segunda-feira, abril 10

O calote de D. Ângela

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A fotografia era a do costume e o comunicado, também como de costume, falava de um ambiente cordial, entendimento mútuo, solidariedade, pelo que deve ser essa a razão que só aqui e ali, em letra miúda, se referiu a cena nos bastidores, em que o presidente Trump pregou um susto a D. Ângela. Sem lhe chamar caloteira, pôs-lhe diante dos olhos a folha de papel onde, secamente, tinha mandado imprimir a conta em dívida, nada menos que os 290 mil milhões de euros que a Alemanha desde 2002 deve aos Estados Unidos pelos custos da NATO, acrescidos de 55 mil milhões em juros.
Compreende-se o abalo da senhora, e que ela, deitando uma olhadela vesga ao papel, se tenha abstido de lhe tocar, chocada de se ver nos antípodas dos salamaleques e punhos de renda que são o folclore das chamadas “altas esferas”. E assim pronto surgiu um ministro alemão que, a coberto do anonimato, explicou aos “media” que “esse tipo de exigências são feitas para intimidar, mas a chanceler manteve-se muito calma e não vai reagir à provocação.”
As “altas esferas” da NATO comentaram no mesmo tom, mas corre que não tardará a que os países da aliança comecem a pagar os 2% do PIB que devem aos EUA, se quiserem que esse generoso país continue a fazer de guarda-costas.
Todavia, referindo o caso, devo dizer que me diverte menos a cena com a chanceler alemã, do que imaginar o que terá passado pela cabeça dos vários presidentes e primeiros-ministros, sempre apressados em irem à Casa Branca apresentar cumprimentos e oferecer amizades.
Ora como “o Donald”, além de fracas maneiras se mostra imprevisível, o visitá-lo  não parece isento de risco. Também o dizem pouco versado em geografia. Por certo será capaz de no mapa apontar a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Rússia, talvez mesmo o Uzbequistão, onde costumava ir a negócios, mas é improvável que faça ideia de em que parte do mundo se encontram a Hungria, a Albânia, ou mesmo o nosso Portugal.
Assim sendo, e apeteça ele viajar para Washington a satisfazer a sua conhecida ânsia de criar amizades e distribuir sorrisos, estou certo que ao afectuoso Presidente Marcelo seria poupada a apresentação da factura – peanuts, comparada às dos outros – mas nada garante que “o Donald” respeite o protocolo e, dada a sua intemperança, seja bem capaz de uma inconveniência. Por isso, caso a febre das visitas os ataque, ao nosso e outros presidentes será mais avisado irem cumprimentar o Papa, o rei da Suécia, ou o príncipe do Mónaco, porque esses não fogem à regra.
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Publicado na DOMINGO CM.

segunda-feira, abril 3

A rapariga do niqab

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Pobre de mim e dos outros como eu que, vendo, medindo e ajuizando por padrões fora de moda, desactualizados que baste, ameaçamos perder a tramontana, porque o mundo não é como nos parece e, julgando-nos ainda nele, provavelmente estamos já fora, com o percalços que isso acarreta.
Porque, sejamos francos, adianta ter princípios? Ser livre e consequente em todo o tipo de escolhas, sejam elas políticas, morais, sociais, sexuais? Remar contra a maré, só porque achamos que, embora custe e canse, é essa a boa direcção?
E que tempo é este, em que não posso atravessar a rua sem temer o meu próximo, desconfiar dele, examinar-lhe primeiro o rosto antes de lhe dar os bons-dias?
Há felizes, ou ingénuos, convictos de que o mal, o desastre, o atentado, acontece sempre aos outros, sempre longe. Porém, eu e os meus iguais não dormimos descansados, sentimos  o mal à porta, lemos com tristeza os cabeçalhos: “Tudo o que deve saber sobre o atentado de …” Como se esse “saber” possa ter utilidade, nos ajude a compreender a tragédia, ou de qualquer modo contribua para podermos sair à rua com o desprendimento e a liberdade a que julgamos ter direito.
De vez em quando escrevo aqui histórias da carochinha, umas vezes casos, outras amores, tristezas domésticas, vidas de garagistas, e um ou outro leitor com razão se perguntará se a idade não me está a pregar partidas, se as artérias já não me irrigam o cérebro com sangue suficiente, ou o meu interesse está a escorregar para a superficialidade. A quem isso teme posso com verdade afirmar que ainda assim não é, mas que para meu desassossego talvez nunca eu tenha visto com tanta clareza o mundo que me rodeia, nem nunca antes tenha sentido tão grandes medos, aqueles em que, mais que a segurança minha e alheia, conta a visão de que talvez não demore a que percamos tudo o que, mais do que o bem-estar pessoal ou o conforto, nos deve ser caro: a liberdade; a crença nos valores da civilização em que nascemos, fomos criado e temos vivido; a riqueza das artes e da literatura; e sim, mesmo que já comecem a soar patéticos, também os da igualdade e fraternidade.
Quando esses medos ameaçam esganar-me, me deformam o entendimento e  levam, com receio e desconfiança, a encarar o meu vizinho, o homem que atravessa a rua e caminha direito a mim, a rapariga que me sorri mas veste um niqab, então, procurando conforto e paz, digo-me que o mundo em que ainda julgo estar, não pode ser o real, mas um de pesadelo e desnorte, feito das sombras e dos temores que em vão tento descartar.
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Publicado na DOMINGO CM




