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TEMPO CONTADO
Patrão da Barca: J. Rentes de Carvalho
quarta-feira, janeiro 14
terça-feira, janeiro 13
Noventa e cinco
A serenidade desse fim da tarde de Maio passado convidava à paz, à calma, e a dois dedos de Grant's bebido com vagar no pátio. Olhando os montes fronteiros, revendo a paisagem de searas que foram, os eucaliptos que os invadiram depois, o mato verde-escuro que pouco a pouco vai retomando os direitos da Natureza.
Ela deu as boas-tardes, aceitou o convite para se sentar, mas uísque, não, obrigado, nunca na vida inteira bebeu uma gota de álcool. Nem sabe se gosta, porque nunca quis provar. Falámos então das coisas e loisas costumeiras, o tempo, os achaques, as batatas que estão a crescer muito bem porque a chuva veio mesmo em boa altura, a desgraça do homem que em Montalegre degolou a sobrinha, deu um tiro na mulher e se suicidou depois.
Persignou-se a esconjurar o espírito do Mal; beberriquei eu, perguntando-me se perdi o gosto ou se se tornou diferente o sabor do uísque.
- Fez noventa e cinco, não foi?
Acenei que sim, com o sentimento incómodo de que a pergunta não parecia totalmente acidental.
- E continua lúcido! Olhe que nessa idade há muita gente...
Creio que a intenção era boa, mas de súbito senti-me como alguém que usurpa um lugar. Com noventa e cinco feitos, são do corpo e da cabeça, o meu funcionar não pode ser o que tenho, mas aquele que os outros de mim esperam.
quarta-feira, janeiro 7
Vanitas vanitatis, omnia vanitatem
Contaminados pelo discurso político rasteiro, somos tentados a achar que uma obra literária focada na busca da alma de um povo é, demasiadas vezes, o subterfúgio de ímpetos ou intentos nacionalistas. Erro crasso, já se vê. Atente-se em José Rentes de Carvalho, o escritor do nosso tempo que mais e melhor tem glosado o que é ser português, feito ainda mais extraordinário se se levar em conta que não vive em permanência no seu país desde a já muito distante década de 1950.
Nos romances e nos contos, assim como nas crónicas e nos diários, cada escrito do autor de “Ernestina” esmiúça a condição portuguesa com uma lucidez assaz rara. Quer esteja em Mogadouro ( Estevais) ou em Amesterdão, onde reside na maior parte do ano desde 1956, há nas suas observações sobre o país uma vontade permanente de aceder a esse recanto secreto da psique do povo.
Não o dos postais turísticos, ou o supostamente exportável (“com mentalidade à Cristiano Ronaldo”...), mas o que ficou há muito em definitivo para trás nas prioridades governamentais. Esquecido e ultrajado, é, muito provavelmente, o último bastião de uma portugalidade cada vez mais espartilhada entre o ressentimento salazarista e a ingenuidade (pseudo) universalista.
É nessa análise permanente a um país do qual nunca se apartou verdadeiramente que se inscreve o seu mais recente livro, “Recordações e andorinhas”, uma recolha dos seus diários escritos entre 2007 e 2009 mas que conservam ainda a sua premência. Em meia dúzia de parágrafos (ou até menos), Rentes faz-nos chegar, através da sua escrita simultaneamente ágil e rigorosa, dúctil e inflexível, ecos de um país profundo. Em tudo o que isto possa significar de misérias e grandezas.
Nestes verdadeiros tratados de humanidade, o “patrão da barca”, como se autointitula nesse magnífico repositório do quotidiano que é o seu blog Tempo Contado, não está interessado em compor um certo retrato que possa (des)favorecer os seus – das recordações surpreendentemente intactas da juventude aos episódios ocorridos hoje, reveladores da mudança dos tempos ou da sua eterna conformidade, o que o move e instiga é, ainda e sempre, a vida pulsante, despida dos ardis que abundam nas atmosferas urbanas.
quinta-feira, janeiro 1
Passou
Pertence à época, mas balanços não faço, para trás prefiro não olhar, contas não deito, e planos também não é comigo. O que tiver de vir vem, da experiência aprendi que de nada adiantam muros ou cautelas. Empurrões e pontapés doseiam-nos os outros, por vezes até sem maldade, apenas porque só a si próprios se vêem no caminho por onde vamos todos.
