segunda-feira, abril 17

Os fossos que nos separam

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O sermos um país pobre e periférico põe-nos a salvo da problemática da imigração massiva e  dos refugiados, o que na Europa rica têm por consequência uma acentuada clivagem na sociedade, resultando num extremismo de sentimentos e opiniões de mau agouro.
Todavia, se as circunstâncias contribuem para que escapemos a tão grande problema, outros há criadores de fossos que a todos afectam. E esses são de tirar o sono a quem deles toma consciência, esteja o cidadão no início da sua carreira ou carregue nos ombros a responsabilidade pelo futuro dos filhos.
Para começar, espera-se que a curto prazo a digitalização ponha fim a várias profissões técnicas e administrativas, resultando daí que metade dos actuais estudantes do ensino secundário profissional não irá encontrar emprego. Essa ameaça estende-se igualmente a cursos universitários, como os de contabilidade, economia e semelhantes.
Rico ou pobre, nenhum país escapa ao fosso cada vez mais acentuado entre a província e a cidade, esta sendo sinónimo de juventude e dinamismo, enquanto aquela se distingue pela velhice dos habitantes, a falta de recursos, a tendência dos governos em considerá-la um refugo e, no melhor, bom local para instalar eólicas.
Maior do que nunca é a diferença entre as gerações. Uma das características de mudança nos anos 60 foi a do chamado fosso geracional, tendo a juventude passado a ser a norma, com os idosos a verem-se relegados para um terceiro plano, tanto económico como afectivo e, no geral, deixando de usufruir do respeito que até então lhes costumava ser devido.
É facto que o actual nível de vida não sofre comparação com o de há cinquenta ou sessenta anos atrás. Porém, em todos os países europeus se constata que os pobres se tornam cada vez mais pobres, ao passo que os ricos não param de enriquecer. Desde 1995, segundo as estatísticas, dois terços dos cidadãos europeus viram diminuir o seu poder de compra. Curiosamente, enquanto aumenta a oferta de emprego para os que têm um curso superior e, na prestação de serviços, para aqueles que ficaram pelo ensino básico, diminuem as possibilidades da classe média, que vê perigar a sua segurança e enfrenta uma maior concorrência, com o risco de descer ao nível da pobreza.
Um ponto positivo: factores como a classe social ou a família são cada vez menos determinantes,  contando sobretudo o do nível dos estudos, situação particularmente favorável no caso das mulheres, que assim vêem aumentar as possibilidades de independência. 
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Publicado na DOMINGO CM.

segunda-feira, abril 10

O calote de D. Ângela

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A fotografia era a do costume e o comunicado, também como de costume, falava de um ambiente cordial, entendimento mútuo, solidariedade, pelo que deve ser essa a razão que só aqui e ali, em letra miúda, se referiu a cena nos bastidores, em que o presidente Trump pregou um susto a D. Ângela. Sem lhe chamar caloteira, pôs-lhe diante dos olhos a folha de papel onde, secamente, tinha mandado imprimir a conta em dívida, nada menos que os 290 mil milhões de euros que a Alemanha desde 2002 deve aos Estados Unidos pelos custos da NATO, acrescidos de 55 mil milhões em juros.
Compreende-se o abalo da senhora, e que ela, deitando uma olhadela vesga ao papel, se tenha abstido de lhe tocar, chocada de se ver nos antípodas dos salamaleques e punhos de renda que são o folclore das chamadas “altas esferas”. E assim pronto surgiu um ministro alemão que, a coberto do anonimato, explicou aos “media” que “esse tipo de exigências são feitas para intimidar, mas a chanceler manteve-se muito calma e não vai reagir à provocação.”
As “altas esferas” da NATO comentaram no mesmo tom, mas corre que não tardará a que os países da aliança comecem a pagar os 2% do PIB que devem aos EUA, se quiserem que esse generoso país continue a fazer de guarda-costas.
Todavia, referindo o caso, devo dizer que me diverte menos a cena com a chanceler alemã, do que imaginar o que terá passado pela cabeça dos vários presidentes e primeiros-ministros, sempre apressados em irem à Casa Branca apresentar cumprimentos e oferecer amizades.
Ora como “o Donald”, além de fracas maneiras se mostra imprevisível, o visitá-lo  não parece isento de risco. Também o dizem pouco versado em geografia. Por certo será capaz de no mapa apontar a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Rússia, talvez mesmo o Uzbequistão, onde costumava ir a negócios, mas é improvável que faça ideia de em que parte do mundo se encontram a Hungria, a Albânia, ou mesmo o nosso Portugal.
Assim sendo, e apeteça ele viajar para Washington a satisfazer a sua conhecida ânsia de criar amizades e distribuir sorrisos, estou certo que ao afectuoso Presidente Marcelo seria poupada a apresentação da factura – peanuts, comparada às dos outros – mas nada garante que “o Donald” respeite o protocolo e, dada a sua intemperança, seja bem capaz de uma inconveniência. Por isso, caso a febre das visitas os ataque, ao nosso e outros presidentes será mais avisado irem cumprimentar o Papa, o rei da Suécia, ou o príncipe do Mónaco, porque esses não fogem à regra.
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Publicado na DOMINGO CM.

