Contaminados pelo discurso político rasteiro, somos tentados a achar que uma obra literária focada na busca da alma de um povo é, demasiadas vezes, o subterfúgio de ímpetos ou intentos nacionalistas. Erro crasso, já se vê. Atente-se em José Rentes de Carvalho, o escritor do nosso tempo que mais e melhor tem glosado o que é ser português, feito ainda mais extraordinário se se levar em conta que não vive em permanência no seu país desde a já muito distante década de 1950.
Nos romances e nos contos, assim como nas crónicas e nos diários, cada escrito do autor de “Ernestina” esmiúça a condição portuguesa com uma lucidez assaz rara. Quer esteja em Mogadouro ( Estevais) ou em Amesterdão, onde reside na maior parte do ano desde 1956, há nas suas observações sobre o país uma vontade permanente de aceder a esse recanto secreto da psique do povo.
Não o dos postais turísticos, ou o supostamente exportável (“com mentalidade à Cristiano Ronaldo”...), mas o que ficou há muito em definitivo para trás nas prioridades governamentais. Esquecido e ultrajado, é, muito provavelmente, o último bastião de uma portugalidade cada vez mais espartilhada entre o ressentimento salazarista e a ingenuidade (pseudo) universalista.
É nessa análise permanente a um país do qual nunca se apartou verdadeiramente que se inscreve o seu mais recente livro, “Recordações e andorinhas”, uma recolha dos seus diários escritos entre 2007 e 2009 mas que conservam ainda a sua premência. Em meia dúzia de parágrafos (ou até menos), Rentes faz-nos chegar, através da sua escrita simultaneamente ágil e rigorosa, dúctil e inflexível, ecos de um país profundo. Em tudo o que isto possa significar de misérias e grandezas.
Nestes verdadeiros tratados de humanidade, o “patrão da barca”, como se autointitula nesse magnífico repositório do quotidiano que é o seu blog Tempo Contado, não está interessado em compor um certo retrato que possa (des)favorecer os seus – das recordações surpreendentemente intactas da juventude aos episódios ocorridos hoje, reveladores da mudança dos tempos ou da sua eterna conformidade, o que o move e instiga é, ainda e sempre, a vida pulsante, despida dos ardis que abundam nas atmosferas urbanas.