quarta-feira, janeiro 4
terça-feira, janeiro 3
domingo, janeiro 1
Triste profecia
(Clique)
Marcello Caetano, sobre o 25 de
Abril:
“Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou
seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de
independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar
numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e
o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.
Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a
espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de
quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros
e até presidentes de República.”
………..
………..
sexta-feira, dezembro 30
O livro do arquitecto
(Clique)
Autor
de O Último Verão na Ria Formosa, o
qual, ouviu-se então nos mentideros,
quase lhe valeu o Nobel, o arquitecto Saraiva publicou em Setembro passado Eu E Os Políticos. Desopilante numa ou
noutra passagem, mas com suficiente ranço para da parte de alguns justificar
pensamentos menos cordatos. Todavia, é de justiça que, pela involuntária
ternura que demonstra, se refira aqui o apontamento que faz na página 45, de
ter conhecido o nosso Primeiro Ministro, então "um miúdo pequenino, a
brincar debaixo da mesa onde comíamos… e que a mãe tratava por Babouche".
Com
o significado de pantufa ou chinelo, a palavra babucha vem-nos do árabe, li-a
pela primeira vez n' A Relíquia, de
Eça de Queiroz, refere-a ele também nos
relatos sobre o Egipto e a Terra Santa. Mas em francês, babouche, além de soar requintada,
parece exprimir em simultâneo uma rechonchuda bonomia, dando ideia de o
carinhoso apelativo ter sido singularmente premonitório.
Na
verdade, de todos os Primeiros Ministros desde Abril de 74, só em Mário Soares
se encontra aquela maneira de abraçar. O caso é que António Costa leva a melhor
na jovialidade e no optimismo.
............
Publicado no CM
domingo, dezembro 25
Consoada
(Clique)
A Consoada, ontem, foi de amizade, melancolia, de juventude e velhice, da recordação triste dos que nessa noite nos deixaram.
Os rapazes da aldeia acenderam a fogueira do Natal.
Esta
manhã, pouco passava das sete e o nevoeiro cobria tudo, o nosso vizinho, 86
anos como eu, viúvo, sozinho em casa, não fez conta de ser domingo ou Dia de
Natal: subiu ao tractor, fê-lo roncar, e em marcha atrás, porque o beco não dá
para manobras, passou sabe Deus com que destino de tarefa inútil, ou na ânsia
de acelerar o tempo.
sexta-feira, dezembro 23
sábado, dezembro 17
O outro mundo
(Clique)
De longe a longe
ocupam-me as visões de Swedenborg (1688-1772). Esse famoso sueco, competente em
Engenharia Militar, Hidráulica, Teologia, Química, Anatomia e outras ciências,
foi um dia visitado por ninguém menos que Jesus Cristo, relatando que várias
vezes subiu ao Céu na companhia do Redentor.
Na ocasião em que
a entrevistei, também a Santa da Ladeira me disse ter feito duas dessas
ascensões, confirmando as palavras do sueco: lá em cima é a réplica exacta do
que existe e se passa cá em baixo.
Por razões várias
desagrada-me a possibilidade. Então dentro em pouco - na minha idade o tempo
voa – dou o último suspiro, chego ao destino e encontro lá o que aqui me afligiu? Ouvir o senhor Marques
Mendes? Ver telenovelas e programas de cozinha? O Primeiro Ministro a garantir prosperidade
para o ano que vem? Suportar relatos de futebol? Discursos? Intervenções
parlamentares? O senhor Matias da farmácia, que começava sempre as frases com um “Ó meu grande amigo!”? Haverá
filas de trânsito? Cartazes? Máfia? Políticos corruptos? Banqueiros DDT?
Será que o Céu não
existe e é tudo Inferno?
..........
Publicado no CM.
quinta-feira, dezembro 15
Que sabem os outros de nós?
(Clique)
Que
sabem os outros de nós, mesmo quando a nossa biografia é pública? Que
sabem de nós, mesmo se confidenciamos ou confessamos? Que sabemos de nós
próprios? Que queremos saber?
A
cada instante o semblante muda, o sorriso é diferente, o modo fingido,
as palavras ditas com o significado e a intenção que os outros esperam e
espelham as que eles nos dizem. Movemo-nos num teatro de sombras, em
palco de aparências, tão habituados à representação que a levamos a
sério e nela nos sentimos bem. Vivemos a nossa fantasia no emprego das
nove às cinco, vivemo-la com a família, entre os amigos, na rua,
imitando a solidariedade, o carinho, o entusiasmo, a atenção, os
cuidados.
O
eu, o verdadeiro, aquele que tudo sabe – sim, tudo - e nos atormenta, a
esse há muito condenámos à prisão perpétua. Infelizmente, o cárcere não
é à prova de som, deixa passar os sussurros, quando menos esperamos
ouvimo-lo desfiar o que queremos esquecer da nossa biografia e de nós
próprios.
terça-feira, dezembro 13
sábado, dezembro 10
Somos uma vergonha
(Clique)
"Portugal
é uma vergonha". Escreveu-o Vasco Pulido Valente no Observador, com a costumeira mistura de forte autoridade de doutor
de Oxford, sobranceria alfacinha, e a visão panorâmica que lhe assegura a nuvem
onde se senta, mirando do alto a corrupção, a bandalheira, a pelintrice do
lodaçal em que esperneamos, e donde, segundo ele, nada ou ninguém nos tirará.
Pequenos
como somos, metidos num canto, o mundo talvez nem se aperceba das desgraças que
nos aguardam. O mesmo, porém, não acontecerá com a América, a quem VPV
profetiza calamidades bíblicas. Segundo ele, esse grande país "perdeu o
domínio tecnológico", paga as contas de todos sem ter vintém, vai ser
governado por um tosco que berra muito, demonstra impotência e é "uma
criatura sem grande imaginação".
Fosse isto
anunciado por um tarólogo, haveria motivo de desassossego, pois sofrendo a
América sofremos todos. Felizmente, são apenas palavras de um festejado
cronista, talvez aflito com a falta de assunto ao ver próxima a hora de fecho.
Sentados
numa nuvem mais alta, Eça e Fialho, que também lêem o Observador, sorriram à recordação das vezes que estiveram no mesmo
aperto.
..............
Publicado no CM.
Subscrever:
Mensagens (Atom)









