Não é bruxa, e em Sendim nunca esteve nem lá nasceu, a
alcunha foi uma brincadeira do Aristides, coisa que lhe veio à cabeça quando ouviu
contar que a nora do "Sete vidas", a Leocádia, deitava as cartas, mas
não o fazia a todos nem por dinheiro, porque o seu "guia" a tinha
avisado de que se o fizesse, além de perder o dom ficaria exposta às forças do
Mal, sujeita sabe Deus a que perigos e doenças.
De começo só alguns sabiam, mas não tardou a que
dissessem que se a Leocádia quisesse há muito estaria rica, pois além de os
seus conselhos darem bons resultados, uma vez por outra adivinhava coisas que
os próprios interessados se assustavam, pois se ela sabia aquilo de certeza
sabia mais.
Muitos continuavam a sorrir-lhe, traziam-lhe prendinhas,
um ou outro evitava encará-la, às vezes passando de largo, ou fazendo daqueles
acenos que nunca se sabe se são de simpatia ou a tradução de "Vai prò raio
que te parta!"
O Adriano era desses, e por um motivo que não podia
ser mais pessoal, porque se lhe metera na cabeça que, solteiro e proprietário de
duas sapatarias na vila, era um partido que a Leocádia não ia recusar. Mas
tinha recusado, e pior era o tê-lo feito dum modo que desde então o trazia
indisposto, pois ao mesmo tempo que ela agradecia e pedia desculpa por não
aceitar, notara que o modo da rapariga o incomodava. Pela recusa, mas mais
ainda por sentir nela uma atitude de superioridade e vidência, um pouco à
maneira da que as crianças atribuem às mães.
Passou a odiá-la de maneira muita sua, mas menos pela
recusa do que por medo do poder oculto da bruxa de Sendim, que de certeza sabia
dele o que ninguém devia saber, e não eram só as trafulhices do negócio, o
putedo de Bragança ou os quinze anos da filha do Amorim, que tudo isso eram
capas a tapar o segredo dos segredos, escondido tão fundo que nem a si próprio
dele falava em voz alta, e para lá ir fazia uns rodeios que só mesmo por azar
dariam com ele. A não ser…
Quando uma história de ficção emperra e o autor sente
dificuldade em desenvolver o enredo, a regra clássica manda que então se encontre
um cadáver. Assim seria plausível que, levado pelo medo de que Leocádia
descobrisse o seu segredo, o Adriano a matasse e o autor obtivesse o cadáver
necessário para desemperrar a sequência.
O busílis está em que vezes de sobra a realidade troca
as voltas à fantasia e o desfecho é inesperado, neste caso o boato de que Adriano, o garanhão, saíra
do armário. O que há muito sabiam as amigas da bruxa de Sendim.