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terça-feira, abril 25
segunda-feira, abril 24
Medrosos e deploráveis
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É lugar-comum, por
vezes uma brincadeira, mas em certas ocasiões quase se toma a sério e não
resiste a gente a dizer que, de uma maneira ou doutra, “isto anda tudo ligado”. Acontece assim que
ouvi pela primeira vez falar do nome Bertelsmann, quando em 2009 a Quetzal
editou o meu ‘Com os Holandeses’, mal fazendo ideia de que a empresa, então
proprietária da Bertrand e que pouco depois a venderia à Porto Editora, não
era, como eu supunha, uma qualquer editora alemã, mas um conglomerado de
emissoras de televisão e um dos gigantes multimédia a nível mundial.
Quis recentemente o
acaso que a leitura de uma crónica no semanário holandês ‘Elsevier’ viesse despertar
a minha curiosidade, aprendendo aí a existência de uma Fundação Bertelsmann
(‘Bertelsmann Stiftung’), não só casa-mãe da empresa, mas com importantes actividades de lobby junto dos organismos da
União Europeia, nas quais despende anualmente para cima de 4 milhões de euros, ‘dando
a impressão de nesses organismos viver de portas adentro’.
Poderosa como é, a
Fundação Bertelsmann tem uma inegável influência na vida política alemã e na
orientação das elites, a ponto que, segundo o cronista, ‘a quem quiser estar ao
corrente das tendências da sociedade e da economia alemã basta a consulta dos
relatórios da fundação’.
Num desses
relatórios, em Novembro passado, era questão de analisar a atitude dos cidadãos
relativamente aos problemas da mundialização, inquirindo-se dos interrogados se
a consideravam uma ameaça ou uma oportunidade. Uma pequena maioria, 55 porcento,
respondeu que será uma oportunidade, enquanto que 45 porcento vê na
mundialização uma ameaça. Porém, conclui o relatório, estes últimos são
sobretudo os que, dispondo de baixos rendimentos, com um nível de educação
inferior e já idosos, tendem a simpatizar com os partidos populistas da direita.
Foi ao ler isso que recordei as afirmações de Hillary Clinton,
pois pelos jeitos não lhe cabe o exclusivo de considerar “deploráveis” aqueles
que vêem uma séria ameaça na imigração massiva e falam abertamente do medo que
os assalta ao terem consciência dos perigos que ressentem.
Termina o cronista
afirmando que ‘pelos jeitos a elite alemã tem ideias bem diferentes das
daqueles que considera serem medrosos e populistas da direita, e o seu desejo
não é que a imigração diminua, mas aumente.’
Com que fim, e
para defesa de que interesses, só o tempo o dirá, mas é pouco provável que
então, como agora, os “deploráveis” tenham voz que se faça ouvir.
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Publicado na DOMINGO CM.
segunda-feira, abril 17
Os fossos que nos separam
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O sermos um país pobre e periférico põe-nos a salvo da
problemática da imigração massiva e dos refugiados, o que na Europa rica
têm por consequência uma acentuada clivagem na sociedade, resultando num
extremismo de sentimentos e opiniões de mau agouro.
Todavia, se as circunstâncias contribuem para que
escapemos a tão grande problema, outros há criadores de fossos que a todos
afectam. E esses são de tirar o sono a quem deles toma consciência, esteja o
cidadão no início da sua carreira ou carregue nos ombros a responsabilidade
pelo futuro dos filhos.
Para começar, espera-se que a curto prazo a
digitalização ponha fim a várias profissões técnicas e administrativas,
resultando daí que metade dos actuais estudantes do ensino secundário
profissional não irá encontrar emprego. Essa ameaça estende-se igualmente a
cursos universitários, como os de contabilidade, economia e semelhantes.
Rico ou pobre, nenhum país escapa ao fosso cada vez
mais acentuado entre a província e a cidade, esta sendo sinónimo de juventude e
dinamismo, enquanto aquela se distingue pela velhice dos habitantes, a falta de
recursos, a tendência dos governos em considerá-la um refugo e, no melhor, bom
local para instalar eólicas.
Maior do que nunca é a diferença entre as gerações.
Uma das características de mudança nos anos 60 foi a do chamado fosso
geracional, tendo a juventude passado a ser a norma, com os idosos a verem-se
relegados para um terceiro plano, tanto económico como afectivo e, no geral,
deixando de usufruir do respeito que até então lhes costumava ser devido.
É facto que o actual nível de vida não sofre
comparação com o de há cinquenta ou sessenta anos atrás. Porém, em todos os
países europeus se constata que os pobres se tornam cada vez mais pobres, ao
passo que os ricos não param de enriquecer. Desde 1995, segundo as
estatísticas, dois terços dos cidadãos europeus viram diminuir o seu poder de
compra. Curiosamente, enquanto aumenta a oferta de emprego para os que têm um
curso superior e, na prestação de serviços, para aqueles que ficaram pelo
ensino básico, diminuem as possibilidades da classe média, que vê perigar a sua
segurança e enfrenta uma maior concorrência, com o risco de descer ao nível da
pobreza.
Um ponto
positivo: factores como a classe social ou a família são cada vez menos
determinantes, contando sobretudo o do nível dos estudos, situação
particularmente favorável no caso das mulheres, que assim vêem aumentar as
possibilidades de independência.
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Publicado na DOMINGO CM.
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