segunda-feira, maio 8

Brad Pitt e Angelina Jolie

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Vai fazer trinta e quatro, separa-nos mais de meio século, é compreensível que seja diferente uma boa parte dos nossos interesses. Não que ele se desse conta ou isso me incomodasse, mas estranhei e franzi o sobrolho quando perguntou se eu tinha lido que com Angelina Jolie e Brad Pitt parece que as coisas continuam a correr mal.
Longe estava de imaginar que o intróito não era para o que eu julgava, tão-pouco, se mo pedisse, lhe saberia dar opinião ou conselho, adepto que sou do provérbio “entre marido e mulher não metas a colher”.
Casaram há cinco anos e vivem a vida alegre de quem tem saúde, gosta do que faz e desconhece aflições de fim do mês. Com boa cabeça, fisicamente atraentes, formam um par que, onde quer que chegue, restaurante, teatro, sala cheia, leva uns a voltar-se, outros franzem os lábios, incapazes de esconder a inveja.
Conta ele agora que no Verão passado, em Barcelona, um dia em que tinham sido convidados para uma festa em casa de amigos, despediu-se da mulher no hotel, dizendo que ia dar uma volta, de facto acanhado em lhe dizer que era para comprar uma gravata que lhe agradara.
Chegou ele primeiro, ela cientemente atrasada, como sempre faz, certa do melhor efeito.
- A Marta é muito bonita, mas quer acreditar que a não reconheci? Palavra. Não reconheci a minha mulher. Não era só o vestido, que nunca lhe tinha visto, mas a maquilhagem, o penteado, a altivez!... Não imagino como conseguira aquilo, mas era uma metamorfose total, no meio daquela gente tinha mesmo star quality!
Tossica, pega no copo e volta a pousá-lo sem beber, é como se hesitasse em continuar. Depois lá se decide, mas o relato sai-lhe emaranhado e por isso resumo.
Na manhã seguinte surpreendeu-se a pensar que Marta lhe parecia menos bonita, nem de longe tinha semelhança com a mulher espectacular em que se transformara para os amigos.
Tempos depois, como se fosse sem importância, pediu-lhe que se vestisse e penteasse como naquela noite em Barcelona. Ela recusou e, às gargalhadas, disse-lhe que se acautelasse com fetichismos. Tinha voltado ao assunto duas ou três vezes, mas ela apenas sorrira, dando-lhe a impressão que fazia do caso uma prova de força. De verdade desde esse dia algo mudou, a relação é diferente, é como se tivessem perdido a impulsividade que os unia.
Olha-me, como quem espera uma opinião ou um conselho, mas não sei que dizer. Depois, acanhado, ou talvez apenas para quebrar o silêncio em que ficámos, volta a falar de Brad Pitt e Angelina Jolie.
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Publicado na DOMINGO CM.
 
 

quinta-feira, maio 4

O Ecomodernismo

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Tem você uma horta na varanda? Insiste em só comprar e utilizar produtos biológicos, naturais, de pureza certificada? Não come carne? Está certo que as eólicas contribuem para um mundo livre de energias sujas e perigosas? Contribui para a Greenpeace e outras instituições que defendem a Natureza? Sonha com um planeta sem lixo?
Então, se ainda o não sabe, vou-lhe dar más notícias: vem aí o Ecomodernismo, e essa gente é tanto mais “perigosa” quanto muitos deles são ex-fanáticos dos movimentos ecológicos, lutaram contra o aquecimento do planeta, fizeram distúrbios para acabar com a produção de carne, seguiram simbolicamente ajoelhados as procissões de Al Gore, choraram ao ver os ursinhos a fugir ao degelo dos icebergues. E mais.
Pois bem. Esses que eram contra os fertilizantes,  as centrais eléctricas a carvão, a produção industrial de carne, os químicos na agricultura, os venenos que ingerimos com a comida, e muito mais, são agora a favor.
O movimento começou discretamente em 2004, com a publicação de Death of Environmentalism, de Michael Schellenberger e Ted Nordhaus. Juram eles e os seus seguidores que “uma agricultura que desdenha dos fertilizantes e insecticidas aceita um rendimento menor, aumentando o impacto na natureza”. E que “a sociedade ocidental moderna protege a natureza, enquanto que a antiga sociedade rural a fragiliza.”
Tomo conhecimento destas andanças com o divertido desprendimento que a idade e a experiência me dão, porque já assisti a outras e continuo a achar curiosa a maneira como há sempre gente apressada a abraçar uma nova fé.  

segunda-feira, maio 1

O fim da linha


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Há recordações que chegam inesperadas, como se um espírito maléfico apostasse em perturbar a paz do momento, ou tivesse a intenção de demonstrar que a ideia que fazemos de nós próprios está sujeita a mudanças e revelações dolorosas que, as mais das vezes, são o bastante para cairmos no desespero.
Ele há muito sabe isso, pela sombria experiência que cabe a tantos homens da sua idade, aqueles que, mau grado uma situação de conforto e uma vida familiar  a que, sem sombra de ironia, geralmente se referem como “mais ou menos feliz”, mesmo assim não escapam aos momentos que nem são de introspecção, mas de involuntário confronto com ocasiões passadas, oportunidades perdidas,  horas de hesitação na escolha.
Momentos depois de ouvir o riso da mulher e das filhas e o som da porta a fechar, ergue os olhos do jornal, consciente do silêncio do apartamento e tomado de uma inexplicável sensação de desconforto.
Acende um cigarro, vai debruçar-se na varanda, vê-as atravessar a calçada, a acenar-lhe antes de desparecerem na esquina. De súbito, sem transição, embora continue a olhar e consciente do burburinho, sente-se angustiado, toma-o o sentimento que se lhe tornou recorrente, de por desleixo ou cobardia ter  “perdido o comboio”.
A chegar aos sessenta, há muito tem consciência de ter perdido os vários comboios que passaram na sua vida. Umas vezes sem se dar conta, outras por atraso, algumas por distracção, mas também, e com mágoa no íntimo o confessa, por ter acreditado que se uma aventura findava, outra lhe sucederia.
Ela, a meio dos vinte, ainda ignorava que na vida há comboios e apeadeiros, transbordos, horários e atrasos. O acaso juntou-os numa livraria, involuntariamente a sorrir, quando em simultâneo perguntaram ao empregado pelo mesmo título. Hesitaram na caixa, hesitaram depois à saída, por fim foi ela que tomou a iniciativa, falando do livro e doutro que tinha lido, ele a dizer que desconhecia o autor, ambos descobrindo com surpresa a esplanada ali em frente, e que sim, estava uma tarde linda.
- Café?
Sorrisos, ternura, o modo de se verem a completar a frase que o outro tinha começado, tudo era anúncio do que poderia acontecer. E aconteceu. Romance, paixão, mas também fogo fátuo, o brilho depressa embaciado com as  incompreensões e os desencontros.
Para ela fora o primeiro comboio, e quis perdê-lo, certa de que muitos viriam. Mas ele, como imóvel num cais, ao vê-la voltar-lhe as costas teve consciência de que se apeara do último, que era ali o fim da linha.
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Publicado na DOMINGO CM.