segunda-feira, novembro 21

Domingo, seis da tarde

Domingo, seis da tarde. Um escuro de noite feia, manto negro a abafar alegrias e esperanças.  Sem mais que fazer olho pela janela, mas deste lado da casa, virado para a serra, não vejo céu nem montes, só negrume. Os gatos aninharam-se na almofada junto do radiador. A minha mulher lê. Aqui e lá fora um silêncio pesado.
- Televisão?
Ela abana a cabeça sem me encarar, volto à janela, inquieto sem saber porquê, daí a pouco o telefone toca e olho distraído o relógio, seis e meia, atendo com um sentimento de mau prenúncio.
Quando volto a ver as horas passa das oito e continuo a ouvi-la sem interromper. As mortes,  as doenças, aqueles maravilhosos anos em Angola, mesmo durante a guerra. As festas no Lobito. Horas e horas de Land-Rover na picada. A avioneta. Os dois desastres. O Huambo, lembras-te? Não sei do que fala, mas digo que sim, lembro-me. As  caçadas. A felicidade de ter voltado quando tudo ainda corria bem. Em 71, lembras-te? O  divórcio. Ele já reformado. Ou foi antes? As enteadas que continuam a fazer da sua vida um inferno. A herança. As partilhas. A casa no Restelo, lembras-te? O filho quer ir para o Brasil…
Repete a promessa de um dia nos aparecer aqui, certa de que a calma dos montes a consolará do que perdeu, talvez mesmo ajude a reencontrar a pessoa que sente que deixou de ser. Continuo que sim, que sim, faço de vez em quando uns ruídos, produzo umas sílabas.
Passa das nove quando se despede com "beijinhos grandes".
A minha mulher continua a ler e os gatos a dormir. Aceno que vou fazer o chá e as torradas que ao domingo são o nosso jantar.

domingo, novembro 20

Entre o Céu e a Terra

Por aqui há bruxas. Fazem-se rezas, preparam-se mezinhas. Enterram-se saquinhos de ervas nas fendas da parede da casa inimiga, nas encruzilhadas aparecem galhos em forma de cruz, leva-se terra das campas, espetam-se alfinetes em retratos. Faz-se a figa, gasta-se dinheiro a cortar o mau-olhado, atam-se ossos de galinha com fios de lã molhados em água-benta.
Viaja-se em segredo para Tenebrón, mais longe que Ciudad Rodrigo, onde há uma "senhora do poder" que quando está com os espíritos lhe saltam faíscas das pontas dos dedos. Cura cancros, artroses e ataques, já a viram na televisão.
Contam-se casos. Repara-se que ao falar em certos defuntos o lume esmorece na lareira. À cautela faz-se o sinal da cruz e há sempre uma anciã que conhece aquela oração do Livro de São Cipriano para empontar almas penadas. As labaredas reganham vivacidade. Digam o que disserem, mas nota-se, o calorzinho é outro, dá mais agasalho.
Muitos o afirmam: entre o Céu e a Terra há mais do que o que os olhos enxergam.

sábado, novembro 19

Personagens

Tem você daqueles dias em que tudo corre de través? Dias cinza? Eu tenho. Para que a sombra e a depressão não levem a melhor, ou o meu julgamento do mundo não me faça encarar o suicídio, entretenho-me com fantasias.
Se a imaginação fraqueja valho-me de alguém conhecido e "dou-lhe" pele nova, outras qualidades, outros defeitos, vivências diferentes, porções de mim. Desse modo escapo, não me sinto responsável pelo que digo ou faço, pois não sou eu próprio nem o outro, mas uma invenção, personagem numa vida de empréstimo, que de real só tem a aparência que lhe dou, me dou. Ouvindo palavras que digo e não são minhas, surpreso de que quem me ouve aceite o teatro e nada faça para me tirar do transe.
Por enquanto hesito, mas pode bem ser que a fantasia em que julgo esconder-me seja a vida, e eu aquele que não se dá conta de que à sua volta não há gente, só personagens.

