terça-feira, maio 4

Paz à nossa volta

- Compreende? Digo que sim, que compreendo, intrigado pela confidência e aquele olhar que mostra o desespero de quem anseia por absolvição. Mas custa a acompanhá-lo no emaranhado de casos e pensamentos, de mágoas, o comezinho misturado ao trágico, a indiferença de tornar simultâneos o passado e o presente. Com meias frases, outras que ficam pendentes – Há dias que pouco falta para que faça uma asneira – eu à espera de detalhes que não vêm, ele assombrado pelas recordações, entre nós um silêncio incómodo.

Mal grado os anos continua ágil, desempenado, mas o rosto tornou-se-lhe papudo, roxo do vinho. Muito seu continua o jeito de como ao falar cerra os olhos em duas fendas chinesas, antes risonhas, agora insondáveis.

Sentado na relva à sombra dos castanheiros, o cajado entre as pernas, os cães dum lado, eu do outro, o rebanho espalhado pela ladeira, o murmúrio da água, o tilintar dos chocalhos . Dia de calor. Paz à nossa volta. Encontrámo-nos ali sem combinar, um daqueles hábitos que nunca se sabe bem por que começam, talvez por acaso ou pelas razões ocultas que umas vezes nos levam a buscar companhia e doutras nos empurram para a solidão.

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In A Amante Holandesa – Quetzal, 2010

 

Leituras dos meus dezasseis anos

 

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segunda-feira, maio 3

Guerra Junqueiro (1850-1923)

 

in A Morte de D. João
 

domingo, maio 2

A bruxa de Sendim

Não é bruxa, e em Sendim nunca esteve nem lá nasceu, a alcunha foi uma brincadeira do Aristides, coisa que lhe veio à cabeça quando ouviu contar que a nora do "Sete vidas", a Leocádia, deitava as cartas, mas não o fazia a todos nem por dinheiro, porque o seu "guia" a tinha avisado de que se o fizesse, além de perder o dom ficaria exposta às forças do Mal, sujeita sabe Deus a que perigos e doenças.

De começo só alguns sabiam, mas não tardou a que dissessem que se a Leocádia quisesse há muito estaria rica, pois além de os seus conselhos darem bons resultados, uma vez por outra adivinhava coisas que os próprios interessados se assustavam, pois se ela sabia aquilo de certeza sabia mais.

Muitos continuavam a sorrir-lhe, traziam-lhe prendinhas, um ou outro evitava encará-la, às vezes passando de largo, ou fazendo daqueles acenos que nunca se sabe se são de simpatia ou a tradução de "Vai prò raio que te parta!"

O Adriano era desses, e por um motivo que não podia ser mais pessoal, porque se lhe metera na cabeça que, solteiro e proprietário de duas sapatarias na vila, era um partido que a Leocádia não ia recusar. Mas tinha recusado, e pior era o tê-lo feito dum modo que desde então o trazia indisposto, pois ao mesmo tempo que ela agradecia e pedia desculpa por não aceitar, notara que o modo da rapariga o incomodava. Pela recusa, mas mais ainda por sentir nela uma atitude de superioridade e vidência, um pouco à maneira da que as crianças atribuem às mães.

Passou a odiá-la de maneira muita sua, mas menos pela recusa do que por medo do poder oculto da bruxa de Sendim, que de certeza sabia dele o que ninguém devia saber, e não eram só as trafulhices do negócio, o putedo de Bragança ou os quinze anos da filha do Amorim, que tudo isso eram capas a tapar o segredo dos segredos, escondido tão fundo que nem a si próprio dele falava em voz alta, e para lá ir fazia uns rodeios que só mesmo por azar dariam com ele. A não ser…

Quando uma história de ficção emperra e o autor sente dificuldade em desenvolver o enredo, a regra clássica manda que então se encontre um cadáver. Assim seria plausível que, levado pelo medo de que Leocádia descobrisse o seu segredo, o Adriano a matasse e o autor obtivesse o cadáver necessário para desemperrar a sequência.

