terça-feira, janeiro 10

Pai da Pátria

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Façam-lhe o enterro, respeitem-lhe a memória, dêem os pêsames à família, mas deixem-se de tretas e de apregoar que ele nos trouxe a liberdade e a democracia. Não trouxe. Essa devemo-la à Alemanha de Willy Brandt, à Holanda de Joop den Uijl, a Henry Kissinger e ainda, entre mais uns quantos, aos banqueiros e empresários que sabiam que com o regime de Marcello Caetano nunca Portugal poderia entrar no Mercado Comum.
O texto que segue publiquei-o anos atrás, é a voz do povo a fazer contrapeso à lamechice das elites
 
Seria longo detalhar as razões da minha antipatia por Mário Soares como figura política. Datam de Paris, no começo dos anos 60, e permanecem. Tenho também pouco apreço pelos que, ingénuos ou ignorantes da História, e dizendo-se eternamente gratos, se lhe referem como "o homem que nos trouxe a Democracia." Não trouxe. As peripécias são outras e menos simples.
Mário Soares desagrada-me ainda como pessoa, pois simboliza aquilo que detesto e de que desdenho na burguesia portuguesa: a falsa pachorra, a jovialidade de pechisbeque, o modo paternal, o sorriso pronto, a mãozada, os Ora viva!, a festinha aos humildes; por detrás de tudo isso a ganância, o cálculo frio, o desprezo do semelhante, a presunção, o sentimento bacoco de casta, os rapapés, a mediocridade.
O senhor Mário Soares sabe o que dele penso. Isso, contudo, parece não obstar, pois tenho recebido os seus livros, autografados, e surpreendeu-me um Natal, enviando um retrato seu, dedicado "Ao meu caro amigo J. Rentes de Carvalho".
Surpresa tive-a também um dia em 1998, quando o competente e muito amável João Rosa Lã, então nosso embaixador em Haia, me telefonou anunciando:
- O Mário Soares vem cá almoçar e pediu que o convidasse, pois quer muito falar consigo.
Lá fui. Seríamos cinco ou seis, mas o cordial ex-presidente como que se apoderou de mim e, esquecendo os outros, esmiuçou longamente, miudamente, a sua visão da política portuguesa.
Fui ouvindo, e em determinado momento, para rebater o que ele afirmava disse-lhe:
- Mas isso, senhor presidente…
- Já não sou presidente! Chame-me Mário.
Agradeci, recusei, disse-lhe que da minha parte acharia indecorosa a familiaridade, se bem que...
- Se bem que?
- Dá-se o caso que o senhor presidente e eu já dormimos na mesma cama.
Contei-lhe depois a história, resumindo os detalhes e escondendo o remate.

Deve ter sido em Setembro de 1948, os dezoito anos feitos, que o Dr. Armando Pimentel, amigo e mentor, me convidou para um jantar em Macedo de Cavaleiros, onde padres ricos e proprietários abastados iam festejar a excepcional colheita de trigo e centeio desse Verão.
De Estevais a Macedo leva-se menos de uma hora, naquele tempo dava a ideia de se ter feito grande viagem. Amesendámos na então já nomeada Estalagem do Caçador. Éramos muitos, eu o único jovem, sei que se começou com alheiras e chouriças, a seguir perdiz, borrego, leitão. O resto sumiu-se da memória.
Uns trinta anos depois aconteceu-me passar por Macedo com a minha mulher, almoçámos na Estalagem, iniciando uma espécie de ritual, e desde então vezes sem conta lá comemos e pernoitámos, criando boa amizade com a D. Maria Manuela, que com simpatia e perícia dirigia o estabelecimento.
É ela que nos acolhe uma tarde de muito calor, manda preparar refrescos e, enquanto beberricamos e coscuvilhamos, diz que nos reservou um quarto especial.
Sobe connosco, abre a porta, e anuncia com maliciosa solenidade:
- O Mário Soares dormiu aqui ontem!
No fundo achamos desagradável a nova, é como se as exalações do corpo e da personalidade do homem ainda flutuem no aposento, mas sorrimos, dizemos umas palavras de circunstância, a D. Maria Manuela despede-se.
A empregada, transmontana, retornada de Angola, espera que a patroa desça, encosta a porta, e rosna, truculenta, ao mesmo tempo que nos agarra pelos braços:
- É verdade! O filho da puta dormiu aqui! Mas estejam descansados, que já desinfectei!
  

segunda-feira, janeiro 9

E se Donald Trump acertar?