quinta-feira, novembro 17

Sobre a Liberdade

(La Liberté guidant le peuple - 1830 - E. Delacroix -Clique para aumentar)
Da boca de quem teve pais autoritários, se criou numa sociedade de costumes medievais e cresceu durante a ditadura, parecerá estranho afirmar que nunca tive problemas com a liberdade, mas assim é.
Pelos jeitos nasci com ela tão incrustada na alma e na maneira de ser, que o que chamam a sua falta nunca me incomodou, nem impediu que fizesse e procedesse a meu bel-prazer. Corri riscos, evidentemente, claro que levei pontapés, me puseram obstáculos, negaram direitos, mas nada disso nem ninguém conseguiu aferrolhar o sentimento. A liberdade é coisa minha, íntima, intocável, guardada no mais fundo. Não é para transacções. Pude, mas nunca a troquei ou trocarei por dinheiro, favores , benesses, proveitos, compromissos, regalias.
Escrevi algures e repito-o com verdade: faltam-me as asas, mas sou livre como um passarinho, metam-me a ferros e continuarei assim. Para ser franco, devo dizer que sempre me causou espécie o modo como em geral se alude à liberdade. Ora vem em maiúsculas, ora a fazem pomposa, por vezes nevoenta e façanhuda, manipanço que é obrigatório venerar. Uns querem morrer por ela, ou é a revolução que no-la  traz,  dizem que se deve lutar para mantê-la, mas para mim, quanto mais falam dela  mais nevoento lhe fica o contorno.
Liberdade verdadeira conheço uma: a do indivíduo. As outras assomam-se-me figuras de retórica, instrumentos a que cada um, cidadão, homem político, adolescente, militar ou carcereiro, dá o significado e uso que lhe convém.

É pena perdida contradizer-me, tão-pouco adianta demonstrar a simpleza  do meu pensar, pois melhor que ninguém conheço o que me limita. Mas já que tocámos no assunto aproveito para confessar que cedo me apaixonei pela Liberdade – sim, com maiúscula. Francesa, ainda por cima. Teria então oito anos, foi o segundo e violento coup de foudre da minha vida, assombrei ao vê-la erguer-se semi-nua de uma página colorida do Grande Dicionário Lello Universal Ilustrado.
Esplendorosos, acetinados, aqueles eram os primeiros seios que secretamente via, e logo odiei o Delacroix que a tinha pintado e antes de mim os admirara. De olhos fechados dei-lhe um beijo casto. E outro. E outro. E mais um. Depois atrevi-me. Ela disse que sim , apertou-me nos braços – os mesmos que tinham segurado a bandeira da Liberté, Egalité, Fraternité -  e  foi como estar no céu as muitas noites que dormimos juntos.
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A versão elegante pode ser lida aqui: http://travessaopontofinal.wordpress.com 

quarta-feira, novembro 16

"Haute Volée"

É muita morte à minha volta. Caem como estorninhos, oito enterros desde o começo do ano, uns quantos à espera de vez em lares, hospitais, arrastando-se por casa, pedindo para ouvir que não é grave, há milagres, agarrados ao que lhes disse o taxista, e até deu na televisão,  aquele médico de Saragoça que tem curado muita gente.
Mando coroas de flores, ofereço os pêsames, vou à missa do corpo presente, acompanho os funerais. Se esquecesse a idade e o estar avançado na lista, lembravam-mo os olhares que alguns me deitam, surpresos de que não tropece nem desvaire.
Esse tempo virá. Por enquanto lá vou indo, nada descontente, até divertido como há momentos, quando me ocorreu a memória de uma falecida, senhora que se queria da alta. Safara ela cuidadosamente uma genealogia de tamancos, a mãe era como se a não tivesse parido, a história da sua vida começava com a promoção do pai de furriel a general, momento alto o seu casamento com outro general.
Desde aí disparara a inventar que nem Fernão Mendes Pinto, e era viscondes assim, condes assado, barão isto, marquês aquilo, se em Portugal houvesse um pareceria a versão lusa e falante do Almanak de Gotha.
Chata, insuportável pedante, e contudo uma recordação que dela guardo sempre me faz sorrir. É a do momento em que, adolescente, tendo entrado na loja de panos do senhor Mateus, em Moncorvo, a oiço dizer com rispidez ao atarantado comerciante: - A família do meu marido é de haute volée!
Desconhecia. Em casa procurei no petit Larousse ilustré, julgando que fosse uma cidade em França. Não era.

terça-feira, novembro 15

Cinquenta anos?

