, pois sem serem vizinhos e com ocupações diferentes, encontram-se todos os dias. Para um café, para almoçar, pelo gosto de se verem. Telefonam-se vezes sem conta. Quem precisa de falar ao Pedro e não consegue encontrá-lo, pergunta ao Manuel, e vice-versa.
Joana tornou-se-lhes o apêndice que os impacienta e lhes custa a suportar. Curiosamente, de férias vão sempre os três. Em viagens a Miami, à Turquia, a Cuba, a Bali, em expedições à África, em cruzeiros a paragens exóticas.
Joana no papel de pião das nicas. Eles a acicatá-la para que arranje um namoro. Que esqueça a ridícula paixão que teve por Manuel e, como toda a gente sabe, continua a ter. Que o não olhe com aquele modo de cão fiel, nem lhe agarre o braço, porque ele não gosta. Que tantas vezes lha fez, para agradar, que ele se tornou alérgico à mousse de chocolate. E que acabe com o diário, porque só escreve tolices.
Um dia tinham-lho roubado, e no café riram tanto ao lê-lo que os amigos quiseram saber do que se tratava.
Quem os conhece bem diz que é questão de tempo: que ela, ou um deles, se tornará assassino.

terça-feira, março 13

A sintaxe das cores

Eu próprio acho peculiar. Não tenho acções, não me interessa o movimento dos câmbios, o preço do ouro ou a taxa do juro, as OPAs e, contudo, o que nos jornais leio com mais atenção são as páginas de economia.
É nelas, e não nas que tratam do dia-a-dia ou da política, que tenho a impressão de tocar uma forma coerente da realidade. As da literatura leio-as por alto, mais força do hábito do que atraído pela possibilidade de que nelas encontre razões de entusiasmo. As que tratam da arte leio-as para me divertir, porque sempre me pareceu cómico de que haja quem tenha a nebulosidade como ganha-pão.
“A sintaxe das cores reforça a coerência do conjunto, enquanto que a orientação das linhas claramente aponta para um misticismo subjacente, muito próximo do de Kandinsky.”
Leio isto num jornal da passada sexta-feira. Guardo as páginas de economia dos jornais de sábado e atiro o resto para o lixo.

segunda-feira, março 12

Mis tiempos del cólera

Arrisco-me aqui em terreno movediço, e a experiência aconselha a que não se reme contra a maré. Que fazer, porém, se o meu carácter é este, e em mim a curiosidade continua a poder mais que a cautela?
Facto é que, do mesmo modo que alguns perdem a fé em Deus ou na Bolsa, eu creio que vou perdendo a fé na literatura.
Talvez porque tantos críticos, e com eles as universidades, só mostram interesse em medir, quantificar, e analisar as obras de ficção à luz de pseudo normas científicas, tem-se a ideia - pelo menos eu tenho - de que, para satisfazê-los, os escritores raciocinam cada vez mais e ressentem cada vez menos.
Como é improvável que o talento literário se tenha de súbito esgotado, por certo continuam a escrever-se e a publicar-se obras de génio. Simplesmente acontece que as não conheço, e aquelas que leio por me terem sido aconselhadas como tal, têm ficado sempre aquém da expectativa.
Romances bem escritos? Sim, há. Originais? Também aparecem alguns. Mas obras de génio? Para mim a última, El amor en los tiempos del cólera, de Gabriel García Márquez, data de 1985.
Desde então, depois de muito esperar, começo a desesperar. Leio biografias, história. Releio os autores de que me alimentei na juventude e que não me desiludem: Eça, Balzac, Zola, Flaubert, Tolstoï, Graham Greene... Fica-me a impressão de que, depois deles, o meu amor pela literatura se vai afogando num grande e sereno lago de mediania e comércio.

sábado, março 10

A nossa rua

Atrocidades da guerra. Chacinas. Depurações étnicas. Atentados suicidas... Quase na nossa vizinhança - o que são três horas de voo? - e contudo tão longe do nosso interesse. Os horrores do genocídio e da fome são-nos servidos na televisão entre um desastre na estrada - dois feridos - e o aumento espectacular das cotações da bolsa. Para os próximos quatro dias as previsões metereológicas são de tempo soalheiro e temperaturas a rondar os vinte graus.
Jantamos, discutimos, fazemos planos de férias, dormimos o sono dos bem-aventurados.
Solidariedade? Claro que sim, sentimos. Durante os minutos que passam no écrã os corpos esqueléticos, os rostos dos mortos, dos torturados, dos fugitivos, dos que perderam lar e família. Abanamos a cabeça, descrentes, dizemos que é terrível, que não se compreende que no mundo em que vivemos possam acontecer semelhantes tragédias.
Infelizmente, o mundo em que vivemos pouco mais longe alcança que a nossa porta. Na melhor das hipóteses a nossa rua.

