terça-feira, setembro 20

Ser eu próprio

(Clique)


Quando falo de mim, quando parece que falo de mim, tenho em mente os outros. Escondo-me neles, invento-me com tiques alheios, dou-me virtudes, sensibilidades, manhas e vícios que tornam suportável a minha simpleza e a monotonia do viver.
Agarro-me aos sonhos que oiço contar. Faço das aventuras que leio bóias de salvação que, se me não salvam, ao menos  iludem e aliviam da mesquinhez, das repetições, da banalidade e do automatismo.
Posso dizer com verdade que começo o dia em transe, noutra pele, fingindo-me ausente da rotina dos hábitos e encargos. É outro o que desanda a chave da porta, abre as janelas, regula o aquecimento, prepara o pequeno-almoço. É outro também o que espreita o céu a ver o estado do tempo.
Quando me forço a deixar o sonambulismo, tudo se me afigura estranho, difícil, complicado. É então que me acontece sopesar as vantagens da morte, a possibilidade que me trará de findar esta existência de empréstimo, e finalmente, ser eu próprio.

domingo, setembro 18

Pernas falantes

(Clique)

Foi legenda, e assim continua na recordação dos que a conheceram nesse tempo. Um corpo formoso, pernas de entontecer, e como não sofria de modéstia começou cedo a tirar proveito da beleza.
Casou rica, divorciou-se, casou ainda mais rica, voltou a divorciar-se. No dizer de um antigo amante conseguia transformar os seus gestos e movimentos em momentos de arte, chegando – são dele as palavras e a estupefacção – " a essa coisa extraordinária de, com as pernas, se exprimir numa verdadeira linguagem."
- Falava com as pernas.
- Realmente, era como se falasse - respondeu ele, indiferente à minha ironia.
Vi-a hoje pela primeira vez, num beberete em que se festejava um aniversário. Passa dos sessenta e infelizmente envelheceu sem amadurar. No corpo e no rosto há vestígios da beldade que foi, a voz mantém um timbre melodioso, mas aquele pestanejar e as boquinhas, que com certeza a tornavam atraente na juventude, incomodam agora como um tique nervoso.
Quando a vi sentar-se os meus olhos seguiram curiosos as pernas que tinham "falado", mas surpreso com a diminuta saia e os estragos da idade, mandei-lhes que discretamente se retirassem.

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Publicado no CM.

sexta-feira, setembro 16

Assino por baixo

Atravessa de vez em quando o meu caminho um ou outro patarata, doutoral qb, a dizer: olha que essa palavra já não se usa, olha que já não se diz assim. 
Oiço a prosápia, mas não reponto, não corrijo nem me zango, só desejo que seja pelas almas de quem lá tem.
Li isto, e com tristeza assino por baixo.

quinta-feira, setembro 15

No consultório



"Isto, doutora, deve ter incubado anos. Sem dar conta, julgando que me sobrava tempo, porque nem sempre o meço pelo calendário. Há ocasiões em que tenho ideia de que me desconheço, sou outro, possesso duns temores que chegam com intentos que raro descubro, mas sempre para meu prejuízo e confusão.
Enfim, paciente, que não sei se vou ter fôlego de levar a conversa até onde quero, ou caio no desalento, o que as mais das vezes acontece. Só que desta seria final, porque não me vejo com vontade  nem forças de repisar, trazendo à lembrança as feições e os nomes, os tiques, o que parecia certeza e era ilusão, noutras vezes certeza mesmo, com efeitos de cacetada.
Ela e estes com quem agora lido não sabem de dores, menos ainda de medo, são de praias e vida mole, hábitos, horários, cafezinho.
Que adianta? Só um tolo sonha em mudar o mundo.
A verdade é que neste ponto tanto se me dá que tenha de carregar o fardo ou seja ela a sofrer-lhe o peso. Voltar atrás é que não volto."

terça-feira, setembro 13

"Stop Animal Abuse"

 
O Amstel é um rio modesto, há canais mais largos, mas antes de entrar na cidade faz ali curva, dando uma impressão ilusória de grandeza. Na margem, a esplanada do restaurante é local favorito de gente próspera, trintões agarrados à lembrança da juventude passada, raparigas muito capazes em fintar o tempo. Janta-se bem.
Mediana na estatura, decote generoso, cigarro entre os dedos, a mulata entrou sozinha, espalhafatosa no modo e na minissaia branca, onde em maiúsculas desproporcionadas se lia: STOP ANIMAL ABUSE.
Passou pela minha mesa, fez vaivém por entre os grupos, falando a um e a outro, que abanavam a cabeça e lhe sorriam de circunstância. As mulheres, todas mais altas, mais jovens, mais bonitas, voltavam-lhe as costas, ou encaravam-na como se tivessem dificuldade em enxergar.
Agarrou um quarentão pelo braço. Ele ouviu-a, sorriu, e com um encolher de ombros de desculpa foi adiante. Depois, sentada a uma mesa próxima, demorou até que lhe trouxessem um copo de vinho branco, que foi bebericando com vagares e um rosto de desespero. Levantou-se, deixando o copo meio, e o empregado disse que estava bem, não precisava pagar, não tinha importância, deu-lhe as boas-noites.
Vi-a depois, única caminhante na berma da estrada, as maiúsculas da bizarra minissaia gritando ao mundo que não se deve maltratar os animais.
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PS. Este texto foi publicado no TC em 9 de Julho de 2010. A mulata pede agora esmola nas ruas de Amsterdam e, umas vezes na saia, nas calças ou na blusa, continua a anunciar: Stop Animal Abuse.


domingo, setembro 11

Boca a boca


Conhecemo-nos desde a universidade, nunca fomos íntimos, mas encontramo-nos de longe a longe e, duma maneira ou doutra, guardamos um sentimento de camaradagem.
À moda antiga, mantemos o hábito de escrever cartas, levando ele a melhor na beleza da caligrafia. Porém, como se padecesse de falhas da memória ou comece a ficar gagá, ultimamente as suas missivas são quase sempre idênticas, e resumem-se com poucas variantes a um texto assim: "A minha vida vai indo calma, na forma do costume. Saio pouco, continuo a pintar aguarelas. Também tenho escrito umas coisas que deixo na gaveta, porque não me atrevo a publicá-las. Gostaria que um dia lhes desses uma vista de olhos, pois sinto falta do teu senso crítico. Manda dizer quando nos voltaremos a encontrar."
Mas quando nos encontramos ele parece esquecer o que escreveu e pintou, desinteressa-se do meu senso crítico, a sua conversa ronda em torno do sem-fim de achaques e incómodos que o afligem.
De modo que a nossa amizade ganhou um toque surrealista: parece viva na ausência, mas assim que nos vemos, só à custa de muito boca a boca consigo eu evitar que ela faleça.
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Publicado no CM