sexta-feira, março 3

De que falamos?

 

Tinha dezanove quando começou, trinta e dois quando se deu conta que aquilo não podia durar, um namoro de mãos dadas, passeios ao domingo, beijos na face, os pais de ambos a fiscalizar, calculando as posses, falando de netos, o rapaz nada interessado em assuntos de fornicação e procriação. Cortou de vez. E porque é bonita, inteligente, despachada, com simpatia que baste, em poucas semanas tinha um no anzol.

Foi isso meses atrás. Agora, com a inocência de quem durante demasiado tempo foi virgem, quer que se lhe explique porque razão o sexo não é como sonhara, nem como apregoam. Zanga-se ao ouvir que, tirante milagrosos momentos, em geral o sexo não é coisa de dois, sim de um mais um, cada parceiro com a sua solidão, sensível a odores, sussurros, palavras, pensamentos, memórias, perguntando-se se está a fingir, se o outro finge, penosamente desfiando a lista dos porquês, seus e alheios.

Desagrada-lhe a crueza. Diz que não pode ser, é maldade, ninguém tem o direito de negar o poder da esperança e do sonho.

Assim seja. Esqueceu o que tinha perguntado, não quer resposta, dispensa a paráfrase de Raymond Carver: de que falamos nós quando falamos de amor e de sexo?

 

quinta-feira, março 2

J. Brandão - Joalheiros

 

Na esquina do Rossio com a Rua do Ouro, onde há agora um estabelecimento que é meio livraria, meio quiosque, tinha eu parado logo no primeiro dia, fascinado pela joalharia que então ocupava o prédio. Não porque me interessassem especialmente as pratas ou as pedras, mas sem fala diante daquela exposição de riquezas acumuladas nas vitrinas.
Os fios de ouro caíam em cascata. As salvas tinham dimensões de rodas de carro.Os diamantes cintilavam em estojos forrados de veludo preto. Montões deles. Havia candelabros da altura de um homem e toledanas embutidas de rubis. Correntes, alianças, os anéis grossos com que as viúvas se fazem inveja. Fruteiras descomunais. Crucifixos de metro em «prata maciça, 99,9% pura». Querubins. «Últimas Ceias». Caravelas de filigrana. Talheres dourados, pérolas,facalhões para trinchar perus, argolinhas de marfim para as gengivas dos bebés. Galheteiros em «prata antiga do Brasil».
As vitrinas eram fechadas por espessos reposteiros azul--escuros, a esconder o interior, bem assim como a porta. Da única vez que a vi abrir-se, um segundo ou dois, as cintilações e fulgores vindos lá de dentro, multiplicados infinitamente em cristais e espelhos, fizeram com que deixassem de me parecer exagero a história de Ali Babá e o resto das Mil e Uma Noites.
Ao mesmo tempo tornou-se-me claro ser verdade tudo o que eu tinha lido sobre riquezas orientais, as minas de Salomão, os tesouros do Négus, os galeões que no passado chegavam a Lisboa com toneladas de ouro e prata: a evidência estava ali.
Lembro que me senti indiscreto, tomado por um vago receio de que, ao ficar assim parado, estorvaria a passagem das princesas, dos nababos, dos monarcas que muito certamente vinham encomendar as suas tiaras e coroas. Recuei uns passos para ver melhor as grandes letras douradas sobre fundo de mármore negro e polido: «OURO – J. BRANDÃO, JOALHEIROS – PRATA».
Depois fui-me pela cidade, alegre com tanta coisa bela, ao mesmo tempo um quê melancólico, ciente de que imponências assim pertenciam a outros mundos e o sonho permaneceria na minha vida um dos obstáculos maiores.
Naquela altura Lisboa era uma metrópole a fervilhar de actividade, cheia de gente enriquecida durante a guerra, refúgio doutros chegados ali carregados de fortunas e que, cansados ou contentes, tinham decidido ficar. Automóveis sumptuosos, com choferes fardados, esperavam diante dos palácios e palacetes que então havia nas avenidas. Ou rodavam lentamente, solenes, via-se dentro deles a gente retraída e distante para quem nós éramos a paisagem. Os oficiais iam pelas ruas a cavalo, em uniforme de gala, luvas brancas, pingalim, seguidos por ordenanças que, em bornais vistosos, transportavam os documentos do Poder. Mulheres etéreas, vestidas de seda, e atrás delas as criadas carregadas de pacotes e caixas. Sentia à minha volta a forte trepidação de uma vida nova, o fascínio de mistérios imaginados, cultos subterrâneos. Cada olhar cruzado com o meu, o virar de uma esquina, um sorriso, tudo me pareciam prenúncios e sinais.

 

quarta-feira, março 1

Infusões

 

Já lá vão anos que o restaurante na Catalunha findou, e o mesmo acontecerá ao que trabalha do mesmo modo lá para as bandas da Dinamarca, mas estava-se a conversar sobre as modas da culinária, o que me levou a recordar o texto antigo.

Caro que baste e snob de longas reservas, nesse lugar servem refeições que, além da satisfação do apetite, funcionam sobretudo como acessório emocional. Exemplo: uma infusão de terra húmida com goma de Xantana a acompanhar ostras, de modo que o cliente ressinta a comunhão muito catalã do mar com o monte e, ao comer, lhe venha à "memória um passeio por um bosque húmido onde acabou de chover."

Mas têm mais, pois entre outras preparam sobremesas com aromas citrinos, que combinados "com o leite e um creme de manteiga associam à ideia da infância." Esperam também "que o limão incuta uma sensação de energia que transporte o feliz comensal para mais um universo paralelo, desta vez marcado pela ternura."

Fumos de tabaco "que dão uma sabor incrível ao doce", sobremesas inspiradas nos perfumes de Gucci e Chanel...

Aqui chegado comecei a agoniar-me. Ocorreu-me que não demorará a abertrura do primeiro restaurante coprófago, onde, para avivar emoções e memórias, sirvam as ostras acompanhadas de uma infusão de merda.