Má fama, boa fama, burguesia assim, povão assado, nobre, plebeu, burguês, comuna, talassa, vermelho, azul e branco, a necessidade de classificar, pertencer e distinguir, encontra-se tão instintivamente arreigada na  maioria que se lhe assemelha contra natura o proceder do que dispensa rótulos e prefere ir sozinho.
Sou desses. Mas a todos respeito, em meio nenhum me sinto deslocado, não olho de alto para ninguém, tão-pouco me dobro em vénias e genuflexões. Para ser eu próprio e dar-me o gosto de pelo meu pé descobrir o mundo e as várias gentes, antes de Sinatra cantar My Way, já eu ia à contra mão e contra corrente. Pagando o preço, que duma ou doutra maneira tudo tem o seu custo, mas satisfeito com o lucro que daí veio, pois junto ao que no mundo aflige, também muito nele me alegra e diverte.
Assim li eu esta manhã que um escritor famoso se preocupa com o que acontecerá aos seus livros dentro de cinquenta anos. Ia franzir o sobrolho, perguntando-me em que nuvem habita, porque cá em baixo não anda. Mas depois sorri, dizendo-me, bem-aventurado o que se põe num pedestal e se imagina nele ad vitam aeternam.
Mas cinquenta anos, colega? Talvez nem cinquenta meses, como acontece a melhor obra.

segunda-feira, novembro 14

Vamos à vida

Quem dera, começar o dia escrevendo sobre casos suaves, histórias românticas, dar conta de pensamentos bons e delicados. Nada e ninguém me obriga a ser azedo ou melancólico, a escolha é minha, portanto bem posso fingir e embelezar. Mas estou no mundo, muito consciente de estar nele, sofrendo, mais consciente ainda da minha impotência como indivíduo e cidadão.
Tenho paz, segurança, conforto, mas acordo e, à medida que as horas passam, não é a beleza dos montes ou a simplicidade quase bíblica dos vizinhos que se me impõe, antes o sofrimento e o desespero que imagino nas cidades, a tragédia da pobreza envergonhada, o horror dos que sabem que amanhã não haverá pão, que o tempo a vir será de pobreza e dependência.
Tive sonhos. Consegui realizar alguns. Mas que vida, que futuro espera a multidão jovem que já descobriu que nem sonhos pode ter? Que vão fazer os que, chegados à meia idade, podem olhar para trás, mas nada vêem no horizonte? Alguém imagina de verdade o terror dos idosos sem meios nem amparo? Os idosos que um dia foram como você agora é?
Com que boa consciência poderia começar eu o dia contando histórias da carochinha? E dirá você: que adianta sofrer pelo que não se pode remediar?
Ambos temos razão e vamos à vida, esquecendo, fingindo não ver, rezando para que o mau Destino não bata à porta.

domingo, novembro 13

Lá se foi outro

A frase creio que é de Lincoln, e diz que de vez em quando se pode mentir a este ou àquele, mas é impossível mentir a todos o tempo todo.
O mesmo vale para as amizades e simpatias. Jesus será capaz de amar o mundo inteiro, mas o mortal deve ter consciência das suas limitações e aceitar que não se pode sentir amizade e simpatia por todos, tão-pouco constantemente.
Além disso, no geral, a amizade e a simpatia raro têm a qualidade, força ou duração das que os romancistas entusiasmados colam por vezes nos seus personagens. Com a fragilidade dos humores, no dia-a-dia basta um remoque, uma piada inocente, um sorriso que se não deu, uma distracção, por vezes um boato ou suspeita, adeus "grande simpatia", lá se vai a "profunda amizade".
O que fazia salamaleques e simbolicamente nos apertava num "grande abraço", acena com dois dedos um adeusinho ou olha de esguelha e "não vê". Há os que de súbito se ressentem de que não gostamos dos seus amigos, discordamos das suas ideias, não nos une a adoração por Mahler. Outros suportam mal não sermos como eles de partidos, seitas, lojas, clubes, grémios, querem-nos também com antolhos e cabrestos, a admirar pastores, refastelados no quente do rebanho.

Amizades e simpatias, as genuínas, demoram a crescer, mas um nada lhes põe fim.

sábado, novembro 12

Pobre dele?