sexta-feira, março 9

Flageladores e castradores

Ao que a crença e o medo de Deus podem levar, provam-no os Khlysty (Flageladores) e os Skopsty (Castradores), seitas secretas que surgiram na Sibéria nos séculos dezasseis e dezoito, espalhando-se mais tarde pela Rússia inteira, com membros em todas as classes sociais. Mau grado a repressão do regime comunista, pelo menos os Khlysty ainda se encontravam activos nos anos 60 do século passado.
Os rituais dos Khlysty incluíam (incluem?) danças semelhantes às dos derviches, e flagelações seguidas de orgias colectivas, destinadas a depurar as suas almas do pecado através do pecado e alcançar desse modo o amor de Cristo.
Os Skopsty surgiram em meados do século dezoito como reacção aos rituais orgíacos dos Khlysty. Baseando-se numa passagem da Bíblia (São Mateus 19: 12 - “Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, comprenda.”) acham que o Paraíso e o amor de Jesus Cristo só se podem alcançar através do ascetismo e do “ardente baptismo” da castração.
Com o uso de ferros ao rubro ou de machados “aliviavam-se” os crentes masculinos dos seus órgãos genitais, enquanto que as mulheres eram mutiladas através do corte dos lábios da vagina, dos mamilos e mesmo dos seios.
Em comparação com estas, fazem fraca figura as seitas que praticam o suicídio colectivo na pressa de embarcar na nave espacial que os transporte para a eternidade.
Curiosos dados sobre os Khlysty e os Skopsty encontram-se na magistral biografia de Rasputin, escrita por Edvard Radzinsky.

quinta-feira, março 8

Comadres

Dava-se-lhes o nome de cronistas. Escreviam nos jornais uns textos curtos, ora comentário, ora observação ou relato. O tom era o da seriedade, a prosa cuidada, o proveito duplo, porque o lê-los era uma aprendizagem e os seus temas obrigavam à reflexão.
Sob a influência generalizada do inglês, desde há anos que se passou a chamar-lhes colunistas. O tom agora é ligeiro, a prosa descuidada, no melhor dos casos banal a temática. No pior descem à mexeriquice, e quando a mexeriquice falta escrevem uns sobre os outros. “Como dizia fulano na sua coluna de ontem... A perspicaz análise que hoje se lê na coluna de sicrano... ” *)
Assim cavam os jornais a própria cova, servindo-nos, requentado, o noticiário que ontem à noite vimos na televisão, enchendo o resto das páginas com textos banais e fotografias inúteis.
O jornal, que no passado a opinião pública considerava um cavalheiro, tornou-se uma comadre.
______________________________________

*) Interessante desenvolvimento: os bloguistas vão por caminho igual. Em bom número de blogs nota-se uma demasia de abraços, parabéns, citações, palmadinhas nas costas, com o correspondente e inconfundível cheiro a capelinha.

Seitas

Criado com vagos preceitos da religião católica, ministrados por padres que entendiam mais de semear nos campos do que nas almas, a minha fé, sem nunca ter chegado aos extremos do ateísmo ou do êxtase beato, sempre andou sujeita a oscilações.
Devo também dizer que os vários credos não despertam em mim interesse maior do que o de me pôr ao corrente dos seus princípios. Cristianismo, islamismo, budismo, judaísmo, confucionismo..., tomo conhecimento, mas não sinto desejo de seguir ou aprofundar.
As seitas são caso diferente. Fascinam-me. Se tivesse ciência e tempo, creio que me dedicaria ao seu estudo. Amish, Mennonitas, Mormons, Testemunhas de Jeová, Igreja Universal do Reino de Deus, Moon, Scientology... Inclino-me a considerá-las aberrações, mas de facto são apenas variantes da crença, o placebo de que dispomos contra o medo de não saber o que somos, quem somos, donde viemos, nem para onde vamos.

