quinta-feira, maio 25
segunda-feira, maio 15
O fandango da vida
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Conhecemo-nos há
uma eternidade, giramos nos mesmos círculos, não gostamos um do outro mas
mantemos o sorriso, a cortesia, informamo-nos calorosamente do bem-estar mútuo,
trocando aquelas banalidades que são o lubrificante do trato social.
Ela é o que se
costuma chamar um caso à parte e, mesmo de talento mediano mas bom observador,
um qualquer cenarista facilmente a transformaria num inesquecível e cómico
personagem de teatro.
Agita os braços e
arregala os olhos, mesmo quando anuncia o comezinho. Também é muito seu o tique
de, quando conversa, pôr os dedos em pinça e tocar o braço do interlocutor,
dando a impressão de que o vai beliscar. Tinge os cabelos cor de cenoura, e com
isso, o bâton de um vermelho agressivo, o exagero das sobrancelhas, os bonés de
quadradinhos, calças de seda muito largas, sapatos muito bicudos, consegue um
bom resultado na aparência com Popov, o falecido e famoso palhaço russo.
É tonta. As suas
gargalhadas são espasmódicas. Se visita casa onde há piano insiste em tocar
Chopin, que toca mal, muito mal. Adora falar francês, e na Gália inteira não há
deus que lhe acuda quando desata aos pontapés à pronúncia e à gramática da
língua de Astérix.
Jura que nunca lhe
faltaram namorados. Se quiserem pode provar que na faculdade chegou a ser uma
das odaliscas no harém do UTR, garanhão famoso, mas nunca foi de ligações
duradouras. Casamento nem pensar. Garante
que os casais felizes se contam pelos dedos de uma mão, e mesmo esses nunca escapam aos dias em que em
que o arrependimento vem ao de cima, mas então já é tarde. Por isso dá vivas à
liberdade, nas suas palavras um bem que, seja na vida de cada um, no emprego ou
na política, é o mais inestimável de todos. Mas se na companhia em que está vê homem que
lhe apetece, esquece os sessenta e
tantos, põe-se em requebros e trejeitos, faz beicinhos de menina.
Entre as pechas
que lhe conheço, uma que sobremodo irrita é a de não devolver os livros que pede
emprestados. Também gosta dos copos, mas aí há que confessar que então se torna
engraçada, e sapateia como se tivesse nascido em Cádis, fazendo umas
estonteantes demonstrações do fandango.
Telefonou a contar
que tinha ido ao médico, porque há tempos se queixava de umas coisas vagas,
mal-estar, o corpo inchado, às vezes tonturas. Das análises e dos exames
concluíram que sofre de um tipo de leucemia muito agressivo e dão-lhe só meses
de vida. Disse aquilo num tom calmo, eu repliquei com banalidades de que me
envergonho e sinto remorso.
...
Publicado na DOMINGO CM.
sexta-feira, maio 12
quarta-feira, maio 10
terça-feira, maio 9
A Indonésia é longe, não é notícia
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Basuki ‘Ahok’ Tjahaja Purnama, cristão, ex-governador de Djakarta, a capital da Indonésia, citou o Corão para provar que os muçulmanos podem votar num não-muçulmano. Essa ousadia valeu-lhe uma pena de dois anos de prisão.
segunda-feira, maio 8
Brad Pitt e Angelina Jolie
(Clique)
Vai fazer trinta e
quatro, separa-nos mais de meio século, é compreensível que seja diferente uma
boa parte dos nossos interesses. Não que ele se desse conta ou isso me incomodasse,
mas estranhei e franzi o sobrolho quando perguntou se eu tinha lido que com
Angelina Jolie e Brad Pitt parece que as coisas continuam a correr mal.
Longe estava de
imaginar que o intróito não era para o que eu julgava, tão-pouco, se mo
pedisse, lhe saberia dar opinião ou conselho, adepto que sou do provérbio
“entre marido e mulher não metas a colher”.