Incerto do meu estoicismo e da justeza do que penso, olho o mau tempo que nesta manhã quase transforma o dia em noite.
quarta-feira, dezembro 31
Trapos da língua
Por andanças da vida e no decurso de quase três décadas, ora foi diminuto ora quase inexistente o meu uso activo da língua portuguesa falada. Livros e jornais são insuficientes para acompanhar a sua evolução, e as conversas espaçadas podem alertar para um atraso, uma diferença, mas pouco ajudam a preencher as lacunas causadas pelo afastamento e o desuso.
Nasceu-me daí uma espécie de alergia a certos modernismos e brasileirismos importados com as telenovelas; incomodam-me os galicismos pedantes dos especialistas que só com eles conseguem falar das Letras e das Artes; posso mal com o jargão autárquico e parlamentar; aflige-me que vizinha analfabeta já não diga que toma remédios, mas que está com medicação.
A língua portuguesa seguirá o caminho que, com acordos ou discordando, lhe preparam os seus falantes e escritores. Esta minha birra é coisa pessoal, anota apenas uma espécie de desânimo causado pelo desfasamento de que falei, e talvez também por diferenças de sensibilidade. Mas não há jeito a dar-lhe, mesmo sem razão continuarei embirrento.
Deve ter sido nos anos oitenta que pela primeira vez ouvi a palavra plantel aplicada ao futebol. Assustei-me. Vinha do espanhol, eu só conhecia o significado original da palavra argentina que davam os dicionários: "grupo de animais de boa qualidade reservados para reprodução". Vertente assim e desafio assado, apostas, desalavancagens, roupa vintage, produtos gourmet (por onde andarão as iguarias?). Passam por aqui citadinos a falar de ruralidade, sustentabilidade, alteridade geracional e workshops para idosos. Ninguém ri.
Ri eu, tempos atrás e com boa razão, ao visitar num canto perdido desta santa pátria, onde não é só a língua que anda aos trambolhões, um Spa & Resort. Aí, num ambiente de desusado luxo, uma massagista de tacões agulha e generoso decote, fazia uma demonstração da sua técnica nos lombos de um autarca.
segunda-feira, dezembro 29
Época de bondades
A época é cheia de bondades, cânticos, presépios, boas intenções, amor do próximo, mas o sujeito não pode comigo, eu posso mal com ele, e como não nos conhecemos em pessoa, só da escrita, não vai ser à bruta, um caso de murros, esboço-lhe com palavras o retrato e assim me vão doer menos os dedos.
Sabe de tudo. Muito. Pintura, política, relojoaria francesa, glaciares, motores Diesel, África, Médio Oriente, Lucas Cranach, gastronomia do Maghreb, Renascença, geografia da Indonésia, história da Ucrânia… um sem-fim.
Conhece você Magtymguly Pyragi, o clássico turquemenistanês do século XVIII? Nunca ouviu falar? Pois conhece-o ele, e não pergunte, que se arrisca a uma prelecção tão minuciosamente detalhada sobre esse venerando que vai sentir ouras.
É poeta. Publicou três romances que os amigos elogiaram. Não os procure, que não encontra, nem insista, porque, aconteceu-me a mim, o livreiro é capaz de desatar a rir, gozando que o enfatuado dono de tão espaventoso saber seja oco no verso e desenxabido na prosa.
Sabe de confeitaria, dos produtos Gucci, da Literatura de Cordel do Nordeste do Brasil, dos amantes da rainha Vitória, das ilhas Lofoten, de locomotivas do século XIX, do fabrico de porcelana, das doutrinas de Thomas à Kempis, dos costumes do Hawai. É, como se dizia antigamente num tom de respeito e assombro, enciclopédico.
Tudo verdade. O homem é de facto enciclopédico. Inteligente de sobra também. Poderia ser mesmo agradável não fosse a inveja que o corrói. Porque, fama alheia, boas palavras sobre alguém, êxito de amigo, vizinho, colega, ou desconhecido, logo ele empalidece de raiva e azedume.
Aquilo, creio, vem-lhe de família. Descendesse de gente de espírito por certo o apregoaria, mas prudentemente cala que entre os seus é o primeiro sem loja aberta. E é, creio eu, essa herança de lojista que lhe torna a vida um inferno.
Homem do balcão conhece apenas duas molas: a do lucro e a da inveja. Seja o que for, o que vai para os outros é-lhe de facto devido, é seu, não o recebe porque lho roubam.
domingo, dezembro 28
Literário de sobra
Isto anda cada vez mais literário, mais experimental, mais interessante. Interessante no cómico sentido da palavra.