quarta-feira, março 7

Larachas

Exceptuando um ou outro pesadelo, os meus sonhos quase sempre me têm sido uma excitante forma de exploração psíquica, tanto mais que em geral guardo deles recordações vívidas.
Nessa muito presente lembrança reside talvez a origem do bizarro fenómeno a que por vezes me sinto sujeito. Acontece que durante certos sonhos tenho consciência de sonhar de novo sonhos anteriores, o que me transporta para uma inquietante duplicação da memória, do sentido da realidade e do eu, e ao mesmo tempo me impede de saber se, como suspeito, apenas uma parte de mim sonha, enquanto outra espreita insondáveis mistérios.
"Larachas", comenta um conhecido a quem falo disto. E embora saiba que não me convence, tenta acertar uma mocada definitiva na minha fantasia, acrescentando: "Isso provavelmente é a consequência de refeições pesadas. Uma questão de química."

terça-feira, março 6

Botas para o Himalaia

Os anos passam, as sociedades evoluem, os costumes mudam. Como nasci num tempo em que as condições sociais, políticas e tecnológicas eram as dos meados do século dezanove, tenho de facto uma idade que de longe ultrapassa as décadas que já cá levo.
Venho de um passado em que os rádios eram poucos, os aviões uma aparição, os automóveis raridade, e as locomotivas ainda deitavam fumo. Porém, o ter conhecido o mundo sem plásticos, sem antibióticos, telemóveis, internet, televisão a cores e transplantes de órgãos, dá-me um sentimento que não é de nostalgia, mas de desafogo. O sentimento de ter escapado não sei a que perigos e cataclismos.
Fascinado pelo progresso, gozo conscientemente as facilidades materiais que a vida hoje proporciona, e não me sinto com muitas razões de queixa. Talvez por isso as minhas birras vão para coisas pequenas, para os hábitos e costumes que de uma ou outra maneira embatem com aqueles em que fui criado.
Assim me irrita sobremodo a masculinização feminina, não só a do comportamento, mas também a do traje. Mulheres de cabeça rapada, o que antigamente só se via nas prisões e nos asilos de loucos. E a roupa que vestem, as botas que calçam. Como se em vez de ir à mercearia comprar arroz, ou à creche em busca dos filhos, se aprestassem a subir as encostas do Himalaia ou a lutar no Iraque.
A efeminação masculina não me irrita menos. É vê-los, machos de metro e noventa, coquettes nas suas coloridas blusinhas, a embalar os recém-nascidos com ademanes de tia solteirona, ou carregando-os em envoltas traçadas sobre o peito, à moda de mãe africana. São também eles que insistem, pelo menos em público, em mudar-lhes as fraldas E última, para mim nojenta moda: enfiar-lhes o polegar na boca em vez da chupeta.
O que era vergonha tornou-se privilégio: empurram eles o carrinho do bébé e chilreiam, fazem caretas, dão gritinhos. A mulher, essa caminha ao seu lado, as mãos atrás das costas e o ar enfastiado que dantes era o do Rei da Terra.

domingo, março 4

Sessões de autógrafos

Nijmegen. A mesinha com os livros para autografar está à direita da entrada. Sento-me e agora é esperar. Inconfortável, a posição de manequim de vitrina. As pessoas vão chegando, olham e compram, ou só olham. Há os tímidos, que de longe observam a cena e depois de alguns rodeios se aproximam como que por acaso, afectando desinteresse.
Chega mais gente. Alguns arriscam um cumprimento, palavras de apreço, e finalmente surge o inevitável tarado. Com o ar decidido de quem sabe ao que veio, anuncia-me que quer comprar um exemplar, mas sob uma condição: que eu escreva numa das páginas em branco um comentário pessoal, de preferência irónico ou malicioso, sobre um escritor vivo.
Respondo-lhe mal humorado com um redondo não. A tentar convencer-me, o homem diz que estranha a minha atitude, pois até à data escritor nenhum recusou satisfazer o seu pedido. Atente eu que a negativa significa que não estarei presente na sua interessante, e um dia valiosa, colecção de volumes comentados.
Dá-me vontade de mandá-lo àquela parte, mas o lugar e a presença doutros obrigam a que me contenha. Repito-lhe que não e de súbito é como se estivéssemos numa feira:
- Palavra que não quer escrever? Só umas linhas? Olhe que se arrepende. Vou-me embora e não compro livro nenhum.