Pobre dele? Coitado? Infeliz? Deus se compadeça? Desconhecemos as razões, mas era mau, mesmo para os que lhe queriam, os do seu sangue.
Trombudo, azedo, arrogante, violento, cheio de si. A soco e pontapé, com o cinto, à varada, mais de cinquenta anos bateu na mulher, nos filhos, na mula, no cão, nas galinhas que se lhe atravessavam no caminho. Desdenhoso, olhando de esguelha, as boas-horas, se as dava, saíam-lhe dentre os lábios como a cuspir um insulto.
É terrível, este sentimento: alguém morre e não deixa saudade.

sexta-feira, novembro 11

Fazer boa cara

Melancolia da manhã. É luta que muitas vezes perco, numas quantas empato, mas sobram bastantes em que, se não saio totalmente vencedor, pelo menos me dão ânimo para começar o dia.
Você, leitor anónimo, visitante acidental, cuja presença é apenas assinalada por um série de números, não se poderá dar conta, nem talvez o imagine, mas contribui em parte para a minha vitória sobre a melancolia matinal.
Salvo nas poucas vezes que se dão a conhecer, os leitores de livros são para o autor uma massa de gente anónima, e é desnecessário o contacto ou que de parte a parte exista simpatia. Um põe a mercadoria na praça, o outro compra ou deixa, lê ou não lê, a relação fica por aí.
O blogue veio transtornar isso. É porta aberta por onde o leitor entra sem precisão de bater, mas a sua presença é assinalada, um relógio marca os minutos da visita, uma lista mostra se chega pela primeira vez ou é cliente habitual.
Ao longo dos quatro anos que o mantenho, o TC imperceptivelmente criou em mim uma mentalidade que chamarei de lojista. Não que esteja a vender ou a apregoar seja o que for, mas se o freguês entra sinto obrigação de mostrar boa cara e, pelo menos, ter com ele dois dedos de conversa, neste caso escrever umas quantas linhas que por instantes o prendam.
Desse modo você, ao vir aqui, contribui para que o meu dia comece com melhor disposição do que a que me é natural.
Agradeço a visita, mas não se sinta obrigado/a.
Como disse? Acha que estou sombrio e a fingir boa cara? Às vezes tem que ser.

quinta-feira, novembro 10

Venha o magala

Os sistemas de governo há tempo deixaram de me interessar e, francamente, sinto-me incapaz de escolher entre a democracia e a ditadura, se estaremos melhor governados por banqueiros, ou se tem vantagem deixar que os magalas, promovidos, condecorados, salvando-se primeiro a si próprios, dêem uma mão à Pátria. Um rei? Por que não?
Agradável e útil seria que, na sua nova forma, e antes de começar a meter medo, o governante ou governo, agindo como é uso por luto nacional, impusesse às massas três dias de silêncio. Do modo que as coisas andam, já não é cada cabeça sua sentença, mas cada cabeça dezenas, centenas de sentenças e sabichonices, todos a gritar como deve ser, desesperadamente peritos, arreganhando os dentes às ideias do vizinho, cobrindo o país de uma desmesurada e espessa nuvem de raivas e frustrações.
Por nós próprios não seremos capazes, e assim, ou nos obrigam a mudar ou isto acaba em sangue. Houve tempo em que zombei do seu ar mata-mouros, mas começo a alinhar com o genial Otelo.

quarta-feira, novembro 9

Deixa andar

Anos atrás escrevi a Deus(*) e durante um tempo tive a impressão que Ele tinha ouvido a minha prece. Mas tal como acontece com os produtos, talvez as orações tenham também  prazo de validade para a eficiência, pois ao contrário de como gostava de ser e permanecer, estou a dar comigo estranhamente manso.
Uns dizem-me que é cansaço, a minha mulher alvitra a idade, os brejeiros sorriem e, piscando o olho, garantem que o meu modo é só fingimento, aparento duro mas no íntimo sou  de algodão em rama.
Ultimamente dou comigo a compreender, a perdoar, a dizer-me que o outro talvez tenha a sua razão, o sacana é capaz de proceder assim por engano, nem todos os trafulhas merecem o azorrague.
Desconheço-me. Este não sou eu.Tenho vontade de sair em busca de zaragata. Mas num povoado de gerontes a possibilidade é nula de encontrar parceiro belicoso, fora que todos eles há muito alcançaram o estádio em que agora me encontro: o do deixa andar.
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(*) http://tempocontado.blogspot.com/2007/01/escutai-senhor.html

terça-feira, novembro 8

What the fuck...

