terça-feira, outubro 4

A vida e Clausewitz

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São muitas e estranhas as razões que nos prendem a língua. O que calamos por medo, tibieza, cobardia, mas também por caridade, outras vezes desencanto, a perguntarmo-nos como é que depois somos capazes de sorrir com tanta naturalidade.
Fechamos os olhos e o entendimento, somos prontos no salamaleque, com um gesto largo damos ao outro a primazia e encolhemos o pé que preparava a rasteira.
É corrente dizer-se que a vida é teatro, e é possível que para os simples assim seja, mas na realidade está longe de sê-lo. A vida é campo de batalha, com lutas corpo a corpo e bombas armadilhadas, explosões, sabotagens no escritório, nos tribunais, na estrada, nos armazéns, no estádio, na cama de casal.
Descreiam os que ainda não assistiram nem participaram, mas também a esses chegará a hora de calar, como hão-de aprender que a serenidade do dia-a-dia é cortina de fumo a esconder ataques e contra-ataques, hostilidades em que nada contam os armistícios, as tréguas para recolher feridos, os acenos de bandeira branca.
A vida, como Clausewitz o diz da guerra, é o domínio do esforço físico e do sofrimento.
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Publicado no CM

domingo, outubro 2

sábado, outubro 1

quarta-feira, setembro 28

Marilyn


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Por ocasião do nonagésimo aniversário do nascimento de Marilyn Monroe, realiza-se na Nieuwe Kerk de Amsterdam, de 1 de Outubro a 5 de Fevereiro, uma exposição comemorativa onde pode ser admirado o famoso vestido.

terça-feira, setembro 27

Uma forma de desprezo

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Vive em grande luxo num dos canais nobres de Amsterdam, dentro em pouco fará noventa anos, de si próprio diz com desinteresse: “É estranho como  continuo a ter tão boa memória.”
De facto tem. Gosta de recordar que do Ártico à Patagónia, de Portugal à China, trabalhou em todas as partes do mundo e, belo homem que foi, não faltaram mulheres exóticas na sua vida. Dessas casou com três, a que realmente amou faleceu há pouco, as restantes e os filhos aborrecem-no com exigências de dinheiro.
Conhecemo-nos desde os anos sessenta, e a simpatia permanece. Une-nos também o interesse por computadores e pela internet, talvez porque ambos somos do tempo em que mesmo a rádio era maravilha. Hábito de décadas, encontramo-nos de mês a mês no nosso café e, cavaqueando, bebe ele duas ou três genebras, fico eu pelo copo de tinto.
Ontem, rememorando uma tumultuosa peripécia dos seus amores, surpreendeu-me o modo como em certo momento disse: “No passado, quando me zangava com alguém, havia nessa zanga um certo respeito. Actualmente recuso zangar-me com quem quer que seja. Creio que é uma forma de desprezo."
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Publicado no CM.

domingo, setembro 25

As praias da Venezuela

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Grande assombração dá perguntarmo-nos se Portugal, "jangada de pedra", um dia destes iça as velas, desatraca e, com o senhor Costa ao leme, nos leva de vento em popa até às praias da Venezuela.
Tudo o promete, e há razão de susto, como Francisco José Viegas explica aqui.

quinta-feira, setembro 22

A propósito do Saraiva

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Tenho eu a ideia, quiçá incorrecta, de que a porção de intimidade que se desvenda num diário não deve ultrapassar a que se revela numa conversa entre amigos. Fazer estendal do privado parece-me sinal de fraco gosto e duvidosas maneiras, e embora possa decorrer daí um atractivo para o bisbilhoteiro, creio que bom número de pessoas prefere não chafurdar na lama alheia.
Num ângulo diferente se põe o problema da ficção. Quem lê um diário espera, e eu concordo, que o escrito corresponda fielmente ao acontecido. Ora como na minha, e na maioria das vidas, prevalece a rotina e são nela raros os momentos interessantes, não tenho outro remédio senão procurar dentro de mim próprio aquilo que de fora não recebo. Todavia, como a introspecção facilmente desagua em enfado, perguntei-me se haveria mal em salpicar o relato dum ou doutro dia com acontecimentos fictícios.
Para o leitor seria mais divertido, para mim mais variado, e até mais fácil. A falar verdade já o tentei, e surpreendeu-me o fraco resultado da experiência. Com provas dadas de ser capaz de inventar uma história, ou, quando é preciso, de fazer entorses à verdade, não consegui colorir com ficção a banalidade dos meus dias.
Pergunto-me por que será assim, mas nenhuma resposta me satisfaz. Resta a hipótese de que talvez me seja mais fácil mentir aos outros do que a mim próprio.

terça-feira, setembro 20

Ser eu próprio

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Quando falo de mim, quando parece que falo de mim, tenho em mente os outros. Escondo-me neles, invento-me com tiques alheios, dou-me virtudes, sensibilidades, manhas e vícios que tornam suportável a minha simpleza e a monotonia do viver.
Agarro-me aos sonhos que oiço contar. Faço das aventuras que leio bóias de salvação que, se me não salvam, ao menos  iludem e aliviam da mesquinhez, das repetições, da banalidade e do automatismo.
Posso dizer com verdade que começo o dia em transe, noutra pele, fingindo-me ausente da rotina dos hábitos e encargos. É outro o que desanda a chave da porta, abre as janelas, regula o aquecimento, prepara o pequeno-almoço. É outro também o que espreita o céu a ver o estado do tempo.
Quando me forço a deixar o sonambulismo, tudo se me afigura estranho, difícil, complicado. É então que me acontece sopesar as vantagens da morte, a possibilidade que me trará de findar esta existência de empréstimo, e finalmente, ser eu próprio.

domingo, setembro 18

Pernas falantes

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Foi legenda, e assim continua na recordação dos que a conheceram nesse tempo. Um corpo formoso, pernas de entontecer, e como não sofria de modéstia começou cedo a tirar proveito da beleza.
Casou rica, divorciou-se, casou ainda mais rica, voltou a divorciar-se. No dizer de um antigo amante conseguia transformar os seus gestos e movimentos em momentos de arte, chegando – são dele as palavras e a estupefacção – " a essa coisa extraordinária de, com as pernas, se exprimir numa verdadeira linguagem."
- Falava com as pernas.
- Realmente, era como se falasse - respondeu ele, indiferente à minha ironia.
Vi-a hoje pela primeira vez, num beberete em que se festejava um aniversário. Passa dos sessenta e infelizmente envelheceu sem amadurar. No corpo e no rosto há vestígios da beldade que foi, a voz mantém um timbre melodioso, mas aquele pestanejar e as boquinhas, que com certeza a tornavam atraente na juventude, incomodam agora como um tique nervoso.
Quando a vi sentar-se os meus olhos seguiram curiosos as pernas que tinham "falado", mas surpreso com a diminuta saia e os estragos da idade, mandei-lhes que discretamente se retirassem.

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