sábado, outubro 16

Sem querer nos envergonham

De ti, a viver entre o Minho e o Algarve, ninguém espera que ao acordar, ou mesmo pelo dia adiante, te aflijas com a situação da Pátria, pois são as voltas da vida quem estabelece prioridades. Uma vista de olhos ao jornal ou as notícias na televisão podem, um instante, espicaçar-te a curiosidade ou arreliar-te, mas logo depois o trabalho, a família, pesos e obrigações de toda a ordem se encarregam de te envolver num manto que pouco tempo, e ainda menos apetite, te deixa para te preocupares  com "os interesses superiores da Nação".

Eleições também há de longe a longe, mas a vida, a verdadeira vida, não é a escolha de fantoches ou o medo do FMI, sim o preço do bacalhau, o problema dos diabetes , a farmácia, a hipoteca, o saldo no banco, os sapatos da Mariazinha.

O emigrante, falo por experiência, também não anda com as dores da Pátria às costas. Conseguiria até, dada a confortável distância da separação, olhar com certo desprendimento as peripécias da terra onde nasceu. Conseguiria, digo, mas não o deixam. A gente à sua volta constantemente o interroga, quer explicações, pasma-se sem ironia de que Portugal seja Europa.

Perguntam-te, perguntam-me, como é possível uma Jusiça assim, os milhares de milhões que desaparecem dos bancos, a corrupção de cima abaixo, as autoestradas sem trânsito, os estádios faraónicos, o fausto dos políticos, as desigualdades de um Terceiro Mundo.

Perguntam de boa-fé e sem querer me envergonham, nos envergonham.

 

 

sexta-feira, outubro 15

Em torno de quê?

A nossa vida gira em torno de quê? Ponho-me a pergunta e envergonho-me de para a minha não saber onde achar resposta.
As gerações anteriores podiam responder com a família, a pátria, o trabalho, a religião, as ideologias, mas entretanto todos esses alicerces da existência se foram esboroando.
A minha vida gira em torno de quê? De mim próprio? Acho que não, pois para isso me faltam egocentrismo e vaidade suficientes. Em torno dos meus livros? Menos ainda, porque jamais qualquer deles se me afigurou definitivo como a chegada a uma meta, antes me parecem etapas curtas num moroso e difícil percurso que não sei onde irá terminar.
Mas então? Não faço ideia. Aparentemente a minha vida gira em torno de coisa nenhuma, talvez seja apenas uma sequência de hábitos que ficaram no lugar dos objectivos de que por vezes desdenhei, e outras vezes me esqueci de ter.

quinta-feira, outubro 14

Migalhas de mim

É contigo que falo, me abro, deixo entrever boas e más horas, te mando em código sentimentos, abjurações, raivas, alegrias. É para ti que componho frases onde tudo está e tudo se esconde, a aparência mascarada de realidade, o acontecido embrulhado em fantasia, o eu tantas vezes multiplicado que não reconheço a própria sombra e desconfio que não seja minha a voz que julgas ouvir.

Falo-te e contudo não existo, nem sequer como me imaginas, porque a todos os momentos me refaço. Escondo e escondo-me, reapareço, invento-me. Iludo-te com palavras, e elas, fazendo ricochete, transtornam a imagem que de mim formas, a do espelho em que julgas ver-me e onde nunca estou.

Falo, tu escutas. Parece realidade mas é só aparência, distância e sonho, a bela ilusão do possível que nunca acontece, o poder volátil do desejo tonto. Enfio palavras como contas num rosário de orações, sem credo nem sentido, ignorando que música te farão ouvir, ou se de alguma dor sentirás alívio.

São só palavras, migalhas de mim, sacudidas com fingido descaso, mas na esperança de que, se as apanhares, te dêem a ilusão de que estivemos a falar e nos compreendemos.