Trás-os-Montes não conta porque, como alguns afirmam, isto é um "fim do mundo", mas no resto do país pouco inglês oiço falar. E o que oiço da boca dos compatriotas raro brilha pela qualidade da pronúncia ou riqueza vocabular. Na blogosfera nacional, porém, quase toda a  gente dá a impressão que come, dorme, copula, geme, sonha, escreve, cita, copia, chora e canta em inglês.
Vai-se de blogue para blogue, é um espantoso, embaraçoso, não mais acabar de canções e citações, poemas alheios ou de lavra própria, páginas e páginas a dizer "Olha isto! Olha para mim! Olha quanto sei! Estou ou não estou ao corrente?"
O que na blogosfera há de sério, inteligente, capaz, genuinamente culto, nem de longe  faz contrapeso à banalidade, à pelintrice, ao infantilismo do mostruário de aparências e fingimento. E não me venham com a influência da televisão, do cinema, do rock, da Coca-Cola. Sabe-o você, sabemo-lo todos: achamos de menos valia e pouco afidalgado o que temos, vá então de arremedar e importar, fazer de conta, viver de ilusões e aparência.
Não é de agora. Para a minha geração e as anteriores era com o francês que se fazia bonito e  botava figura. Dava menos na vista por serem outros os tempos, menos as gentes, e limitados os meios. Mais quand même.
Chego assim à melancólica conclusão de que isto de querermos parecer o que não somos, não temos, não sabemos e falamos mal, talvez seja coisa atávica, defeito que nos corre no sangue, e em vez de eliminar vamos refinando.

segunda-feira, novembro 7

O "Panças", a virgem e o seminarista

História contada ao serão. Enredo camiliano. Pai nobre, ameaças de morte, tiros que de propósito falham o alvo, virgem desflorada pelo amante da mãe, o "Panças".
O pai, ricaço no Brasil, conversa o seminarista, enche-lhe a bolsa em troco da cornadura, abalam os recém-casados para Belém do Pará.
Vêm de visita anos depois, "brasileiros" no luxo e no falar. Por artes que só podiam ser de Belzebu – como a bruxa de Algoso confirmou - o "Panças" reacende na rapariga o fogo da carne, o ex-seminarista apanha-o a montá-la no leito conjugal. Também ele dispara uns tiros e, bom aprendiz,  avisadamente também erra a pontaria. Escapam os adúlteros à fúria assassina, corre o povo a acudir, reza-se na igreja para que não haja mais desgraças.
Outra vez corno, e com razão descontente, o "brasileiro" mete-se a caminho para Lisboa, toma lá o paquete, e de momento sai da cena.
O problema agora é do "Panças", que cedo e com surpresa descobre que a amásia, a "Puta" – assim passa a chamá-la – não presta. Não presta na cama, não presta na cozinha nem nos arrumos, e como é senhora não se lhe fale em coisas de gado e lavoura, porque torce o nariz.
Habituado a fazê-lo às mulas que não obedecem, o "Panças" deita-se a ela à cinturada e pontapé, mas o estupor refila, não aprende.
Entra agora no enredo um padre de vila próxima. Ciente dos sofrimentos da infeliz e dos dinheiros do pai, apieda-se, recolhe-a, também a monta - o que se vem a saber por indiscrição da "sobrinha" do santo homem. De seguida, intermediário experiente, bom negociante, a troco disto e daquilo consegue os vários perdões e, final feliz, acompanha-a de retorno ao seio da família, ao bem-estar e à paz conjugal.

Como se veio a falar do caso? Estávamos a lareira depois das notícias, tínhamos discutido a crise e os processos que vão correr, quando alguém disse que os filhos da puta tinham chegado à aldeia de tal. Houve confusão, não se compreendia o que teria trazido o sucateiro, os banqueiros e os políticos corruptos para este longes. Mas logo se aclarou. Não era deles que se tratava, era dos filhos da "Puta", história dos anos sessenta que poucos  recordavam.

domingo, novembro 6

A Eduarda

Vem o pedido para que escrevas uma carta a ti próprio no tempo da adolescência. Grátis, claro. Escreves. Envias. Depois nada acontece, ninguém dá contas, se a publicaram ou não é mistério. Se fosse paga teria valor, mas coisa escrita Pro Deo até a cortesia dispensa.
Ponho-a aqui, porque afinal é trabalho, e talvez faça sorrir um ou outro que também conheceu um amor impossível.

