domingo, abril 11

Ontem na "Sábado"

 

Há vidas descobri um caderninho com histórias de quando sonhava que seria esse o meu modo de vida. Guardei-o e não me arrependo, é prova de que realizei o sonho. Pode haver em mãos alheias coisa que escrevi e escapou, mas o que guardo é muito pouco e só se tiver probabilidade de ser usado. Antigamente rasgava a papelada em bocadinhos e deitava-os para o lixo, aliviado de eliminar a prova dos meus erros. O computador veio livrar-me do esforço físico de destruir, a tecla "delete" basta para apagar.

"O pneu Michelin"

Cada um tem os seus humores, pequenas manias que podem parecer bizarras aos olhos doutrem, e umas vezes são válvula de escape, noutras ocasiões a forma de satisfazer sabe Deus que precisão da alma ou acudir a um hábito que se tornou obsessivo.

O Vitorino não faz ideia donde lhe vem o mêdo dos incêndios, pois nunca na sua vizinhança se deu algum, só os conhece da televisão, mas isso não impede que involuntariamente controle tudo o que lhe parece possa dar origem a um curto-circuito ou fuga de gás.

Além de o enervar, essa  preocupação torna-o facilmente irritável, exagera ao ponto de que quase nunca Dona Olímpia acende o fogão sem que ele, como que por acaso, entre na cozinha e ali demore, a dar-se conta de que a chama não alastra nem há por perto material inflamável.

Ao que a esposa cruamente chama a mania dos incêndios, acrescentou ele tempos atrás o  hábito de à noite deixar numa cadeira perto da cama as calças, uma camisola, um par de sapatilhas, de modo a que se a casa estiver a arder, escapar para a rua com certa decência e não, como já tem visto nas reportagens, as pessoas em pijama e descalças a tiritar ou embrulhadas em cobertores.

Dona Olímpia arreliou-se quando o ouviu sugerir que também ela devia tomar o mesmo cuidado, não só por uma questão de agasalho mas também de decência, pois…

Se naquele momento o marido não a tivesse encarado, nem encolhido os ombros com aquele jeito de aborrecimento que tão bem lhe conhece,  nada teria acontecido. Infelizmente o Vitorino não se soube conter, e não foi só a expressão do rosto e o desdenhoso franzir dos lábios a lembrar-lhe as zangas que já tinham tido, causadas pelo abuso que a esposa faz da doçaria, mas porque nesse momento não se soube conter, gritando-lhe que mesmo que parasse com a lambarice estava a ficar como a sogra do Bernardo.

Ó palavra que disseste! A sogra do Bernardo não é só um caso extremo de obesidade, mas como que o espelho de que no bairro às vezes os maridos se servem para alertar a esposa, causando isso tensões que têm levado a que em muitas casas nem por brincadeira se possa- falar em "pneu Michelin"

Nesse momento o Vitorino esperaria tudo, pois por demais sabia que em certas ocasiões a esposa era dada ao clássico partir da loiça,  mas  estava longe de imaginar o que de seguida aconteceu e o deixou de boca aberta: ela voltar-lhe as costas, ir para o quarto, vê-la a rebuscar na mesinha de cabeceira e tirar de lá um dildo, dizendo escarninha: - Corno já eras, agora ficas a saber.

 

sábado, abril 10

Inveja e pena

                                                                              (Clique)

Invejem-no! Mostrem-me quem há por aí com semelhantes qualidades de actor shakespeariano, declamando invenções como a do "cofre da Mãe" ou a do "amigo rico e generoso". Já antes o comparei a Eugène de Rastignac, o inesquecível personagem de Balzac, (aqui) mas José Sócrates não lhe fica atrás. É nosso, é único, é de antologia, procurando em tantos séculos de História outro igual não temos.

Invejem-no, mas tenham também pena dele e de nós, pois nos mostra o Portugal que somos, e também que ele próprio merecia melhor berço, ter nascido num país à dimensão das suas qualidades, rico como a Venezuela ou o Brasil, e não no terrunho pelintra que nada tem à altura da sua ambição, de tanto descaramento e engenho. -aqui-  Comparem o seu modus operandi, o seu descaramento e aplomb com o dos títeres habilidosos que agora nos governam, barrigudos de pernas curtas e manhas transparentes, que se vão arranjando por obra e graça da mansidão de um rebanho que mereceu Salazar, e espera agachado pelo primeiro que tenha tomates para lhe dar o pontapé que o tire do sono e obrigue a caminhar.

  

 

 

 

https://tempocontado.blogspot.com/2015/11/dois-personagens.html

 

https://tempocontado.blogspot.com/2019/02/o-presidente-o-jose-e-fernanda.html