Dias atrás um jovem e conhecido crítico lastimava que ainda se escrevesse à moda do século passado, mas em minha opinião não se dá ele conta de que já se escreve à moda do futuro, e que a chamada Literatura corre maratonas a ver se apanha a Banda Desenhada. O que no antigamente se chamava diálogo, aparece agora aqui e ali com Grrrs! Vronks! Prruns! e muito “What the fuck!”, que não há como o seu bocadito de Inglês para ter chique e demonstrar que se pertence aos eleitos que voam alto e longe do vulgo.
Compara-se um a Paul Auster, outro encosta-se a Martin Amis, um terceiro sente-se próximo de Bolaño, um quarto abandonou os russos e de momento inclina-se para Murakami. Haruki Murakami, informa ele compenetrado.
Imita-se, falseia-se. Conta-se aos papalvos, e os papalvos apreciam, que só escrevendo em cadernos de Moleskyne e em determinado quarto do Chelsea Hotel, em Nova Iorque, é que se recebem os eflúvios. Em Bali, nas favelas do Rio ou naquela praia de Goa, também serve.
Aborreço-me, pois aborreço, com os livros do ano, e da década, e do génio, com a prosa dos analfabetos, a poesia dos poetas cuja fama lhes vem mais das melenas e da pose, que do sumo que escorrre do seu hermetismo.
sexta-feira, dezembro 26
O escorpião
Interessante no oportunista é aquela qualidade de que agora muito se fala: a transparência. No seu cérebro deve haver uma qualquer alavanca que o impede de se dar conta de quanto é previsível o seu comportamento.
Está você na mó de baixo, o oportunista some-se com a rapidez de neve que derrete ao sol. Começa a melhoria, lá salta ele a recordar a velha amizade e os bons tempos de então. Cheira a sucesso? Nenhum outro tão pronto na lavagem dos pés, nos bilhetinhos, na lisonja. Chegou a hora da sorte? Aí é imbatível: capacho, moço de fretes, burro de carga, pião das nicas, nenhum esforço lhe pesa, nenhuma curvatura lhe dói.
Mas há que manter o alerta. A sua mentalidade é de escravo, a sua ambição a de escravizar, na celeridade da mordedura iguala o escorpião.
domingo, dezembro 21
quinta-feira, dezembro 18
segunda-feira, dezembro 15
Ah! Veneza!
A culpa é de
Goethe, Thomas Mann e uns quantos ricos. Atrás deles revoadas de pintores,
bandos de fotógrafos. Depois destes, milhões e mais milhões de basbaques que,
no correr do ano, chegam a Veneza e, aos ‘Ohs!’ e ‘Ahs!’ na praça de San Marco,
na Basílica, no Canal Grande, na Ponte dos Suspiros, no palácio dos Doges,
ressentem coisas que, pelos jeitos, só lá se ressentem. Ah! As gôndolas! Ah! O
Rialto! Ah! O Caffé Florian!...
Acontece que, Verão ou Inverno, sol ou névoa, na meia dúzia de vezes que,
por razões várias, fui a Veneza, nem me emocionei, nem se me afinou a
sensibilidade, não tive êxtases.
Levo isso à conta do meu embotamento. Das más experiências que lá tive é melhor
não falar.
sábado, dezembro 13
sexta-feira, dezembro 12
Frases e máscaras
Duas razões para citar algumas frases de Arthur Schnitzler (1862-1931). A primeira é a admiração pelo seu formidável talento de escritor e dramaturgo. A segunda é que, tomando-as de empréstimo, elas me permitem “falar” a alguns amigos e amigas que compreenderão o que lhes quero dizer.
“São muitas as maneiras de fugir à responsabilidade. Pode-se escapar a ela através da morte, da doença, e finalmente através da estupidez.”
“Nenhum fantasma nos ataca em tantos e tão variados disfarces como a solidão, e o amor é uma das suas mais impenetráveis máscaras.”
“Cada relação amorosa passa por três fases que imperceptivelmente se sucedem: a primeira é aquela em que, mesmo em silêncio, um se sente bem com o outro; na segunda um sente-se silenciosamente aborrecido com o outro; na terceira o silêncio torna-se um vulto que se ergue entre ambos os amantes como inimigo mortal.”
“O que torna tão problemática uma relação amorosa é o facto de nos sentirmos tomados por um permanente anseio de liberdade, ao mesmo tempo que procuramos prender o outro, embora sem estarmos convencidos de que temos o direito de fazê-lo.”
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(*) A minha tradução não é a melhor. Quem conhece a língua leia - Arthur Schnitzler, Buch der Sprüche und Bedenken.