domingo, março 12

O meu voto

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Com as eleições na Holanda à porta, nos últimos dias tenho dado umas quantas entrevistas, e em determinado momento – porque tenho dupla nacionalidade – os entrevistadores, com ou sem rodeios, querem saber da minha intenção de voto, quase sempre subentendendo a resposta que de mim esperam.
Digo então, para surpresa de quase todos, que vou dar o meu voto a Wilders. E pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade; que a Holanda teria vantagem em se separar da EU (o que não acontecerá); que se deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado  ser impossível ); que os idosos, os pobres e os deficientes não recebem os cuidados a que têm direito; que mesmo um país rico e bem organizado não tem capacidade para absorver a vaga de refugiados – problemática que os sucessivos governos empurram com a barriga no aguardo de milagres.
Discordo de Wilders pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados.
 Mas dando-lhe o meu voto - o meu protesto - espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva, que seja um contrapeso a vinte e tal anos de governos tão politicamente correctos que a grande maioria dos cidadãos se pergunta de que maus sonhos é prenúncio a realidade que estão a viver.

terça-feira, março 7

Profecia

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“Público”:
“Pressão dos estudantes trava organizadores de conferência com Nogueira Pinto”
Grupo que organizava o evento na Universidade Nova foi considerado "nacionalista e colonialista" pela Associação de Estudantes.”
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Como a História se repete, tomem nota dos nomes destes “revoltosos”, pois eles, sem falha, farão como os avozinhos de Maio de 1968: daqui a dez, quinze anos, hão-de vê-los sentados na ONU, na EU e semelhantes, ou nos Goldman Sachs que então houver.
 

segunda-feira, março 6

O senhor Mayer

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Durante uns vinte anos fui cliente fiel do senhor Mayer. Quando ele se reformou e a garagem mudou de proprietário, mudei também, porque nem o serviço se comparava, nem se sentia ali a presença das pequeninas coisas que são o íman da simpatia.
Uma vez por outra, ao acaso de uma vistoria ou de um contratempo na garagem, recordo a competência do senhor Mayer e do seu pessoal, todos animados por um admirável espírito de equipa e a obsessão fanática de resolver as avarias mais complicadas. Mas o tempo passa, a memória esvaece, as pessoas desaparecem aos poucos na sombra do passado.
Dessa sombra saiu o meu saudoso garagista dias atrás, quando abri o jornal, e pela milionésima vez me surpreenderam as voltas do  Destino.
O senhor Mayer mantém viva a paixão pelos carros, e para se entreter, mas também para provar a sua competência mecânica,  pelas próprias mãos construiu ele um, tão excepcional que causa admiração nas exposições. Mas o que vem  agora ao caso não é o seu talento, sim a sua história de menino.
Tal como eu, em 1942 tinha ele doze anos. A família, muito pobre e judaica, vivia no terror permanente de ser deportada, desde que dois anos antes os alemães tinham invadido a Holanda, prendendo os judeus e levando-os para os campos de concentração.
O Destino intervém na manhã em que a mãe o manda ir à mercearia, e os vizinhos, no momento em que ele regressa não o deixam passar, porque logo adiante os alemães procedem a uma razia dos judeus. O miúdo vê os pais, a irmã e os avós desaparecer num camião, conta agora que, como que num estado segundo, não sentiu medo, nem sequer estranhou que os vizinhos, em vez de o ajudar lhe dissessem que fugisse.
Nessa noite e muitas depois dorme em vãos de escada, come o que rouba nas lojas, mas arranja  trabalho como aprendiz de serralheiro. Ao receber o primeiro salário descobre que, sabendo-o judeu e à mercê da sua denúncia, o patrão não é honesto. Procura outro. Depois outro. E aos poucos vai aprendendo: serralheiro, bate-chapas, mecânico, até que, a guerra há muito passada, finalmente tem o bastante para ser patrão.
O jornalista quer agora saber se o senhor Mayer sentiu muito a falta da família, se lhe custou.
- É estranho, mas depois daquele terrível momento nunca mais pensei neles.
- Nunca?
- Só uma vez. No dia em que abri a garagem disse comigo que gostaria que o meu pai pudesse ter visto aquilo.

O medo, a força de vontade, o Destino, o instinto da sobrevivência, quantas serão as forças que nos empurram? Quais serão as que nos salvam? 
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Publicado na DOMINGO CM