Caro José,
Fraca ideia, a carta. Para mal já bastava teres-te apaixonado pela Eduarda, passando por alto que ela, com dezoito anos, nem sequer vê um puto de dezasseis. Narigudo, desajeitado, de fraco músculo e barba rala, nem de longe te podes comparar ao tenente Costa.
É verdade que te sorri, chama-te "o tagarela", e na noite de São João deu-te aquele beijo, inesperado, doce, cheio de promessas. Mas tudo isso é sonho de que não queres acordar, pois, como sabes, porque os espias, é com o tenente que vai para a praia e passa horas na esplanada do "Girassol".
Aos domingos à tarde, montado num baio, "O Fusca", como lhe chamas no teu azedume, atravessa a praça. A Eduarda espera à janela, ele estaca o cavalo, entrega-lhe a rosa, bate uma continência e segue adiante. Quem vê diz que fazem um lindo par.
E que dizes tu? Que um dia o matas! E para que te deu ciúme? Para escreveres a carta que ela já lhe mostrou e a esta hora estão ambos a rir.
Vê se aprendes.

sábado, novembro 5

Fantasmas

Obrigo-me, vou manhã cedo pelo monte a fingir que me convenço da precisão de exercício, mas mal a aldeia desaparece na volta do caminho, perco-me no longe da serrania, extravio nos pensamentos. Outra encosta e esqueço a paisagem, levantam-se os fantasmas do meu passado.
Mulheres de xaile, só o rosto à mostra, silenciosas, cardando lã, fiando linho. Homens enjeridos, curvados, gastando o dobro da força com enxadas de mau corte num chão de pedra e escassa terra. Calças de burel, puídas, remendadas. Botas velhas com solas de pneu. Fumo branco dos toros que ardem lentamente numa cova. Ajoelhado, o velho sopra de vez em quando, abana com o chapéu, cauteloso para que as chamas só queimem o preciso e façam carvão. Paciente, cuidadoso, se encher duas sacas e conseguir vender ambas terá ganho o dia. Uma mão na rabiça do arado, a outra a segurar a vara com que lhes bate, o homem berra, quer sulcos direitos, mas a mula e a burra, desiguais na força, fazem má parelha. Um vulto desaparece sob a carga do feixe de estevas para o forno. A aragem traz o chio longínquo dum carro de bois.
Confundem-se-me os anos e as estações, sobrepõem-se os rostos, as idades, os parentescos. Não distingo os que partiram dos que estão no cemitério, ora os vejo miúdos ranhosos a saltar nas medas de palha, ora me surgem desdentados, lacrimosos, o corpo torto da idade e do mau trato.
Caminho sem pressa,  despegado do mundo. Os fantasmas fazem boa companhia. Sou mais eu entre eles do que quando daqui a instantes, descida a encosta e feita a vénia à igreja, voltar à realidade.

quinta-feira, novembro 3

O ferro

Veio apressado, o sorriso largo, a acenar com o jornal, querendo saber se já me tinham dado a boa nova. Tinham, mas mesmo assim desdobrou o Expresso, abriu a página dupla a mostrar que daqui a nada voltam a abrir as minas de ferro de Moncorvo, para nós ao pé da porta.
- Vai ser um assombro! Muda tudo!
Conheço-lhe o feitio e os entusiasmos, o gosto inocente pelo exagero, aquele modo do doutor Margaride de A Relíquia: "Ninguém como eu aprecia o grandioso!"
Diga o jornal que são mil e quinhentos milhões de euros, ele tem outras certezas, sabe-o de fonte limpa:
- Cinco mil milhões! Ou mais!
Segura-me o braço, olha cauteloso em redor não vá alguém ouvir, porque a coisa ainda é confidencial:
- Vão pôr cá os altos-fornos! Disse-mo um engenheiro da barragem, primo da minha mulher.
Oiço-o com o ar compenetrado que o assunto pede, e ele, certo da minha atenção, entra em transe. É em simultâneo perito do minério, das finanças, do urbanismo, do meio ambiente, aponta o que vão desviar, o que vai crescer, descreve luxos futuros, apoia-se agora no semanário e garante, exaltado, talvez a temer que eu, desdizendo-o, quebre o feitiço:
- Isto vai ficar como Lisboa! Ou até melhor! Vamos ter auto-estradas, vamos ter hotéis, vamos ter infra-estruturas…
- Infra-estruturas?
Malícia minha, esta rasteira de pedir definição, mas ele apara o golpe:
- Infra-estruturas, sim senhor. Tudo como na capital. E já não é sem tempo, que também temos direito.
Entra agora numa explicação de como vai ser o transporte do minério, por onde passará a linha do comboio, as dragagens que vão fazer no rio, mas para seu desgosto o cansaço não me deixa acompanhar mais visões.
Contudo, ainda tenta: - Olhe que isto vai mudar o país!
Aceno que sim e sorrio, sem coragem de lhe dizer que no que toca a pátria já nenhum sonho me conforta.