segunda-feira, abril 3

A rapariga do niqab

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Pobre de mim e dos outros como eu que, vendo, medindo e ajuizando por padrões fora de moda, desactualizados que baste, ameaçamos perder a tramontana, porque o mundo não é como nos parece e, julgando-nos ainda nele, provavelmente estamos já fora, com o percalços que isso acarreta.
Porque, sejamos francos, adianta ter princípios? Ser livre e consequente em todo o tipo de escolhas, sejam elas políticas, morais, sociais, sexuais? Remar contra a maré, só porque achamos que, embora custe e canse, é essa a boa direcção?
E que tempo é este, em que não posso atravessar a rua sem temer o meu próximo, desconfiar dele, examinar-lhe primeiro o rosto antes de lhe dar os bons-dias?
Há felizes, ou ingénuos, convictos de que o mal, o desastre, o atentado, acontece sempre aos outros, sempre longe. Porém, eu e os meus iguais não dormimos descansados, sentimos  o mal à porta, lemos com tristeza os cabeçalhos: “Tudo o que deve saber sobre o atentado de …” Como se esse “saber” possa ter utilidade, nos ajude a compreender a tragédia, ou de qualquer modo contribua para podermos sair à rua com o desprendimento e a liberdade a que julgamos ter direito.
De vez em quando escrevo aqui histórias da carochinha, umas vezes casos, outras amores, tristezas domésticas, vidas de garagistas, e um ou outro leitor com razão se perguntará se a idade não me está a pregar partidas, se as artérias já não me irrigam o cérebro com sangue suficiente, ou o meu interesse está a escorregar para a superficialidade. A quem isso teme posso com verdade afirmar que ainda assim não é, mas que para meu desassossego talvez nunca eu tenha visto com tanta clareza o mundo que me rodeia, nem nunca antes tenha sentido tão grandes medos, aqueles em que, mais que a segurança minha e alheia, conta a visão de que talvez não demore a que percamos tudo o que, mais do que o bem-estar pessoal ou o conforto, nos deve ser caro: a liberdade; a crença nos valores da civilização em que nascemos, fomos criado e temos vivido; a riqueza das artes e da literatura; e sim, mesmo que já comecem a soar patéticos, também os da igualdade e fraternidade.
Quando esses medos ameaçam esganar-me, me deformam o entendimento e  levam, com receio e desconfiança, a encarar o meu vizinho, o homem que atravessa a rua e caminha direito a mim, a rapariga que me sorri mas veste um niqab, então, procurando conforto e paz, digo-me que o mundo em que ainda julgo estar, não pode ser o real, mas um de pesadelo e desnorte, feito das sombras e dos temores que em vão tento descartar.
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Publicado na DOMINGO CM