O busílis está em que vezes de sobra a realidade troca as voltas à fantasia e o desfecho é inesperado, neste  caso o boato de que Adriano, o garanhão, saíra do armário. O que há muito sabiam as amigas da bruxa de Sendim.

 

 

sábado, maio 1

Para Leo Winter

 

" Meu caro Leo,

Na semana passada festejámos os teus 52 anos com boa mesa, em boa companhia e, como era de esperar, também porque o Verão se aproxima, falou-se de férias e viagens. E eu de novo me surpreendi com o entusiasmo com que, feitas as malas, te metes a caminho. Umas vezes com destinos exóticos, outras vezes a refrescar o conhecimento de regiões antes visitadas, dentro em breve para a Hungria e a Checoslováquia, depois para a Itália, em seguida para a Escócia. Só tu e Deus sabem se antes de findar o ano não terás visitado também o Japão, a Islândia, o Egipto e as praias do meu Portugal. Para mim, que recuso ir de férias, desde há décadas só me desloco se o trabalho a isso obriga, o simples pensamento das tuas viagens, e das dos milhões de indivíduos que constantemente percorrem o globo com o único fito de ver e de «viver» , basta para me perturbar. Não apenas pela repulsa que nutro pelo turismo, a grande quimera do nosso tempo, mas pela minha entranhada certeza de que no mundo em que vivemos, e passada certa idade, o anseio de viajar é sintoma de uma inquietante perturbação. Dias antes, já eu tinha tentado expor a uma audiência o meu ponto de vista sobre a idade e as viagens. Mas como não possuo talento oratório, e diante de um público por vezes o espírito se me embaralha, receio que os presentes não tenham compreendido o meu ponto de vista. No ambiente festivo do teu aniversário, entre golos de vinho e garfadas de peito de pombo, estou certo de que as minhas palavras também se perderam. Vê aí, pois, o motivo desta carta em que agora, na paz do quarto de trabalho, tento recapitular as minhas ideias sobre a inutilidade de certas viagens. Primeiro de tudo, o viajar por viajar deveria ser reservado aos jovens. Para os seus espíritos desassombrados e carecidos de experiência, tudo é descoberta, encanto, todas as vivências são novas e únicas. Descem numa estação grega, chegam a uma praceta italiana, para eles aquilo é um maravilhoso mundo. Com razão. Porque no tempo da juventude tudo no estrangeiro, mesmo o sol, reluz com um brilho mais forte. Em cada esquina espera-os um confronto, em cada sorriso lêem uma promessa, para eles mesmo o atravessar da rua, o penetrar no hotel, é aventura. Mas como podemos nós, alcançada a idade do siso, ir de viagem em busca de novidade e romance, se é próprio dos anos o ter deixado as ilusões pelo caminho? Com que razão procurar algures, com cansaço e incómodo, as paisagens que a TV nos traz a casa em cores mais vivas? Como justificar sem enrubescer o desejo de ir longe, num mundo que o avião fez de tal modo encolher que nele já a antiga noção do longe se perdeu? E para quê? Para encontrar disperso pelas veredas do Himalaia o lixo que nós aqui escondemos em sacos de plástico? Para ir beber Coca-Cola entre os nativos? Ou para, como no caso extremo dos turistas que olvidam a própria identidade, contar depois com disfarçado orgulho que se comeu numa taberna onde os turistas nunca vão? Cada adulto atacado do irreprimível desejo de viajar possuirá uma vasta gama de razões para defender a sua febre. Desde a necessidade do vazio que as férias oferecem, até ao pseudo enriquecimento que as viagens causam. Simplesmente nenhuma delas me parece válida. Passados os anos dourados da juventude o espírito não se enriquece, ordena-se. E pobres daqueles que acalentam a ilusão de que o vazio existe e se pode alcançar em Monastir ou no México. Convicto de que na segunda metade da vida as viagens são inúteis, eu receio que de facto uns e outros apenas procuram motivos para adiaras viagens essenciais: as que um dia infalivelmente acabamos por fazer à terra incognita que somos para nós próprios."

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In Mazagran – Quetzal, 2012