terça-feira, março 7

Profecia

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“Público”:
“Pressão dos estudantes trava organizadores de conferência com Nogueira Pinto”
Grupo que organizava o evento na Universidade Nova foi considerado "nacionalista e colonialista" pela Associação de Estudantes.”
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Como a História se repete, tomem nota dos nomes destes “revoltosos”, pois eles, sem falha, farão como os avozinhos de Maio de 1968: daqui a dez, quinze anos, hão-de vê-los sentados na ONU, na EU e semelhantes, ou nos Goldman Sachs que então houver.
 

segunda-feira, março 6

O senhor Mayer

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Durante uns vinte anos fui cliente fiel do senhor Mayer. Quando ele se reformou e a garagem mudou de proprietário, mudei também, porque nem o serviço se comparava, nem se sentia ali a presença das pequeninas coisas que são o íman da simpatia.
Uma vez por outra, ao acaso de uma vistoria ou de um contratempo na garagem, recordo a competência do senhor Mayer e do seu pessoal, todos animados por um admirável espírito de equipa e a obsessão fanática de resolver as avarias mais complicadas. Mas o tempo passa, a memória esvaece, as pessoas desaparecem aos poucos na sombra do passado.
Dessa sombra saiu o meu saudoso garagista dias atrás, quando abri o jornal, e pela milionésima vez me surpreenderam as voltas do  Destino.
O senhor Mayer mantém viva a paixão pelos carros, e para se entreter, mas também para provar a sua competência mecânica,  pelas próprias mãos construiu ele um, tão excepcional que causa admiração nas exposições. Mas o que vem  agora ao caso não é o seu talento, sim a sua história de menino.
Tal como eu, em 1942 tinha ele doze anos. A família, muito pobre e judaica, vivia no terror permanente de ser deportada, desde que dois anos antes os alemães tinham invadido a Holanda, prendendo os judeus e levando-os para os campos de concentração.
O Destino intervém na manhã em que a mãe o manda ir à mercearia, e os vizinhos, no momento em que ele regressa não o deixam passar, porque logo adiante os alemães procedem a uma razia dos judeus. O miúdo vê os pais, a irmã e os avós desaparecer num camião, conta agora que, como que num estado segundo, não sentiu medo, nem sequer estranhou que os vizinhos, em vez de o ajudar lhe dissessem que fugisse.
Nessa noite e muitas depois dorme em vãos de escada, come o que rouba nas lojas, mas arranja  trabalho como aprendiz de serralheiro. Ao receber o primeiro salário descobre que, sabendo-o judeu e à mercê da sua denúncia, o patrão não é honesto. Procura outro. Depois outro. E aos poucos vai aprendendo: serralheiro, bate-chapas, mecânico, até que, a guerra há muito passada, finalmente tem o bastante para ser patrão.
O jornalista quer agora saber se o senhor Mayer sentiu muito a falta da família, se lhe custou.
- É estranho, mas depois daquele terrível momento nunca mais pensei neles.
- Nunca?
- Só uma vez. No dia em que abri a garagem disse comigo que gostaria que o meu pai pudesse ter visto aquilo.

O medo, a força de vontade, o Destino, o instinto da sobrevivência, quantas serão as forças que nos empurram? Quais serão as que nos salvam? 
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Publicado na DOMINGO CM


sexta-feira, março 3

O mundo que aí vem

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A leitura é muitas vezes uma forma de conversa. Estive a "conversar" aqui com José Mendonça da Cruz. Agradeço, dou-lhe parabéns.

quarta-feira, março 1

Oitenta mil

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Willem Holleeder (1958) foi em Novembro de 1983 um dos raptadores de Freddy Heineken, o magnata da cerveja, nunca tendo sido recuperada boa parte dos milhões pagos pelo resgate.
A sua vida é uma de crimes, assassinatos, extorsões, chantagens, aterrorizando a família e os amigos e, mais ou menos, os que têm a pouca sorte de atravessar o seu caminho. Actualmente cumpre uma das suas muitas penas de prisão, para o que desta vez contribuiu a confissão das suas irmãs, certas de que pouca possibilidade têm de escapar com vida quando ele sair da cadeia. Uma delas, Astrid Holleeder, advogada, escreveu um espectacular e emocionante retrato do irmão e do terror sofrido. Para a autora e para o editor uma variante do Euromilhões: vendeu oitenta mil exemplares no dia em que chegou às livrarias.