quinta-feira, abril 25

Bilhetes (11)

Não param os discursos e rebentam os foguetes, mas é bom não esquecer: 

"De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravidão que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoas: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta."

in Portugal, a flor e a foice

sábado, abril 20

Ainda a violência doméstica

A memória desconhece a caridade. Fosse ela bem intencionada, há alturas em que pagaríamos para que desligasse as recordações e nos deixasse no ramerrão do dia-a-dia, ocupados com as idas à farmácia, ao café, ao supermercado, as visitas à família, ou distraídos com guerras e inundações que felizmente acontecem longe. Mas não, a memória não se compadece.
É assim que há meses, ao longo das intermináveis horas de insónia, ela me obriga a recordar um amigo que, como alguns dizem com estranha certeza, Deus tem na sua eterna glória. O bizarro dessas minhas recordações é a seleção, pois embora seja inegável ter sido um homem bondoso, a memória que dele agora me vem parece usar um  filtro, escolhe apenas o episódio em que deu mostras de um terrível carácter. Desse modo e contra vontade, participo num estranho tribunal em que, pela memória, me vejo obrigado a desempenhar vários papéis, menos o de advogado de defesa.
Como desconheço exorcismo que me livre do tormento, e confio pouco nos especialistas que tratam as perturbações do cérebro, ocorreu-me que talvez pudesse encontrar remédio na clássica solução de aproveitar o caso num conto ou romance. Tentei, mas infelizmente, tal como no preparo de certos pratos de cozinha exótica, a receita era complicada, o resultado decepcionou.
Uma amiga que acredita no Purgatório e considera indiscutível o poder da Igreja, acha que a solução talvez esteja em mandar rezar missas para que, limpa de pecado, a sua alma ganhe eterno descanso e a mim seja dada a paz de que preciso.
Fosse eu crente, não precisaria do conselho e há muito teria feito a transacção, mas como o não sou receio que isto vai durar e continuarei preso à visão de  algumas manhãs de domingo: o Bernardino em pijama, pendurado na janela das traseiras, o cigarro a pender do beiço, a caçadeira na mão, olho na mira fazendo pontaria, só disparando em determinadas circunstâncias.
Exagerava ele chamando-lhe “a minha quinta”, embora fosse um bom pedaço de terreno atrás de casa, com macieiras e uma horta de que tratava com o desvelo de que os amadores são capazes. Pouco sofria com a passarada, os gatos é que lhe estragavam o plantio e por isso carregava a calibre 12, sem intenção de matar os pobres bichos, só de lhes cortar o rabo.
Nunca o conseguia, eles tinham melhores reflexos, deve ter sido essa frustração que na manhã em que pela enésima vez D. Gina lhe censurava a mania, lhe gritou antes de disparar contra ela: - Não te mato, mas corto-te um braço!

quinta-feira, abril 18

Bilhetes (10)


                                                              Morte adiada
 
A distância é grande, uns duzentos metros. Sacode a cabeça, ao mesmo tempo que abre a janela e coloca no peitoril a almofada que servirá de apoio, a repreender-se de que só agora lhe tivesse ocorrido. Felizmente, a automática alcança à volta dos trezentos.
Ajeita-se na cadeira, encosta o ombro à coronha. Os dedos mal tocam a roda do visor, as linhas cruzam-se no homem que se afasta do miradouro e se vai sentar  junto do nicho do fontenário. Vê-o debruçar-se, como se tivesse deixado cair qualquer coisa, volta a erguer-se, muda para a sombra e fica agora de costas, meio escondido pela roseira.
As linhas ajustam-se na nuca, mas o tremor fá-las desviar para o ombro, de novo para a nuca. Suspende o respirar, e como numa carícia deslisa o dedo no gatilho, a sentir o metal, mas também não será desta. Tempo de sobra. É mais pelo gozo, a excitação, até pode ser que nunca dispare.
Fica ali um bocado, o pensamento aos tropeções, por fim desmonta a carabina  e guarda-a na caixa, vai repô-la no esconderijo que fez na adega por detrás das pipas velhas.
Para não mostrar que vem de casa, dá uma volta e entra na vinha pelo cancelo, acena aos rapazes que andam a compor o muro, sobe para o lagarteiro.
Liga o motor e aguarda um momento. Gosta do ronco, quando segura as alavancas parece sua aquela força.