quarta-feira, novembro 2

O enterro

Muito há que deixou de ser o que era. É muito o que, por ter mudado, baralha os sentimentos,  o comportamento, as ideias, as relações.
O enterro estava marcado para as três, mas bem antes começou a rua a encher-se de gente de fora, filhos, netos, primos, parentes afastados que aparecem em ocasiões destas e na festa do padroeiro. Malta que perdeu o ser da aldeia, mas ainda não ganhou por inteiro modos de cidade. Arrogantes, olham de lado ou sem ver, atiram displicentes um olá, mostram como se esmaga a ponta do cigarro com o sapato novo. Chegaram em Audis e Mercedes, jipões, 4WD pintados nas portas, Toyotas para andar na selva.
Exibem uma tafulice pateta, fardados do que julgam moda e é de um caricato de entremez. Deixa uma o coche, mostrando-se  de saiinha curta e botas a encher a perna grossa, botas altas, de cavalaria, com esporas e fitas para o estribo. Vem este fardado de cabedal vermelho e branco, montado numa Kawasaki TT com as mesmas cores, o rosto escondido pelo capacete. Pára, mas o motor que ronque, e assim se saiba que também veio. Uma tia espera encostada à parede do cemitério, mãos espalmadas sobre o peito. Será pose devota, mas só noto as unhas em exposição, o brilho de verniz roxo e lantejoulas. Passam duas, apressadas, a morder maçãs. São mesmo da cidade, por isso e para que se veja, levam na outra mão a garrafinha de água.
Veio recado que o padre ainda demora, talvez só chegue depois das quatro. Ouvem-se gargalhadas, piadas grossas, há bruteza nos gestos, impaciências de cidade.

Sento-me numa pedra, na rua que de momento não é minha, mas onde nos mais dias e noites passo sozinho. Entristece-me a recordação da falecida, amiga de muitos anos. Deveria ter  outros pensamentos, mas entristece-me também, mais ainda, esta gente que já não me pertence, mudada, travestida, vaidosa de ter trocado o genuíno pelo arremedo.
Por vezes, num funeral, não é só o morto que vai a enterrar.

terça-feira, novembro 1

Velório

Ontem  à noite fui a um velório, o ritual que a cidade perdeu, mas aqui se mantém,  partilha silenciosa de medos e respeito, dor, recordações do que poderia ter sido mas nunca foi, do que irremediavelmente nunca será, do que sonhámos e se esfumou.
Está a defunta no centro da capela e, todos anciãos, jovem nenhum, sentámo-nos em torno, uma voz reza o terço, outras respondem. Ensimesmados, os nossos pensamentos não acompanham a litania. Os olhos perdem-se num rosto que chora, seguem o mais idoso de todos nós que, quase centenário, acaba de entrar. Erecto, digno, curva-se um instante junto do caixão. Aperta depois a mão a cada um dos presentes, faz uma última vénia à defunta, e assim se despede, recusando ajuda ou companhia que o leve a casa e à solidão em que vive.
Uma mulher abraça a morta, retira o véu que lhe cobre o rosto e beija-a, sufocada de pranto,  talvez a remir um pecado, talvez a chamar a memória de uma alegria para sempre perdida.
A chuva grossa, de tempestade, matraqueia no telhado. Alguns cabeceiam, uma esfrega os dedos nos olhos, aquele vai espevitar o morrão dos círios e, da tremura ou desajeitado, entorna um vaso.
Anunciam a meia-noite. Levantamo-nos e aguardamos, veteranos em formatura, as bengalas por arma, a nossa marcha um marcar passo.