Casaram há cinco
anos e vivem a vida alegre de quem tem saúde, gosta do que faz e desconhece
aflições de fim do mês. Com boa cabeça, fisicamente atraentes, formam um par
que, onde quer que chegue, restaurante, teatro, sala cheia, leva uns a voltar-se,
outros franzem os lábios, incapazes de esconder a inveja.
Conta ele agora
que no Verão passado, em Barcelona, um dia em que tinham sido convidados para
uma festa em casa de amigos, despediu-se da mulher no hotel, dizendo que ia dar
uma volta, de facto acanhado em lhe dizer que era para comprar uma gravata que
lhe agradara.
Chegou ele
primeiro, ela cientemente atrasada, como sempre faz, certa do melhor efeito.
- A Marta é muito bonita,
mas quer acreditar que a não reconheci? Palavra. Não reconheci a minha mulher.
Não era só o vestido, que nunca lhe tinha visto, mas a maquilhagem, o penteado,
a altivez!... Não imagino como conseguira aquilo, mas era uma metamorfose
total, no meio daquela gente tinha mesmo star quality!
Tossica, pega no
copo e volta a pousá-lo sem beber, é como se hesitasse em continuar. Depois lá
se decide, mas o relato sai-lhe emaranhado e por isso resumo.
Na manhã seguinte
surpreendeu-se a pensar que Marta lhe parecia menos bonita, nem de longe tinha
semelhança com a mulher espectacular em que se transformara para os amigos.
Tempos depois,
como se fosse sem importância, pediu-lhe que se vestisse e penteasse como
naquela noite em Barcelona. Ela recusou e, às gargalhadas, disse-lhe que se
acautelasse com fetichismos. Tinha voltado ao assunto duas ou três vezes, mas
ela apenas sorrira, dando-lhe a impressão que fazia do caso uma prova de força.
De verdade desde esse dia algo mudou, a relação é diferente, é como se tivessem
perdido a impulsividade que os unia.
Olha-me, como quem
espera uma opinião ou um conselho, mas não sei que dizer. Depois, acanhado, ou talvez
apenas para quebrar o silêncio em que ficámos, volta a falar de Brad Pitt e
Angelina Jolie.
...
Publicado na DOMINGO CM.
quinta-feira, maio 4
O Ecomodernismo
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Tem você uma horta na varanda? Insiste em só comprar e utilizar produtos biológicos, naturais, de pureza certificada? Não come carne? Está certo que as eólicas contribuem para um mundo livre de energias sujas e perigosas? Contribui para a Greenpeace e outras instituições que defendem a Natureza? Sonha com um planeta sem lixo?
Então, se ainda o não sabe, vou-lhe dar más
notícias: vem aí o Ecomodernismo, e essa gente é tanto mais “perigosa” quanto muitos
deles são ex-fanáticos dos movimentos ecológicos, lutaram contra o aquecimento
do planeta, fizeram distúrbios para acabar com a produção de carne, seguiram
simbolicamente ajoelhados as procissões de Al Gore, choraram ao ver os ursinhos
a fugir ao degelo dos icebergues. E mais.
Pois bem. Esses que eram contra os
fertilizantes, as centrais eléctricas a
carvão, a produção industrial de carne, os químicos na agricultura, os venenos
que ingerimos com a comida, e muito mais, são agora a favor.
O movimento começou discretamente em 2004,
com a publicação de Death of Environmentalism,
de Michael Schellenberger e Ted Nordhaus. Juram eles e os seus seguidores que “uma
agricultura que desdenha dos fertilizantes e insecticidas aceita um rendimento menor,
aumentando o impacto na natureza”. E que “a sociedade ocidental moderna protege
a natureza, enquanto que a antiga sociedade rural a fragiliza.”
Tomo conhecimento destas andanças com o
divertido desprendimento que a idade e a experiência me dão, porque já assisti
a outras e continuo a achar curiosa a maneira como há sempre gente apressada a
abraçar uma nova fé.
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