segunda-feira, fevereiro 13

Sal na ferida

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Agora que o Ministro mente, o Primeiro-Ministro esquece, o Presidente da República não se ouve, recordo esta triste confissão, feita aqui pela primeira vez seis anos atrás, e que tantas vezes repito, incapaz de esquecer a mágoa.


Precoce na leitura, cedo comecei a sonhar e a ter pena do meu país. Aprendi que lá longe havia outros sem medo nem miséria, de leis justas, menos desigualdade, menos desespero, os seus cidadãos e governantes mais interessados no futuro do que em glórias passadas.
Parti, quando a minha hora soou. Ingénuo bastante para me maravilhar, mas cedo consciente do fosso entre a realidade que observava e os sonhos que tivera. Além fronteiras não havia paraísos, mas sociedades onde a esperança de melhoria era um facto, a desigualdade menos gritante, a repressão inexistente, a liberdade um direito sagrado. Fui vendo, estudando, comparando, e continuei a ter pena da terra onde nasci.
Não me entusiasmou depois o florescer dos cravos, e espero o investigador de hombridade que faça a barrela desse momento histórico, mostre os interesses que a ele levaram, ponha nome nos fantoches e em quem segurava os cordéis.
Passaram os anos. Sentindo mais funda a pena, vi o meu país de mão estendida. Com espanto vi-o depois a esbanjar o que não tinha, governantes e governados dando o espectáculo da mais incrível pelintrice, de uma inconsciência que só dos pobres de espírito se espera, tomando por realidade o país de Cocagne.
Vivendo no conforto de uma sociedade rica, justa, bem organizada, materialmente não sofro com a desgraça daquela em que nasci, mas nem por isso me dói menos o esfregar sal na ferida.
Curioso povo, o meu, onde gente supostamente séria e competente enrouquece a gritar que as dívidas dos países não se pagam. Para que fingem? Com que fim iludem? Pagam, e com língua de palmo, que quem dita os termos não é o caloteiro, mas aquele que tem numa mão a faca e o queijo, e na outra a corda com que o enforca.
Com tristeza o digo e consolo não sinto: na minha idade é nula a esperança que tenho de ver Portugal sair do atoleiro e da miséria. Resta-me o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, construam um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói.

segunda-feira, fevereiro 6

A ameaça de Wilders

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Com justificada razão anda a classe política holandesa aflita com o que pode vir a acontecer nas eleições em Março, pois nunca foi tão grande a expectativa, nem tão complicado o prognóstico.
É que não se trata apenas da probabilidade de o PVV, o partido de Geert Wilders, alcançar uma estrondosa vitória, mas também por ser grande a insatisfação para com os políticos e a desconfiança dos eleitores.
Dentro ou fora do governo, seguros de si e indiferentes ao que mostram de desdém, afirmam os políticos holandeses, e também o geral dos media, que o eleitor não merece confiança. É um tonto (sabem-no eles bem) que acredita em promessas mirabolantes, se mostra incapaz de pensar pela própria cabeça, e “deve ser protegido contra as escolhas que faz.”
Agora acontece que se há país onde os cidadãos tomam a política a sério, esse é de certeza a Holanda. Nos anos 70 um pouco mais de metade dos cidadãos dizia-se satisfeita com as instituições e o seu funcionamento, essa percentagem alcança actualmente 75 porcento. E desde há quinze anos para cá, nas  legislativas mantém-se estável o número de abstenções, 25 porcento, um resultado apenas ultrapassado nas eleições em países diminutos como o Lichtenstein ou o Mónaco.
Mas se nas legislativas de Março não é o funcionamento das instituições que está em causa, o mesmo não se pode dizer a respeito das consequências da atitude elitista do governo e dos partidos que, segundo as previsões, irão ser confrontados com uma novidade: um grande número de eleitores deixará de votar “tradicionalmente”, isto é, seguindo o exemplo da família, os conselhos da religião, ou obedecendo às directivas dos sindicatos.
Todavia, qualquer que seja o resultado, é improvável que uma vitória de Wilders tenha como consequência a sua ascensão à chefia do governo, pois não seriam poucos os obstáculos a enfrentar, começando pelo facto do seu partido, que continua a ser “excomungado” pelas elites, não dispor de quadros suficientes.
Dada essa “excomunhão”, também nenhum partido se mostra disposto a coligar-se ao PVV, o que pode vir a criar uma situação pouco democrática, a de o partido vencedor se mostrar incapaz de corresponder à vontade dos eleitores.
Na hipótese de que tal venha a acontecer, isso confirmaria o sentimento de que a elite pouco caso fará do resultado das eleições, o que já levou Wilders a declarar: “Se ganharmos e nos puserem de lado, quem se vai queixar de que sairemos à rua a protestar?”
Essa é a possibilidade que, com razões de sobra, a muitos assusta.
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Publicado na DOMINGO CM.



sexta-feira, fevereiro 3

News, no news

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"Memory is a staple of this book - memory in a time of organised forgetting: of saturating pseudo-information and the truth inverted. In 2009, President Obama stood before an adoring crowd in Prague and promised to help 'make the world free from nuclear weapons'. This was front-page news. Obama has since approved plans for an arsenal of nuclear weapons costing $350 billion, an all-time record. This is not news".

in The New Rulers of the World - John Pilger.

quarta-feira, fevereiro 1

A grande teta

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É interessante, mas está longe de ser novidade, o que anuncia a Transparency International, de Berlim, um organismo que estuda a corrupção.
Diz o seu relatório que mais de metade dos eurocomissários que em 2014 legislavam em Bruxelas, são agora empregados como lobistas de empresas internacionais. O mesmo acontece com um terço dos que então eram eurodeputados.
Nada contra, diz a Transparency International, desde que não haja conflito de interesses. Mas é esse mesmo conflito de interesses que, por exemplo, se constata nos 115 casos de políticos que foram trabalhar para a Google, ou altos-funcionários da empresa americana que passaram para as instituições europeias.
Durão Barroso, de quem se sabe que já durante o seu mandato como presidente da Comissão Europeia mantinha contactos com a Goldman Sachs, e a comissária holandesa Neelie Smit Kroes, agora na direcção da Uber, são exemplares nesse  desdém pela aparência ou a realidade de que haja conflitos de interesses.