sábado, novembro 5

O que penso de Trump?

(Clique)



Foi daquelas paixões a que os românticos chamam avassaladoras. Casaram num país onde as palmeiras se curvam à brisa, a areia das praias é branca, o sol brilha sem falta, os indígenas sorriem como quando ainda havia Paraíso.
Surpresa na noite de núpcias: ela, virgem, pediu-lhe que esperasse. Esperou. Depois semanas, meses, torturado pelas forças contrárias do desejo, do amor, da decepção. Ela finalmente cedeu, mas a ocasião deixou em ambos má lembrança, o sexo viria a ser esporádico, sem alegria nem gozo.
Parecerá bizarro, mas esses são os mistérios da alma, viviam em paz. Depois a meia idade veio, e um dia, por uma futilidade, a tempestade rebentou, gritaram-se os desesperos, as raivas, as ilusões perdidas, as culpas mútuas, a recordação do amor que os devorara.
Conta que nesse momento a poderia ter matado, mas à noite, na cama, quando os corpos por acaso se tocaram, amaram-se como tinham sonhado e nunca acontecera: com fúria, com paixão, acendendo todos os lumes, queimando neles o passado.
- É estranho, não é? – diz ele, parecendo estonteado pela confidência.
Olha o relógio, e numa inesperada mudança pergunta-me o que penso de Trump.
................
Publicado no CM e aqui

sexta-feira, novembro 4

O ministro mentiu?

(Clique)
Mas qual é o espalhafato? Há então ministros que não mentem?

sábado, outubro 29

É tudo namoro

(Clique)



Anos atrás, um poeta holandês que ia radicar-se em Portugal, quis saber de mim se o ambiente seria hostil à sua preferência pelo amor grego. Assegurei-lhe que era infundado o receio, pois a Revolução dos Cravos, fora ter assegurado as liberdades, como que rebentara também as barreiras ao deboche.
Pediu ele então que lhe escrevesse as palavras que na nossa língua referiam o homossexual.
Maricas, panasca, larilas, bicha, os derivados de azeite, de panela, vali-me de Gil Vicente, dos dicionários de calão, e à medida que eu escrevia soletrava ele, preocupado com a pronúncia, mas dizendo-se maravilhado, pois tal abundância vocabular contrastava com a escassez da da sua língua-mãe, em que as palavras nicht e flikker quase cobriam o assunto.
Mas se um outro poeta de igual preferência me fizesse hoje a mesma pergunta, a questão de abundância seria descabida, pois as palavras vão morrendo com a anemia do politicamente correcto, gay e namorado/a são o cânone.
Dá-se o caso de que o país inteiro namora. Desapareceram nele as amantes, as teúdas e manteúdas, as amásias, as concubinas, os cornos, os gigolôs. Anda tudo asséptico, mole, escovadinho, valem os crimes passionais para irmos mantendo algum sentido da realidade.

........
Publicado no CM.

sexta-feira, outubro 28

Na barbearia

(Clique)
A propósito do que vai por aí, dos que mentem, dos que se desdizem, se escondem, se retractam, fogem com o rabo à seringa, retiram comprometedoras páginas dos seus blogues, dizem que não sabiam, não foram eles, que as coisas mudam, que o tempo o dirá, cite-se o provérbio turco de antiga e oriental sabedoria: "Quando estiveres a ser barbeado, mantém-te quieto".  

sexta-feira, outubro 21

Mudanças e melhorias

(Clique)


Num programa da televisão holandesa, Maurice de Hond, o especialista das previsões eleitorais, anunciava a semana passada a sua intenção de se abster de votar, e a necessidade que há de, para manifestarem a sua vontade, os cidadãos venham a possuir instrumentos mais eficientes do que o voto.
Emocionado, argumentava a impotência e a irritação que sente ao votar num partido da sua escolha, e dar-se conta que, chegado ao poder, esse partido alegremente esquece as solenes promessas do programa eleitoral, tomando por vezes decisões bem diferentes ou mesmo opostas. É, afirmava ele, uma forma de trafulhice a que se deve por cobro, talvez por intermédio de referendos, avaliando a prazos regulares em que medida um governo eleito cumpre o prometido.
Nos países onde é elevada a consciência política, a sociedade não descarta a priori as possibilidades de mudança e mostra-se geralmente favorável à análise do que possa conduzir a melhorias. 
Mas melhorias e mudanças não estão no programa dos malfadados países onde as leis são para violar, as dívidas para esquecer, o bolo é duns quantos, o resto vive de mão estendida, temendo o amanhã.


.......... 
Publicado no CM