Uma espécie de Feira do Livro num dos canais de Amsterdam. Estou sentado entre uma parede e uma mesa com alguns livros meus. A multidão passa, ininterrupta. De vez em quando alguém pára, folheia, olha os livros, encara-me, sorri. Um diálogo de surdos-mudos.
Uma mulher agarra um livro, abana com ele a chamar a minha atenção e pergunta:
- O senhor fala holandês?
No mesmo momento em que lhe respondo ela pousa o livro e, sem me encarar nem reagir, volta-me as costas.
Um casal. Acenam de longe, sorrindo com simpatia. Aceno e sorrio também. Param, voltam atrás, o homem grita por cima das cabeças:
- Hoje de manhã comprámos um livro seu.
- Obrigado.
- E vamos lê-lo.
Que responder?

No mesmo lugar, à mesma mesa. Dois sujeitos aí duns trinta anos param, folheiam distraidamen­te os livros - que procurarão ao fazer correr assim as páginas? - pousam-nos, pegam noutros. Um deles abre um livro meu, olha a capa, revira-o e, apontando-me como se eu fosse uma figura de cera e não um ser vivo ali a metro e meio deles: - Já leste alguma coisa deste gajo?

Leiden. Imóvel e silenciosa, uma mulher observa-me há minutos. Aquilo começa a tornar-se desagradável. Levanto-me para alcançar o livro que um rapaz me entrega para autografar, e nesse momento a mulher desperta, sorri, e diz-me contente: - Enganei-me! Julguei que fosse mais alto!

Amsterdam. “Mercado das Letras” no Bijenkorf. Somos mais de cinquenta, sentados atrás de mesas onde os nossos livros se empilham. O público passa durante três longas horas. Incessante­mente. Milhares de rostos. De vez em quando alguém folheia um livro, compara o retrato do autor na contracapa com a cara da realidade, ou pede um autógrafo, tira uma fotogra­fia.
À minha direita uma senhora especializada em obras de etiqueta. À minha esquerda uma escritora americana diz que não aguenta tanto tempo sem fumar, e fuma às escondidas com uma satisfação de criança maliciosa, soprando o fumo para o soalho.
Um coleccionador não quer apenas um autógrafo, mas pede - não pede, exige! - também um desenho. Como não quero, nem sei o que desenhar, ele diz que nesse caso também não precisa do autógrafo. Assim seja.
As balaustradas dos andares superiores estão cheias de um povo que se contenta com olhar para baixo e ver tanto crâneo de literato.

- Diga-me uma coisa: aquelas peripécias dos seus contos aconteceram mesmo?
Santa inocência! Esperar que um escritor escreva a verdade, quando para ele o que mais conta é a arte. E na arte a verdade não passa de um acessório menor.

sábado, março 3

Prefácios

Se há tarefa que, garantido, me põe de mau humor, é a de escrever prefácios. Dois, desde o princípio do ano. Ambos pelo medo de parecer grosseiro ao recusar um favor a quem tão abertamente o pede. E vá de pensar frases torneadas de modo a que as opiniões pareçam objectivas e os elogios sinceros. Esforço que resulta em dores de cabeça, raivas surdas, em pontapés no vazio e promessas solenes de nunca mais.
Um álbum de pintura. Quadros que nada me dizem, quanto mais os olho, mais nevoentas se me tornam as ideias. Sentindo-me tolo e, pior, hipócrita. Alinho frases sobre a harmonia dos coloridos do artista, a tensão que soube emprestar aos volumes, “o refinado tratamento do chiaroscuro, com reminiscências de Caravaggio e Rembrandt.”
Um livro de reportagens fotográficas. Retratos. Cenas de rua. Fotografia inexpressiva, de efeitos pretensiososos. Para não cair de desespero e frustação, apoio-me em Stieglitz, Kertész, Atget, Cartier-Bresson, ao mesmo tempo que olho de lado, involuntariamente receoso de ouvir já as gargalhadas que vão dar os que por acaso lerem as minhas asneiras.
O prefaciado, esse de certeza vai gostar. Cumprimentos, merecidos ou não, comparações com os grandes, tudo lhe será bálsamo. Virá depois citado nos anúncios e nos cartazes que evitarei olhar, para que não se reacenda a vergonha do meu fingimento.

