terça-feira, fevereiro 12

A roda dos cavalinhos


A roda dos cavalinhos
 
Porque rebrilha de luzes e cores, tem música, gira muito mas não sai do sítio, a quem como eu a vê de longe a política nacional lembra a roda dos cavalinhos: os animais mantêm-se firmemente aparafusados e insensíveis, a garotada que os monta bem pode espicaçar, mas é   jogo, aquele galope uma ilusão. E porque do ‘nobre povo’ do hino parece não se esperar mais do que bata palmas como a claque nos teatros, acusam-se de não compreenderem a realidade os que julgam o espectáculo deprimente.
Mas pensem os outros como quiserem e pareça eu azedo em comparação, a verdade que salta aos olhos é que não somente o jogo político em Portugal denota grande refinamento, como é inegável que os nossos políticos, por escasso que seja o seu preparo e duvidosos os diplomas com que alguns se enfeitam, manobram eles nas repartições, nos ministérios e na Assembleia da República com uma virtuosidade de ilusionistas.
Há quem zombe da sua falta de cultura e garanta que são poucos os que abrem um livro, mas suspeito que, bem ao contrário, os que dão nas vistas pela  habilidade, se nunca ouviram falar de A Arte da Guerra de Sun Tzu, de O Príncipe de Maquiavel, ou os fecharam ao perceber que aquilo ultrapassava o seu entendimento, sabem de cor e salteado páginas inteiras de O Conde d’Abranhos, de Eça de Queirós. Porque não somente encontram aí os princípios imutáveis por que se guia a política nacional, como vêem confirmado que a estratégia que seguem lhes garante o sucesso:
‘O sistema da violência foi abandonado como inútil, e começou, com êxito, o dúctil método da habilidade… Em vez de bater uma forte patada no País, clamando com força: - Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: - Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!... Tal é a tradição humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um País, com o aplauso do cidadão e em nome da Liberdade… Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a soberania ao povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito… E quanto ao seu proveito… adeus, ó compadre!’

Vêm aí as eleições e dói a certeza de que, embora fortes e simples, continuaremos indiferentes, moles, pasmados com a fantasia da roda dos cavalinhos, que gira sem sair do sítio.

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A partir de agora, enquanto Deus quiser, irão sendo deixados aqui os textos publicados no Correio da Manhã e na revista Domingo do CM.
Por razões diversas poderá acontecer que, como no passado.irregularmente junte a esses um ou outro texto inédito.

domingo, setembro 10

O fim da fita


TEMPO CONTADO

(06-01-2007    10-09-2017)
fecha hoje definitivamente. O autor fica grato aos que o leram e seguiram.
 

segunda-feira, setembro 4

As mentiras dos outros

(Clique)


Em todas as amizades, mesmo nas boas e antigas, ocorrem por vezes momentos em que uma observação inesperada ou uma ideia que fere a sensibilidade resultam em frieza, e se não nos acautelamos começa aí a brecha por onde entra o fingimento.
Connosco raramente é esse o caso, pois pela diferença de idade e o facto de o conhecer desde miúdo, desempenho para ele o papel do pai que lhe faltou, e nas  ocasiões mais delicadas o de benévolo padre confessor, pronto a compreender e  perdoar.
As tontarias eram de pouca dura, só uma ou outra durava meses, ele logo a esfalfar-se na conquista seguinte, certo de que desta vez seria finalmente o grande amor. Nunca era. A mulher ia aguentando, fingia de cega, mas quando recebeu a herança da madrinha no mesmo dia fez-lhe a mala, e que voltasse para donde vinha, depois lhe diria quando podia levar o resto.
Foi isso vai em seis anos, e desde então nem vistos nem conhecidos, nunca mais se falaram. Os filhos também não são o que se chama uma ponte, de modo que  os laços familiares se tornaram tão frouxos que hesita na idade dos netos, só tem a certeza de que são crescidos.
Estamos a terminar o almoço para que ele me convidou, a empregada traz-nos o café, recuso o conhaque, e com alguma surpresa vejo-o a beber o seu com uma pressa de alcoólico, vício que lhe desconheço.
Seca os lábios no guardanapo, abana umas quantas vezes a cabeça, depois ainda aponta o copo, a pedir um segundo, mas arrepende-se e acena que não, a empregada sorri.
- Então?- pergunto eu – Qual é o problema?
À medida que vai desfiando o relato noto nele uma certa decepção, talvez porque esperasse ver-me mais interessado e mais do seu lado, em vez do modo neutro com que disfarço a minha surpresa.
Acontece que Luísa, a ex, que ele nem de longe imaginava fosse dada às letras, tinha  escrito as suas memórias. A obra terminada, pedira ao filho que lesse o manuscrito e este, assustado, achou melhor mostrá-lo ao pai antes do texto ir para o editor. Conta ele agora que leu, tomado de uma fúria assassina e mal se  podendo conter ao ver-se ali retratado.
Como não adianta rasgar as folhas -  “a grandessíssima p… tem tudo no computador” - que lhe diga agora o que há-de fazer. E corrigindo: que faria eu se fosse comigo?
- Não fazia nada. Deixava andar.
- Mas ela só lá pôs mentiras!
- E daí?
Ontem mandou-me um mail com o endereço do seu blogue e um grito: "Pus lá tudo! Vá ler!"
Não vou, não me interessa. Ele também só lá deve ter posto mentiras. As suas.
...
Publicado na DOMINGO CM