segunda-feira, março 27

O berro dos NIFes

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Embora não o seja de todos, é conhecida a verdade de mesmo Deus, o Todo-Poderoso, ter lutado em vão contra a estupidez, e há também prova do seu insucesso na melhoria do sectarismo e da malícia dos que argumentam com   deturpações, mentiras e entorses a razão que se atribuem.
Tirante os mentalmente débeis, os mais talvez até o façam sem maldade, nem real interesse em contradizer ou contrapor, mas somente para que, pelos fugidios   três minutos de fama ou de atenção, alguém oiça o seu berro, e assim confirme que não são apenas um NIF, mas cidadãos conscientes dos seus deveres e, sobretudo, da obrigação que sentem de em todas as circunstâncias e, como costumam dizer, a custo dos maiores sacrifícios, “defenderem os altos valores da democracia” e o sacrossanto bem da liberdade de expressão.
É doloroso, mas também divertido, constatar que nos seus acessos de paixão os NIFes, além de perderem a memória se tornam vesgos, vêem preto onde está branco, espumam pelos beiços um ódio rançoso, fazem promessas do género “nunca mais vou ler uma página deste fdp”, o que não atesta uma decisão, mas lhes serve para ocultar a falta de princípios, de maneiras civis, e a deficiência do seu alfabetismo.
Recentemente, tenho sido incomodado por esse tipo de gente, e até por aqueles que, embora de boas intenções, mostram dificuldade em aceitar que haja quem não se sinta obrigado a um comportamento ortodoxo.
Para com os primeiros não tenho paciência nem me merecem respeito, tão-pouco devo explicações seja a quem for, mas aos bem intencionados quero repetir o que noutro lugar afirmei: nada tenho a ver com quem me lê, não lhes devo coisa nenhuma, tão-pouco me interessa o seu favor ou desfavor, ou que suponham poder-me associar com quem lhes apeteça. Não pertenço, não me filio, não tiro proveito. Sou livre e ajo com liberdade, nenhum interesse material, político, económico, social ou outro tem poder para coartar a minha liberdade.
E quem não respeita a minha liberdade, pouca consideração tem pela sua própria.
De modo que se nas recentes eleições holandesas votei num candidato da extrema-direita, bem pode ser que nas próximas, se a consciência mo ditar, vote num do centro, da extrema-esquerda, no mesmo Wilders, ou no que me pareça corresponder melhor aos meus sentimentos.
Incomodam-se alguns com esta minha liberdade? Pelo que leio e oiço parece que sim, mas a meu entender isso apenas dá prova de que todas as liberdades são iguais, mas, infelizmente, umas são mais livres do que outras.
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publicado na DOMINGO CM


segunda-feira, março 20

Testemunhos

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Diz o Ouriquense, e eu assino por baixo:
"Com franqueza, a vida é curta e já não há grande pachorra para esta polarização, que me parece muito burguesa e refém de uma hipocrisia insuportável."
Mas é reconfortante ler certos testemunhos.

sexta-feira, março 17

Leituras

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http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/os-inimigos-de-rentes-de-carvalho-6504877 
ou AQUI.