sábado, março 20

Notas de viagem (3)








Desde que a norte de Paris se avista o primeiro painel a indicar Bordéus, se entra no Périphérique, e depois se sai dele em direcção ao sul, a distância deve andar pelos trinta quilómetros. Tem-se em mente que a circular serve os doze milhões de almas da cidade e arredores, mas é sempre uma surpresa. Já a atravessei um domingo à tarde em quase vinte e cinco minutos, ao meio-dia dum sábado arrastei-me por lá mais de duas horas.

Até Poitiers são trezentos quilómetros e quatro horas de monotonia, quebrada pelos TGV que zombam da nossa velocidade de caracol.

Paramos no Futuroscope, espécie de Disney World da ciência e das diversões, com a vantagem de hotéis confortáveis a preço decente

Bordéus é a primeira etapa do segundo dia. Passada a cidade dos vinhos começam as Landes, milhões de pinheiros numa incrível planura de cem quilómetros. Desta vez uma surpresa: o que parecia água era uma imensidão de plástico.

A passagem por São Sebastião faz-se com o credo na boca, que os automobilistas ali parecem tarados e o camionistas loucos, todos a querer provar sabe Deus quê. É um alívio passar por Burgos. É um alívio chegar sem empeno a Magaz de Pisuerga e ao hotel de merecida fama pela cozinha, o conforto e a gentileza do acolhimento.

sexta-feira, março 19

O que vale a pena


O café, no outro lado da rua, é estabelecimento de juventude, com música correspondente e fumadores na esplanada, uns quantos encostados à parede, o jeito de quem aguarda coisas que tardam. Coisas que não virão. A pose triste de quem adia, a pose dos desesperos inconfessos e dos medos, dos amanhãs vazios.

Parados no passeio, o lojista, a advogada e eu falávamos da carestia, do ar doente do regedor, do frio que esteve, do cansaço das viagens, mas só quando o lojista se referiu aos filhos é que me dei conta de que, embora de modo distraído, todos tínhamos atentado na cena fronteira.

O mais novo ia muito bem. Estava em Medicina, já no terceiro, direitinho, trabalhador. Mas o outro... Aquele menear de cabeça e os lábios descaídos diziam mais do que palavras, o modo como fechara os punhos falava de fúrias, de raivas impotentes.

Quando a advogada acendeu o cigarro fingimos surpresa. Então já tinha deixado e voltava a fumar?

Ela encolheu os ombros. Divorciada, montes de trabalho, mãe doente, aborrecimentos de sobra, isto e mais aquilo, o tabaco era a sua droga.

- Felizmente, porque às vezes nem sei para o que me dá.

Ouvimo-la calados. Conhecíamos parte da história, as patifarias do ex-marido, as decepções com a família, a advogada brilhante deslocada na mesquinhice provincial.

Ao sacudir a cinza do cigarro apontou para o café, dando a impressão de que ia falar, mas conteve-se. Respirou fundo. As palavras vieram depois, proferidas com a acutilância de quem não é parte no caso e acusa sem paixão.

O que tinha sacrificado pela filha única era desmedido. Por ela perdera a juventude e a carreira, deitara-se culpas sem razão, aceitara sacrifícios, como que se tinha enterrado viva para que à sua menina nada faltasse. Mas em vão. Ia fazer vinte anos. Andara por ali como aqueles. Cafés, clubes, noitadas, Bragança, Salamanca. Jurava que ia passar uns dias com o pai a Lisboa, traziam-lha bêbeda do Porto. Faculdade? Assim que se matriculava logo se arrependia. Comunicação, História da Arte, Estudos Europeus... Mas essa fase estava ultrapassada. De noite era a borga, de dia era a cama.

- Ontem zanguei-me a sério, dei-lhe os safanões. E sabem vocês o que me respondeu? Que não adianta estudar nem trabalhar. Que a vida só vale a pena e só faz sentido quando se tem fama. O resto é uma merda. E que lhe deixasse dinheiro, porque quer ir ver o pai.

quinta-feira, março 18

Notas de viagem (2)




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Deixa-se a monotonia de Mons/Bergen e prepara-se a gente para quase quatrocentos quilómetros de pouca variedade. Bomba de gasolina aqui, portagem ali, área de repouso mais adiante. Muito bocejo. Lêem-se os painéis, deixam-se passar os aflitos. Ah! Um TIR de Penacova! Descidas, subidas, aldeias caducas, urbanizações de uma uniformidade de aviário. Lá longe, à esquerda, os "vasos" de uma central nuclear.

O painel do aeroporto dispara a recordação de um voo Amsterdam-Paris em 1957. Espectacular. Num Caravelle, então milagre da aeronáutica, o primeiro avião com os motores na retaguarda. Lá dentro estreito como um charuto. Mas que surpresa! "Aquilo" roncou, embalou-se na pista, subiu a pino como um foguete e nem tempo houve para muito susto, que já o "coiso" descia e aterrava em Le Bourget.

Se não conhece passe um dia por lá. Por incrível que pareça era o aeroporto internacional de Paris e Orly estaria ainda muitos anos no desenho. Num Charles de Gaulle ainda ninguém sonhava, para aquele lado eram tudo batatais e campos de beterraba a perder de vista.


quarta-feira, março 17

Foi ontem


Foi ontem. Uns atrás dos outros tinha eu ouvido relatos de tristezas e doenças, de como são longas as noites de solidão, grandes os medos da mulher que se sente já viúva, mesmo que todas as manhãs o homem telefone do hospital, prometendo que escapa. Rostos marcados por dores que se não contam, ou então disfarçam, dizendo que aconteceu a outro. O sorriso que ele força quando aponta a braguilha – "Vão-me meter a faca, mas se não me acautelo ainda me cortam os tomates"- a fingir a coragem que perdeu.

Muita sombra em poucas horas. Debrucei-me no muro sem saber o que via, nem para onde olhava, o véu da tristeza a esconder o sol e os montes. Como se alguém acenasse a confortar-me, só então dei conta da amendoeira e da mimosa ali defronte.

terça-feira, março 16

Notas de viagem (1)


Bergen para os flamengos, Mons para os valões. Logo depois de Lille. O Borinage de tristes memórias de miséria e fome. Avistei-os pela primeira vez da janela do comboio, em Março de 56. Eram muitos, colossais, estranhamente negros, aqueles montes formados pelo que os mineiros tinham escavado de mistura com o carvão. Lugares da miséria que Zola magistralmente descreveu em Germinal.

Muitas décadas depois, as minas fechadas, arrasaram-nos e deixaram este em homenagem aos que ali trabalharam como escravos. Estranho monumento.