segunda-feira, maio 16

A farmacêutica e o lagarteiro

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É filha como poucas: a vida inteira dedicada aos pais e à farmácia que deles recebeu. Férias nunca teve, nem tempo livre, que o gasta todo no trabalho e no arranjo da quinta. Desde sempre, em Maio vão os três em romagem a Fátima.
Chegada aos cinquenta, nunca se lhe conheceu uma amizade, namoro ou paixão, o que as más-línguas explicam dizendo que deve ser culpa da postura desajeitada.
É verdade que os seus braços são como trancas, as pernas dois cepos, e bem escanhoa o bigode, não adianta, mas se ao menos desse um jeito ao cabelo em vez de gostar dele à escovinha, talvez ajudasse. Os pais assustaram-se na ocasião em que o pintou de azul e verde. Acabasse com aquilo, as pessoas eram capazes de não gostar e irem mais à farmácia do Magalhães.
Desde Fevereiro tem uma nova ajudante, a Glória, rapariga meiga com quem se fecha no gabinete para, como explicou às outras funcionárias, lhe ensinar o que ainda lhe falta de prática.
Em Março comprou o lagarteiro. O pai disse que era esbanjamento, mais valia tratar com o Sebastião o trabalho da lavra, mas ela insistiu e venceu. Sai com ele como quem vai a passeio pelas encostas. Gosta do ronco do motor, e quando pega nas alavancas e os dentes do arado se cravam na terra, sente como sua aquela força.

domingo, maio 15

Não há luz ao fim do túnel



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Ao inaugurar o túnel do Marão o Primeiro-Ministro cumpriu o ritual e discursou, mas podia ter-nos poupado as frases sobre oportunidades de desenvolvimento para Trás-os-Montes, novas estratégias, visões, impulsos à descentralização, ir tornar-se a província "a frente avançada para a afirmação da economia portuguesa no conjunto do mercado ibérico".
Dessas e doutras, bem soantes, cheias de promessas, já nós transmontanos temos a barriga cheia, há séculos que as ouvimos, com os resultados que conhecemos e estão à vista dos senhores políticos que deles queiram dar conta. 
E pode ser que se tenha calculado que "o PIB per capita da região é de 61% do da região do Grande Porto", mas a estatística é o que é, também neste caso uma entorse à realidade.
Já agora, se o Primeiro-Ministro calhar de visita por estas bandas, ou lhe apeteçam férias no antigamente, passado o túnel do Marão rode na A4 até Pópulo. Continue para nordeste com o IC5, onde esporadicamente cruzará outro carro. Meta depois por uma estrada secundária, não importa qual, e não se atordoe ao olhar em redor: ainda é Portugal, mas parece outro mundo.
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Publicado no CM

quinta-feira, maio 12

Eimear McBride


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Há muito tempo, e de longe, o livro que mais exigiu de mim como leitor. Mas fora de dúvida obra de génio, verdadeira revelação.
 

terça-feira, maio 10

Rogar pragas

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Coisa que não se deve fazer é rogar pragas a quem as merece, tão-pouco perder tempo a seguir o preceito cristão de perdoar aos que nos ofenderam. 
Melhor, e por experiência mais eficiente, é desejar do fundo do coração ao ofensor um sem-fim de melhorias e benesses. Que lhe caibam os amores que nunca teve, viaje para onde nunca foi, escreva os romances com que sonha, seja apreciado na sua e na terra estranha, lide com quem vale a pena lidar, receba inesperadas provas de respeito, carinho e de amizade. 
Isso se lhe deve desejar, até em dobro, mas infelizmente de nada adiantará: por muito de bom que recebe ou lhe aconteça, o invejoso continuará ad aeternum a sufocar na cobiça do que os outros são, do que lhes acontece, do que fazem, de como vivem. 
O Senhor se compadeça e o alivie do sofrimento.


segunda-feira, maio 9

Vento

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Com o título "Gastos de energia" este texto é de Maio do ano passado. Repete-se agora, porque na vida é cansativamente muito o que se repete.
 
Gasta-se muita energia a esquecer, a fingir, a perdoar, a manter a calma quando a vontade era o par de bofetadas, o desdém, virar as costas, mudar de passeio. Gasta-se muita energia a manter a aparência de paz e harmonia, a fechar os olhos e os ouvidos, a passar a esponja, a diminuir a fúria ou a escondê-la, a fazer de conta que se compreende, que se aceita, inventando desculpas, deitando mão de provérbios e sorrisos, explicações tolas, das diferenças de idade, que os mais novos pensam diferente porque não viveram aquilo, não estavam lá, falta-lhes experiência.
Assim fosse, mas assim não é. A estupidez, a arrogância, a segurança dos juízos, a justeza do ideal, são de todas as idades. Como o é a lamechice do amor aos pobrezinhos, aos injustiçados, aos famélicos da Terra; o êxtase do folclore revolucionário, desde que sejam outros a sofrer e a morrer, e a revolução não venha desarranjar o que tanto custou e tão agradável torna os dias.
Gasta-se muita energia a viver num mundo de conformidade em que, como alguém escreveu, "as pessoas constantemente se tocam e se beijam, falam dos seus problemas como se assim pudessem descrever o mistério da vida, ou negar o caos que ela é… um mundo em que, cada vez mais, o risco é calculado e, na medida do possível eliminado, dando lugar a um mundo novo, brando, no qual a visão do preparo de comida se torna mais emocionante do que a leitura de um poema".
Gasta-se muita energia a tentar compreender, a aceitar a riqueza da vida. 
 

domingo, maio 8

Boa companhia

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Ignorava, mas fazem-me saber que estou em boa companhia, de par com João Pedro George. E ainda bem, "It's allways lonely at the top of misery".
 

quarta-feira, maio 4

O grande Guerreiro

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Nada a fazer: há que admirar a capacidade de quem faz crítica literária com tanta ciência e  elevada qualidade: