sexta-feira, novembro 11

Birras

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Os avôs e as avós dançaram em Woodstock, cantando Make love, not war, fazendo de conta que a vida deveria ser aquilo. Os pais cresceram e procriaram ao som do Rock n Roll, embalando-se de ilusões. Agora os miúdos – dezenas de milhar, assustam-se os media – birram e fazem beicinho, batem o pé. Não querem este presidente, mas que lhes tragam outro, um que garanta sol na eira, chuva no nabal, muito Woodstock como o dos avôzinhos,  e um mundo lindo, limpo, pacífico.
Guerras? Que guerras? Fome? Onde é que há fome? Que refugiados?
E vão-se dali  à Starbucks, escolhem um bolo, pedem um caffè macchiato à "figura deplorável" atrás do balcão.

quinta-feira, novembro 10

Os profetas

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Continuam os profetas e comentadores cheios de razão, todos no segredo dos deuses, com linha directa para as catacumbas onde o poder se esconde e as decisões se tomam, irritados porque não quiseram ouvi-los, eles, que desde há muito sabem como deve ser e se deve fazer.
Prometem estes a destruição de Sodoma e Gomorra,  garantem aqueles que não vai tardar: as manifestações de rua são prenúncio de guerra civil. Armados até aos dentes, os labregos do Texas vão invadir a Califórnia e, à maneira do IS, degolar os portadores dos cartazes "Trump is not my presidente". Escaparão talvez os gays que emigram para o Canadá, as celebrities para a Côte d'Azur, e  os rappers, que correrão a sapatear noutros palcos.

Feliz o que trabalha das nove às cinco, com pouco tempo para se dar conta que vive num mundo de pacotilha, cheio de ilusões, verdades e certezas do Facebook.
 


quarta-feira, novembro 9

The day after

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Os que sonharam, livres de fanatismo, mas esquecidos da realidade, talvez tenham algum proveito lendo isto e se dêem conta de que há mais mundos do que o das suas ilusões.

domingo, novembro 6

Jorge de Sena

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Nunca fui muito de ler correspondências literárias, mas talvez por ter brevemente lidado com Jorge de Sena, e apreciar a sua prosa, a curiosidade levou-me a lê-lo. Da tarde da passada sexta-feira, até esta madrugada. Torcendo o nariz numa ou noutra passagem, divertido com as cortesias de ambos os correspondentes e o veneno de Sena, de que ficam aqui dois exemplos:
Menino do Restelo, diz ele dos colegas da presença - com minúscula: "essa gente que toda conheci como mesquinha e dúplice...nenhum se aristocratizou como artista para cima do balcão de secos e molhados, ou de ourives, com que os pais lhe pagaram os estudos que fizeram ou não. Foram a chegada da pequena-burguesia, provinciana e rasca, à literatura" (pág. 295).
" A desgraça portuguesa é sermos, com raras excepções, um país de putas, ou de filhos da puta, ou de sujeitos que acumulam as duas qualidades. Ainda por cima nem de grande cidade: todas e todos de Vila do Conde, Vila Real, profundas dos Alentejos, sem terem perdido o ranço de lojistas ou a malícia dos campónios. Porra para a classe média promovida das províncias, que nunca soube aristocratizar-se, nem tomar banho senão para ir à missa." (pág.301) 
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A vaidade de Eugénio de Andrade enfastia.

sábado, novembro 5

O que penso de Trump?

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Foi daquelas paixões a que os românticos chamam avassaladoras. Casaram num país onde as palmeiras se curvam à brisa, a areia das praias é branca, o sol brilha sem falta, os indígenas sorriem como quando ainda havia Paraíso.
Surpresa na noite de núpcias: ela, virgem, pediu-lhe que esperasse. Esperou. Depois semanas, meses, torturado pelas forças contrárias do desejo, do amor, da decepção. Ela finalmente cedeu, mas a ocasião deixou em ambos má lembrança, o sexo viria a ser esporádico, sem alegria nem gozo.
Parecerá bizarro, mas esses são os mistérios da alma, viviam em paz. Depois a meia idade veio, e um dia, por uma futilidade, a tempestade rebentou, gritaram-se os desesperos, as raivas, as ilusões perdidas, as culpas mútuas, a recordação do amor que os devorara.
Conta que nesse momento a poderia ter matado, mas à noite, na cama, quando os corpos por acaso se tocaram, amaram-se como tinham sonhado e nunca acontecera: com fúria, com paixão, acendendo todos os lumes, queimando neles o passado.
- É estranho, não é? – diz ele, parecendo estonteado pela confidência.
Olha o relógio, e numa inesperada mudança pergunta-me o que penso de Trump.
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Publicado no CM e aqui

sexta-feira, novembro 4

O ministro mentiu?

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Mas qual é o espalhafato? Há então ministros que não mentem?