sexta-feira, março 15

Bilhetes (1)


A sabedoria aconselha a não ter repentes, pensar duas vezes antes de agir, ser cauteloso no  julgamento, não tomar as aparências por realidade. Esse é o sermão com que nos aborrecem no começo da vida e depois habituamos a ouvir calados, acenando que sim com a cabeça, os olhos postos no interlocutor, temendo que de um momento para o outro a paciência se esgote, o sorriso se torne escárnio e o que nos vai no íntimo se leia nas feições. Ouvimos, mas não aprendemos, a vontade que dá é pisar o risco e esquecer as consequências, depois se verá, tudo há-de correr bem.
A irresponsabilidade de semelhante atitude espera-se de um adolescente, raro se perdoa num adulto, assusta num povo quando se constata que o fatalismo parece parte maior da sua essência, que usa os queixumes para esconder a realidade do seu egoísmo de pobre e o descaso que tem pela res publica.
Olhado de longe ou de perto a visão é a mesma: somos um país de queixas e melancolia.

sábado, março 9

A estupidez pega-se


 Há momentos em que a surpresa de algumas notícias tem efeito parecido ao de uma cacetada que nos deixa atordoados, naquele estado de descrença em que as emoções levam a melhor sobre o entendimento, e de seguida, não podendo reagir doutra maneira, desatamos às patadas no chão, aos murros na mesa, aos berros e aos insultos, fúria inútil que não alivia, apenas testemunha da nossa impotência.
Segunda-feira 25 de Fevereiro. Anoto a data, embora me pareça que a não vou esquecer tão cedo. Aqui em Amesterdão pego no jornal Het Parool e fico de boca aberta (a fúria virá logo a seguir) com um título que em letras gordas ocupa toda a largura da capa e anuncia que uma das duas universidades da cidade, a Vrije Universiteit, vai terminar com os estudos da língua neerlandesa, por razões tão várias como a falta de interesse por parte dos estudantes, que preferem as ciências exactas, mas também porque o estudo da literatura e da língua-mãe não é fashionable, e em muitos cursos o neerlandês já foi substituído pelo inglês. Aos argumentos práticos e económicos de no departamento de Línguas e Literatura já serem mais os funcionários do que os estudantes, acrescenta-se o de que os rapazes e as raparigas que no liceu se interessam pelas Letras ‘não contam’, nem são populares entre os colegas. Por último uma inesperada objecção que seria cómica se não fosse estúpida, sem pés nem cabeça, a de que  actualmente ‘o estudo das línguas é um hobby de esquerdistas’.
Os dias vão correndo, a agitação abrandou, um ou outro tolo poderá argumentar que essa decisão me entristece porque toca em algo que afecta o que foi a minha vida profissional e continua a ser a minha paixão, mas assim não é, e se por acaso fosse seria o menos. O que me faz descarrilar é a cegueira, a estupidez mandante dos que querem e têm o poder de tornar supérfluo o que deveria  permanecer essencial, de suporem que tudo é técnica, mecanismo, algoritmos, de que a vida são os computadores, a internet, e a única sociedade real a do Facebook. 
Com os muitos anos que levo conheço o desespero da impotência, sei de sobra o pouco que o indivíduo conta e a amargura que dá ver como um a um se vão desfazendo os sonhos, mas sei também a força que pode encerrar um ideal, e por vezes encontro algum alívio na certeza de que a esperança é a última a morrer. Contudo, e por muito que queira, não consigo libertar-me de uma outra bem desagradável certeza, a de que a estupidez é contagiosa e demasiadas vezes é ela quem vence.

domingo, março 3

O dom do rei Midas



Porque desse nobre desporto só entendo o mínimo, não me deixo arrastar para conversas de futebol, como também evito tomar partido em discussões sobre política, porque é certo e sabido como a paixão desanda certas cabeças, resultando daí consequências que todos conhecemos. Questões de família também facilmente se prestam a desentendimentos e animosidades, de maneira que as mais das vezes deitamos mão aos temas clássicos do estado do tempo, as preocupações com a saúde, a subida dos preços, um ou outro mexerico.
Mas se há assunto que facilita a conversa e exalta os ânimos, esse é certamente o do dinheiro, não o dinheiro dos que estiverem presentes, entenda-se, mas aquelas somas absurdas dos grandes escândalos de corrupção, das negociatas, da falência dos bancos, a facilidade com que depois do choque tais casos vão deixando de interessar, para finalmente aceitarmos que são prova da cansada verdade do manda quem pode.
Tempos atrás éramos um pequeno grupo na esplanada, discutia-se que o mais certo é não tardar a que o país fique outra vez de tanga, e nos vejamos a apertar o cinto, quando o Silvino, sempre brincalhão, disse que tinha sido uma imperdoável asneira o que fizeram ao DDT, porque esse senhor, um verdadeiro rei Midas, é que poderia ajudar, pois tudo o que tocava transformava-se em ouro.
Ao Silvino perdoa-se muito. Por ser amigo e porque o sabemos sem malícia, o que não impede acharmos que de vez em quando força a nota, e por certo foi essa a razão do modo azedo com que o Cerqueira lhe perguntou se do rei Midas só conhecia esse dom.
Ora acontece que se o Silvino, além de tímido por natureza ainda sofre por não ter terminado o liceu, o Cerqueira é todo cheio de si mesmo, um nadinha arrogante, sempre pronto a lembrar os seus dois mestrados e o doutoramento em Ciências Sociais.
- Pois enganas-te, porque a história não é tão simples como isso. Acredita que o banqueiro de certeza todos os dias dá graças por não ter recebido o dom do rei Midas. E sabes porquê? Tocava na mulher com o dedo, adeus mulher, tornava-se ela uma estátua. Fazia festas ao cão, adeus cão. Tinha sede e pegava num copo para beber água, adeus copo, adeus água. Tudo ouro sólido, vinte e quatro quilates! Imaginas o martírio?
O Silvino abanou a cabeça, dizendo que sim, imaginava, mas isso eram histórias de antigamente, e na Grécia. - Cá é diferente – continuou – e fico na minha. O país não precisa de políticos pelintras, mas de um DDT que roube à grande. Porque então dá pra todos.