domingo, novembro 6

Jorge de Sena

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Nunca fui muito de ler correspondências literárias, mas talvez por ter brevemente lidado com Jorge de Sena, e apreciar a sua prosa, a curiosidade levou-me a lê-lo. Da tarde da passada sexta-feira, até esta madrugada. Torcendo o nariz numa ou noutra passagem, divertido com as cortesias de ambos os correspondentes e o veneno de Sena, de que ficam aqui dois exemplos:
Menino do Restelo, diz ele dos colegas da presença - com minúscula: "essa gente que toda conheci como mesquinha e dúplice...nenhum se aristocratizou como artista para cima do balcão de secos e molhados, ou de ourives, com que os pais lhe pagaram os estudos que fizeram ou não. Foram a chegada da pequena-burguesia, provinciana e rasca, à literatura" (pág. 295).
" A desgraça portuguesa é sermos, com raras excepções, um país de putas, ou de filhos da puta, ou de sujeitos que acumulam as duas qualidades. Ainda por cima nem de grande cidade: todas e todos de Vila do Conde, Vila Real, profundas dos Alentejos, sem terem perdido o ranço de lojistas ou a malícia dos campónios. Porra para a classe média promovida das províncias, que nunca soube aristocratizar-se, nem tomar banho senão para ir à missa." (pág.301) 
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A vaidade de Eugénio de Andrade enfastia.

sábado, novembro 5

O que penso de Trump?

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Foi daquelas paixões a que os românticos chamam avassaladoras. Casaram num país onde as palmeiras se curvam à brisa, a areia das praias é branca, o sol brilha sem falta, os indígenas sorriem como quando ainda havia Paraíso.
Surpresa na noite de núpcias: ela, virgem, pediu-lhe que esperasse. Esperou. Depois semanas, meses, torturado pelas forças contrárias do desejo, do amor, da decepção. Ela finalmente cedeu, mas a ocasião deixou em ambos má lembrança, o sexo viria a ser esporádico, sem alegria nem gozo.
Parecerá bizarro, mas esses são os mistérios da alma, viviam em paz. Depois a meia idade veio, e um dia, por uma futilidade, a tempestade rebentou, gritaram-se os desesperos, as raivas, as ilusões perdidas, as culpas mútuas, a recordação do amor que os devorara.
Conta que nesse momento a poderia ter matado, mas à noite, na cama, quando os corpos por acaso se tocaram, amaram-se como tinham sonhado e nunca acontecera: com fúria, com paixão, acendendo todos os lumes, queimando neles o passado.
- É estranho, não é? – diz ele, parecendo estonteado pela confidência.
Olha o relógio, e numa inesperada mudança pergunta-me o que penso de Trump.
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Publicado no CM e aqui

sexta-feira, novembro 4

O ministro mentiu?

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Mas qual é o espalhafato? Há então ministros que não mentem?

sábado, outubro 29

É tudo namoro

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Anos atrás, um poeta holandês que ia radicar-se em Portugal, quis saber de mim se o ambiente seria hostil à sua preferência pelo amor grego. Assegurei-lhe que era infundado o receio, pois a Revolução dos Cravos, fora ter assegurado as liberdades, como que rebentara também as barreiras ao deboche.
Pediu ele então que lhe escrevesse as palavras que na nossa língua referiam o homossexual.
Maricas, panasca, larilas, bicha, os derivados de azeite, de panela, vali-me de Gil Vicente, dos dicionários de calão, e à medida que eu escrevia soletrava ele, preocupado com a pronúncia, mas dizendo-se maravilhado, pois tal abundância vocabular contrastava com a escassez da da sua língua-mãe, em que as palavras nicht e flikker quase cobriam o assunto.
Mas se um outro poeta de igual preferência me fizesse hoje a mesma pergunta, a questão de abundância seria descabida, pois as palavras vão morrendo com a anemia do politicamente correcto, gay e namorado/a são o cânone.
Dá-se o caso de que o país inteiro namora. Desapareceram nele as amantes, as teúdas e manteúdas, as amásias, as concubinas, os cornos, os gigolôs. Anda tudo asséptico, mole, escovadinho, valem os crimes passionais para irmos mantendo algum sentido da realidade.

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Publicado no CM.