O ano que passou foi um encadear de guerras, atentados, desgraças à escala bíblica, dando motivo de sobra para nos perguntarmos que tragédias nos esperam. Todavia, é quando as notícias são más e as previsões desfavoráveis, que mais razão temos para nos agarrarmos a tudo o que traga uma réstia de esperança, pois bem pode ser que no que nos espera não haja apenas negrume, e se distinga também alguma claridade.
A eleição de Donald Trump foi a grande surpresa, dado que talvez mesmo aos que nele votaram tenha custado a acreditar que a vitória fosse possível. Mas foi, razão porque, guardando uma avisada desconfiança, se possa  tirar daí algum optimismo, pois mesmo que o presidente Trump nem de longe cumpra as promessas feitas - a bazófia e o acenar com melhorias são inerentes à política – a força das circunstâncias, de par com o sentido realista  de homem de negócios, por certo o levarão a aproximar-se da Rússia.
E o mais provável é que Putin o receba de braços abertos, dado que o seu grande país não pode resistir indefinidamente ao gasto colossal a que obriga a manutenção do aparato bélico, às consequências do baixo preço do petróleo e às sanções do Ocidente. Nessa eventualidade pode bem acontecer que se repita a détente dos anos 80, quando o presidente Reagan estendeu a mão a Gorbachev.
Os políticos que governam a UE serão os primeiros a desconfiar da inesperada amizade, mas não dispõem de meios (os EUA financiam 80% da NATO) para impedir um eventual avanço da influência da Rússia no  Báltico. Por outro lado, se a UE se comprometer a acarinhar menos a Ucrânia, talvez Putin prometa deixar em paz os Balcãs, e se acabe com a astronómica despesa que é o apontar de canhões de um e do outro lado das fronteiras.
Contudo, nem por isso serão menos os motivos de inquietação, já que a derrota do Estado Islâmico vai provavelmente resultar em vagas de terrorismo que nos podem trazer a barbárie a que assistimos na Síria. E para mal de muitos, se não de todos, basta que um bando de fanáticos realize um atentado espectacular  antes das eleições, e Marine Le Pen poderá finalmente realizar o sonho de ser a primeira mulher a tornar-se presidente da França.
Segundo alguns analistas que têm mostrado autoridade, o desassossego que uma vitória da madame provocará na Alemanha, de par com o desejo que esta não esconde de se descartar das economias mais fracas, será o golpe de misericórdia para a união monetária.
Porém, se tal acontecer, "talvez surja então a eurozona a que muitos aspiram: de menores dimensões, mas uma em que os acordos sejam respeitados. E com esse alicerce a Europa poderá reencontrar a força que lhe vem da sua diversidade."
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Publicado na CM Domingo.

domingo, janeiro 8

O cântico das marés

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"...e quando um dia, numa hora por ti não esperada, os filhos dos nossos filhos por mim perguntarem, levanta os braços, abraça o céu e diz -lhes que estou por aí. No azul das fragas, no cinzento das pedras, no verde das ervas onde o milagre  da criação perpetua a vida, e o tempo do nunca corre na eternidade de todos os tempos. Que as tuas lágrimas não ensombrem seus olhos de meninos. Que o tremor da tua voz não lhes cale os hinos ao futuro de todas as esperanças, ao contentamento de todas as conquistas. Ergue a cabeça e junta à deles a tua e a minha voz.
Com eles celebra a vida. O cântico das marés, o brotar do dia nas cumeeiras das serras, o abrir de asas dos milhafres em voos rasantes aos campos de milho, os gritinhos vermelhos das papoilas nas searas ébrias de sol.
Conta-lhes como eu, filha dos montes, altos montes, atrás dos montes concebida e gerada,  deixei meus pés aí lançarem raízes e nas mãos tomei a lonjura de outras terras, de outras gentes.
Não lhes fales agora da minha dor. Que sejam eles, por enquanto, estranhos às minhas trevas, às minhas renúncias, à minha nesga de firmamento que o meu sofrimento me negou.
Não contes, para já, aos filhos dos nossos filhos como, acossada pela peleia entre a morte e a vida, pedra a pedra, angústia a angústia, dentro de mim um eremitério construí. Refrigério de esmigalhadas forças em esforçados sorrisos, alento, alor para seus pais, nossos filhos..."
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Este texto de Maria da Piedade Barroso Martins, autora inédita, chegou-me sem título. Atrevi-me a baptizá-lo " O cântico das marés", partilho-o com a emoção que provoca um texto  desta qualidade.

sábado, janeiro 7

Os Junckers deste mundo

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Frases do economista americano Arthur Laffer (76) numa entrevista ao semanário neerlandês Elsevier.

"No que respeita a Economia, a ideia mais perigosa do nosso tempo é a de que um governo despesista cria prosperidade. Grande treta. Os bancos centrais não são geridos pela fadinha dos dentes, o Pai Natal não trabalha na Casa Branca. Um governo não cria prosperidade, distribui prosperidade. E se tira alguém de dificuldades, essas dificuldades vão calhar a outro."

Acerca das ideias de Piketty sobre uma mais justa distribuição da  riqueza entre ricos e pobres:

"Deixe-me explicar-lhe: Porque razão são tão elevados os impostos sobre o tabaco? Para desencorajar os fumadores. Porque razão multa o governo os condutores que excedem a velocidade ? Porque não queremos isso. Mas então, porque motivo tributamos as pessoas que trabalham? Se se tributa o trabalho e se dão subsídios àqueles que não trabalham, castigam-se os que trabalham e beneficiam-se os ociosos."
"Eliminem-se todos os impostos, menos dois: sobre o álcool e o tabaco, e estabeleça-se uma taxa única para todos os rendimentos provenientes do trabalho ou do capital. Haja um mínimo de regulamentos, mantenha-se a moeda estável, e fique por aí a intervenção do governo."
"A UE é uma operação estatal, na qual o povo não tem direito a voto…Juncker comporta-se como um dono, não como um servidor da coisa pública… Os Junckers deste mundo são inimigos do povo e da prosperidade."

quarta-feira, janeiro 4

O Bolas

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Sou pouco de gatos, mais de cães, mas o Bolas tem carácter e montes de simpatia.

terça-feira, janeiro 3

988.000

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Entre Janeiro e Setembro de 2016 foram feitos 988.000 pedidos de asilo na União Europeia, dos quais:

- 658.000 na Alemanha
-   85.000 na Itália
-   63.000 na França
-   24.000 na Holanda
-     5.300 na Dinamarca (21.000 em 2015).
 

domingo, janeiro 1

Triste profecia

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Marcello Caetano, sobre o 25 de Abril: 

“Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.
Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.”
………..

Citado aqui.