Exótica

O comércio talvez seja imprescindível nas formas de sociedade que conhecemos. Cria riquezas, desperta invejas, dá lugar a guerras grandes e pequenas, vivem dele milhões e milhões. Para mim, todavia, numa escala de valores das actividades humanas, o comércio não ocupa lugar de destaque. E se num futuro remoto, por milagre ou engenho, o mundo conseguir realizar os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, e o homem deixe de ser o lobo do seu semelhante, é bem possível que o comércio desapareça.
Entretanto, poderosos e humildes, negociando em música, platina ou agriões, os que nele se ocupam desunham-se a comprar e a vender, a trocar, a revender, a enganar, a roubar, empurrados pela satisfação do instinto e pela ânsia do lucro.
Talvez porque Deus me negou as qualidades precisas para, mesmo de forma simples, negociar com êxito, o comércio sempre exerceu sobre mim um singular fascínio. E por isso me perdi há momentos a imaginar que sonhos acalentará também o comerciante que me mandou pelo correio um folheto com este texto:

"EXÓTICA - Centro de Serviços - Grande sortido de cosméticos para cabelo preto - Cartões pré-pagos para telemóveis - Bilhetes de avião para todos os destinos - Transporte aéreo e marítimo de mercadorias para o Suriname - Câmbio de moeda estrangeira - Transferências de dinheiro - Venda de caixas em vários tamanhos - Conservas e bebidas".

sexta-feira, março 2

Entretém

Até à data a minha memória funciona sem que dela tenha razão para me preocupar, pois mostra-se pronta a fornecer os dados, os nomes, as vivências e as recordações que lhe peço.
Tenho, contudo, a suspeita de que esta memória é diferente daquela com que nasci e durante tantos anos me serviu. Não digo que me negue serviço ou se tenha tornado lenta, mas como que se lhe acrescentou uma dimensão crítica que antes não possuía.
Assim, quando por vezes, saudosista, quero relembrar uma data, uma conversa, é como se no íntimo uma voz se interpusesse, perguntando com rispidez que necessidade tenho desssas informações. Se me tornei incapaz de separar o trigo do joio, o importante do banal. Se para mim, em vez de uma função, o recordar passou a ser um jogo, um entretém.

quinta-feira, março 1

Czeslaw Milosz

A história contou-a alguém a Czeslaw Milosz (1911- 2004), Nobel da Literatura em 1980, e encontra-se no seu “abecedário” autobiográfico, publicado em Cracóvia em 1997, com o título de Abecadlo Milosza.
Da primeira vez ressenti um choque, avivando-se em mim a dolorosa lembrança de momentos de vexame. Desde então um irreprimível impulso leva-me a relê-la, com uma frequência que toca a obsessão e, ao chegar à última linha, revivo o desespero de quem testemunha uma tragédia sem a poder evitar.
Foi nos primeiros tempos da Revolução de 1917. No restaurante de uma estação algures na Rússia tinha-se sentado um homem que, pelo traje e pelo modo, se distinguia dos presentes e visivelmente pertencia à intelectualidade pré-revolucionária.
Talvez por isso despertou a atenção duns rapazes do povo que lá se encontravam e que resolveram sentar-se junto dele. Começaram a insultá-lo, a aperreá-lo e, por fim, a cuspir no seu prato. O homem não oferecia qualquer resistência, nem dava mostras de querer afastar os rapazes. De súbito tirou um revólver do bolso, meteu-o na boca e, disparando, suicidou-se.
"Provavelmente - escreve Milosz - foi esse acontecimento a gota de água que nele fez trasbordar o copo: o terror da bestialidade à solta. Por certo era homem sensível, criado num meio que o não preparara para se defender da bruta realidade e da vulgaridade popular que, vindas à tona com a revolução, se tornariam elementos permanentes da vida soviética.”
Cenas de brutalidade e vulgaridade testemunhei eu de sobra em Portugal, durante a Revolução de Abril de 1974 e nos anos que se lhe seguiram. Felizmente, nenhuma com o desfecho trágico da que Milosz conta. Mas aquelas a que assisti deixaram-me traumatizado e chamam a lembrança de sentimentos que eu preferiria não ter tido: medo e nojo do meu semelhante.